CEM – Cultura, Espaço & Memória (E-Journal)
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Luuanda há 50 anos: críticas, prémios, protestos e silenciamento Francisco Topa (intr., rec. e ed.) [S. L.]: Sombra Pela Cintura, 2014
Instituições e Caminhos-de-ferro Ministério das Obras Públicas, Parlamento e Associação dos Engenheiros Civis Portugueses : (1852-1899)
Na segunda metade do século XIX, Portugal apostou numa política de investimento em obras públicas, sobretudo caminhos-de-ferro. Para gerir essa política foi criado o ministério das Obras Públicas, onde se esperava centrar toda a gestão dos negócios ferroviários. Dentro do ministério instituiu-se um corpo consultivo, o qual deveria ser ouvido no que respeitasse a obras públicas. A sua opinião era especialmente importante nos casos de concessões férreas por decreto. Nos casos em que o parlamento era ouvido, as comissões de Obras Públicas assumiam uma grande importância, pois cabia-lhes elaborar o texto que era posto à discussão. A partir de 1870, surge a Associação de Engenheiros Civis Portugueses, uma organização que se formou em resposta aos cortes orçamentais do reformismo e que pretendia ser um veículo de discussão e divulgação de questões relativas à engenharia. O objectivo deste artigo é identificar os relacionamentos entre estas três instituições entre si e com o governo e demonstrar qual a relevância destes corpos para a política ferroviária nacional. Para tal, recorrer-se-á aos diários parlamentares, aos copiadores dos corpos consultivos do ministério, à Revista de Obras Públicas e Minas e às compilações de legislação que indicam o que realmente foi feito. Através da análise de conteúdo, espera-se enquadrar estas fontes no seu contexto histórico
Entrevista Maria Manuela Aguiar : depois de uma vida dedicada à emigração... as diferenças entre o fenómeno atual e o de outrora
Siddartha Mukherjee, o imperador de todos os males. Uma biografia do cancro. Tradução de Miguel Coutinho e Raquel Dutra Lopes Lisboa: Bertrand Editora, 2012, 724 páginas.
Sistemas de parentesco no período moderno : definições religiosas e liberdades individuais em Portugal
Ao longo da época moderna, um dos elementos constitutivos do campo no qual se podiam definir as relações interpessoais mais próximas, era o dos sistemas de parentesco. O facto de se utilizarem duas interpretações do sistema de parentesco, sendo uma delas a vinculativa do ponto de vista da Igreja, levou ao estabelecimento de uma série de comportamentos e a uma atividade de identificação e memorização de dados de índole pessoal e familiar. O sistema e a sua implementação estiveram na base da produção de proibições e limitações de escolhas na vida de muitas pessoas no que respeita a momentos como o casamento, o apadrinhamento, etc. A partir do estudo sistemático dos casos em que se invocaram excecionalidades será possível tentar avaliar a importância real da eficiência do sistema
«Área de acesso reservado» : tradição e mudança na organização da necrópole tebana
No antigo Egipto, o sagrado está estreitamente associado à noção de interdito. O território da necrópole era um espaço sagrado por excelência e, como tal, estava demarcado por um conjunto de interdições que codificavam a sua utilização. A XXI dinastia registou importantes modificações no padrão de utilização do espaço da necrópole. O saque da necrópole real, o Vale dos Reis, é habitualmente tomado como o exemplo flagrante da grande instabilidade social e política do tempo. Com este artigo pretendemos demonstrar que a espoliação dos túmulos que se verificou em toda a necrópole tebana correspondeu a uma reorganização do espaço da necrópole e ao levantamento dos interditos subjacentes a uma concepção do território sagrado que se afigurava obsoleta. Esta obra de reorganização, empreendida pelos sacerdotes de Amon, ilustra a emergência de uma nova noção do espaço sagrado onde se insinua uma inusitada «liberdade» de circulação de bens funerários e, pela primeira vez, se assiste a uma participação muito expressiva das mulheres na economia da necrópole. Queremos ainda demonstrar que esta aparente «libertação» do território sagrado estava condicionada por uma nova concepção do poder religioso que presidia à organização da necrópole
Construção de materiais da memória na região demarcada do Douro : narrativas orais de antigos trabalhadores da quinta dos canais
Este artigo apresenta alguns materiais e reflexões obtidas num processo de investigação sócio- -histórica sobre uma quinta do Douro, a Quinta dos Canais, com recurso a fontes directas compiladas no âmbito de um estudo de caso alargado sobre Carrazeda de Ansiães, produtor de Vinho do Porto, concelho de fronteira na Região Demarcada do Douro. Com base em testemunhos e narrativas, reflecte-se sobre os conceitos de identidade conjuntural/contextual, história oral e memória histórica, fontes e representações sociais, para a interpretação de sentidos e significados múltiplos das condições materiais de vida e de trabalho na quinta e a mudança social, num presente-passado. Os actores sociais tornam-se sujeitos de memória social e histórica, história vivida e territórios identitários que se inscrevem na quinta por modos específicos do fazer história
A singular viagem do fotógrafo Jean Laurent a Portugal, em 1869
Jean Laurent, fotógrafo francês estabelecido em Madrid, reproduziu obras de arte das principais colecções de Espanha, e efectuou um vasto levantamento de vistas de localidades e obras de arquitectura deste país. No final do Inverno e Primavera de 1869 esteve em Portugal, onde fotografou a família real e ampliou este levantamento a toda a Península Ibérica. Viajou pelo país de comboio e fez transportar num vagão o seu pequeno carro-laboratório, que descia em cada localidade do seu roteiro, para sensibilizar e revelar as imagens obtidas pelo processo do colódio húmido. Provavelmente foi o primeiro fotógrafo a explorar as potencialidades do caminho-de-ferro recentemente implantado na Península. O seu vasto espólio de imagens pode ser considerado como o mais significativo de entre os produzidos por fotógrafos que abordaram globalmente o território peninsular durante o século XIX
A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto revisitada : a sua teoria moderna da viagem
Nesta revisita à Peregrinação, que no nosso tempo, como no século em que foi publicada, continua a conhecer um sucesso invulgar, avançam-se razões desse sucesso, e apontam-se áreas privilegiadas da sua crítica – às vezes sem relevância estético-literária, como a das «mentiras» histórico-biográficas – e áreas deficitárias, com especial relevo para a teoria da viagem; precisado o sentido laico e religioso de «peregrinação», que implica o plano autobiográfico e diegético e a estrutura narrativa, um tipo de aventureiro e um retirado memorialista, a obra única de Mendes Pinto até pela obsessão da ideia de viagem e pela tonalidade anti-épica parece próxima da melhor e moderna literatura do género