Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura - CLAEC
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A(s) voz(es) de Ellen Oléria: multiplicidade, interseccionalidade e resistência em uma carreira musical.
Neste trabalho, discutimos como se dão as dinâmicas identitárias na construção da carreira, no discurso musical e declarações públicas da cantora, compositora, instrumentista, apresentadora e atriz Ellen Oléria. A artista tem sido reconhecida por sua postura afirmativa como mulher, negra, lésbica, gorda, latina e vegana e por seu discurso antidiscriminatório. Procuramos analisar alguns posicionamentos políticos no discurso de Ellen Oléria em seus pronunciamentos públicos, bem como a forma como suas canções abordam questões de gênero, raça, sexualidade e classe. No texto, inicialmente, apresentamos uma discussão teórica acerca das identidades e abordamos as afirmações sobre múltiplas identidades culturais de Oléria. Em seguida, enfocamos os posicionamentos sobre raça e racismo da cantora, utilizando teorias sobre interseccionalidades para a compreensão de como diversos marcadores sociais, como raça, gênero, classe e sexualidade, se inter-relacionam na vivência e produção de Ellen. Após isso, abordamos a obra de Ellen Oléria como uma forma de afirmação, ou seja, como música identitária e como esta pode atuar como uma “voz” que “representa” grupos subalternizados e, ao mesmo tempo, constrói uma autorrepresentação da cantora. Por fim, discutimos como as intersecções dos múltiplos processos discriminatórios experimentados por Oléria representam também possibilidades de resistência e de transformação da ordem social por meio de sua música
Memória Cultural: uma experiência em comunidades de Minas Gerais/Brasil
Esta atividade é parte do estudo sobre a memória e cultura dos objetos residenciais no Brasil, que analisa os hábitos e os costumes estabelecidos na relação com objetos de desejo. Investiga-se a história destes objetos nas casas brasileiras e seu contexto social. Relata-se sobre um projeto social que envolve questões relacionadas à memória de objetos de vivências. Este projeto, de ação extensionista, teve o objetivo de oportunizar o fortalecimento das relações de pertencimento junto às comunidades da região da capital mineira, por meio de oficinas de memória. As oficinas (workshops) são instrumentos metodológicos que possibilitam maior espontaneidade e expressividade com o objetivo de refletir e reviver a memória cultural, pelo design social. A metodologia consiste na realização de oficinas e debates com a comunidade por meio do lúdico em espaços inusitados. As oficinas foram executadas em dois grupos: no Palácio da Cultura em Matozinhos/MG e Gráfica O Lutador, em Belo Horizonte/MG tendo como público alvo alunos da comunidade que participavam de cursos de artesanato ofertados por estas instituições. Nas análises das oficinas, percebe-se que muitos objetos foram usados em épocas passadas e até hoje existem com funções muito semelhantes às iniciais. Todos são objetos que marcaram gerações, porém existem até hoje e pouca coisa foi modificada desde seu surgimento. Um objeto para ser memorável ou afetivo não precisa estar associado a valores monetários e sim aos acontecimentos e as sensações que existiu quando o utilizava. As emoções afloram e os vínculos se restabelecem. As memórias trazem o imaginário, o senso coletivo de um tempo vivido no âmbito individual, familiar e também em sociedade. Fortalecem os vínculos com o território e com a cultura local, inter e intragerações
Projeto Rádio Noroeste e Coletivo Magnífica Mundi - Formação Popular e Comunicação Comunitária
O presente artigo tem, como objetivo, apresentar o Projeto Rádio Noroeste como inserido no contexto da Comunicação Comunitária e da Economia Criativa. Recém-instituída, a rádio apresenta-se como alternativa de comunicação em uma comunidade com proporções relevantes, mas que, apesar de sua grandiosidade, permanece à margem da grande mídia. Por si só, a Rádio Noroeste tem o intuito de promover a cultura e economia locais, bem como dar voz à população da região onde está inserida. Associada ao Coletivo Magnífica Mundi e cadastrada como Projeto de Extensão da Universidade Federal de Goiás (UFG), configurará como laboratório orientado para as práticas da Comunicação por estudantes do curso de Jornalismo. Para o desenvolvimento deste artigo, foram utilizadas as metodologias de levantamento bibliográfico e estudo de caso. Como resultado, temos a análise da Rádio Noroeste como ferramenta maciça de Comunicação Compartilhada, inclusão social e prática jornalística
Fronteira-Sul: o arquivo da exterioridade Frontera-Sur: el archivo de la exterioridad
RESUMO: Tendo por base o lócus fronteiriço que compreende o que aqui estou denominando de fronteira-Sul, região esta que compreende o estado de Mato Grosso do Sul (Brasil)e os países lindeiros Paraguai e Bolívia, lugar este, aliás, onde vivo, trabalho e penso, pretendo tomar tal lócus geoistórico e cultural como um “arquivo da exterioridade “ que deve ser aberto e discutido epistemologicamente. Para a execução de tal proposição crítica fronteiriça, faz-se necessário valer-se de conceitos advindos da Crítica biográfica fronteiriça, da Crítica pós-colonial e da Crítica biográfica. Para a reflexão aqui proposta, deter-me-ei tão somente nos conceitos de “arquivo”, “razão subalterna”, “gnose liminar” e no de “exterioridade”. Nesse sentido, livros como Perto do coração selbaje da crítica fronteiriça (2013), de Edgar Cézar Nolasco, Histórias locais\projetos globais (2003), de Walter Mignolo, Mal de arquivo (2001), de Jacques Derrida, e Crítica cult (2002), de Eneida Maria de Souza, serão de extrema importância para a discussão proposta. RESUMEN: Teniendo como base el locus fronterizo que comprende lo que aquí estoy denominando de frontera-Sur, región esta que abarcael estado de Mato Grosso do Sul (Brasil) ylos países linderos Paraguay y Bolivia, lugar este, además, donde vivo, trabajo y pienso, pretendo considerar tal locus geohistorico y cultural como un “archivo de la exterioridad” que debe ser abierto y discutido epistemológicamente. Para la ejecución de tal proposición crítica fronteriza, se hace necesario valer se de conceptos advenidos de la Crítica biográfica fronteriza, de la Crítica pos colonial y de la Crítica biográfica. Para la reflexión aquí propuesta, me detendré tan solo en los conceptos de “arquivo”, “razão subalterna”, “gnose liminar” y en lo de “exterioridade”.En este sentido, libros como Perto do coração selbaje da crítica fronteiriça (2013), de Edgar Cézar Nolasco, Histórias locais\projetos globais (2003), de Walter Mignolo, Mal de arquivo (2001), de Jacques Derrida, y Crítica cult (2002), de Eneida Maria de Souza, serán de extrema importancia para la discusión propuesta
Aprendizagens e desaprendizagens sobre direitos reprodutivos de mulheres rurais maranhenses
O trabalho aborda questões de saúde reprodutiva de mulheres de comunidades rurais do interior maranhense. Para muitas a única política pública de saúde disponível é o Programa Saúde da Família que disponibiliza uma agente de saúde para atender, em média, a 130 famílias. Quando elas precisam fazer um pré-natal têm que se descolar, por volta de 14 a 20 km, até a unidade básica de atenção primária, na sede do município; caso elas precisem de um parto na rede hospitalar somente encontrarão maternidade nos municípios vizinhos que dispõem de melhor estrutura, alguns distantes mais de 30 km. Ao relatar estes casos, este artigo dar ênfase a outras vivências e práticas de saúde reprodutiva ainda não contempladas por direitos e políticas públicas universais. Questiona a universalidade dos direitos reprodutivos, conquistados pelo movimento feminista nas conferências mundiais do Cairo, no Egito em 1994 e de Beijing, em Pequim em 1995. São direitos muito mais teóricos e utópicos visto que são exercidos como universais sem levar em conta as diferenças e contradições socioculturais. Falar de saúde reprodutiva de mulheres sem marcar suas pluralidades e as fronteiras das desigualdades, faz com que somente uma parte delas seja atendida. Contrariamente, este estudo reflete criticamente sobre o lugar do outro, uma vez que destaca as especificidades de um grupo de mulheres para romper com sua invisibilidade e ressaltar suas demandas por políticas públicas. Para tanto, se apoia nos estudos que buscam desessencializar as diferenças, descolonizar os saberes e subverter os discursos totalizantes
Possibilidades Outras para (re)Pensarmos a Representação do Imaginário Sobre o Sujeito Negro no Ensino Brasileiro
Este trabalho trata-se de um resumo expandido da pesquisa que está sendo desenvolvida como dissertação para o Programa de Pós-graduação Mestrado Profissional em Educação/PROFEDUC/UEMS-UUCG, pesquisa na qual estamos tomando a partir dos Estudos Pós-Coloniais, Estudos Subalternos, Estudos Culturais e Estudos de Cultura para questionarmos a Lei 10.639/2003 que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio em nosso país, para (re)pensarmos a representação do imaginário sobre o sujeito negro no ensino brasileiro. Tomaremos de nosso lócus enunciativo para fazermos emergir possibilidades outras para (re)pensarmos esse imaginário, pois, vivemos em uma sociedade que sofreu processo de colonização e, de acordo com o pensamento Moderno/Colonial que se emergiu nesse contexto histórico, fomos relegados à marginalização e à subalternidade, cabendo para nós a (im)posição de “resto” do mundo nas fronteiras que dividem os centros de poder (Europa e Estados Unidos) do “fim do mundo” (América Latina). A nossa proposta não é trazer novas metodologias ou “ensinar” professores a lecionarem suas aulas, pois cansamos destas perspectivas que querem, através de metodologias, apontarem como “fazer” educação em nosso país. Queremos fazer emergir a tomada de consciência, para (re)pensarmos o nosso local nesse projeto global instaurado hoje em nossa sociedade, que nada mais é que uma neocolonização, que tem como modelo sociedades europeias e norte americanas, para que possamos (re)pensar possibilidades outras de posição no mundo. E, a partir destas perspectivas, faremos discussões bibliográficas embasadas em Bessa-Oliveira, Bhabha, Canclini, Freire, Hall, Hissa, Mignolo, Spivak e tantos outros, que se debruçam nas perspectivas teóricas apontadas e que emergem dos locais que sofreram tal processo histórico e que se “encaixam” dentro destas perspectivas como o “resto” do mundo.
(Re)construção identitária dos povos faxinalenses após a Guerra do Contestado
A origem dos povos faxinalenses do Paraná se deu por meio de uma união, construída nas grandes fazendas dos Campos Gerais paranaense, entre uma parcela de indígenas, negros e imigrantes, a qual se concretizou nas matas mistas de Araucárias e se consolidou com a contribuição de uma fração das demais populações. Estes grupos conseguiram escapar do genocídio da Guerra do Contestado, sedo que na contemporaneidade, a formação social do faxinal tem diversas definições, vindas do ponto de vista de pesquisadores, e dos próprios faxinalenses, que englobam seu tripé de sustentação: terras de uso comum, no criadouro comum ou comunitário e terras agrícolas ou terras de planta. As práticas sociais comuns e religiosas são o que consolidam o modo de vida dos faxinalenses, e ao mesmo tempo reforçam a sua ligação com o período em que a religiosidade foi motivo de conflito no Contestado. Ainda que algumas comunidades se enquadrem no modo de vida do sistema faxinal, por vezes não se reconhecem pertencentes ao mesmo. Além disso sua luta e a resistência para se manterem enquanto povos tradicionais, e a certeza da manutenção da formação social do território, ou da sua expansão por meio da reconquista de espaços da fração do território comunitário, que foi expropriado pelo desenvolvimento do capitalismo, assim como a (re)construção de identidades territoriais faxinalenses, no processo de decolonialidade
É o mundo negro que viemos mostrar para vocês: a música dos blocos afro de Salvador como instrumento de conscientização, afirmação, resistência e aprendizado
Nos idos dos anos de 1970, grande parte dos clubes carnavalescos da cidade de Salvador, capital da Bahia, não permitia o ingresso de negros em seus bailes. Alguns de maneira direta, outros de maneira velada, utilizando como instrumento de segregação o alto valor das entradas. Limitado também era o acesso dos negros aos chamados Blocos de Trio. Em resposta a esta crescente restrição, e influenciados pelas concepções do Pan Africanismo e do Movimento Afro-Americano, incluindo aí desde os Black Panthers até Malcolm X, Martin Luther King Jr. e Angela Davis, bem como pelo movimento Black Soul norte-americano, um grupo de jovens negros residentes no bairro da Liberdade organizou-se para poder viver o carnaval. Nascidos nas periferias da cidade, em plena ditadura militar, os blocos afro surgiram com o objetivo de transformar o lazer em militância, ao converterem o reino lúdico do carnaval em espaço de denúncia, luta e resistência negra, revivendo batalhas ancestrais sem deixar de mirar o futuro. Atentos à potencialidade das celebrações e festejos como elementos de atuação política, os blocos engendraram mecanismos próprios de movimentação, capazes de utilizar a cultura negra como instrumento de mobilização, afirmação, politização e conscientização. Nesse contexto, foi primordialmente através de sua música que tais agremiações transformaram as estruturas sociais da capital baiana, dando voz a coletivos historicamente excluídos. Foi justamente ao entenderam a música como elemento central de projetos políticos que se imaginam transformadores, que as agremiações carnavalescas passaram a conceber as canções como instrumentos pedagógicos, passíveis de transmitir às gerações vindouras, conteúdos e versões de uma História que a historiografia tradicional omite. Sendo assim, o objetivo deste texto é refletir sobre o modo como os blocos afro fazem uso de sua produção musical como instrumento de conscientização, afirmação, contestação, resistência e aprendizado
RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS CAMPONESAS NO CERRADO GOIANO
É do Cerrado goiano e de recente investigação científica sobre o lugar Pedra Lisa, localizado no município de Quirinópolis, que trata a obra Patrimônio Imaterial: relações socioculturais camponesas em Pedra Lisa. Nessa vertente, o presente artigo tem como objetivo apresentar uma análise sobre o livro que traz uma discussão sobre a campesinidade, a cultura de uma comunidade rural do interior goiano, o modo de vida camponês e suas estratégias de permanência no espaço rural. Esse trabalho permite ao leitor mergulhar e viajar num mundo de preservação e ressignificação das práticas sociais e culturais camponesas. Com isso é possível, a partir dos territórios estudados, compreender as conquistas, perdas e demandas que acompanham a história dos povos do Cerrado e do vale do rio Paranaíba. Consideramos um trabalho interessante, mostrando a relevância da reflexão acerca das motivações que levam os sujeitos a continuar reproduzindo a sua cultura e de como isso é feito. Nesse contexto, a comunidade de Pedra Lisa se transforma a partir de um movimento cotidiano, e a existência do patrimônio está nas paisagens desconstruídas, reconstruídas, heterogêneas, além dos conteúdos e imaginários que formam as paisagens culturais do local. Crenças, significados, valores e manifestações com suas gêneses no meio rural, estão presentes na obra analisada neste artigo. Diante dos fatores ora expostos, estamos em frente de um trabalho que nos leva a participar e viajar num modo de vida camponês contemporâneo, tornando-se objeto de grande contributo à ciência e ao conhecimento da geografia cultural, bem como para as áreas afins. O trabalho apresenta que historicamente as classes sociais que viveram nas áreas de Cerrado foram constituindo formas de uso e exploração da terra a partir das diferenciações naturais-sociais experienciando formas materiais e imateriais de trabalho, resultando em múltiplas expressões culturais
Leituras e escritas de si e do outro: a sala de aula como ambiente multicultural
Resumo O presente trabalho busca discutir as decorrentes consequências da invasão de atitudes e opiniões leigas e do olhar “voyerísta” e massificado em relação às diferentes culturas que se relacionam, particularmente, nas salas de aula e em outros espaços escolares. Procuramos ver como o trabalho com a literatura e outras artes poderia servir para ajudar o homem a falar do homem - de si e do outro. Explicitamos algumas possibilidades de prática docente que estimulam a construção de narrativas a partir da leitura contextualizada de textos pré-selecionados que dessem conta de dados culturais, a fim de promover a alteridade no ambiente escolar. O ponto central de nossa preocupação está voltado para as possibilidades de articular o material selecionado para o trabalho feito em sala de aula com a perspectiva do pensamento antropológico junto à prática docente, pretendendo ajudar a delimitar materiais que contribuam para a alteridade e, por decorrência, o conhecimento dos elementos culturais e sociais de diferentes grupos humanos, e aplicá-lo ao trabalho do educador não só com os alunos, mas com si próprio, ajudando-o a desnaturalizar olhares e desvelar a polifonia existente nos espaços escolares. Resumen El presente trabajo busca discutir las consecuencias derivadas de la invasión de actitudes y opiniones laicas y de la mirada "voyerísta" y masificado en relación a las diferentes culturas que se relacionan, particularmente, en las aulas y en otros espacios escolares. Buscamos ver cómo el trabajo con la literatura y otras artes podría servir para ayudar al hombre a hablar del hombre - de sí y del otro. Explicamos algunas posibilidades de práctica docente que estimulan la construcción de narrativas a partir de la lectura contextualizada de textos preseleccionados que dieran cuenta de datos culturales, a fin de promover la alteridad en el ambiente escolar. El punto central de nuestra preocupación está orientado a las posibilidades de articular el material seleccionado para el trabajo realizado en el aula con la perspectiva del pensamiento antropológico junto a la práctica docente, pretendiendo ayudar a delimitar materiales que contribuyan a la alteridad y, por consiguiente, el conocimiento de los elementos culturales y sociales de diferentes grupos humanos, y aplicarlo al trabajo del educador no sólo con los alumnos, sino con sí mismo, ayudándolo a desnaturalizar las miradas y desvelar la polifonía existente en los espacios escolares. 1. Introdução O ponto central de nossa preocupação está voltado para as possibilidades de articular a construção de imagens fotográficas com a perspectiva do pensamento antropológico junto à prática docente. Pretendemos ajudar a delimitar um campo específico que denomina-se fotoetnografia, uma forma específica de fotografia informada pelo saber antropológico e, por decorrência, empenhada no inventário dos elementos culturais e sociais de grupos humanos, e aplicá-lo ao trabalho do educador não só com os alunos, mas com si próprio, ajudando-o a desnaturalizar olhares e desvelar a polifonia existente nos espaços escolares. Tratamos das questões implicadas no ato de olhar: como este é social e tecnicamente determinado, assim como diversas formas do olhar e as modificações ocorridas quando do surgimento da fotografia. Buscamos também registrar a urgência de uma fase de reeducação do olhar que ocorre devido ao desenvolvimento de um "novo mundo" virtual em que estamos todos implicados. Já que é em função do tipo de olhar de uma dada época e de um determinado contexto que são determinados os tipos de imagens e a forma como as pessoas se relacionam com elas. Através de uma abordagem descritiva, onde a principal forma de narrar é o uso de uma determinada imagem escolhida, buscamos investigar os elementos através dos quais uma população de estudantes da educação básica e moradores de zonas urbanas do município do Rio de Janeiro constroem narrações de uma identidade baseadas na sua própria. Que definição e que tipo de apropriação esta população faz da foto apresentada a eles, sem que seja dito o significado da imagem. Em outras palavras, como esta população dentro de uma cultura urbanizada concebe a imagem que lhe é apresentada, sem saberem que se trata da foto de um espantalho. 2. Metodologia e Fundamentação Teórica A partir do uso da fotografia, buscamos pensar e desenvolver uma modalidade da antropologia visual como uma linguagem e um olhar, capaz de, no processo de conhecer, nos apresentar dados e informações, nos levar a uma reflexão a cerca do nosso próprio olhar, mostrando os aspectos inacessíveis ao olhar “leigo”, porém naturalizado a esta limitação e construído pelos padrões culturais nos quais estamos inseridos. O ponto de partida para a reflexão que se pretende aqui empreender é dado pelo pensamento de Roland Barthes. Através do que ele chama de "Paradoxo Fotográfico" trataremos a fotografia dentro deste duplo modo de ver. A maneira objetiva da denotação e a função subjetiva dada ao leitor, ou melhor dizendo, a "mensagem contínua" (ou análogo do real) e a "mensagem suplementar" (ou seu estilo). Essas questões serão relacionadas às questões teóricas vinculadas à fotografia, linguagem e cultura, que também serão pesquisadas nos textos de Paul Valéry, Raúl Beceyro, Philippe Dubois, Vilém Flusser, Bakhtin e Edmund Leach em textos assinalados na bibliografia. A proposta do trabalho não será o aprofundamento em cada um dos "co-leitores", mas utilizar de algumas de suas colocações como roteiro de leitura de imagens. Devemos admitir que podemos correr o risco da simplificação teórica, mas acreditamos ser válida a tentativa de tal exercício. Assim, o convite inicial deste trabalho será para que o leitor pense sobre algumas conceituações implicadas no estudo da imagem fixa, como a fotografia; conscientize-se da naturalização do olhar e reflita sobre esta naturalização e suas conseqüências em sala de aula. E ainda uma questão que entendemos como norteadora deste trabalho: como estas conceituações dialogam com a Educação, e como esta pode interferir na desnaturalização do olhar