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As condições políticas do pensamento crítico: diálogo entre Adelia Miglievich-Ribeiro e o Grupo de Estudos em Antropologia Crítica
Adelia Miglievich-Ribeiro conversa com Juliana Mesomo, Alex Moraes e Tomás Guzmán, integrantes do Grupo de Estudos em Antropologia Crítica (GEAC). No decorrer do bate-papo, os quatro interlocutores colocam em movimento seus respectivos instrumentais teóricos engendrando, assim, um espaço comum de pensamento do qual emergem intuições e conceitos potencialmente relevantes para imaginar articulações entre prática intelectual, pesquisa social e política emancipatória. O diálogo inclui análises sobre as dinâmicas que regem a produção do conhecimento nas “antropologias institucionais disciplinares” e incursiona pelos Estudos Culturais em busca de conceitos para pensar e enunciar “fissuras” nos regimes hegemônicos de poder e representação. Por último, mas não menos importante, Adelia e o GEAC abordam as potencialidades e limites dos enfoques decoloniais e recuperam a Teoria Marxista da Dependência em meio a uma reflexão sobre as condições políticas de possibilidade do pensamento crítico nos dias de hoje
Editorial Literatura, resistência e utopia: um tema oportuno?
Apresentamos o número 35 da revista Contexto, publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), com área de concentração em Estudos Literários, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Na seção Dossiê, trouxemos o tema “Literatura, Resistência e Utopia”, acalentado bem antes do cenário brasileiro de início de 2019, mas já consoante, infelizmente, ao avanço da intolerância nos anos recentes no planeta na proporção em que as vozes silenciadas historicamente das e dos diversas/os sujeitas/os começavam a ganhar altura e reverberação. Não haveria de ser fácil, contudo, a expansão do “universal” a promover a inclusão das diferenças, o que supõe uma democratização mais profunda das relações sociais, estruturas e instituições. A utopia do início do século 21 renascia, assim, como “resistência”, calejada, fracionada, nos protestos e movimentos, cujos significados tornavam-se objeto de disputa feroz por legitimidade entre os “narradores” da vida cotidiana
Darcy Ribeiro e o enigma Brasil: um exercício de descolonização epistemológica
Darcy Ribeiro desafia a ausência de um modo singular de imaginação sociológica a caracterizar o pensamento brasileiro, não se deixando guiar por parâmetros exógenos ditados por uma pretensa modernidade que ignora a positividade das experiências aqui existentes. Tomando, de um lado, "O processo Civilizatório" (2001), e de outro, "O Povo Brasileiro" (1995), busco, neste ensaio, uma hermenêutica do legado de Darcy Ribeiro. Minha hipótese é a de que há questões presentes na obra darcyniana capazes de gestar, ainda hoje, uma "crítica descolonizadora nas ciências sociais latino-americanas", impactando a geopolítica do conhecimento que, historicamente, apartou as culturas que investigam, daquelas que são investigadas. Talvez, o pensamento social mameluco nos inspire a crer que a criatividade humana seja capaz de superar os reais danos impostos historicamente pela lógica da modernidade-colonialidade, somando às ciências sociais novas formas de cognição.Darcy Ribeiro challenges the absence of a particular way of sociological imagination to characterize the Brazilian thought, not allow themselves to be guided by a presumed modernity that ignores the positivity of the experiences available here. Taking on the one hand, "The Civilizin Process" (2001), and the other, "The Brazilian People" (1995), in this essay, I seek a hermeneutics of the Darcy Ribeiro's legacy. My hypothesis is that there are issues present in the Darcy's studies still capable of carrying a "critical decolonizing the social sciences in Latin America", impacting the geopolitics of knowledge that historically separated the cultures that investigate from those are investigated. Perhaps, the Mameluco social thought inspire us to believe that human creativity can overcome the historically real damage imposed by the logic of modernity-coloniality, adding to the social sciences new forms of cognition
Darcy Ribeiro e a crítica pós-ocidental de Walter Mignolo: notas sobre processos civilizatórios nas Américas
Walter Mignolo, em “Culturas Locais/Projetos Globais”, elege como interlocutor privilegiado Darcy Ribeiro. Dedico-me à releitura de “O Processo Civilizatório” e “As Américas e a Civilização”, ambos publicados em 1968, nos quais Ribeiro, marxista à sua maneira, ensaia uma tipologia das configurações históricas, na adesão à dialética materialista histórica e à proposta de “evolução multilinear”, de maneira a ampliar os cânones explicativos da modernidade, ao incluir os povos americanos na história da humanidade. Acentuo, por fim, o esforço de deslocamento de formas hegemônicas do conhecimento em ambos os autores, observando em Darcy Ribeiro elementos importantes da crítica descolonizadora das ciências sociais latino-americanas levada adiante por Mignolo em seu “pensamento liminar”
O pensamento crítico acerca da universidade na América Latina: de Darcy Ribeiro à “modernidade-colonialidade”
Resumo Articulando os temas do desenvolvimento, das desigualdades sociais, da autodeterminação dos povos e da constituição de um sistema científico e tecnológico, interessa descortinar o lugar da universidade pública na utopia latino-americana em efervescência nos anos 1960 e 1970. Partindo da experiência emblemática de criação, em 1962, da UnB em Brasília sob a liderança de Darcy Ribeiro, inspirado em seu mestre Anísio Teixeira, e de seus enfrentamentos que culminaram na dissolução de seu projeto original pelo Golpe de 1964, examino a relevância das propostas nela contidas na atualidade assim como proponho o diálogo com o pensamento emancipatório no continente sob a rubrica da “modernidade-colonialidade-decolonialidade” que aprofunda o papel da universidade pública na reescrita da história, no reconhecimento das vozes subalternas e na perseguição da utopia, uma pluritopia, a começar no tempo presente.Palavras-ChaveUniversidade, Darcy Ribeiro, América Latina; decolonial.---AbstractCoordinating the themes of development, social inequality, self-determination and the establishment of a scientific and technological system, it is relevant to unveil the place of the public university in the Latin American upheaveled utopia in the 1960s and 1970. Based on the flagship creative experience in 1962, the University of Brasilia in Brasilia under the leadership of Darcy Ribeiro, inspired by his master Teixeira, and its confrontations that culminated in the dissolution of its original design by 1964's coup, I look into the importance of the proposals contained in it today as well as I suggest a dialogue with the emancipatory thinking on the continent under the rubric of "modernity-coloniality-Decoloniality" that deepens the role of the public university in the rewriting of history, in the recognition of the undermined voices and in pursuit of utopia, one pluritopia, beginning today.KeywordsUniversity, Darcy Ribeiro, Latin America, decolonial---ResumenArticulando los temas del desarrollo, de las desigualdades sociales, de la autodeterminación de los pueblos y de la constitución de un sistema científico y tecnológico, interesa descortinar el lugar de la universidad pública en la utopía latinoamericana en efervescencia en los años 1960 y 1970. Partiendo de la experiencia emblemática de creación, en 1962, de la UnB en Brasília bajo el liderazgo de Darcy Ribeiro, inspirado en su maestre Anísio Teixeira, y de sus enfrentamientos que culminaron en la disolución de su proyecto original por el Golpe de 1964, examino la relevancia de las propuestas en ellas contenidas en la actualidad, así como propongo el diálogo con el pensamiento emancipador en el continente bajo la rubrica de la “modernidad-colonialidad-decolonialidad” que profunda el papel de la universidad pública en la reescrita de la historia, en el reconocimiento de las voces subalternas y en la persecución de la utopía, una pluritopía, a empezar en el tiempo presente. Palavras-Chaveuniversidad, Darcy Ribeiro, América Latina; decolonial
Narrativa e reconciliação em “O Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro.
I carry through an interpretation of Darcy Ribeiros’s master piece “The Brazilian People” that leads to an insight of the saga of a people who is born under the cruel process of dissolution of its identity root - tupi, afro, luso - to, in the confrontation with its “ninguendade” (“John Doe inner feeling”), reborn as a “new human order”: a “Tropical Rome”, without falling again, however, in fundamentalist mistakes. Taking this work as a “narrative”, I observe its potential of “redemption” of history, guaranteeing to it its condition of open work by revealing new itineraries and possibilities. Bringing on the French philosopher Paul Ricoeur’s idea of reconciliation, I defend that the management of the memory of the Brazilian people carried through by Darcy Ribeiro in its work, without hiding injustices of the past and factoring them into now, intended the production of a “theory of a alternative history” where the moral debt of the past is hopefully reviewed, pointing towards a new beginning and civilizing innovations.Presento aquí una interpretación de “El Pueblo Brasileño” de Darcy Ribeiro, donde permite la percepción de la saga de una gente que nasce en el proceso cruel de la disolución de su matriz de identidad - tupi, afro, luso -para, en la confrontación con su “ninguendade”, recrearse como un “nuevo espécimen humano”: la “Roma tropical”, sin caer otra vez, sin embargo, en los errores esenciales. Tomando este trabajo como “narrativa”, observo su potencial del “rescate” de la historia, garantizando a ella su condición de un trabajo abierto a admitir nuevos itinerarios y posibilidades. Trayendo la idea de la “reconciliación” del filósofo francés Paul Ricoeur, defiendo que la gerencia de la memoria de la gente brasileña desarollado por Darcy Ribeiro en su trabajo, sin ocultar las injusticias del pasado y las asumiendo en el presente, suministró a nosotros una “teoría de una historia alternativa” donde la deuda moral del pasado esperanzadamente se repasa, señalando hacia un reinicio y innovaciones civilizacionales.Realizo uma interpretação de “O Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro, que permite a percepção da saga de um povo que nasce no cruel processo de dissolução de suas matrizes identitárias – tupi, afro, luso – para, no confronto com sua “ninguendade”, se reinventar como um “novo gênero humano”: a “Roma Tropical”, sem recair, contudo, em equívocos essencialistas. Tomando esta obra como uma “narrativa”, observo seu potencial de “redenção” da história garantindo-lhe sua condição de obra aberta a admitir novos itinerários e possibilidades. Trazendo a ideia de “reconciliação” do filósofo francês Paul Ricoeur, defendo que a gestão da memória do povo brasileiro realizada por Darcy Ribeiro em sua obra, sem eclipsar injustiças do passado e o peso destas no presente, tencionou a construção de uma “teoria da história alternativa” em que a dívida moral do passado é ressignificada esperançosamente apontando para recomeços e inovações civilizacionais
Darcy Ribeiro e UnB: intelectuais, projeto e missão
Resumo A história da Universidade de Brasília (UnB), desde sua concepção original, lutas por sua implantação e o golpe sofrido em 1964, tendo seu campus invadido por tropas militares, é recordada para somar ao debate sobre os intelectuais públicos brasileiros que, nos anos 1950 e 1960, abraçavam um certo projeto de nação que via na educação e na ciência suas forças constitutivas. Faço uso da categoria Intelligentsia de Mannheim, que fortalecia o argumento do intelectual engajado no planejamento social com vistas às necessárias mudanças. Darcy Ribeiro é um deles. Mediante ainda as noções de “projeto” e “missão”, tento explicar aquela que também poderia ser chamada “geração da utopia”, sendo a UnB um dos projetos em curso que nascia dentro de um “campo de possibilidades” abruptamente modificado. Revisitar a missão contida na UnB, atualizando-o em razão de inéditos “campos de possibilidade”, talvez seja uma tarefa necessária ao debate educacional hoje.</jats:p
Darcy Ribeiro e os estudos pós-coloniais: aproximações e afastamentos
In an article called: "A crítica pós-colonial a partir de Darcy Ribeiro: uma releitura de o povo brasileiro", Adelia Miglievich establishes relations between Darcy Ribeiro's thinking and postcolonial theory. In this article, I will question these links to think about how close they are and where they become distant. For this, I will give an exposition of the main ideas of the author and of this thought´s current. The main conclusion of this work is that the anthropologist's thinking is closer to a kind of anti-colonial theory than to the post-colonialism. Em artigo chamado: “A crítica pós-colonial a partir de Darcy Ribeiro: uma releitura de o povo brasileiro”, Adelia Miglievich estabelece relações entre o pensamento de Darcy Ribeiro e da teoria pós-colonial. Neste artigo, porei em questão essas ligações para pensar até que ponto elas se aproximam e onde se afastam. Para isso, farei uma exposição das principais ideias do autor e dessa corrente de pensamento. A principal conclusão deste trabalho é que o pensamento do antropólogo está mais perto de um tipo de teoria anti-colonial do que do pós-colonialismo.
Orientações para uma descolonização do conhecimento: um diálogo entre Darcy Ribeiro e Enrique Dussel
Esta comunicação apresenta orientações epistêmicas do antropólogo brasileiroDarcy Ribeiro (1922-1997) e, também, do filósofo argentino Enrique Dussel(1934-) - cada um deles como uma voz de grande significado para um projetoviável de descolonização do conhecimento científico e filosófico ‘em’ e `a partirda’ América Latina. Tais estudiosos são aqui lembrados em algumas de suas teses e quadro analíticos originais, na interlocução com suas fontes, a fim de que se pudesse propor o pensamento de ambos, em provável diálogo, tanto no que diz respeito ao nível teórico quanto ao utópico relacionado a um projeto emancipador e autônomo latino-americano. Dessa forma, intenta-se demonstrar a complementaridade tanto quanto as intenções quanto aos problemas epistêmicos entre as perspectivas darcyniana e dusseliana, superando o modelo eurocentrado, por uma abordagem pluriversal na produção do conhecimento, defendida como necessária no debate teórico contemporâneo
Darcy Ribeiro e Utopia no Exílio LatinoAmericano: “Estruturas de Sentimentos” como Hipótese Metodológica
A trajetória intelectual de Darcy Ribeiro combina com a de sua geração marcada pela “mentalidade utópica” no sentido mannheimiano. Geração essa que, vítima de sucessivos golpes militares, toma o rumo do exílio. A experiência no exílio latino-americano, nos anos 1960-70, foi, contudo, paradoxal. Nas situações mais inóspitas, aqueles exilados conseguiram reinventar sua “morada”, nos termos de Theodor Adorno, e confirmar seu espí- rito crítico, numa remissão a Edward Said. Utilizo como hipótese metodológica o conceito de “estruturas de sentimentos”, de Raymond Williams, que permite a captura da “consciência prática de um tempo presente”, “o pensamento tal como sentido, o sentimento tal como pensado”, indefinido e difuso, porém, pleno de consequências. Tal perspectiva é útil à percepção da diversidade de iniciativas e atividades que, nas descontinuidades, autoriza falar em produção intelectual latino-americana.</jats:p
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