Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura - CLAEC
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Diálogos entre a América Latina e o Curdistão: aproximação entre movimentos anticoloniais do Sul Político
O presente estudo busca estabelecer um diálogo entre os movimentos anticoloniais do Sul Político, tendo como base o movimento de Rojava e os movimentos latino-americanos explicitados pela Teoria Decolonial. Primeiramente, objetiva-se identificar como a Teoria Decolonial cria instrumentos para pensar o movimento curdo como sendo uma iniciativa questionadora da modernidade. Ademais, o trabalho tem o intuito de ressaltar a importância de não restringir as lutas anticoloniais no ideário do Estado-nação, assim como enfatizar as estratégias práticas desenvolvidas por estes movimentos no processo de socialização do poder, sendo esta uma das críticas mais substanciais à modernidade/colonialidade. Em suma, o cerne do trabalho reside em apontar como esses movimentos se articularam em uma tentativa de ressignificar o discurso hegemônico tendo como base epistemologias e cosmologia locais não-ocidentalizadas
“Antes de dançar o Coco era como estar no mundo, mas não existir”: experiências dançantes de mulheres em contextos de políticas públicas culturais no Cariri Cearense
Objetivamos investigar a experiência dançante de mulheres brincantes de Coco no Cariri cearense, em um contexto marcado por políticas públicas culturais, compreendendo a relação existente entre o Estado, organizações não governamentais e os saberes/fazeres populares. A dança do Coco é uma prática de origem afro-indígena encontrada no nordeste brasileiro, no Ceará destaca-se como dança de homens pescadores. Todavia, o espaço escolhido para estudo localiza-se no sertão, no qual esta dança é produzida, sobretudo, por mulheres agricultoras que assumem os papéis de dançadeiras e de mestras. Estas mulheres possuíram experiências com o brincar em suas infâncias, marcadas pela integração da dança com o trabalho cotidiano no campo e no pisar do chão das casas, porém estas experiências foram interrompidas por diversos motivos, como casamento ou mudanças, mas foram retomadas a partir de 1979, com o incentivo de políticas públicas culturais. Neste contexto foram formados grupos para dançar Coco, o que envolve uma espetacularização da dança, constituindo uma nova estética da brincadeira, marcada, por exemplo, pela inserção de um figurino próprio, fazendo-a migrar das comunidades rurais para os centros das cidades onde passaram a ser exibidas em palcos e praças. Apesar de este contexto deslocar territorialmente a dança e, também, promover novos significados e ritualizações em seu fazer, por meio de um jogo de poderes ocorre um processo de reinvenção dessas mulheres que passam a experimentar seus corpos e suas existências de uma outra forma, ressignificando o viver por intermédio do dançar. Assim, podemos produzir uma análise que compreenda as políticas culturais como mediadoras que, junto às experiências dos sujeitos, as suas subjetividades, promovem novas construções identitária por meio de uma experimentação de fazeres poéticos
A prática docente Guarani Mbya – liderança, engajamento e luta
O presente trabalho apresenta as considerações finais da dissertação de mestrado “A prática docente Guarani Mbya – liderança, engajamento e luta”, que trata sobre como as professoras e professores indígenas guarani mbya entendem sua prática docente. Parte do pressuposto de que a educação escolar indígena começa a ser ressignificada a partir de 1990, quando o Estado reconhece e dá maior respaldo às demandas dos movimentos e organizações indígenas. Assim, reestrutura-se uma instituição tipicamente não-indígena, norteada até então por princípios de catequização, civilização, integração e preservação. Ao se reconstruir junto aos projetos de futuro de cada etnia, a escola indígena se constitui como inovação educacional. A pesquisa de campo verificou qual a visão que docentes indígenas têm de suas práticas, considerando a hipótese de que estas se centram no modo de transmissão dos saberes tradicionais de sua cultura ou na mera reprodução do modelo de ensino escolar predominante, originalmente não-indígena, ainda que se trate oficialmente de uma escola diferenciada. O foco das observações centrou-se na Escola Estadual Indígena Guarani Gwyra Pepo, situada na aldeia Tenonde Porã, em Parelheiros, capital de São Paulo. Foram feitas entrevistas com as professoras e professores guarani. As informações recolhidas foram analisadas com bases teóricas das pesquisas antropológicas sobre a etnia Guarani e sociológicas sobre inovação educacional, bem como pelo recurso às produções da etnologia ameríndia sobre educação escolar indígena. Conclui-se que a prática docente das professoras e professores guarani é entendida como forma de luta, favorecida pelos espaços de discussão sobre educação escolar indígena e pela própria atuação como liderança. É vista tanto como valorização do nhandereko quanto como subsídio para compreender e enfrentar a sociedade não-indígena dominante, sendo modelo de engajamento e luta para reconceituação da educação pública de modo geral
Oficina de Cultura Popular e Direitos do Campo
A Oficina de Cultura Popular e Direitos do Campo foi um espaço político construído no ano de 2015, no espaço físico da UFF, contando com a participação de membros da Comissão Pastoral da Terra – Polo Campos dos Goytacazes e moradores das comunidades quilombolas. O trabalho assessorado pelo Núcleo de Estudos em Cultura, Educação e Movimentos Sociais, do curso de Serviço Social da universidade, objetivou constituir-se como um espaço ampliado de articulação política para as comunidades do campo, a partir dos princípios de horizontalidade nas decisões e nos encaminhamentos e do protagonismo político das comunidades do campo. A metodologia de trabalho realizada envolveu reuniões mensais, depoimentos e debates dos participantes acerca de seus cotidianos como moradores do campo. Destes depoimentos e reflexões observou-se como elemento de interesse comum a política para a educação do campo na região, do que se desdobrou a realização do “I Encontro Regional de Cultura Popular e Direitos do Campo” e a construção e aprovação da “Carta Vozes do Campo”, com uma pauta de questões e demandas para os trabalhadores moradores do campo
Plurilinguismo e Pluriculturalidade: abordagem humanística
Esta proposta de trabalho fundamenta-se no projeto de pesquisa em vigência no Instituto Federal do Paraná, Campus Avançado Quedas do Iguaçu, no qual atuo como coordenadora, intitulado “Plurilinguismo e Pluriculturalidade: viver, experienciar e ser”. Esse projeto surge da percepção da importância de práticas pedagógicas nas aulas de línguas, materna e estrangeira, voltadas à promoção do saber-fazer e saber-ser do discente em que ele se situe em seu próprio mundo e nos espaços sociais, políticos e culturais de forma crítica, útil e significativa. Os conceitos plurilinguismo e pluriculturalidade convivem no mesmo espaço, principalmente, quando se lança o olhar à realidade escolar heterogêneo, no que tange ao ambiente cultural e linguístico. Ratifica-se a relevância do desenvolvimento de ações que toque na questão da pluralidade, seja ela cultural, linguística, socioeconômica, étnica, racial, sexual ou política, para que o aprendizado das línguas torne-se eficaz, contribuindo para um ambiente solidário e democrático. Assim, esse projeto contempla a temática língua, no viés teórico da pluralidade, a fim de que o discente compreenda o conceito língua como uma esfera social, cultural, política, contribuindo para sua vivência, experiência e formação identitária e cidadã na compreensão da sua realidade linguística-cultural materna e variedades, assim como, a realidade linguística-cultural de línguas estrangeiras. Portanto, o objetivo deste trabalho é conhecer, experenciar, respeitar, valorizar, tornar público e compreender os processos socioculturais a partir da língua materna e línguas estrangeiras (espanhol e inglês) presentes no ambiente escolar para que as línguas se relacionem entre si e interatuem no processo sociocognitivo do aluno
PERSPECTIVAS DO EXÍLIO NA POESIA DE ALEJANDRA PIZARNIK
Esta pesquisa tem por objetivo levantar aspectos relacionados ao processo de exílio e também da visão do exílio como direito ou pena. As questões do estrangeiro, da hospitalidade, da cidadania e da pátria permitem uma leitura além do sentimento de pertencimento ou exclusão. A modernidade no século XX, especificamente a década de 1960 foi marcada pelos regimes totalitários e pela luta das liberdades individuais e coletivas. A poesia de Alejandra Pizarnik se encontra neste movimento em direção ao Outro. A autora pertence a literatura argentina, embora não manifeste sentimento de enraizamento ou mesmo de pátria. Quatro perspectivas de exílio se apresentam: o exílio territorial, o exílio interior, a linguagem como exílio, e a morte como desdobramento da linha de fuga
Do raio ao Corpo: enfeites corporais e extracampo em Bicicletas de Nhanderú
O presente trabalho reflete sobre o documentário Bicicletas de Nhanderú realizado em 2011 pelo coletivo Mbya de cinema na aldeia Koenju, em São Miguel das Missões (RS), e com direção de Ariel Ortega e Patricia Ferreira. Através da análise fílmica elaboro uma cartografia das sequências de planos que possuem os enfeites corporais como dispositivo central de articulação. Por meio destas sequências traço um paralelo entre os enfeites corporais e o cinema indígena, tendo o corpo como dispositivo de diferenciação e mediação. Tomando como referência os trabalhos de Villaca (2000), Miller (2015), Caixeta de Queiroz (2008) e Ginsburg (2008), que discutem o tema das relações interétnicas a partir do ponto de vista dos povos ameríndios, abordo a relação entre os enfeites corporais, o cinema e a transformação/invenção no contexto indígena a partir das relações interétnicas
A RESISTÊNCIA É UM LUGAR SOLITÁRIO?: REFLEXÕES SOBRE AQUARIUS DE KLEBER MENDONÇA FILHO
Aquarius, filme de Kleber Mendonça Filho de 2016, narra à história de uma mulher que resiste. Assim, intransitivamente, Clara, a protagonista, mora há décadas em um edifício antigo de frente para a praia de Boa Viagem, no Recife. O prédio, que dá nome ao filme, está em processo de ser adquirido, apartamento por apartamento, por uma construtora que pretende derrubá-lo para construir um condomínio de luxo, mais moderno. No entanto, a empresa, representada pelo proprietário e seu neto, que foi estudar business nos Estados Unidos, encontra na figura de Clara um obstáculo: a mulher se recusa a vender o apartamento. Clara se nega a ceder às propostas, intimidações e ameaças da construtora. Ela resiste, mesmo que para isso acabe sendo taxada de louca, de velha chata, de barraqueira. Porque a resistência exige coragem, exposição, enfrentamento. Neste sentido, a proposta de análise Aquarius acaba por apontar para a reflexão do cotidiano, onde há pessoas resistindo diariamente, das mais diversas formas, muitas vezes sem serem notadas. Há várias Claras ao nosso redor. Nós as conhecemos, vivemos e trabalhamos com ela. Às vezes, somos nós. Os padrões impostos pela sociedade que vivemos, o mercado e os interesses de quem têm mais poder espera que as pessoas se conformem, sigam o que foi estabelecido, obedeçam. Nesse contexto, dizer “não” se transforma em um ato político.
MULHERES E RAÇA: UMA REFLEXÃO SOBRE A NECESSIDADE DE SENSIBILIDADE NA ELABORAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E AÇÕES AFIRMATIVAS NO BRASIL
MULHERES E RAÇA: UMA REFLEXÃO SOBRE A NECESSIDADE DE SENSIBILIDADE NA ELABORAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E AÇÕES AFIRMATIVAS NO BRASIL MUJERES Y RAZA: UNA REFLEXIÓN SOBRE LA NECESIDAD DE SENSIBILIDAD EN LA ELABORACIÓN DE POLÍTICAS PÚBLICAS Y ACCIONES AFIRMATIVAS EN BRASIL Victória Santos de Azevedo[1] Ana Carolina Einsfeld Mattos[2] Mini Resumo Durante o período colonial mulheres e homens negros foram tratados como propriedade privada pelo sistema escravista, o que produziu algumas características comportamentais que ainda refletem na atualidade, fazendo com que a população negra seja socialmente marginalizada. As mulheres negras, por sua vez, sofrem uma dupla marginalização, o que as deixa socialmente mais vulneráveis. O presente trabalho, fruto de uma coleta de dados bibliográficos e documentais, tem como objetivo refletir acerca de políticas públicas e ações afirmativas que envolvem gênero e/ou raça no Brasil, uma vez que a possibilidade de melhora da condição e da qualidade de vida deste grupo de pessoas, muitas vezes, perpassa por programas sociais, os quais precisam ser elaborados partindo de abordagens sensíveis, que acompanhem o ritmo do desenvolvimento e das modificações da sociedade, permitindo uma melhora plena e não apenas momentânea na vida das pessoas. Palavras-Chave: Mulheres negras; Políticas públicas; Ações afirmativas; Período colonial; Sistema escravista. Mini Resumen Durante el período colonial mujeres y hombres negros fueron tratados como propiedad privada por el sistema esclavista, lo que produjo algunas características comportamentales que aún reflejan en la actualidad, haciendo que la población negra aún sea socialmente marginada. Las mujeres negras, a su vez, sufren una doble marginación, lo que las deja socialmente más vulnerables. El presente trabajo, fruto de una recolección de datos bibliográficos y documentales, tiene como objetivo reflexionar acerca de políticas públicas y acciones afirmativas que involucran género y/o raza en Brasil, una vez que la posibilidad de mejora de la condición y de la calidad de vida de éste grupo de personas a menudo pasa por programas sociales, los cuales necesitan ser elaborados desde enfoques sensibles, que acompañen el ritmo del desarrollo y de las modificaciones de la sociedad, permitiendo una mejora plena y no sólo momentánea en la vida de las personas. Palabras claves: Mujeres negras; Políticas públicas; Acciones afirmativas; Período colonial; Sistema esclavista. 1. Os negros e as negras no Brasil: Do período colonial à atualidade Desde o primeiro momento em que pisaram em terras brasileiras, os negros, foram postos à margem da sociedade, primeiramente porque a vinda deles caracterizava uma mão de obra servil e segundo, porque em nenhum momento da história foram inseridos na sociedade de nenhuma forma, somente excluídos (FERNANDES, 2007, p. 83). Porém, um aspecto preocupante diz respeito às mulheres negras, que sofrem consequências de uma discriminação que perpassa questões de gênero e raça e as torna socialmente condicionadas na base da pirâmide social brasileira. Segundo Assumpção (2015, p. 33) o período colonial brasileiro foi o momento em que a mão de obra para a realização de tarefas mais pesadas foi construída a partir da forma já calcada pelos europeus em outros países, pelo trabalho de outras pessoas. Isso porque terras recentemente “descobertas” precisavam ser ocupadas, demarcadas, para que não fossem encontradas à deriva por outros povos “desbravadores”. As primeiras tentativas de reorganizar a forma de viver existente na sociedade encontrada foram complexas, disso diversos conflitos foram ocasionados e como consequências diversas pessoas que compunham a população local foram mortas. Diante desse aspecto, a solução foi utilizar a mão de obra pesada já existente em outros lugares, que se dava a partir do tráfico negreiro (ASSUMPÇÃO, 2015, p. 42-43). Conforme aponta o Ministério da Cultura do Brasil (1988, p. 11) a mobilidade social era praticamente inexistente no período colonial, havia uma estratificação social bastante rígida que impossibilitava a mudança de situação e o crescimento econômico, dessa forma, os homens e as mulheres negras precisavam buscar estratégias de sobrevivência longe das casas dos senhores, que tratavam seres humanos como um instrumento passivo, uma mera engrenagem de força física. A historiadora Hebe Mattos (2006, p. 108-111) ressalta que uma das formas de sobrevivência que a população negra encontrou neste período foi a reunião em quilombos, que foram constituídos com a finalidade de unir forças e lutar por melhoras nas condições sociais; a autora ainda ressalta que este espaço serviu como resistência e suporte após o final do período escravista, pois foram os únicos lugares que abrigaram os negros de forma respeitosa. Segundo a abordagem da psicanálise, trazida por Nogueira (1999, p. 42), a escravidão constituiu para a população negra uma imagem de “carência de humanização” e acentuou a ideia de diferença biológica, uma vez que se pensava que o corpo negro era diferente e em escalas biológicas, mais próximos de animais e coisas, o que também ajudou na constituição da ideia de posse e objeto existentes naquele período. Neste sentido o negro não era considerado um cidadão livre, não era uma pessoa, mas sim um objeto. Porém esta ideia de diferenças raciais, considerando aspectos relacionados à cor, caem por terra, uma vez que conforme aponta Munanga (1986, p. 51-52), não existem diferenças consideráveis no organismo humano para que se tenham raças humanas diferentes. No que diz respeito, especificamente às mulheres negras, estas sofrem os mesmos preconceitos dos homens negros, acrescidos da questão que envolve a sexualidade, pois o corpo da mulher negra foi aprisionado em violências que refletem nos dias de hoje pelos estereótipos de sambista, mulata ou doméstica (NOGUEIRA, 1999). Relacionado aos estereótipos de sambista e mulata ainda se faz importante trazer outro aspecto que diz respeito ao mito da democracia racial, que se reencarna e reconfigura no rito do carnaval, além de diversos simbolismos que são reforçados (GONZALES, 1984, p. 228). Atualmente a mulher negra integra a parte mais vulnerável da sociedade, pois é a mais marginalizada e objetificada, sem considerar questões de racismo institucional que elas são obrigadas a passar na busca de uma resposta do Estado. Diante disso e de todo aspecto histórico existente é dever do Estado Nacional, a partir de ações, reverter esta situação e promover a igualdade, que é garantida desde a Constituição de República Federativa do Brasil de 1988. 2. O dever do Estado brasileiro: Políticas Públicas e Ações Afirmativas O Estado brasileiro assumiu o papel de promotor de igualdades com a Constituição de 1988 e com isso a ideia de políticas públicas e ações afirmativas passa por ele, por se tratarem de diretrizes elaboradas para enfrentar problemas públicos ou entendidos como coletivamente relevantes (SECCHI, 2010, p. 2). Mulheres, jovens e meninas negras, durante a vida, passam pelo mesmo tipo de violências que as demais, porém existem diferenças gritantes na desproporção das discriminações, pois elas são baseadas em sistemas que alimentam as desigualdades e em inúmeros países elas são as maiores vítimas, segundo diversos indicadores de violação de direitos humanos. Essas violências são produto da combinação de marcadores sociais e desigualdades atribuídas aos papéis de gênero masculino e feminino. (AGÊNCIA PATRÍCIA GALVÃO, 2018). Os aspectos históricos também são responsáveis por reforçar esta situação e construir perfis estereotipados, quase impossíveis de serem desconstruídos, pois já estão enraizados na sociedade. Diante disso é essencial a sensibilidade ao elaborar ou avaliar as políticas públicas ou ações afirmativas já existentes, pois para promover a igualdade é essencial que todos partam do mesmo ponto de partida e não de linhas desparelhas. No que diz respeito às políticas públicas para mulheres não é incomum ser levantado o ponto de que elas devem ser para todos, porém, as mulheres negras, que estão em uma situação de vulnerabilidade social maior, acabam não sendo alcançadas, pois justamente na tentativa de buscar a igualdade mais desigualdades são produzidas pela insensibilidade no trato das políticas. Segundo Djamila Ribeiro (2017, p. 41) melhorar o índice de desenvolvimento humano de grupos vulneráveis deveria ser o primeiro passo para a busca da igualdade e, portanto, é essencial dar foco para o que alertam as feministas negras. Tratar somente de uma parcela das mulheres ao tentar olhá-las como universais faz somente com que algumas sejam vistas e enquanto isso, as outras arcam com as consequências da falta de um olhar étnico (RIBEIRO, 2017, p. 41-42). É visível a falta de um olhar sobre questões que interseccionam gênero e raça, porém, ainda que hajam progressos nas políticas promovidas, o Estado ainda reluta em considerar as discriminações como aspectos a serem observados com mais seriedade, o que acarreta em um número de políticas públicas insuficiente, principalmente por conta da baixa representatividade feminina negra em órgãos deliberadores, como o Legislativo (BRASIL, 2011, p. 36). As discriminações e o fato de permanecer com a visão dos negros como socialmente inferiores afastam toda a população negra da ascensão social e como consequência, os níveis de renda também permanecem inferiores (BRASIL, 2011, p. 36). Assim é notável a importância na promoção de políticas públicas que trabalhem a perspectiva de raça e gênero, atravessando questões que levam as diferenças discriminatórias, buscando a contemplação de grupos que se desenvolvem e possibilitando a eles alcançar a visibilidade na sociedade, afastando as desigualdades (SILVA, 2013, p. 128). 3. Só a educação salva? Ainda que os problemas sociais, principalmente a violência dentro dos próprios lares, sejam realidades enfrentadas pelas mulheres negras como consequência de um histórico calcado na discriminação, e a promoção de políticas públicas que enfrentam esses problemas sejam essenciais, existem outros aspectos que precisam ser considerados, como a questão da educação e das ações afirmativas que modificam as diretrizes básicas de ensino inserindo nos currículos visões descolonizadas, pois proporcionam uma visão de continuidade a partir das novas gerações, possibilitando que as mentes do futuro modifiquem a sociedade. A partir da perspectiva de Nilma Lino Gomes (2012, p. 105) o ato de falar sobre algum assunto ou tema na escola não é uma via de mão única e permite trocas, interpretações de diversas ideias. As mudanças trazidas pelas ações afirmativas, que compreendem as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, além de proporcionarem novas disciplinas e conteúdos, possibilitam uma mudança continuada no que diz respeito à cultura e à política, com grande potencial para romper com silêncios e construir novas abordagens. [1] Mestranda em Ciências Sociais; Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS; São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil; [email protected]. [2] Mestranda em Ciências Sociais; Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS; São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil; [email protected]
Homossexualidades negras: corporalidades contra-hegemônicas
Um traço comum das culturas em que predominam o racismo é que nelas negros e negras são evidenciados como sujeitos profundamente sexuais. Esse imaginário construído em torno da sexualidade das mulheres negras e homens negros evidencia a tentativa de localizá-los dentro de um sistema de subordinação racial via exacerbação sexual. Isso se justificaria, nesse discurso racista, pelo fato de eles estarem mais próximos da natureza do que os brancos, cultos e civilizados. As imagens construídas em torno da sexualidade das pessoas negras têm forte caráter simbólico, mas também objetivos práticos, pois sua pressuposta sexualidade exacerbada desembocaria em mais um uso do seu corpo em proveito do dominador branco. Foi importante para o colonizador a hiperssexualização dos corpos negros, o que tinha como pano de fundo também uma hiper-heterossexualização desses sujeitos. Por outro lado, os movimentos e estudos negros, e feministas negros têm contribuído para o questionamento da heterossexualidade compulsória como marcando ainda mais os corpos negros. Atualmente, homens e mulheres negras e indígenas têm visibilizado que, apesar de sua maior vulnerabilidade ou dificuldades, são grupos que também vivenciam relações erótico-amorosas divergentes dos padrões de suas sociedades. O racismo afeta sim, drasticamente, as vidas de homens e mulheres negras, mas suas vidas não são feitas apenas de opressão, mas de várias resistências. Sujeitos como lésbicas negras e gays negros promovem a visibilização de uma identidade que intersecciona diversas categorias identitárias e que é, por isso, capaz de denunciar diversas hegemonias mesmo em setores considerados contra-hegemônicos. Performances de resistências e discursos de resistência têm sido visibilizados por lésbicas negras e gays negros a fim de desmontar e desconstruir os discursos hegemônicos que procuram forjar negritudes, sexualidades, masculinidades e feminilidades hegemônicas