Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura - CLAEC
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Escrita Epistolar – cartografias de uma epistemologia feminista
A estética de um texto acadêmico não reflete somente nossas influências teóricas; ela é, antes de tudo, um meio de expressão. Deste modo, a escolha por como escrever um texto não está relacionada apenas ao molde que se é cobrado, ela é também baseada em uma biblioteca de referências que vamos nutrindo. Quando nos questionamos sobre as influências teóricas que fundam nossos saberes, há em suas bases muitas mulheres? Dentre elas, há muitas mulheres negras? Quais são as nacionalidades? E pensando no gênero acadêmico, como as minorias se comportam diante da cobrança de uma escrita padrão? Nessa estética, que também é ética, o que se imprimem/exprimem delas? Partindo desses questionamentos como dispositivos, busco refletir neste artigo sobre a escrita acadêmica, focando nas implicações epistemológicas existentes entre a forma e o conteúdo. O gênero acadêmico é técnico e regulado e, portanto, nega uma escrita pessoal, emotiva, de experiências subjetivas. Ademais, menos que uma tentativa de universalizar uma forma, é a negação de alguns conteúdos e temas, que somente são passíveis de materialização sobre uma estética Outra. Ao refletir sobre essas questões, utilizo a minha própria escrita para isso. Desse modo, escolho uma escrita epistolar, no sentido proposto por Deleuze e Guattari, como uma espécie de literatura menor, que se configura como escolha e posicionamento ético/estético capaz de fomentar a reflexibilidade do processo da escrita e de cartografar algumas desestabilizações dos saberes consagrados, o que as epistemologias feministas permitem
Moisés Bertoni e o Povoamento da América
Na obra “La Civilización Guarani” (1922), a partir de escritos da América colonial e de análises da antropologia linguística, o cientista suíço-paraguaio Moisés Bertoni objetivou localizar a origem dos povos guaranis. Neste percurso, motivado pela crença na ideia de uma ciência universal, sua pesquisa procurou estabelecer hipóteses sobre o povoamento da América do Sul. Imerso em um vasto campo de experimentação científica, os debates de que participou colocavam no centro da discussão a origem, a identidade e o lugar social das populações indígenas no estado-nação moderno. Até este momento da pesquisa, pode-se afirmar que Bertoni reinterpretou a origem e constituição dos povos guaranis no Paraguai na mesma medida em que forjou identidades para eles ao estabelece-los como patrimônio nacional paraguaio
Marcas Territoriais da Multiculturalidade em Santos/SP: Imigrantes Portugueses e Espanhóis na Segunda Metade do Século 19
A cidade de Santos, situada no litoral paulista, vem se configurando como um território multicultural desde o período colonial brasileiro, com especial destaque na segunda metade do século 19. A dinâmica agroexportadora da economia cafeeira constituiu o cenário de atração de populações variadas a esse município articulador das transações portuárias oitocentistas, sendo que, naquele quadro, os imigrantes portugueses e espanhóis atuaram como personagens centrais no redesenho das realidades econômicas, políticas, socioculturais, urbanísticas em Santos. O presente estudo, fruto de uma pesquisa de doutorado na área da Sociologia, tem como objetivo apresentar um capítulo da história da formação territorial e cultural deste município, com foco particular nos fluxos migratórios ibéricos ao longo do século 19, sobretudo na sua segunda metade. Com efeito, a perspectiva historiográfica permitirá a identificação e análise das marcas territoriais que narram o protagonismo dessas populações na formação da Santos multicultural, articulando memória, identidade e patrimônio das migrações ibéricas nesse litoral paulista
Inclusão política e identidade cultural: reivindicações simbólicas dos movimentos negros brasileiros da década de 1970
Este trabalho propõe uma reflexão sobre as demandas simbólicas trazidas à tona na década de 1970 pelos movimentos sociais negros do Brasil. Estas demandas serão estudadas a partir da análise da trajetória de exclusão/inserção das matrizes identitárias afrodescendentes no processo de formação da identidade nacional brasileira. Para tal, será desenvolvido um diálogo entre os debates raciais do período pós-abolição e as abordagens sobre a mestiçagem no contexto do nacional-desenvolvimentismo latino-americano com os questionamentos identitários que emergem a partir da incorporação de novas formas de luta social na pauta reivindicatória dos movimentos negros do país. Pretende-se analisar em que medida estas novas formas de mobilização social vinculadas à esfera cultural podem contribuir com debates e reformulações cruciais para um projeto político identitário nacional que, ao longo de toda sua trajetória, se caracteriza por dinâmicas altamente discriminatórias e excludentes
Carreras de pre-grado: una oportunidad para fortalecer la política pública de territorialización de la Universidad Nacional de Entre Ríos (Argentina)
La Universidad Nacional de Entre Ríos, en Argentina, inicia en el año 2013 un plan de mejora académica sobre la base de la creación de carreras cortas vinculadas con el desarrollo territorial. Propone abrir un espacio de diálogo que permita identificar aquellas necesidades y demandas locales en las que la universidad pueda acompañar propuestas de formación profesional. También, bajo la premisa de la universidad integrada a la sociedad, se exploran nuevos caminos con ofertas académicas de pre-grado que pueden concretarse en aquellos espacios geográficos urbano-rurales – que la Universidad no cubre – y donde también el gobierno provincial promete acompañar a los municipios en las estrategias de desarrollo territorial. En este trabajo se reflexiona sobre el desarrollo territorial en cuanto se refiere a mejoras educativas en espacios geográficos que la Universidad puede cubrir y que constituyen una oportunidad para fortalecer su política pública de territorialización en la provincia de Entre Ríos. En la etapa de diagnóstico se procesan y analizan una gran cantidad de datos y variables, de censos o de encuestas, para lo cual los sistemas de información geográfica son especialmente adecuados. Aquí se muestra la aplicación de un SIG para analizar variables del Censo de población 2010 y de la base de datos del Plan de Desarrollo Territorial 2016 ambos de nuestro país. Se propone un procedimiento para completar bases de datos, obtener estadísticas e informes y representar los resultados en mapas y gráficos que son necesarios durante el diagnóstico e instrumentación de las nuevas carreras
Que política cultural é essa? Reflexões sobre a gestão pública da cultura nas universidades estaduais do Brasil
Para os estudiosos das políticas culturais, é um grande desafio pensar em como se elabora a política cultural de uma universidade e, especialmente, como se materializa e se torna efetiva em seu território. Quem define as linhas estratégicas e as diretrizes de ação culturais em uma universidade? O dirigente municipal, estadual ou federal da pasta de educação e/ou cultura do governo ou o diretor do equipamento cultural universitário, geralmente associado à extensão? Poderia ser, ainda, o pró-reitor de extensão e, em algumas instituições de ensino superior, o pró-reitor de cultura que assume esse papel? Acaso não seria o próprio reitor o verdadeiro gestor cultural, com capital político e simbólico suficiente para orientar o desenvolvimento cultural da universidade? Nesse sentido, questionamos ainda: qual o papel dos centros, faculdades e laboratórios? Dos professores, estudantes, funcionários técnicos e trabalhadores comunitários? E em relação ao restante da comunidade e grupos artísticos, que influência exercem nas ações (e omissões) da universidade no campo cultural? Buscamos neste artigo esboçar algumas respostas a essas questões, não apenas considerando a noção de cultura acionada (seja sociológica ou antropológica), mas também discutindo a própria definição de política cultural e, consequentemente, as teorias e metodologias utilizadas para delimitar o escopo e abrangência do objeto de pesquisa. No caso das universidades estaduais, buscamos compreender as particularidades da gestão pública da cultura universitária e os processos de elaboração de políticas culturais nessas instituições de ensino superior do Brasil
Homossexualidades negras: corporalidades contra-hegemônicas
Um traço comum das culturas em que predominam o racismo é que nelas negros e negras são evidenciados como sujeitos profundamente sexuais. Esse imaginário construído em torno da sexualidade das mulheres negras e homens negros evidencia a tentativa de localizá-las dentro de um sistema de subordinação racial via exacerbação sexual. Isso se justificaria, nesse discurso racista, pelo fato de eles estarem mais próximos da natureza do que os brancos, cultos e civilizados. As imagens construídas em torno da sexualidade das pessoas negras têm forte caráter simbólico, mas também objetivos práticos, pois sua pressuposta sexualidade exacerbada desembocaria em mais um uso do seu corpo em proveito do dominador branco. Foi importante para o colonizador a hipersexualização dos corpos negros, o que tinha como pano de fundo também uma hiperheterossexualização desses sujeitos. Por outro lado, os movimentos e estudos, negros e feministas negros têm contribuído para o questionamento da heterossexualidade compulsória como marcando ainda mais os corpos negros. Atualmente, homens e mulheres negras e indígenas têm visibilizado que, apesar de sua maior vulnerabilidade ou dificuldades, são grupos que também vivenciam relações erótico-amorosas divergentes dos padrões de suas sociedades. O racismo afeta sim drasticamente as vidas de homens e mulheres negras, mas suas vidas não são feitas apenas de opressão, mas de várias resistências. Sujeitos como lésbicas negras e gays negros promovem a visibilização de uma identidade que interseciona diversos categorias identitárias e que é, por isso, capaz de denunciar diversas hegemonias mesmo em setores considerados contra-hegemônicos. Performances de resistências e discursos de resistência tem sido visibilizados por lésbicas negras e gays negros a fim de desmontar e desconstruir os discursos hegemônicos que procuram forjar negritudes, sexualidades, masculinidades e feminilidades hegemônicas.
Complexidade em interface com Direitos Humanos no processo migratório da América Latina
Este artigo traz reflexões para o campo da educação, a respeito da complexidade dos processos multiculturais que influenciam mutuamente a edificação da subjetividade dos povos da América Latina e os reflexos da implementação dos direitos humanos. De que forma esses debates têm pautado os Planos de Trabalho Docente? Desde que Colombo descobriu a América, os portugueses, espanhóis, africanos, italianos, alemães, japoneses, chineses, dentre outros estrangeiros asiáticos e orientais vieram para a América do Sul, estabeleceram-se com seus familiares, que foram vindos pouco a pouco, e foram (co) construindo suas idiossincrasias, misturando cores e sabores, trocando elementos simbólicos que constituem o sincretismo, foram interagindo com os nativos indígenas e consolidando o jeito de ser ameríndio. Recentemente, os brasileiros têm interagido, dentre outros, com haitianos, sírio-libaneses, bolivianos e venezuelanos. Diante desse processo plurietnicorracial, temas que promovam a equidade e façam valer a igualdade de direitos, a transdisciplinaridade na formação humana integral, assuntos que minimizem a intolerância e as diversas manifestações de violência que segregam seres humanos precisam ser debatidos. A partir de uma revisão bibliográfica, verificaram-se artigos publicados em quatro bancos de dados a respeito da multiculturalidade na América Latina em interface com a teoria da complexidade e direitos humanos: Scielo, Capes e o ERIC. Destaca-se que, apesar de muitos artigos debaterem sobre questões culturais, poucos abordam a exclusão, discriminação e violação de direitos humanos sofrida, em especial, pelos imigrantes estrangeiros que tentam sobreviver com dignidade em um outro país, bem como sobre os debates desses reflexos na educação
Mayaelo: “Construir Comunidad Tejiendo Sensibilidades” Prácticas Y Resistencias Decoloniales
Se pretende exponer los resultados de la investigación titulada: Mayaelo: “Construir comunidad tejiendo sensibilidades” Prácticas y resistencias decoloniales, realizada durante el año 2016. Dicha investigación recupera experiencias de Jóvenes que han transformado sus trayectorias personales a partir del vínculo con el Colectivo de creación Casa Mayaelo[1], el cual desarrolla sus acciones en el barrio Arborizadora Alta, barrio periférico ubicado en Bogotá, Colombia. En este sentido, se aproxima a una discusión a través de la cual se buscaba visualizar y reconocer en qué medida vienen siendo establecidas relaciones horizontales, desde formas de organización y creación comunitarias, y cómo a partir de estas, se han generado configuraciones alternas, fundamentales y espontáneas desde lo periférico, por una transformación social y estética. Este análisis se enmarca en la base teórica de los debates enunciadores de un proyecto descolonizador, además contempla el carácter fundamental de los lenguajes del arte y su contundencia en diálogo con los saberes, pensamientos y prácticas subalternos. Con esto se pretende evidenciar formas de resistencia persistentes en las historias locales y colectivas de los pueblos latinoamericanos. [1] Casa Mayaelo es un colectivo Colombiano de jóvenes que inicia en 2007, han realizado diversas iniciativas a través de procesos que se encuentran en órbita con la apropiación de los lenguajes y herramientas del arte y la cultura.
O inimigo mora na aldeia: Violações de direitos indígenas na ditadura militar
O presente artigo deseja analisar as ações de espionagem e repressão dos governos militares sobre os povos indígenas no Sul do Brasil e seus apoiadores. A política indigenista no período de 1964 a 1985 passou por diversas mudanças, como o inquérito instaurado por Jader Figueiredo para investigar as ações do SPI; a extinção desse órgão e criação da Funai; as mudanças constituições na reforma de 1968 e, a criação do Estatuto do Índio (Lei 6001/1973). Essas ações, no âmbito administrativo e legal, não geraram mudanças nos contextos das comunidades. As relações promíscuas dos servidores públicos com os setores econômicos provocaram violências inimagináveis. O controle sobre os indígenas foi exercido com o mesmo rigor que se combatiam os “subversivos” ao regime. Criação e aparelhamento da polícia indígena faziam parte da rotina de controle exercida nos Postos, que em momentos cruciais fazia uso dos Presídios Indígenas. Na última década do regime, os indígenas se tornam os inimigos internos, a serem combatidos. Nesse momento eles não estão sozinhos, além de estarem articulados nas assembléias indígenas contam com um importante setor da Igreja Católica. Sobre esse momento histórico que iremos tecer nossa análise, compreender como os indígenas e missionários passam a ser espionados e controlados pelo regime