Publica-se Portal de Periódicos Científicos da Universidade Federal do Pampa
Not a member yet
    25936 research outputs found

    Membrana Biopolimérica Bicamada Contendo Ibuprofeno: Potencial para Aplicação em Curativos Diabéticos

    No full text
    A pele é o maior órgão do corpo humano, atuando como sua principal barreira protetora, prevenindo danos físicos e contaminação microbiana. Quando lesionada, o uso de curativos torna-se essencial, proporcionando proteção e promovendo a regeneração tecidual, além de evitar a proliferação de bactérias. Nesse sentido, os biopolímeros têm atraído a atenção da comunidade científica devido à sua biocompatibilidade e biodegradabilidade, como a gelatina e o poliácido lático (PLA), podendo ser empregados em sistemas de liberação controlada de fármacos, como o ibuprofeno, um composto eficaz, seguro, com propriedades antipiréticas, anti-inflamatórias e analgésicas. Assim, o presente estudo teve como objetivo avaliar a molhabilidade através do ângulo de contato e drenagem de fluidos de uma membrana biopolimérica bicamada obtida pelas técnicas de casting e electrospinning, desenvolvida para potencial aplicação como curativo tópico para feridas diabéticas. Para a primeira camada, utilizou-se o método de casting, hidratando-se 10 % (m/v) de gelatina em água destilada em temperatura ambiente por 30 min. Após, a solução foi agitada a 200 rpm a 45 ºC por 30 min, seguido da adição de 25 mL de glicerol. Por fim, 0,05 g de ácido gálico foram adicionados com agitação por 60 min. A solução foi alocada em placas de Petri e secas em estufa a 40 ºC por 30 h. A segunda camada foi depositada sobre a primeira, sendo obtida a partir da técnica de eletrospinning. A solução foi preparada dissolvendo-se 8 % (m/v) de PLA em clorofórmio e acetona, sob agitação em temperatura ambiente por 24 h. Em seguida, adicionou-se 10 % de ibuprofeno, agitando por 5 min para a dissolução completa. A solução biopolimérica foi carregada em uma seringa de 3 mL, equipada com uma agulha de 0,8 mm. A vazão foi controlada a 0,8 mL/h utilizando-se uma bomba de infusão. O processo de eletrofiação foi realizado com distância horizontal entre a agulha e o coletor de 20 cm e voltagem de 20 kV, por 2,56 h. Durante o processo, foi mantida uma umidade de 55 2% e temperatura de 18 2 ºC. A análise de molhabilidade para as membranas foi determinada a partir da medida do ângulo de contato pelo método da gota séssil, obtido por um tensiômetro óptico, medindo o ângulo formado entre a gota de água destilada e a superfície da membrana. A capacidade de drenagem do fluido foi determinada adicionando amostras em Paddington cups contendo 20 mL de fluido simulante exsudativo (PBS), sendo mantidos em dessecador com sílica gel por 24 h. A molhabilidade obtida foi de 48,23 2,15 º, a capacidade de drenagem do fluido foi de 77,64 1,48 g/m²/24 h. A partir do exposto, os resultados confirmam a boa molhabilidade, visto que apresenta um ângulo de contato inferior a 90 º, indicando sua hidrofilicidade, além de uma capacidade de drenagem de fluidos maior que 50 g/m²/24 h, sendo resultados que favorecem a absorção do exsudato. Deste modo, através do presente estudo foi possível constatar a molhabilidade e a capacidade de drenagem de fluidos a partir da membrana biopolimérica bicamada e seu potencial para a aplicação em curativos para feridas diabéticas, auxiliando no processo inflamatório da ferida, etapa fundamental do processo de cicatrização, além da proteção contra agentes externos. Como trabalhos futuros, recomenda-se a realização de ensaios microbiológicos, estudos de liberação controlada do fármaco, análises de citotoxicidade e testes in vivo, a fim de comprovar a biocompatibilidade e a eficácia da membrana no processo de cicatrização

    Sínteses e Caracterização da Cinza de Casca de Nozes Usando Espectroscopia Raman

    No full text
    A casca de nozes (CNz) é uma fonte natural e abrasiva usada em diversas aplicações industriais, como para limpeza de superfícies e polimento, e na indústria cosmética como esfoliante para a pele. Trata-se de um material leve, resistente e biodegradável, obtido a partir do fruto da nogueira, que serve também como material de enchimento em certos plásticos e na indústria de petróleo. Nos últimos anos, a indústria de nozes da China experimentou um rápido desenvolvimento. No final de 2020, a produção de nozes da China atingiu 1,1 milhão de toneladas, representando 33,1% da produção total de nozes do mundo, já no Brasil a produção de nozes é 20%, esta produção substancial de nozes levou a uma abundância significativa de CNz como subproduto. No entanto, a utilização atual de CNz permanece relativamente baixa, resultando em desperdício significativo de recursos. CNz são caracterizados por seu alto teor de lignina, textura dura e porosa, grande área superficial e baixo custo. Neste sentido utilizar CNz como matéria-prima de biomassa para produção de cinza de casca de noz (CCNz) com alto teor de carbono, não só permite a utilização de recursos de CNz residuais, mas também reduz o custo de preparação de carbono ativado. Tendo em conta o exposto, surge a necessidade de saber, se seria possível usar CCNz como fonte precursora de grafeno. Para esta finalidade a CCNz precisa ser caracterizada usando diversas técnicas de caracterização, entre estas a espectroscopia Raman. Neste sentido, o objetivo deste trabalho é mostrar a sínteses e caracterização da CCNz, a diferentes temperaturas (400, 600 e 700 ºC) e tempos (60, 90 e 120 min) de carbonização (400, 600 e 700 ºC), usando espectroscopia Raman. Com o intuito de saber qual seria a melhor temperatura e tempo para a produção de grafeno. Para esta finalidade, CNz foram colhidas e submetidas a um processo de lavagem usando agua corrente e água destilada. Finalmente a CNz foram secadas numa estufa a uma temperatura de 100ºC por um tempo de 24 horas. Posteriormente, a CNz foi queimada em forno mufla nas temperaturas de 400, 600 e 700 ºC, com tempos controlados de 60, 90 e 120 min., para cada uma das temperaturas. Após as amostras passarem pelo processo de queima a CCNz carbonizada passou pelo processo de moagem até ser reduzida a pó, a qual foi depositada sobre substratos de SiO₂, para posteriormente ser caracterizada por espectroscopia Raman. Esta técnica permitiu identificar a desordem estrutural da CCNz através da análise da largura e intensidade das bandas D e G. A banda D está relacionada com a desordem na estrutura cristalina da CCNz, devido a defeitos, tais como: impurezas, efeitos de borda, dopagem entre outros. Uma maior largura significa maior desordem. Em tanto que, a banda G surge devido à ligação carbono-carbono em materiais carbonosos, em hibridização Sp². Resultados deste trabalho mostram que em todas as temperaturas (400, 600 e 700 ºC) e tempos (60, 90 e 120 min), a largura da banda D (~1342 cm⁻¹) é maior que a largura da banda G (~1570 cm⁻¹). Nas temperaturas de 400 e 600 ºC, para todos os tempos, a intensidade da banda G é maior que a intensidade da banda D. Por outro lado, na temperatura de 600 ºC a intensidade e largura das bandas D e G, para todos os tempos são comparáveis. Na temperatura de 700 ºC a intensidade da banda G aumenta a medida que aumenta o tempo de carbonização. Comparação dos espectros Raman, mantendo o tempo fixo e variando a temperatura, mostra que no tempo de 60 min, a largura da banda D e intensidade da banda G é maior na temperatura de 400 ºC que nas temperaturas de 600 e 700 ºC. No tempo de 90 min, a largura da banda D e intensidade da banda G são comparáveis nas temperaturas de 600 e 700 ºC, quando comparado com a temperatura de 400 ºC. Por outro lado, no tempo de 120 min, a largura da banda D e intensidade da banda G são semelhantes nas três temperaturas estudadas. Destes resultados podemos concluir que a temperatura de 400 ºC e tempo de 120 min seriam parâmetros adequados para a produção de grafeno a partir da CCNz. Analises de desordem estão sendo realizadas a fim de verificar o afirmado

    Concreto Permeável: Solução Sustentável para Cidades

    No full text
    A evolução da urbanização nas cidades brasileiras provocou aumento significativo no escoamento superficial e na intensidade das inundações. Os desastres climáticos que atingiram Porto Alegre, Alegrete e outras cidades do Rio Grande do Sul reforçaram a necessidade de alternativas para mitigar esse problema. Uma solução promissora foi o uso de concreto permeável em passeios e pavimentos, restaurando a capacidade de infiltração do solo. Esse material constituído por uma matriz porosa de agregado graúdo revestido por uma fina camada de pasta de cimento, resulta com elevado índice de vazios e perda de resistência mecânica. A mistura utilizada apresentou relação agregado/cimento de 4:1, relação água/cimento de 0,26 e aditivo/cimento de 0,007, visando uma porosidade alvo de 25%, sendo aplicada a metodologia brasileira IPT-EPUSP para estimativa da densidade teórica. O agregado empregado foi brita basáltica de Alegrete/RS, com diâmetro máximo nominal de 9,5 mm e módulo de finura 5,78. O cimento escolhido foi o Portland CP V-ARI, pela elevada pureza, e utilizou-se também um aditivo modificador de viscosidade bi polimérico, que melhorou a reologia. A compactação foi feita em camada única com rolo, simulando aplicação in loco. Após 72 horas, os espécimes foram desmoldados e curados por 28 dias em câmara úmida. Foram moldados corpos de prova cúbicos (150 mm), prismáticos (100×100×350 mm) e blocos (400×400×200 mm). Obtiveram-se densidade média de 1870,97 ± 13,10 kg/m³ e porosidade média de 27,11 ± 0,39%. O ensaio de compressão em quatro amostras apresentou resistência média de 4,80 ± 0,51 MPa. Ensaios complementares de compressão diametral, flexão em três pontos e flexão em quatro pontos resultaram em 0,87 ± 0,18 MPa, 1,78 ± 0,01 MPa e 1,66 ± 0,29 MPa, respectivamente. A taxa de infiltração em blocos foi de 18.524 mm/h (0,0051 m/s), em consonância com valores de concretos permeáveis relatados na literatura. Paralelamente, utilizou-se o Método dos Elementos Discretos formado por barras (do inglês LDEM), implementado no Abaqus/Explicit, para simulações numéricas. Foram aplicadas leis constitutivas bi lineares, que combinaram o regime elástico linear com um modelo de fissuras distribuídas baseado na energia de fratura em modo I (Gf). A discretizarão espacial foi realizada com elementos de treliça 3D de 2 nós. Os resultados mostraram boa correlação: resistência à compressão de 4,78 MPa (erro de -0,4%), resistência à tração de 0,63 MPa (erro de -27,6%) e resistências à flexão de 2,07 MPa e 1,84 MPa em três e quatro pontos, com erros de +16,3% e +10,8%, respectivamente. O padrão de fissuração simulado apresentou boa correspondência com o observado experimentalmente, embora a curva pós-pico, especialmente na flexão de quatro pontos, tenha sido de difícil reprodução. Com resistência à flexão superior a 1 MPa, o concreto permeável avaliado mostrou-se adequado para tráfego de pedestres, mas ainda inviável para tráfego de veículos leves, pois não atendeu ao requisito mínimo de 2 MPa estabelecido pela NBR 16416 (2015). O uso de agregados de maior qualidade poderia ter melhorado a resistência à compressão, já satisfatória. Os resultados numéricos com o LDEM apresentaram boa concordância com os dados experimentais de resistência, destacando-se como ferramenta promissora, ainda que a modelagem do comportamento pós-pico tenha permanecido como ponto para futuros aperfeiçoamentos. Desta forma pode-se destacar que as simulações numéricas forma promissoras em mostrar a resistência na utilização do concreto permeável em diferentes condições, ajudando a diminuir possíveis ataques climáticos

    Análise Experimental e Numérica do Comportamento Mecânico de Pavimentos de Concreto Permeável

    No full text
    A utilização de pavimentos de concreto permeável no Brasil é uma proposta promissora para tentar diminuir o efeito de enxurradas e como parte ativa de sistemas de reserva e aproveitamento de águas superficiais. No entanto, a confiabilidade de seu desempenho, especialmente quanto à resistência, exige uma série de testes laboratoriais. A uniformidade dos resultados é fundamental, no entanto, análises laboratoriais revelaram uma discrepância, comprometendo a comparabilidade das análises. Essa variação está diretamente ligada à direção de compactação do corpo de prova, que cria um material altamente heterogêneo com resistência variável. Essa descoberta sugere que a orientação do corpo de prova na máquina de ensaio é crucial, influenciando o padrão de fissuração e, consequentemente, a resistência final do material. Inicialmente, corpos de prova prismáticos de concreto permeável foram moldados e compactados com o auxílio de um rolo, o que promoveu uma reorganização dos agregados e gerou uma estrutura com porosidade diferenciada. Essa compactação resulta em uma camada superior de menor porosidade e maior resistência, por conta do contato direto com o rolo compactador, enquanto a camada de base apresenta maior porosidade e, consequentemente, menor resistência. A resistência à tração dos corpos de prova foi analisada por meio do ensaio de flexão em 4 pontos, em duas orientações distintas: na direção da compactação e girada a 90 graus. A análise experimental foi complementada por meio de simulações numéricas, onde modelos de corpos de prova foram realizados utilizando o método de elementos discretos formados por barras (do inglês LDEM). Para isto foi realizada uma subrotina capaz de alterar as propriedades do material modelado em forma de gradiente, o que possibilitou replicar a estrutura do concreto permeável. O modelo numérico foi desenvolvido com camadas que mudam de propriedades ao longo de uma direção do corpo de prova, simulando a variação de porosidade e resistência observada na prática. Essa construção foi realizada no software MATLAB e implementada no ambiente ABAQUS. Tanto experimentalmente quanto numericamente foi possível observar que, quando a carga foi aplicada no sentido da compactação, a fissura se manifestou de forma homogênea, atravessando o corpo de prova de uma face a outra em uma única fissura. Em contraste, ao se aplicar a carga com o corpo de prova girado em 90 graus, a fissura iniciou-se na borda mais porosa e progrediu em direção à borda oposta, resultando em uma resistência geral significativamente menor. A observação de que a orientação do corpo de prova influencia tanto o padrão de fissuração quanto o valor de resistência obtido evidencia a relevância dessa variável no comportamento do material. Em suma, os resultados deste estudo demonstram de forma conclusiva que a orientação do corpo de prova na máquina de ensaio é uma variável crítica que influencia diretamente a resistência e o padrão de fissuração do concreto permeável. A observação de que a fissura se manifesta de maneira homogênea no sentido da compactação e de forma progressiva, com menor resistência, quando o corpo de prova é girado, explica a discrepância de resultados frequentemente observada entre laboratórios. Essa descoberta ressalta a necessidade urgente de padronizar os procedimentos de ensaio, garantindo a comparabilidade e a confiabilidade dos dados. Em última análise, a uniformização dos testes é fundamental para consolidar o concreto permeável como um material de engenharia robusto e viável, promovendo sua adoção segura e eficaz em projetos de pavimentação

    Histórias e Memórias: O Legado Músico-Educativo dos Pequenos Cantores do Grupo Escolar Silveira Martins

    No full text
    A pesquisa Pequenos Cantores do Grupo Escolar Silveira Martins, de Bagé/RS: contribuições das práticas musicais para a formação de participantes, desenvolvida no curso de Música Licenciatura da UNIPAMPA, investiga o coro Pequenos Cantores, focando no período de suas atividades entre 1967 e 1978, buscando compreender de que forma as práticas músico-educativas desenvolvidas contribuíram para a formação de seus participantes. O estudo, de caráter qualitativo, articula fontes documentais e orais, adotando como procedimento a história oral temática, que possibilita apreender experiências individuais e coletivas a partir das narrativas dos colaboradores de pesquisa. Foram levantados dados do jornal da época, Correio do Sul, do Arquivo Público Municipal, exemplares do jornal escolar produzido pelo círculo de Pais e Mestres, arquivos pessoais da família da maestrina do coro e cartas recebidas por apoiadores do grupo. Já as fontes orais, foram obtidas através de entrevistas realizadas com ex-cantores do coro e ex-diretoras da escola que participaram ativamente em algum momento dos pequenos cantores. Essas entrevistas complementaram os dados obtidos das fontes documentais, permitindo reconstituir as motivações para a criação do coral, as articulações com a comunidade e poder público, bem como das repercussões culturais e sociais na cidade a partir do trabalho desenvolvido. As entrevistas passaram por processos de transcrição e revisão, considerando elementos subjetivos presentes nas memórias evocadas. Como um dos resultados da investigação, a fim de disponibilizar ao público as fontes documentais e orais obtidas durante a pesquisa, foi criado um repositório digital, pensando na guarda e difusão das fontes, garantindo além da disponibilização ao público, a preservação digital desse patrimônio músico-educativo. A plataforma escolhida para o projeto digital foi o Blogger, interconectado ao Google Drive. A decisão se baseou na gratuidade, facilidade de manuseio e longa disponibilidade online das ferramentas. Enquanto o Blogger serve como interface principal para hospedagem de textos, imagens e interação com os leitores, o Google Drive armazena e disponibiliza outros formatos de arquivo, como PDFs e documentos sonoros, já que a plataforma principal não suporta esses formatos de forma nativa. A escolha da identidade visual do repositório digital foi inspirada no uniforme utilizado pelos pequenos cantores, tendo como cores predominantes o azul e o vermelho, reforçando a dimensão memorial e cultural do coro. O repositório foi estruturado de forma intuitiva em seções (também chamadas de abas), como: O Coral dos Pequenos Cantores (1967-1978), que narra a história do grupo; Música e educação durante o regime militar no Brasil; Documentos sonoros, com áudios de apresentações em festivais e de um CD gravado ao vivo com músicas do coro; Documentos escritos, principalmente com matérias de jornais e arquivos pessoais de ex-participantes; Documentos visuais, com fotografias do grupo na época e imagens de integrantes da equipe durante o processo de pesquisa; e Entrevistas, com as transcrições das conversas com os colaboradores da pesquisa. Conclui-se que as práticas músico-educativas desenvolvidas contribuíram de forma significativa para a formação das crianças, jovens e adultos envolvidos, fortalecendo laços comunitários e gerando impactos sociais e profissionais duradouros. A criação do repositório digital representa uma estratégia eficaz de preservação e difusão desse patrimônio, preservando o importante legado do grupo para as futuras gerações, ampliando sua acessibilidade e abrindo caminhos para novas pesquisas e para o diálogo intergeracional sobre a história da educação musical escolar no Brasil

    A MAGIA DA VÓ JOVITA: LITERATURA-TERREIRO E RESISTÊNCIA NO BATUQUE DO RIO GRANDE DO SUL

    No full text
    Ao pensarmos em temas relacionados às culturas e tradições de matriz africana na literatura, percebemos que aquelas obras destacadas advêm de autores não-negros e, muitas vezes, não iniciados. Um nome recorrente é o de Jorge Amado (1912-2001), especialmente pela obra Tenda dos milagres (1969). Ainda, ao pensarmos em autoria de líderes religiosos temos três nomes ligados ao Candomblé: Mestre Didi (1917-2013), com a obra Contos negros da Bahia (1969); Mãe Beata de Yemonjá (1931-2017), com a obra Caroço de dendê (1997); e Mãe Stella de Oxóssi (1925-2018) com uma vasta publicação. Contudo, ao pensarmos a tradição do Batuque do Rio Grande do Sul, percebemos uma lacuna, acentuada pelo projeto de embranquecimento do país e falsa imagem construído de uma região majoritariamente descendente de europeus. É, então, a partir dessa lacuna que o Babalorixá João Carlos de Odé (1948-2009) escreve em 1999 duas obras: Yemanjá quer falar contigo (1999), um livro de contos, e O malandro e o gaudério (1999), uma novela. Assim, esse trabalho pretende analisar um dos contos da obra Yemanjá quer falar contigo (1999), A magia da vó Jovita, percebendo o enredo, o narrador-personagem e a construção da protagonista Vó Jovita. O arcabouço teórico utilizado para análise parte do conceito de literatura-terreiro pensado pelo pesquisador Henrique Freitas (2016) a partir das obras literárias de Mestre Didi, Mãe Beata de Yemonjá e Mãe Stella de Oxóssi, mas também a partir do texto multimodal dos terreiros, ou seja, a análise de ítãs (contos da mitologia africana), cânticos, provérbios, etc. No conto, A magia da vó Jovita, o narrador relembra suas idas à feira livre do Partenon com sua avó, Vó Jovita. Durante o passeio, descreve suas vivências ao percorrer a feira, as negociações, os produtos vendidos e o respeito que a avó recebia por ser Mãe de Santo de Xangô, ele descreve o ambiente sonoro, seus sentidos passeavam por todo lugar. Além das compras, relembra episódios e histórias que cercavam a figura poderosa de Vó Jovita, considerada protetora e justiceira. Porém há um acontecimento específico que é descrito quando, após cair e ser ridicularizada por alguns homens, Vó Jovita invoca a força dos orixás e provoca uma tempestade que assusta e pune os zombadores. A personagem protagonista é Vó Jovita, como personagem secundário o seu neto que narra a história, narrador-personagem. Se passa pela manhã, iniciando bem cedo com o cantar dos pássaros. O espaço principal é a feira livre de Partenon descrita assim, como um lugar movimentado, barulhento, com variedade de produtos e um cenário de intensa interação social, cheio de vozes, risadas, cores e cheiros. Que se misturavam com lembranças do narrador que recapitulava histórias de Vó Jovita transmitidas oralmente e integradas ao folclore do Batuque. Como também o ambiente se transforma após sofrer zombarias, ela invoca seus orixás, e o dia que estava ensolarado, logo tornou se escurecido, formando um redemoinho de areia. Onde havia homens gargalhando transformou-se em caos de desespero, convulsões e vômitos. O conto exalta a força simbólica da religiosidade afro-brasileira e sua relevância na construção de memórias, identidades e resistência cultural. Ainda, retrata de forma mnemônica a relação entre o mundo invisível (o Orum) e o mundo material (o Ayê), ambos interligados na visão orixaística, termo pensado pelo pesquisador Hendrix Silveira (2016). Por fim, esse trabalho apresenta uma análise parcial de um projeto em andamento sobre a obra do autor e que, além da visibilidade, busca oferecer ferramentas e obras para uma educação para as relações étnico-raciais, especialmente, na educação básica

    PRÁTICAS AVALIATIVAS NO PET-LETRAS: UM PROCESSO CONTÍNUO DE APRENDIZAGEM E CONSTRUÇÃO COLETIVA

    No full text
    A partir da minha vivência acadêmica e da experiência como integrante do PET-Letras na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), campus Bagé, construí este trabalho para refletir sobre a avaliação no grupo. Entendo-a não apenas como uma ação técnica, mas como um processo que contribui para a formação, promove a participação e se fortalece de maneira contínua. O Programa de Educação Tutorial (PET) tem se consolidado como uma das mais significativas iniciativas de formação acadêmica no Brasil desde sua criação, em 1979. No caso do PET-Letras Bagé, essa relevância se traduz não apenas na integração entre ensino, pesquisa e extensão, mas principalmente na maneira como as práticas são avaliadas, discutidas e aprimoradas coletivamente. Este estudo tem como objetivo analisar esse processo avaliativo, compreendendo como ele é concebido e ressignificado no cotidiano do grupo. A avaliação é central porque desafia os integrantes a refletir sobre suas práticas, reconhecer avanços e identificar caminhos para aprimorar a atuação. Diferente de modelos tradicionais, que muitas vezes se limitam à mensuração de resultados, a avaliação no PET é contínua, reflexiva e participativa. Envolve autoavaliação, análise coletiva de relatórios e registros e diálogo constante entre tutora e petianos, estimulando o desenvolvimento de duas competências fundamentais: a autonomia intelectual e a perseverança estudantil. Autonomia porque aprendemos a pensar sobre nossa própria formação, a propor melhorias e a identificar necessidades. Perseverança porque o processo nem sempre é fácil, exige comprometimento, disposição para a crítica e abertura para a mudança. Metodologicamente, minha pesquisa se fundamenta em uma abordagem qualitativa, com caráter descritivo-analítico. Busco compreender o sentido das práticas avaliativas que vivenciamos, investigando não apenas como ocorrem, mas também seus motivos e finalidades. Para isso, analisei documentos, relatórios e registros internos, além de revisitar a trajetória do PET no Brasil. Esse percurso evidenciou que a avaliação é fundamental para a permanência e relevância do programa como política pública no ensino superior. Pode-se destacar que a avaliação no PET-Letras não é um fim em si mesma; ela é um meio de transformação, um caminho para aperfeiçoar o grupo, potencializar projetos e, principalmente, formar cidadãos mais críticos, conscientes e capazes de intervir de maneira positiva na sociedade. Ao valorizar práticas avaliativas formativas, o programa reafirma seu compromisso com a democratização do conhecimento e com a transformação social. Nós avaliamos praticamente tudo o que fazemos. Um exemplo é a Rádio Uni, projeto que leva conteúdo educativo e cultural à comunidade. Após cada episódio, o grupo realiza uma avaliação coletiva, discutindo aspectos técnicos, organização, relevância do tema e cumprimento do cronograma. Esse processo orienta melhorias para as próximas produções e amplia o impacto do projeto. A mesma dinâmica é aplicada às demais ações do PET-Letras, como o Reforço Escolar, oficinas, rodas de leitura e eventos culturais, em que se analisam pontos fortes, dificuldades e estratégias de divulgação e execução. Essas avaliações permitem ajustes, valorizam o esforço coletivo e constroem um histórico de boas práticas que orienta futuras ações. Assim, a avaliação no PET-Letras ultrapassa a simples mensuração de resultados, funcionando como um processo contínuo que promove aprendizagem e evolução dos integrantes. Além disso, o grupo constrói um histórico de boas práticas que orienta futuras ações, fortalecendo a qualidade e o impacto das atividades. Dentre alguns modelos de avaliação, podemos citar a avaliação como exame, que conforme Chuieiri (2008), se relaciona à pedagogia tradicional, focada na punição. A autora aponta que uma concepção oposta de avaliação é a qualitativa, que avalia de forma processual e reflexiva, é essa a concepção adotada no PET-Letras, acompanhando o progresso ao longo do tempo. Em reuniões periódicas, realizamos a avaliação para buscar entender o que funcionou bem e o que pode melhorar. Essas avaliações são feitas em grupo, em diálogo com a tutora, e servem para aperfeiçoar as próximas atividades, corrigir falhas, valorizar os acertos e fortalecer o trabalho em equipe. Mais do que apontar erros, esse processo nos ensina a refletir sobre nossa prática, a ouvir opiniões diferentes e a transformar críticas em oportunidades de crescimento. Dessa forma, a avaliação se torna um instrumento que nos dá autonomia para propor mudanças, confiança para enfrentar desafios e preparo para atuar de maneira mais consciente e responsável, tanto na universidade quanto na sociedade

    Para Além da Escrita: Desenvolvimento da Autoria e da Argumentação na Redação do ENEM

    No full text
    O presente resumo apresenta os resultados da pesquisa EDUCAÇÃO CIDADÃ ATRAVÉS DA REDAÇÃO DO ENEM: AUTORIA E ARGUMENTAÇÃO, desenvolvida no Mestrado Profissional no Ensino de Línguas (MPEL), da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). A partir desta pesquisa criou-se um projeto de extensão, cujo título é Curso preparatório para a redação do ENEM, que teve como objetivo desenvolver atividades de preparação para a redação do ENEM a partir da perspectiva do Letramento Crítico e da Educação em Direitos Humanos. Para o projeto de pesquisa foi realizada uma etapa diagnóstica para analisar o conhecimento dos alunos acerca do texto dissertativo argumentativo, com isso, percebeu-se a grande dificuldade dos alunos na escrita deste tipo textual, principalmente na mobilização de um repertório sociocultural, argumentação e construção da proposta de intervenção. Desta maneira, foi elaborado um curso que ajudasse os alunos em suas dificuldades. O curso foi desenvolvido no município de Pinheiro Machado-RS, no Colégio Estadual General Hipólito Ribeiro. O curso foi estruturado em 12 encontros, divididos em 3 blocos, que focaram no desenvolvimento da argumentação e da autoria. Além disso, observamos a mobilização de um repertório sociocultural do aluno, enfatizando que esse repertório é uma característica pessoal do participante, e o trabalho com o exercício da cidadania, a partir da Educação em Direitos Humanos (EDH). Os dois primeiros blocos trabalharam o desenvolvimento da argumentação e da autoria, respectivamente, por meio de atividades preparatórias orais e escritas estruturadas a partir das temáticas Enchentes no RS (bloco 1) e Direitos da criança e do adolescente (bloco 2). Ao final de cada bloco, os participantes produziram uma redação no modelo ENEM a partir de textos norteadores sobre as temáticas desenvolvidas. No bloco 3 foram retomadas as principais dificuldades identificadas nas duas produções textuais, reforçando o desenvolvimento da argumentação e da autoria de forma conjunta, além disso, ocorreu a reescrita das redações do bloco 1 e 2. Durante o desenvolvimento dos blocos 1 e 2, notou-se que os alunos demonstraram amplo conhecimento sobre assuntos atuais e expressaram suas opiniões de forma firme e engajada. No entanto, eles enfrentaram dificuldades na hora de textualizar seus argumentos, precisando de orientações para suas construções argumentativas. Além disso, apresentaram desafios na escolha de um repertório sociocultural adequado, o que compromete a fundamentação de suas ideias. Também tiveram dificuldade na organização estrutural da redação, com dificuldades em seguir a formatação exigida com os quatro pontos: introdução, desenvolvimento (argumentos) e conclusão (proposta de intervenção). Esses resultados indicam que são extremamente necessárias atividades direcionadas que fortaleçam tanto a capacidade de argumentação quanto a habilidade de articular exemplos e referências de forma coerente, garantindo textos mais claros e coerentes. Ao corrigir as primeiras redações utilizou-se um feedback do que cada um tinha que melhorar para a reescrita, sempre motivando o aluno. Para essa correção focou-se em aspectos de desvios gramaticais, estrutura textual, utilização de repertório sociocultural e a construção de uma proposta de intervenção. Percebeu-se que alguns alunos não tinham uma base de como escrever uma redação, embora durante o curso eles tenham visto. Então, na primeira escrita deles observou-se que alguns textos não tinham introdução ou uma linguagem adequada para uma redação. Para a correção da segunda versão das redações, utilizou-se um feedback familiar da primeira correção, apontando onde o aluno podia melhorar, além disso, também foi utilizada a correção padrão ENEM, em que era apontado para o aluno qual a nota de cada competência. Na segunda versão das redações, constatou-se uma melhora significativa, em relação à estrutura do texto, em que ao ler verificava-se que o texto tinha introdução, desenvolvimento e conclusão. Além disso, enfatiza-se também uma melhora nas questões de argumentação, repertório sociocultural e na proposta de intervenção. Diante da observação ao longo da pesquisa, é possível concluir que embora inicialmente os alunos apresentassem dificuldades na construção de uma redação, houve uma evolução significativa após receberem orientações específicas e feedback detalhado. A prática da reescrita, aliada ao acompanhamento individualizado, contribuiu para aprimorar a clareza, coerência e a articulação das ideias, bem como a formulação de uma proposta de intervenção consistente. Esses resultados evidenciam a importância do desenvolvimento da redação, mostrando que os alunos podem consolidar a autoria e a argumentação em textos dissertativos-argumentativos, fortalecendo não apenas suas habilidades, mas também sua consciência cidadã

    Aspectos morfológicos referentes à variação dos sufixos avaliativos -inh-/-zinh-: paroxítonas terminadas em /e/

    No full text
    Inserido no projeto Gramática do Português: teoria, análise e ensino, este trabalho analisa, a partir de um corpus de língua escrita baseada na fala infantil, a distribuição dos sufixos avaliativos -inh-/-zinh- (rede > redinha ~ redezinha). Nosso objetivo é analisar a variação de acordo com fatores morfológicos, focando nos casos de vogal temática /e/ em paroxítonas, a fim de compreender se há preferências de acordo com critérios estruturais e hipotetizar as possíveis causas destas. Estudos anteriores mostram uma preferência por -inh-, tanto em palavras reais quanto em pseudopalavras (cf. Simioni e Schwindt, 2018). Em relação aos aspectos morfológicos, Lee (2013) afirma que radicais com vogal temática recebem o acréscimo do sufixo -inh- (bolo > bolinho), enquanto que os radicais que não as possuem recebem -zinh- (sol > solzinho). As paroxítonas terminadas em /e/ (Bisol, 2011; Simioni, Schwindt, 2018) são uma estrutura privilegiada por permitir a variação dos sufixos avaliativos, pois sua vogal final não interage com a informação sobre gênero gramatical - ao contrário do que acontece com as paroxítonas terminadas em /a/ ou /o/. Quanto ao tipo e gênero da base, Simioni e Schwindt (2018) indicam que palavras uniformes, independente do seu gênero, preferem -zinh- (ponte > pontezinha) enquanto que as palavras biformes, estejam no feminino ou no masculino (moleque > molequinho), preferem -inh-. A fim de analisar a distribuição dos sufixos avaliativos -inh-/-zinh- e determinar os possíveis fatores que os influenciam, analisamos um corpus de língua escrita composto por legendas de filmes/séries infantis e textos lidos/escritos por crianças, o LexPorBR Infantil (Estivalet et al., 2019). Realizamos o download do banco de dados e o filtramos até obter apenas palavras com a sequência inh, excluindo os nomes próprios e as palavras que não se enquadravam como diminutivos (agostinho, caminho). Chegamos em 3.577 palavras, que foram classificadas a partir dos seguintes fatores: i) palavra; ii) sufixo; iii) base; iv) segmento final da base; v) número de sílabas da base; vi) número de sílabas do produto; vii) acento da base; viii) classe da base; ix) tipo de gênero da base, uniforme ou biforme; x) gênero da base, se feminino ou masculino; xi) frequência. Em relação à frequência geral, -inh- é o mais utilizado, ocorrendo em 79% (2.826/3.577) das palavras, enquanto que -zinh- ocorre em 21% (751/3.577). Em relação à vogal terminal da base, -inh- é mais frequente, ocorrendo em 95% nas palavras terminadas em /a/, em 98% nas terminadas em /o/, sendo permitida a variação apenas nas palavras terminadas em /e/, com 81% utilizando -inh- e 19% utilizando -zinh-. Quanto ao tipo de gênero da base, -inh- é predominante em todas as classificações. Em relação ao gênero da base, aquelas que permitem ambos os gêneros apresentam um maior equilíbrio na preferência entre ambos sufixos, enquanto que as outras optam por -inh-. A etapa atual desta pesquisa visa fomentar a produção de um TCC em andamento; assim, para atender ao recorte temático deste trabalho, o banco de dados foi mais uma vez filtrado, selecionando-se somente as palavras paroxítonas terminadas em /e/ (214 dados). Em relação aos fatores estruturais, foi possível observar que i) palavras menores (2 a 3 sílabas) permitem mais o uso de -zinh-, apesar de -inh- ser mais frequentes mesmo nesses casos, enquanto palavras maiores (5 a 6 sílabas) preferem -zinh- por ser um sufixo preservador de estrutura; ii) palavras femininas tendem ao equilíbrio entre -inh- e -zinh-, enquanto palavras masculinas preferem formações com -inh-; iii) não há influência do tipo de gênero (biforme/uniforme) ou da classe gramatical. Quanto à frequência, palavras de baixa frequência (<10 ocorrências) começam a permitir formações com -zinh-; apesar disso, -inh- é predominante em todas as faixas de frequência. Por fim, considera-se que apesar da vasta literatura sobre o tema, este trabalho possui um recorte ainda pouco estudado, podendo contribuir para aspectos inovadores da área. BISOL, Leda. O diminutivo e suas demandas, uma versão revisitada. ReVEL, edição especial n. 5, 2011. ESTIVALET, G.; HARTMANN, N. S.; MAQUIAFAVEL, V.; LUKASOVA, K.; CARTHERY-GOULART, M. T.; ALUÍSIO, S. M. LexPorBr Infantil: uma base lexical tripartida e com interface Web de textos ouvidos, produzidos, e lidos por crianças. Anais XII Symposium in Information and Human Language Technology and Collocates Events. Porto Alegre: SBC, 2019. LEE, S-H. Interface fonologia-morfologia: diminutivos no PB. Diadorim, n. especial, p. 113-125, 2013. SANTOS, A. G. dos; COELHO, S. M. Uma reflexão acerca do emprego do sufixo diminutivo no português do Brasil. Revista Alpha, Pato de Minas, v. 9, n. 9, p. 149-157, nov. 2008. SIMIONI, T; SCHWINDT, L. C. O sufixo -inhv/-zinhv e as palavras paroxítonas terminadas em vogal em português brasileiro. Estudos linguísticos e literários, n. 61, p. 70-84, 2018

    Variação das vogais médias /e/ e /o/ nas cidades de Santana do Livramento e Bagé

    No full text
    Esta pesquisa foi desenvolvida no âmbito do projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALiB): análise e descrição do falar gaúcho, coordenado pela profa. Dra. Hélen Cristina da Silva, no qual a autora atua como bolsista de Iniciação Científica (Edital 289/2024 - PIBIC/CNPq/UNIPAMPA). A presente pesquisa, de caráter quanti-qualitativo, tem como objetivo analisar, comparativamente, a variação fonética das vogais médias /e/ e /o/ em posição átona final na fala das cidades fronteiriças de Santana do Livramento e Bagé. Busca-se verificar se, nessas localidades, ocorre o fenômeno do alçamento vocálico, caracterizado pela elevação das vogais médias /e/ e /o/ para as altas /i/ e /u/, ou se há a manutenção da realização. O estudo fundamenta-se nos princípios teórico-metodológicos da Dialetologia Pluridimensional (THUN, 1998) e analisa a fala de quatro informantes de cada localidade, contemplando fatores geográficos e sociais, com o objetivo de registrar a variação das vogais médias /e/ e /o/ nos dados coletados e compreender os padrões observados, discutindo possíveis influências sociais, regionais e de contato linguístico que expliquem a variação. As cidades de Santana do Livramento e Bagé, situadas na região da Campanha gaúcha, compartilham a condição de fronteiriças com o Uruguai. Santana do Livramento limita-se diretamente com a cidade de Rivera, separada apenas por uma praça; Bagé, por sua vez, faz fronteira com Aceguá, distante aproximadamente 61 km. Esse contexto geográfico é central para a investigação, pois permite levantar hipóteses sobre possíveis influências do espanhol na fala das comunidades locais. Os dados analisados compõem o acervo do projeto Atlas Linguístico do Brasil ALiB (CARDOSO et al., 2014). Em cada localidade, foram analisadas entrevistas realizadas com quatro informantes, de ambos os sexos e distribuídos em duas faixas etárias: Faixa I (1830 anos) e Faixa II (5065 anos). O corpus selecionado corresponde a seis itens lexicais do Questionário Fonético-Fonológico QFF (Comitê, 2001), do ALiB, a saber: [ 08 - Travesseiro] aquilo onde se recosta a cabeça para dormir na cama?; [39 - Árvore] O que é que dá sombra nas ruas?; [48 -Rato] o bichinho que o gato caça; [55 - Noite] Quando fica tudo escuro e as pessoas vão dormir é a?; [ 93 -Soldado] A pessoa que usa farda, que vive em quartel e [ 144- Perfume] O que é que se põe no corpo para ficar cheiroso? Ao todo, a análise das seis questões resultou em 48 ocorrências, das quais 11 (23%) corresponderam à manutenção das vogais médias e 37 (77%) ao alçamento. Os resultados evidenciam distinções significativas entre as duas localidades investigadas: em Bagé, predomina a manutenção das vogais médias (82%), enquanto em Santana do Livramento observa-se o predomínio do alçamento (82%). Em termos segmentais, a vogal /e/ mostrou-se ligeiramente mais suscetível ao alçamento (51%) em comparação com /o/ (49%). No que se refere aos fatores sociais, constatou-se que as mulheres apresentam comportamentos mais homogêneos e estáveis, ao passo que os homens exibem maior variabilidade em suas realizações. Essa diferença pode ser interpretada à luz da sociolinguística variacionista (LABOV, 1972), segundo a qual as mulheres tendem a desempenhar o papel de preservação das normas locais, enquanto os homens se mostram mais propensos à variação e à mudança linguística. O fator idade também se revelou relevante: os informantes mais velhos preservam com maior frequência as vogais médias, ao passo que os mais jovens demonstram maior flutuação entre médias e altas. Considerando o espanhol uruguaio, no qual as vogais médias /e, o/ em posição átona final tendem a ser mantidas (QUILIS, 1999), os dados deste estudo apontam um cenário diverso: em Santana do Livramento, onde há contato intenso com o espanhol, verificou-se maior frequência de alçamento, enquanto em Bagé, mais afastada desse contato, prevaleceu a manutenção. Esse contraste sugere que o contato linguístico na fronteira não se explica por uma simples convergência fonética com o espanhol, mas resulta de dinâmicas mais complexas. Tais resultados podem ser compreendidos a partir de (i) estratégias de diferenciação interlinguística, em que o alçamento atua como traço distintivo do português frente ao espanhol; (ii) processos endógenos de mudança no português brasileiro, que se difundem também em áreas de fronteira; e (iii) condicionamentos linguísticos e sociais, relacionados a fatores como faixa etária, gênero, redes de interação e distribuição lexical. Por fim, destaca-se que essas conclusões se apoiam em um corpus reduzido, o que recomenda cautela em sua generalização. Os achados, entretanto, ressaltam a importância de estudos mais abrangentes e sistemáticos, capazes de explorar em maior profundidade a interação entre fatores internos da língua e contextos de contato, de modo a ampliar a compreensão dos mecanismos de variação e mudança no português falado em regiões fronteiriças

    0

    full texts

    25,936

    metadata records
    Updated in last 30 days.
    Publica-se Portal de Periódicos Científicos da Universidade Federal do Pampa
    Access Repository Dashboard
    Do you manage Open Research Online? Become a CORE Member to access insider analytics, issue reports and manage access to outputs from your repository in the CORE Repository Dashboard! 👇