CEM – Cultura, Espaço & Memória (E-Journal)
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Canções d’um vagabundo : João Penha e a viagem por terra ao país dos sonhos
Este artigo procura abordar algumas das modulações ou metamorfizações da Viagem, no universo lírico de João Penha (*1839 -1919). Significativamente plasmado, ao nível paratextual, em diversas obras deste autor, o tema da viagem constitui tópico recorrente, alternando entre a perigrinatio literaris e os sentidos ascendente e descendente da peregrinatio amoris. Integrando-se na primeira zona em que Maria Alzira Seixo agrupou a poética da viagem, este périplo imaginário e interior identifica-se assim com o profundo motus animi continuus do poeta bracarense, que muito expressivamente logrou condensar a chave interpretativa da sua Obra naquele que foi também o título mais controverso: a Viagem por Terra ao País dos Sonhos
Peregrinos e viajantes no Norte de Portugal : as esmolas distribuídas pela ordem terceira franciscana de Braga aos irmãos «passageiros» (1720-1816)
Durante o período moderno muitas pessoas estiveram em Braga como viajantes ou peregrinos. Nesta cidade eles encontravam diversas instituições, algumas auxiliavam materialmente e espiritualmente os viajantes. Este é o caso da Ordem Terceira de São Francisco. A partir dos registros contábeis efetuados pela Ordem Terceira foi possível detectar a doação de esmolas a viajantes e peregrinos, o que permitiu analisar o volume e o ritmo das doações e algumas características daqueles que recorreram à associação franciscana em busca de auxílio. Também, as disposições normativas a respeito dessa atividade, a distribuição de esmolas, e a sua gestão pelos irmãos terceiros bracarenses foram avaliadas, revelando uma prática assistencial pouco conhecida na historiografia atual
Da imperfeição, ou o complexo de Babel
Servindo-se de um romance do início do milénio – A Imperfeição, de João Paulo Sousa –, o autor desenvolve uma reflexão crítica acerca do problema da comunicação ética e estética, perspectivado à luz de uma reinterpretação do mito de Babel como origem simbólica e bendita do universo literário e cultural. As personagens do romance em análise, tomadas como símbolos da sociedade contemporânea, debatem-se com a tragédia da «imperfeição das palavras», representando-se como seres estrangeiros devorados pelo mal-entendido da comunicação, mas é na viagem através do sonho de uma língua perfeita que acabam por naufragar, vítimas da sua crença incondicional na ideologia da identidade e da unicidade que marca os nossos tempos de globalização
O impacto da pneumónica em alguns concelhos do Alto Minho
A nossa análise incide na pneumónica, doença que teve um protagonismo efémero, tendo atingido Portugal nos anos de 1918 e 1919. Aquela que é reconhecida como a maior epidemia do século XX, apesar da sua fugacidade, foi o pretexto para realização de um trabalho de investigação que pretende ser um contributo para a avaliação do impacto da pneumónica nas populações do distrito de Viana do Castelo, fazendo, sempre que possível, a comparação com outras circunscrições administrativas já analisadas. Pretendemos, ao mesmo tempo, abordar as medidas adotadas pelas autoridades sanitárias e administrativas no âmbito da assistência às vítimas e da prevenção da doença
Para um teatro da militância cívica : sátira, desmistificação e crise ideológica das instituições político-religiosas nas peças a Pécora De Natália Correia E Quem Move As Árvores De Fiama H. P. Brandão
O propósito deste artigo consiste numa abordagem das peças A Pécora (1983) de Natália Correia e Quem move as árvores(1979) de Fiama Hasse Pais Brandão. Pretende-se analisar o contributo das autoras no panorama da produção dramática da segunda metade do século XX, em Portugal, nomeadamente a exploração do texto dramático como veículo de denúncia e crítica de regimes opressores. À luz de uma concepção de ‘teatro da militância’, na senda de Brecht, o estudo problematiza as relações entre o poder político-religioso e a crise ideológica das instituições referidas nas peças em análise
As políticas ferroviárias ibéricas (1845-1860)
Com um atraso de cerca de 15 anos em relação aos países desenvolvidos da Europa e da América do Norte, Portugal e Espanha encetaram as primeiras tentativas de para dotar os seus territórios de caminhos- -de-ferro. Os caminhos seguidos por ambos os países neste aspecto foram bastante díspares. Enquanto que Espanha procurava dotar-se de uma moldura legal abrangente que abarcasse todos os aspectos da construção ferroviária, Portugal preferiu apostar numa estratégia mais flexível e adaptável às conjunturas de momento. Recorrendo à bibliografia espanhola sobre este assunto e às compilações de debates parlamentares e legislação aprovada em Portugal, procuraremos comparar as políticas ferroviárias de cada país e como em Espanha essa política foi mais precocemente coroada de sucesso
Em tempo de crise : uma memória documental da sociedade dos artífices na Bahia oitocentista
Os documentos existentes na Sociedade Montepio dos Artífices da Bahia, fundada em 1832, representam valor patrimonial de relevância, enquanto materiais de memória para os estudos sobre o mutualismo e a história social e cultural do trabalho. As Atas de 1852 serão analisadas com os objetivos de revelar os processos de embates entre grupos rivais, representantes de forças políticas tradicionais e emergentes no seio societário, e a preocupação por parte dos artífices com o estilo de escrita adotado, o que se transformou em matéria de discussão. Por se tratar de um contexto de crise política interna, estas Atas demonstram uma elaboração intencional, aqui considerada herança documental transformada em monumento destinado à rememoração
Navegadores russos e império colonial português
Este artigo teve como objectivo dar início ao levantamento de obras escritas por oficiais da marinha russa onde se podem encontrar referências a territórios do Império Colonial Português. O estudo limita-se ao século XIX, pois foi então que navios russos realizaram numerosas e importantes viagens de circum-navegação, com vista a reforçar os laços económicos com as suas colónias na América do Norte, bem como com outros países. É de salientar que este trabalho está longe de ser exaustivo, tendo o autor citado apenas uma pequena parte das descrições de Portugal Continental, Brasil, Madeira, Cabo Verde, Açores e Macau, feitas por viajantes russos. Além disso, o espaço físico do artigo obrigou a fazer uma selecção, deixando algumas obras de fora
Cartas que encausan, cartas que narran. Biografía epistolar y judicial de don Pedro de Escobedo
No projeto P.S. (Post Scriptum) desenvolve -se pesquisa sistemática, edição e estudo histórico- -linguístico de cartas privadas escritas durante a Idade Moderna em Portugal e em Espanha. Estes documentos são escritos epistolares quase todos eles inéditos, feitos por autores de diferentes proveniências sociais. Em grande parte, a sua epistolografia sobreviveu por razões excecionais, quando os seus percursos se cruzaram com os meios de perseguição da Inquisição e dos tribunais civis, eclesiásticos e militares, instituições que costumavam fazer uso da correspondência privada como prova de delitos Com este artigo pretendemos analisar um dos numerosos casos compilados pelo P. S. para compreender melhor como um membro da baixa nobreza enfrentava a sua vida romântica e suas consequências penais. Seu caso nos permite mergulhar no fundo mental e social deste hidalgo e como esses valores afetam o modo como viveu o amor, a vida profissional e a ação judicial
Esclarecimento crítico, reconciliação e tolerância nas cartas literárias de Júlio Dinis
No século XIX a publicação de cartas nos jornais diários foi um investimento que estimulou autores e público leitor em geral. De várias tipologias temáticas, este veio literário consentiu num criativo exercício de escrita ao qual o escritor-médico portuense Júlio Dinis não foi indiferente. Posteriormente coligidas em Inéditos e Esparsos, as suas cartas literárias organizaram um perspicaz e irónico desafio à reflexão a partir de considerações filosóficas, caracterização de género, auscultação dos modos, descrições geográficas ou da apologia das gentes e rotinas da cidade ou do campo, infletindo para linhas de orientação ditadas pela emergente Ciência. Em causa estavam os comportamentos, as condutas psicológicas, o rigor e frieza da estrutura social. Conforme se lerá, nestas cartas assinadas por Diana de Aveleda o desafio foi grande e muitos foram os desafiados