24 research outputs found
Às voltas com Lévi-Strauss, entrevista com Carlos Fausto
Entrevista com Carlos Fausto, professor de antropologia do Museu Nacional da UFR
O que Lévi-Strauss deve aos Ameríndios
[video:levi] O projeto que originou este filme documentário teve como objetivo a produção de um vídeo documentário sobre o antropólogo Claude Lévi-Strauss. A principal intenção foi desenvolver nas diversas entrevistas e na narrativa fílmica uma reflexão sobre um ponto de vista deste pensador. Segundo afirma, não seria ele quem teoriza ou elabora suas reflexões, mas seria o próprio pensamento ameríndio que nele trabalharia. Algo que se aproxima, sem dúvida, de sua máxima conhecida de que os mi..
Ritual and personhood among the Waimiri-Atroari
Esta dissertação faz uma reflexão sobre a noção de pessoa dos índios Waimiri-Atroari, povo caribe-guianense, com um foco no ritual de iniciação masculina. Para tanto, abordo o ritual como um momento de aquecimento das trocas simbólicas deste grupo, em que o neófito encorpora diversas perspectivas ou pessoas em diversas escalas. A análise relaciona, portanto, as performances dos cantos que evocam animais, plantas, humanos e não humanos com algumas qualidades e hábitos destes seres evocados. O tema da troca aparece ainda em uma consideração sobre o casamento e as narrativas míticas.This dissertation presents a reflection about the concept of personhood for the Waimiri-Atroari Indigenous, a Caribbean-Guianean people, focusing on the male initiation ritual. In this sense, the ritual is approached as warming stage of the symbolic exchange within the group, a moment in which the neophyte embodies several perspectives or persons in several scales. The analysis relates, thus, the chant performances - which evoke animals, plants, human and non-humans to determined qualities and behavior of the evoked beings. The exchange theme also arises in a consideration on the marriage and the mythic narratives
Do corpo ao cosmos - condensações rituais dos Ticuna
Muitos dos principais autores que se debruçaram sobre a análise de rituais de iniciação indicam a natureza paradoxal destes eventos. Neste artigo pretendo mostrar como alguns paradoxos são constitutivos da Festa da Moça Nova - o principal ritual executado pelos Ticuna, povo de língua isolada habitante da calha do Rio Solimões (AM) - que marca a iniciação à vida adulta da menina ticuna. Para tanto, abordarei as duas principais "condensações rituais" (Houseman) - ou seja, a ocorrência paradoxal de padrões relacionais opostos simultaneamente - que acontecem na Festa: (1ª) aquela que acontece entre homens e mulheres; e (2ª) entre mortais e imortais. Estas duas "condensações" terão como fio condutor noção ticuna de poluição (puya) ou os chamados "males do corpo".Many of the authors who have studied the analysis of initiation rituals indicate the paradoxical nature of these events. In this article I intend to show how some paradoxes are constitutive of New Girl's Party (Festa da Moça Nova) - the main ritual performed by Ticunas, people of isolated language inhabitant of Rio Solimões (AM) - which marks the initiation into adulthood of ticuna girl. To do so, I will address the two major "rituals condensations" (Houseman) - i.e., the occurrence of paradoxical opposites relational patterns simultaneously - that happen in this ritual: (1st) that happens between men and women; and (2nd) between mortal and immortal. These two "condensations" will have as central thread the ticuna notion of pollution (puya) or so called "evils of the body"
Uma passagem entre as duas Américas: mito e ritual ticuna
Seguindo a pista deixada por Lévi-Strauss de que a análise de um mito ticuna imporia uma “passagem de um continente ao outro”, contribuo para a hipótese de que a mitologia deste povo pode ser pensada como operando a transição entre as mitologias indígenas da América do Sul e do Norte. Ao invés do clássico mitema do “desaninhador de pássaros”, a mitologia ticuna teria como um de seus personagens um “desaninhador de frutas”. Deste modo, estas narrativas estariam relacionadas menos com a origem do fogo, como acontece nas histórias do “desaninhador de pássaros”, que com a origem dos adornos, da carne de caça e humana. Assim como as narrativas da América do Norte, a cultura está mais associada com a origem do vestuário do que da culinária. Uma “torção” análoga acontece nas trocas rituais entre os Ticuna. Enquanto o padrão de troca ritual sul-ameríndio é entre carne e bebidas, durante as Festas da Moça Nova ticuna, bebidas e/ou carnes são trocadas por adornos.Following the trail left by Lévi-Strauss when suggesting that the analysis of a Ticuna myth would impose a “passage from one continent to the other,” I contribute to the hypothesis that the mythology of this people can be thought as operating the transition between the indigenous mythologies of South and North America. Instead of the classic mitema of the “bird nester,” Ticuna mythology would have as one of its characters a “fruit nester.” Thus, these narratives would relate less to the origin of fire, as in the stories of the “bird nester,” than to the origin of adornments, game meat and human flesh. Like in the narratives from North America, culture is more closely associated with the origin of clothing than that of cooking. An analogous “twist” occurs in ritual exchanges between the Ticuna. While the pattern of South Amerindian ritual supposes the exchange of meat for drinks, during the ritual of female initiation among the Ticuna, drinks and/or meat are exchanged for adornments
Às voltas com Lévi-Strauss, entrevista com Carlos Fausto
Entrevista com Carlos Fausto, professor de antropologia do Museu Nacional da UFRJ</jats:p
Do corpo ao cosmos - condensações rituais dos Ticuna
Muitos dos principais autores que se debruçaram sobre a análise de rituais de iniciação indicam a natureza paradoxal destes eventos. Neste artigo pretendo mostrar como alguns paradoxos são constitutivos da Festa da Moça Nova - o principal ritual executado pelos Ticuna, povo de língua isolada habitante da calha do Rio Solimões (AM) - que marca a iniciação à vida adulta da menina ticuna. Para tanto, abordarei as duas principais "condensações rituais" (Houseman) - ou seja, a ocorrência paradoxal de padrões relacionais opostos simultaneamente - que acontecem na Festa: (1ª) aquela que acontece entre homens e mulheres; e (2ª) entre mortais e imortais. Estas duas "condensações" terão como fio condutor noção ticuna de poluição (puya) ou os chamados "males do corpo".Many of the authors who have studied the analysis of initiation rituals indicate the paradoxical nature of these events. In this article I intend to show how some paradoxes are constitutive of New Girl's Party (Festa da Moça Nova) - the main ritual performed by Ticunas, people of isolated language inhabitant of Rio Solimões (AM) - which marks the initiation into adulthood of ticuna girl. To do so, I will address the two major "rituals condensations" (Houseman) - i.e., the occurrence of paradoxical opposites relational patterns simultaneously - that happen in this ritual: (1st) that happens between men and women; and (2nd) between mortal and immortal. These two "condensations" will have as central thread the ticuna notion of pollution (puya) or so called "evils of the body"
O amadurecimento dos corpos e do cosmos - mito, ritual e pessoa ticuna
Este artigo visa mostrar algumas relações que os Ticuna estabelecem entre “corpo” e “território”. Para tanto, parto da noção de na’ane, que podemos traduzir aproximadamente como cosmo/mundo/terra/roça. Este termo evoca ainda noções de tempo, mas principalmente mantém uma relação com o corpo ticuna, em especial, o corpo em formação. Tudo leva a crer que a cosmogonia ticuna remonta as fases de amadurecimento sexual dos corpos nos mitos e isso é reproduzido nos corpos das pessoas. O foco deste artigo serão as relações do chamado mundo ainda “verde” (do’ü) com o corpo das moças que passam pelo ritual de iniciação feminina, a Festa da Moça Nova. Nestas relações entre o corpo e o cosmo, alguns temas vêm à tona, como o incesto, o sangue, os cabelos, as periodicidades astronômicas e dos corpos das moças.</jats:p
Fragmentos de uma rede imensa – o sistema de clãs e metades dos Ticuna
Tendo em foco o maior grupo indígena do Brasil (mais de 46.000 indivíduos), seria impraticável para um único etnógrafo delinear toda a genealogia lembrada pelos Ticuna (AM). Pretendo aqui fazer um exercício semelhante ao que faz um arqueólogo que, com um fragmento de tecido encontrado de uma população já extinta, nos explica como funcionava o processo de tecelagem desta população. A rede genealógica em questão, portanto, tem a peculiaridade de ser apenas um recorte, um fragmento de uma malha gigantesca para os padrões ameríndios. O método utilizado, portando, é induzir a partir de um fragmento desta rede genealógica algumas proposições que considero possivelmente gerais para o parentesco ticuna, que o número de repetições de um mesmo tipo de aliança de casamento é bastante recorrente.Apesar de operarem com um sistema de metades exogâmicas, há uma forte tendência de o sistema de parentesco operar nas comunidades Ticuna com um par ou trio de clãs dominantes numérica e politicamente, que trocam cônjuges majoritariamente entre si. Através do tratamento computacional (Access) de duas genealogias coletadas por mim em campo pude confirmar que a tendência de intercasamentos exclusivos entre pares de clãs é muito presente entre os Ticuna, ao menos para esta amostragem significativa. Isso indica que as unidades trocadoras de cônjuges no sistema de parentesco ticuna, apesar de operar com metades, são alguns pares ou trios de clãs, como mostrarei, identificáveis
