Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura - CLAEC
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Relato da tutoria no curso de Especialização em Estado e Direito dos Povos e Comunidades Tradicionais
Apresento resumo expandido sobre a minha experiência como tutora do curso de Especialização em Estado e Direito dos Povos e Comunidades Tradicionais desenvolvido no modelo EAD, vinculado a Faculdade de Direito da UFBA, com carga horária de 578 horas, 15 disciplinas e execução em 18 meses, ofertada gratuitamente. A proposta é pioneira no Brasil, e tem a coordenada pelo Professor Julio Cesar de Sá da Rocha. A Especialização é desenvolvida em três polos: Região Metropolitana de Salvador (São Francisco do Conde), Sul da Bahia (Itabuna) e Nordeste (Paulo Afonso) e tem como objetivos: ampliar e fortalecer as atividades de estudos, pesquisas e formação especializada das lideranças dos povos e comunidades tradicionais; qualificar em nível de pós-graduação buscando formação humana na Administração Pública, dos servidores/agentes públicos e membros de povos e comunidades tradicionais na relação com as políticas para povos e comunidades tradicionais, possibilitando a consolidação de uma cultura política fundamentada na diversidade étnica e multicultural; articular-se, nacional e internacionalmente, com núcleos de estudos e pesquisas especializados, notadamente com as instituições de ensino superior para intercâmbio e produção conjunta de conhecimento específico de defesa de grupos vulneráveis; e, formar rede de defesa do direito dos povos e comunidades tradicionais. O perfil dos alunos atendidos é amplo, abrangendo tanto pessoas que trabalham com a temática, como sujeitos que compõem povos e comunidades tradicionais. A partir dos fóruns e discussões é possível perceber como tais sujeitos de direitos, sujeitos históricos, ainda não têm efetivado os seus direitos constitucionalmente e internacionalmente garantidos. E é a partir desse olhar de luta, avanços e retrocessos que as discussões são construídas no curso e serão apresentadas no evento
Reflexões para uma estética fronteiriça
Este ensaio é um convite para refletirmos sobre a estética no seu sentido etimológico, proveniente do grego aisthetiké, e não como uma especialidade filosófica voltada para a hierarquização do sentido do belo e, consequentemente, da arte. Estética como processo de apreensão da realidade pelos sentidos, como percepção do real que se dá através da subjetividade e das possíveis interações entre o corpo e a paisagem. Uma estética fronteiriça, portanto, é aquela que surge e se elabora a partir da localização em um espaço geográfico marcado por esta condição liminar entre Estados Nacionais. Para tanto, pensar desde um território que guarda memórias próprias e específicas, elaborando, assim, o giro, a mudança de perspectiva que permita iluminar subjetividades e percepções que estão invisibilizadas pela diferença colonial. A linha fronteiriça – linha imaginária que, no entanto, separa e delimita sujeitos e processos históricos, linguísticos, culturais – territorializa seres e práticas, marcando o cotidiano de uma ambiguidade ou ambivalência muitas vezes negociada pelos processos interculturais que entretecem sentidos e sensações em diversos âmbitos: na culinária, nas práticas cotidianas, nas linguagens da convivência. Para pensar em termos de uma estética fronteiriça é necessário, portanto, localizar-se fisicamente, mas sobre tudo epistemologicamente, em uma condição que é territorial e também cognoscitiva. Para visualizarmos essas estéticas, traremos exemplos de poéticas em mídias variadas de uma fronteira que carrega uma identidade pautada pelos vários estereótipos que envolvem seus produtos turísticos e mercadológicos e, ao mesmo tempo, encobre sua diversidade, sua riqueza humana: a tríplice fronteira que demarca Foz do Iguaçu (Brasil), Puerto Iguazú (Argentina) e Ciudad del Este (Paraguay)
Violência de gênero: uma questão cultural?
O presente trabalho tem como objetivo elucidar a relação entre cultura e violência de gênero, abordando as dimensões históricas, econômicas e sociais da constituição desta forma específica de violência na contemporaneidade. A violência de gênero, enquanto fenômeno socialmente construído, se expressa para além de manifestações visíveis – denominada como violência aberta – atingindo de forma específica mulheres e homens, desde a mais tenra idade até a velhice. Compreendendo gênero enquanto padrão de organização social, que estabelece relações de poder diferenciadas entre mulheres e homens, podemos identificar uma forma sutil de reprodução da violência, uma violência estrutural e ressignificada de acordo com os movimentos dialéticos existentes na sociedade. É possível enxergar a dimensão cultural quando analisamos a reprodução acrítica de ações que reiteram esta forma de violência pela observação das inúmeras propagandas televisivas que objetificam corpos femininos; quando temos atrizes e atores com as mesmas características físicas interpretando reiteradamente os mesmos personagens nas telenovelas e quando ouvimos a idealização de “casal perfeito” nas músicas, por exemplo. Encontramos uma construção de padrão ideal balizado pelo viés branco, heterossexual e com boas condições financeiras, que afetam diretamente o modo de ser de toda a sociedade, com uma reprodução mandatória que não corresponde à realidade social da maior parte da população brasileira. Utilizando o método materialista histórico dialético, buscaremos compreender a relação que a idealização de papéis sociais atribuídos aos sexos feminino e masculino têm com a reprodução cultural da violência de gênero e refletir suas implicações nas relações sociais
CÓDIGO> FALA> RUÍDO: A PALAVRA EM ESTADO DE POESIA QUE PROVOCA MOVIMENTO, EMOÇÕES E FERIDAS.
O presente artigo busca refletir a Arte Contemporânea e suas possibilidades de criação e habitação. Pensa-se em Arte Contemporânea como um território híbrido e fluído no qual tudo é possível. A partir disso a palavra aparece como um dos elementos estruturantes no campo das Artes Visuais, a palavra é imagem e a poesia é visualidade na produção artística do século XX e XXI. No Grupo de Pesquisa QUE MOVE O SOL E AS OUTRAS ESTRELAS – Laboratório de Poéticas da Visualidade, de Poesia e da Palavra Performada vinculado a Universidade Regional do Cariri – URCA, desenvolvemos o projeto PPOP! Palavra Poética Performada, em que partimos da Poesia Concreta para desenvolvermos a exposição\ação CÓDIGO> FALA> RUÍDO na Galeria Célia Bacurau (2017). A exposição abordava processos poéticos experimentais de cunho político, pensando novos modos de práticas artísticas a partir da palavra, tendo como base o conceito verbivocovisual, explorado desde a Poesia Concreta, até Artes Visuais (a dimensão semântica, oral e visual das palavras). As palavras têm poder, a palavra enquanto imagem sucinta provocações a respeito do debate estético e ético presente na arte. O que é arte? Quais os limites da arte? A discussão, porém tem se pautado nacionalmente no extremismo e conservadorismo de valores. A exposição em questão foi alvo de censura e de vandalismo, o que reflete a atual situação artística que o Brasil vem passando. A liberdade de expressão é um eixo central que deve permear sempre os processos poéticos dos artistas e os espaços culturais de arte presentes em todo o mundo
Araés, Território Possível: Uma experiencia sócio estética
O Projeto Cidade Possível vem sendo desenvolvido desde 2016, como uma oportunidade de evidenciar a potencialidade dos territórios urbanos. A proposta de ocupação do Araés, um bairro antigo da capital, localizado na área central, que se configura entre os córregos existentes e onde foram erguidos os primeiros casebres do povo negro em Cuiabá, capital de Mato Grosso. Atualmente o bairro vive um estrangulamento social. Os córregos que antes eram bases vitais para as construções de casas, hoje são considerados a faixa de ‘Gaza’, palco de mortes, bocas de fumos e pequenos furtos
Cultura de massa, redes sociais e mídia: instrumentos para práticas culturais, educacionais e para (des) construção da cidadania
Vivemos em um tempo “estranho” como muito bem sinalizou o eminente historiador, Erick Hobsbawm, tempos esses em que as redes sociais e a mídia permeiam a vida de todos nós e nos colocam online com todo tipo de circulação de informação e (des) informação. Através delas, dos compartilhamentos aleatórios de informações, de fake news circulando pra todos os lados e basicamente em vários meios de comunicação, de ascensão dos extremismos, de reprodução de desigualdades, e o uso político do medo, é fundamental pensarmos na responsabilidade de veiculação das ideias e das informações. Dessa forma, alarmantes ataques à democracia e à profissão docente realizados praticamente diariamente colocam para os historiadores e pensadores contemporâneos o desafio de pensar as mídias dentro dos projetos políticos e dentro da disputa de poder. Ou seja, esse debate objetiva uma introdução ao amadurecimento da reflexão midiática: os educadores precisam perceber as empresas de comunicações e as informações veiculadas como históricas, ou seja, pertencentes a uma estrutura, uma conjuntura, um processo de poder possuindo interesses políticos próprios. Considerando aqui fundamental que os educadores e os pensadores de um modo geral saibam distinguir as informações enquanto um discurso, ou seja, parte de alguém e é direcionado a um público. Assim, pretende num primeiro momento, uma reflexão a partir dos autores que estudaram as mídias como parte de veiculação ideológica, ou seja, de domínio de uma classe sobre a outra. Em um segundo momento, será realizada uma analise mais aprimorada entre acadêmicos e professores a respeito do papel da cultura nesse processo de informação e (des) informação
A poética do ator e o encantamento na capoeira
Pela perspectiva da poética do ator, este estudo aborda a influência sonora na capoeira, refletindo sua concepção ritualística em aproximação com a prática cênica. Para isso, busca compreender a noção de estados corporais do ator em afinidade com a expressão transe capoeirano, cunhada pelo mestre de capoeira Decanio (2002), que a considera como um momento em que o jogador extrapola sua consciência como indivíduo, percebendo-se como integrante do ambiente no qual está inserido. Acredita-se, desse modo, que a musicalidade presente no jogo de capoeira seja o elemento fundamental para estabelecer o estado de corpo semelhante ao transe, o que permite investigar como essa relação pode ser determinante para entendimento dos estados de corpo na poética do ator
REFLEXÕES SOBRE A APLICAÇÃO DA LEI 10.639/03 EM ESCOLAS DA ZONA OESTE DO RIO DE JANEIRO E BAIXADA FLUMINENSE
Essa abordagem visa evidenciar as especificidades e problemáticas geradas na implementação da Lei Federal 10.639/03, que versa sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no currículo oficial da rede de ensino brasileira, em sua prática cotidiana. Neste contexto, o presente trabalho procura dar concretude ao problema de pesquisa sobre: a valorização da educação e os obstáculos de aplicação da lei 10.639/03 no sistema educacional básico, sendo a etnografia feita em quatro CIEP’s (Centros Integrados de Escolas Públicas) da Zona Oeste do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense, no ano de 2014/15. A partir da realização de entrevistas e da prática da observação participante, verificou-se que a aplicabilidade efetiva da lei em questão está diretamente relacionada com uma série de fatores existentes nas práticas dos atores presentes na esfera educacional (professores, diretores, pedagogos, etc.) e de seus posicionamentos em relação à contribuição do negro à cultura afro-brasileira. Neste sentido, as relações étnico-raciais foram demarcadores primordiais para a compreensão, não somente das análises, mas como do objeto de estudo em sí
Um limite de língua ou um limite de cor? A sociabilidade entre haitianas (os) e brasileiras (os) no espaçco universitário
A presente comunicação apresentará dados de uma pesquisa cujo tema era a relação entre brasileiras(os) e hatianas(os), especificamente no espaço universitário. Como referencial teórico a pesquisa se valeu das categorias estabelecidos e outsiders. A investigação foi realizada por meio da metodologia qualitativa: entrevistas, realizações de grupos fociais, observação. Com a vinda de imigrantes haitianas(os) para o Oeste Catarinense colocou-se a questão sobre as formas de sociabilidade e das relações entre brancos e negros no município de Chapecó. As haitianas(os) estão presente no mercado de trabalho, e além desse espaço, também estão se inserindo na universidade – a partir da implantação do Pró Haiti (Programa de Acesso à Educação Superior da UFFS) na região. O contexto de relações étnico-raciais considerado na presente comunicação leva em consideração o histórico da região que recebe estes imigrantes. Dado o projeto colonizador que visava o desenvolvimento aliado ao branqueamento da população, o Oeste Catarinense caracteriza-se por um projeto modernizador de extrema valorização da branquitude, marcada por muito conflito com indígenas e caboclos. Agora esses conflitos devem ser pensados na atual conjuntura, na qual se coloca um novo desafio a sociabilidade entre brancos e negros no espaço universitário, a partir da presença haitiana. Vou apresentar as principais dificuldades de sociabilidade declaradas pelos entrevistados haitianos em seu processo de integração, a partir das experiências no contexto universitário
ANENN: o esboço de um sonho
O ano é 2004. O contexto é o intenso debate público sobre desigualdade de acesso ao ensino superior que a política de cotas para estudantes negros, adotada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 2002, gerou nos meios de comunicação de massa, nas universidades, nos círculos militantes e nos meios políticos institucionais. Neste contexto, um grupo de jovens universitários negros, reunidos em torno da realização do III COPENE, decide por sonhar a construção de uma organização política autônoma, composta por jovens negros, que fosse capaz de incidir sobre o debate a respeito da democratização do acesso ao ensino universitário. O presente trabalho pretende analisar o processo de construção desta organização intitulada Associação Nacional de Estudantes Negros e Negras (ANENN). A ANENN nasceu do encontro político de aproximadamente 30 jovens e rapidamente se expandiu, ampliando o escopo de participação e, também, os dilemas que envolviam a sua construção. Neste trabalho se pretende analisar os processos de negociação, articulação, construção de consensos e rupturas que o sonho de uma organização de caráter nacional impôs a esses jovens. Um dado importante a respeito da ANENN é que ela congregava militantes de vários estados da federação. Em função disto, apesar da existência de encontros presenciais, o “espaço” mais dinâmico da ANENN foi a lista de discussão na Internet. Central para articulação de jovens de diferentes estados, majoritariamente pobres e sem financiamento institucional, este “espaço” virtual foi o palco mais dinâmico para a apresentação de ideias, debates, disputas políticas e construções coletivas a respeito dos temas centrais sobre os quais a ANENN pretendia atuar politicamente. Em função desta característica, metodologicamente, este trabalho trata-se do produto de uma etnografia virtual cujo objetivo foi acompanhar as negociações entorno do esboço de um sonho