Publica-se Portal de Periódicos Científicos da Universidade Federal do Pampa
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Óleo Essencial de Corymbia Citriodora Como Alternativa Natural no Controle de Fusarium Spp em Soja
A cultura da soja representa um dos pilares do agronegócio brasileiro, sustentando a economia agrícola nacional e ocupando posição de destaque nas exportações. Entretanto, a produtividade dessa leguminosa encontra limitações impostas por doenças de solo, especialmente aquelas causadas por fungos do gênero Fusarium. Entre as espécies de maior relevância estão F. oxysporum, F. solani e F. graminearum, reconhecidas por provocar sintomas severos como murcha vascular, podridão radicular e podridão de colmo. Essas enfermidades, além de reduzirem o estande inicial e a capacidade produtiva das plantas, favorecem a instalação de outras doenças secundárias, uma vez que comprometem o sistema radicular e a absorção de água e nutrientes. A gravidade do problema é acentuada em sistemas de cultivo contínuo, nos quais o monocultivo da soja se mantém ao longo de várias safras, muitas vezes associado a solos compactados, mal drenados ou sob estresse hídrico. Nessas condições, a sobrevivência do patógeno em restos culturais permite a sua perpetuação, transformando-o em um desafio recorrente para os produtores. Os métodos de manejo tradicionalmente empregados como a utilização de sementes tratadas, a rotação de culturas com espécies não hospedeiras e o uso de cultivares tolerantes contribuem para atenuar os impactos, mas ainda não asseguram o controle efetivo. Essa lacuna evidencia a necessidade de novas estratégias de manejo, com enfoque em práticas ambientalmente mais seguras e economicamente viáveis. Entre as alternativas estudadas, os óleos essenciais têm despertado crescente interesse devido às suas propriedades biológicas e ao potencial de reduzir a dependência de fungicidas sintéticos. Esses compostos naturais, frequentemente associados a atividades antimicrobianas, apresentam a vantagem de serem biodegradáveis e de menor impacto ambiental, características alinhadas às demandas atuais de sustentabilidade agrícola. Nesse contexto, o presente trabalho teve como objetivo avaliar, em condições de laboratório, a atividade antifúngica do óleo essencial extraído da biomassa foliar verde de Corymbia citriodora frente a isolados de Fusarium spp. Para isso, o óleo foi incorporado ao meio de cultivo BDA em três diferentes concentrações (0; 0,8 e 1 µL/mL), previamente homogeneizado e distribuído em placas de Petri. Fragmentos de micélio de Fusarium foram depositados no centro das placas, posteriormente vedadas com parafilme e incubadas em câmara de crescimento, sob temperatura controlada variando de 24 a 26°C e ausência de luz, durante sete dias. Após o período de incubação, foram realizadas medições do crescimento micelial e registros fotográficos. Os dados obtidos foram analisados estatisticamente por meio do teste de Dunnett, com 5% de probabilidade de erro, além da aplicação de análise de variação pelo teste F a 5% de probabilidade de erro, utilizando o software Genes. Os resultados revelam que, nas concentrações de 0,8 e 1 µL/mL, o óleo essencial de C. citriodora promoveu inibição micelial próxima de 90% nas amostras avaliadas. Esses achados sugerem efeito fungicida relevante, provavelmente associado à presença de compostos bioativos capazes de comprometer a morfologia e o desenvolvimento das hifas fúngicas, restringindo a colonização do patógeno. Por base nos resultados deste estudo, é possível inferir que há viabilidade de explorar óleos essenciais como agentes alternativos no manejo de doenças de solo, especialmente em culturas de grande importância econômica, como a soja. A continuidade de pesquisas nessa linha poderá ampliar o entendimento sobre os mecanismos de ação desses compostos e contribuir para o desenvolvimento de estratégias integradas de controle, alinhadas aos princípios de uma agricultura mais sustentável
Efeitos do Tratamento com Bifidobacterium Animalis Subsp. Lactis Sobre Alterações Oxidativas em Ratos Wistar Submetidos Administração Neonatal de Glutamato Monossódico
O desenvolvimento precoce do sistema nervoso é particularmente sensível a estímulos químicos, como o glutamato monossódico (GMS), cuja administração neonatal tem sido associada a alterações neurológicas e metabólicas. O GMS pode afetar regiões hipotalâmicas críticas, comprometendo circuitos que regulam a ingestão alimentar e a homeostase energética, aumentando a predisposição a distúrbios metabólicos. Entre essas consequências, destaca-se também a maior susceptibilidade ao desenvolvimento de obesidade ao longo da vida. Além disso, essa exposição pode interferir na composição da microbiota intestinal e na integridade da barreira epitelial, facilitando a passagem de endotoxinas para a circulação e promovendo respostas inflamatórias crônicas que contribuem para resistência à insulina. Intervenções capazes de modular a microbiota, como a suplementação com probióticos, têm se mostrado promissoras, reduzindo o estresse oxidativo, a neuroinflamação e melhorando parâmetros metabólicos, evidenciando a importância do eixo intestinocérebro na manutenção da homeostase sistêmica. Esse cenário ressalta o impacto de estímulos precoces sobre o metabolismo ao longo da vida. O presente estudo teve como objetivo avaliar os efeitos do tratamento com Bifidobacterium animalis subsp. lactis (CCT 7858) sobre parâmetros metabólicos e oxidativos em ratos Wistar submetidos à administração neonatal de GMS. Os animais receberam injeções subcutâneas de GMS (4 g/kg/dia) do 5º ao 14º dia pós-natal, enquanto animais controle receberam salina 0,9% no mesmo esquema de administração.No 25º, os animais foram distribuídos em quatro grupos: Controle e GMS receberam salina, e B. lactis e GMS + B. lactis receberam 1×10⁹ UFC/animal por gavagem durante 28 dias. No 54º dia, os animais foram eutanasiados e foram coletados hipotálamo, hipocampo, córtex, jejuno e cólon para análise de parâmetros oxidativos. Os dados foram analisados por ANOVA de duas vias seguidas pelo teste de Tukey, considerando p < 0,05 (CEUA nº 019/2024). Os resultados mostraram que, no hipocampo, os animais GMS apresentaram aumento significativo dos parâmetros avaliados na produção de espécies reativas de oxigênio (ROS), avaliada por fluorescência de DCF, em relação ao controle, evidenciando maior estresse oxidativo. O tratamento com probiótico reduziu parcialmente essas alterações, apresentando efeito significativo frente ao grupo GMS. No córtex, jejuno e cólon não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, sugerindo que essas regiões não foram sensíveis às alterações induzidas pelo GMS nem moduladas pelo probiótico. No hipotálamo e hipocampo, os animais GMS apresentaram elevação significativa nos níveis de espécies reativas (RS), avaliadas por fluorescência de DCF, enquanto o grupo GMS + probiótico exibiu redução significativa, indicando efeito protetor do probiótico. Por fim, os achados indicam que a exposição neonatal ao GMS promove aumento da produção de espécies reativas (RS), principalmente em estruturas centrais do sistema nervoso, como hipocampo e hipotálamo, enquanto o tratamento com Bifidobacterium animalis subsp. lactis (CCT 7858), foi capaz de atenuar essas alterações, reforçando a relevância da modulação da microbiota e do eixo intestinocérebro como estratégia para prevenção de disfunções metabólicas induzidas por estímulos adversos no período neonatal. Esses resultados contribuem para o entendimento dos mecanismos pelos quais probióticos podem exercer efeitos neuroprotetores, e destacam a importância da microbiota intestinal na manutenção da homeostase sistêmica
Efeitos Reprotóxicos e Neurotóxicos do Fungicida Tebuconazol em Caenorhabditis Elegans
A crescente utilização de pesticidas frente à necessidade de grandes produções agrárias traz preocupação quanto aos reflexos ambientais, uma vez que o uso de defensivos agrícolas de diferentes classes, como o fungicida Tebuconazol (TEB), é realizado de maneira recorrente e equivocada. Estudos anteriores do nosso grupo já detectaram sua presença em amostras naturais do Rio Uruguai na região de Uruguaiana/RS, evidenciando que sua dispersão pode impactar não somente a flora, mas a fauna não-alvo deste agente, como o nematoide de vida-livre Caenorhabditis elegans. Este organismo modelo apresenta sensibilidade a contaminantes, sendo relevante para estudos de potenciais riscos ecotoxicológicos. O objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos reprotóxicos e neuronais do fungicida Tebuconazol (TEB) no nematoide C. elegans, abrangendo desde as etapas iniciais da gametogênese até o desenvolvimento e viabilidade da progênie, além de alterações em neurônios. Para o presente estudo, utilizamos as cepas: N2 (tipo selvagem), BY200 (dat-1p::GFP), LX929 (unc-17::GFP) e MD701 (lim-7p::ced-1::GFP + lin-15(+)), obtidas do Caenorhabditis Genetics Center (CGC), mantidas em meio para crescimento de nematoides (NGM) com E. coli OP50 como fonte de alimento em temperatura controlada de 20ºC. Previamente à exposição, os animais foram sincronizados com solução alcalina para obtenção de ovos, que foram incubados em M9 até a eclosão e obtenção de larvas L1. Após 16 horas de desenvolvimento, os indivíduos no estágio L1 foram expostos ao TEB nas concentrações de 1, 5, 10, 50, 100 e 200 µg/mL, por um período de 48 horas, visando avaliar os efeitos toxicológicos durante as etapas do desenvolvimento. Foram realizadas análises abrangentes para avaliar os efeitos reprotóxicos e neurotóxicos do TEB, como o tamanho da ninhada, a fim de impactos na fertilidade, enquanto a viabilidade dos ovos foi analisada para determinar alterações no desenvolvimento embrionário. Adicionalmente, a contagem de corpos apoptóticos na linhagem germinativa com a cepa MD701 foi conduzida para investigar possíveis induções de morte celular programada nas gônadas de vermes expostos. Para avaliação neurotóxica, foi realizado o ensaio de paralisia induzida por dopamina (SWIP Swimming-Induced Paralysis), testando a funcionalidade de receptores dopaminérgicos. Por fim, a fluorescência em neurônios pode ser quantificada através da utilização de proteína verde fluorescente (Green Fluorescent Protein, GFP) nos sistemas dopaminérgicos (cepa BY200) e colinérgicos (cepa LX929), permitindo a análise quantitativa de danos e expressão alterada de proteínas-chave nesses sistemas neuronais. Os resultados obtidos demonstram o efeito tóxico do TEB em múltiplos sistemas da fisiologia de C. elegans, onde no âmbito reprodutivo observou-se um efeito reprotóxico pronunciado, caracterizado por uma diminuição significativa no número da progênie, que foi acompanhada por um aumento marcante de células em processo apoptótico na linhagem germinativa destes animais. Este fato indica que o TEB interfere diretamente na gametogênese, comprometendo a capacidade reprodutiva dos organismos. Em contrapartida, a viabilidade dos ovos postos não apresentou alteração estatística em relação aos vermes L1, sugerindo que o principal alvo do TEB não é a embriogênese em si, mas sim as etapas anteriores de formação das células germinativas. Do ponto de vista neurotóxico, a diminuição da fluorescência GFP em neurônios dopaminérgicos ocorreu de maneira dose-dependente, apresentando possíveis danos neuronais. Associada a fluorescência, observamos que não houve alterações na paralisia induzida por dopamina, indicando que os danos oferecidos pelo TEB são relacionados aos processos intracelulares. Ademais, a significativa diminuição da fluorescência em neurônios colinérgicos revela que a neurotoxicidade do TEB não é restrita a um único sistema neurotransmissor. Esta ação sobre sistemas neuronais distintos e coexistentes quanto à resposta sináptica sugere que o fungicida possui um mecanismo de ação amplo, possivelmente comprometendo a sinalização inter-sistemas e a integração neural como um todo. O Caenorhabditis elegans é um modelo conhecido e utilizado na esfera da toxicologia, onde as suas respostas contra agentes externos como defensivos agrícolas apresentam alta homologia com seres humanos, tornando os resultados mais miméticos aos efeitos em organismos mais complexos. Em conjunto, nossos dados elucidam um quadro toxicológico abrangente, onde o TEB exerce efeitos deletérios simultâneos sobre a reprodução e o sistema nervoso de C. elegans. Estes achados destacam os potenciais riscos da exposição ao TEB, não apenas para organismos não-alvo em ecossistemas, mas também pela possibilidade de extrapolação de seus efeitos para outros animais, reforçando a necessidade de maior atenção aos seus efeitos ecotoxicológicos e reavaliação de suas práticas de uso
Avaliação da Concentração Letal do Leo Essencial de Corymbia Citriodora (hook.) em Baratas Nauphoeta Cinerea
As plantas são alvos de grande interesse para a prospecção de novos fármacos, inseticidas e cosméticos, por possuírem uma ampla diversidade de substâncias químicas com potenciais princípios ativos de valor para a indústria (Ozygit et al., 2023). Atualmente, com o aumento populacional e da atividade agrícola, o uso inadequado e excessivo de inseticidas tem causado sérios danos ao meio ambiente (Maggi et al., 2023). Nesse cenário, destacam-se as plantas que produzem compostos naturais com atividade inseticida, por apresentarem efeitos menos agressivos ao solo, à água e ao ar (Mattos et al., 2021). Os óleos essenciais vêm sendo amplamente estudados e podem ser extraídos de diferentes partes das plantas, como folhas, flores, cascas, frutos e raízes (Forc, 2019). Sua composição varia conforme a espécie vegetal, e sua função está relacionada à defesa e à adaptação da planta ao ambiente (Mattos et al., 2021). A espécie Corymbia citriodora, pertencente à família Myrtaceae, é popularmente conhecida como eucalipto-cheiroso, eucalipto-cidró ou eucalipto-limão. O óleo essencial extraído dessa planta apresenta propriedades que o tornam uma alternativa potencialmente menos nociva ao meio ambiente em comparação com moléculas sintéticas (Chagas et al., 2002). Neste estudo, foi avaliado o potencial bioinseticida do óleo essencial de Corymbia citriodora por meio de bioensaio de letalidade utilizando baratas da espécie Nauphoeta cinerea, um organismo modelo relevante em estudos sobre o sistema nervoso central e periférico (Adedara et al., 2022). A determinação da Dose Letal Média (DL50) foi realizada com base no método descrito por Leal (2020), com algumas adaptações. Os insetos foram mantidos no Biotério do Campus São Gabriel da Universidade Federal do Pampa, em condições controladas de temperatura (2426 °C), fotoperíodo (12:12 h) e alimento e água ad libitum. A administração dos tratamentos foi realizada por injeção no terceiro segmento abdominal com o auxílio de uma seringa Hamilton (volume fixo de 10 μL), utilizando indivíduos de ambos os sexos (n = 20). As baratas foram tratadas com diferentes concentrações do óleo essencial (20%, 30%, 40%, 50% e 60% v/v). O grupo controle negativo recebeu somente Tween® 80 (1% v/v). As taxas de mortalidade foram registradas após 24 e 48 horas, e os dados foram expressos como média ± erro padrão da média. Os dados de mortalidade foram analisados por meio de ANOVA One-way, seguida do teste de Dunnett como pós-teste (p < 0,001). As análises estatísticas foram realizadas no software GraphPad Prism 8.0.2 (GraphPad Software Inc., San Diego, CA), considerando-se diferenças estatisticamente significativas para p < 0,05. Após 24 horas, todas as concentrações testadas do óleo essencial apresentaram efeito significativo em relação ao grupo controle, com resposta dose-dependente. A concentração de 60% resultou em 80% de mortalidade, enquanto a de 20% causou 40%. A análise de regressão linear permitiu estimar a DL50 nesse intervalo em 53,51 μL/g. Após 48 horas, observou-se a manutenção do efeito dose-dependente, culminando em 100% de mortalidade na concentração de 60%. A DL50 estimada para esse período foi de 59,16 μL/g, confirmando a ação progressiva do composto ao longo do tempo. Esses achados evidenciam a eficácia do óleo essencial de Corymbia citriodora no controle de Nauphoeta cinerea, reforçando seu potencial como agente bioinseticida. A determinação da DL50 contribui para a caracterização da toxicidade e eficácia do extrato, constituindo uma etapa fundamental na validação de produtos naturais para aplicação entomotóxica. No entanto, são necessários estudos complementares para a identificação dos principais compostos ativos, compreensão dos mecanismos de ação envolvidos e avaliação da segurança ecológica em ambientes agrícolas. Dessa forma, o uso de óleos essenciais se apresenta como uma alternativa promissora, com potencial para integrar estratégias de manejo sustentável de pragas
Avaliação de Doses Subletais do Inseticida Imidacloprida Sobre a Frequência Cardíaca de Baratas Nauphoeta Cinerea
A barata da espécie Nauphoeta cinerea (Blattodea: Blaberidae) é nativa do nordeste da África e é um organismo modelo amplamente utilizado em estudos biológicos e toxicológicos. Essa espécie é adequada para avaliar os efeitos fisiológicos e toxicológicos de compostos como o imidacloprida (IMD), possibilitando compreender tanto respostas fisiológicas individuais quanto potenciais impactos ambientais de pesticidas. Trata-se de um inseto hemimetábolo, com metamorfose incompleta, e desenvolvimento nos estágios de ovo, ninfa e adulto. Os adultos medem entre 2,9 e 3,5 cm, pesam aproximadamente 0,5 g e apresentam coloração marrom-acinzentada e asas atrofiadas, incapazes de voo, característica que facilita o manuseio em laboratório (Rossato et al., 2020). A espécie é ovovivípara, com o desenvolvimento das ootecas ocorrendo dentro do corpo das fêmeas, e possuem reprodução sexuada e assexuada por partenogênese, e o ciclo de vida dura em média 135 dias. A expectativa de vida média é de 150 a 200 dias para as fêmeas (Moore e Moore, 2001) e cerca de 94 dias para os machos. O dimorfismo sexual em N. cinerea é observado principalmente pela presença ou ausência de estilos na placa subgenital (Rafael et al., 2024), enquanto outras características, como tamanho e formato do abdome, tem baixa confiabilidade para diferenciação. A compreensão dessas diferenças é importante para otimizar o uso da espécie como organismo modelo em estudos comportamentais e neurotoxicológicos. Os inseticidas, embora essenciais para o controle agrícola, apresentam riscos a organismos não-alvo e ao equilíbrio ambiental (Valles e Koehler, 2022). O presente objetivo é avaliar os efeitos de doses subletais do inseticida imidacloprida sobre a frequência cardíaca de N. cinerea, investigando possíveis diferenças entre sexos. A pesquisa buscou identificar alterações fisiológicas induzidas pelo inseticida, considerando o sexo como uma variável biológica relevante na resposta ao composto. Os experimentos foram conduzidos com animais adultos, separados por sexo. Os indivíduos foram mantidos nas instalações do Biotério da Universidade Federal do Pampa Campus São Gabriel, sob temperatura controlada (2426 °C) e fotoperíodo de 12 horas de luz e 12 horas de escuro, e acesso à água e alimento ad libitum. A frequência cardíaca foi monitorada seguindo o protocolo descrito por Carrazoni et al. (2016). Para a preparação do coração semi-isolado in vivo, baratas adultas foram posicionadas em decúbito dorsal sobre uma placa de dissecação, e as câmaras cardíacas foram expostas com o auxílio de pinça e tesoura. Inicialmente, aplicaram-se 200 µL de solução salina 0,9% sobre o coração, registrando a atividade cardíaca por cinco minutos a fim de estabelecer o ritmo basal. Em seguida, foram adicionados 10 µL das doses subletais de imidacloprida (IMD) (0,01; 0,001; 0,0001 e 0,00001 μg/animal), juntamente com 190 µL de solução salina 0,9%, e a frequência cardíaca foi monitorada por 30 minutos. Por fim, a cavidade cardíaca foi lavada com solução salina 0,9%, e a frequência foi registrada novamente durante cinco minutos para verificar possível recuperação. O ensaio foi realizado com cinco insetos por grupo experimental (n = 5). A análise da frequência cardíaca revelou que os tratamentos com IMD provocaram variações nos batimentos por minuto (bpm) ao longo de 40 minutos, sendo os efeitos mais evidentes nas doses extremas. Nos machos, o grupo controle apresentou média de 89,7 bpm, enquanto as doses de 0,01; 0,0001 e 0,00001 μg/animal aumentaram muito a frequência, atingindo médias de 95,6; 93,6 e 93,8 bpm, respectivamente. Assim como nas fêmeas, a lavagem da preparação não restaurou os valores iniciais. Nas fêmeas, o grupo controle apresentou média de 85,4 bpm, e o tratamento com 0,01 μg/animal elevou a frequência cardíaca, entre 10 e 15 minutos, atingindo média de 93,2 bpm, enquanto a menor dose (0,00001 μg/animal) reduziu a frequência para 79,6 bpm. As concentrações intermediárias (0,001 e 0,0001 μg/animal) não diferiram muito do controle, e a lavagem aos 35 minutos não reverteu as alterações cardíacas. A comparação entre sexos evidenciou uma diferença grande na frequência cardíaca de N. cinerea, com diferenças significativas entre os sexos, indicando variabilidade sexual na suscetibilidade ao inseticida. Esses achados reforçam a necessidade de estudos com maior número de indivíduos e períodos mais longos de exposição, visando compreender melhor os impactos fisiológicos e ambientais dos pesticidas. A inclusão do sexo como variável fortalece a precisão e a relevância das pesquisas toxicológicas, contribuindo para a preservação da biodiversidade
O Gene da Psicopatia
O Gene da Psicopatia
Este trabalho apresenta uma investigação aprofundada sobre a relação entre o gene HTR2B e o transtorno de personalidade antissocial, conhecido como psicopatia. Diversas pesquisas científicas têm demonstrado que a presença desse gene pode predispor indivíduos a atitudes impulsivas e comportamentos violentos, ainda que sua existência, por si só, não determine inevitavelmente a prática de crimes. O interesse central foi compreender como fatores genéticos, neurológicos e sociais se relacionam para moldar a mente de pessoas consideradas psicopatas, buscando analisar os limites entre predisposição biológica e escolhas individuais.
A psicopatia, muitas vezes associada à sociopatia, caracteriza-se por um padrão persistente de comportamento antissocial, ausência de empatia e remorso, além de traços marcados pela ousadia, desinibição e egocentrismo. Nosso estudo procurou compreender se a ativação do gene HTR2B, ligado à produção e regulação da serotonina neurotransmissor fundamental no controle dos impulsos pode ser um dos fatores determinantes para explicar atitudes de frieza emocional, violência seletiva e impulsividade extrema, características frequentemente atribuídas a criminosos e serial killers.
O objetivo principal do trabalho foi analisar, compreender e informar sobre a psicopatia a partir de uma perspectiva multidisciplinar. Buscamos responder questões que sempre despertaram curiosidade: como funciona a mente de um serial killer, quais motivações estão por trás da prática de crimes violentos, e por que em alguns indivíduos portadores do gene HTR2B ele se manifesta em comportamentos impulsivos e antissociais, enquanto em outros permanece latente ao longo de toda a vida.
A metodologia utilizada incluiu ampla pesquisa em documentários, entrevistas disponíveis em meios digitais e análise comparativa de dados coletados em diferentes fontes científicas. Além disso, contamos com a colaboração de um médico psiquiatra e psicólogo, que preferiu não ser identificado, mas compartilhou experiências de sua prática clínica. Esse contato foi essencial para enriquecer a análise e esclarecer dúvidas, possibilitando uma compreensão mais próxima da realidade do transtorno.
Os resultados obtidos apontam que a psicopatia está ligada a uma herança genética complexa, na qual o gene HTR2B desempenha papel importante, mas não absoluto. Estudos científicos, como o realizado na Finlândia com 96 presidiários, revelam que mutações no gene influenciam diretamente o controle de impulsos, confirmando que a genética pode estar associada a padrões de comportamento criminoso. Entretanto, aprendemos também que a condição pode ser identificada em diferentes fases da vida infância, adolescência ou idade adulta e que, em alguns casos, o gene nunca chega a se manifestar.
Um ponto relevante observado é que os psicopatas, ao contrário do que o senso comum sugere, não vivem em delírios ou ilusões. Eles percebem a realidade de forma clara, compreendem a diferença entre certo e errado, mas escolhem cometer atos criminosos sem experimentar remorso ou culpa. Essa frieza está associada ao funcionamento alterado da serotonina, que gera uma necessidade constante de estímulos mais intensos, muitas vezes traduzidos em violência. O caso do chamado maníaco da praia do Cassino, no Rio Grande do Sul, ilustra esse comportamento seletivo e cruel, no qual a escolha das vítimas refletia um padrão psicológico específico, marcado pela ausência total de empatia.
Concluímos que a psicopatia deve ser entendida como um fenômeno complexo, que envolve não apenas aspectos genéticos, mas também fatores psicológicos, ambientais e sociais. Nosso estudo evidenciou que, embora a genética possa predispor ao comportamento impulsivo e antissocial, ela não é uma sentença definitiva. A compreensão dessa condição é essencial não apenas para o campo acadêmico, mas também para a sociedade como um todo, pois contribui para reflexões sobre segurança, prevenção criminal e saúde mental.
A realização deste trabalho nos permitiu ampliar conhecimentos já apresentados em feiras científicas como a FECIBAGÉ e a FECIPAMPA, e consolidar a importância de investigar a psicopatia sob uma ótica científica e crítica. Ao final, reforçamos a ideia de que estudar o gene da psicopatia e seus efeitos não significa justificar crimes, mas sim entender de que forma biologia e comportamento interagem, oferecendo novos caminhos para pesquisas futuras e para o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento e conscientização social
Suplementação com Farinha de Banana Verde na Reprodução de Fêmeas de Drosophila Melanogaster
A infertilidade ou baixa fertilidade em Drosophila melanogaster (mosca-da-fruta) pode ser causada por diversos fatores que afetam a capacidade de reprodução, tanto em machos quanto em fêmeas. Esses fatores podem ser genéticos, ambientais ou fisiológicos como, mutações genéticas, dietas pobres em nutrientes, estresses ambientais e exposições a substâncias tóxicas e pesticidas. O uso de alimentos funcionais no combate da infertilidade tem sido alvo de estudos, pois compostos presentes nesses alimentos prometem melhorar a saúde reprodutiva através da ação em hormônios, qualidade dos gametas, redução de inflamações e estresse oxidativo. Nesse contexto, apresenta-se a farinha de banana verde (FBV), Musa sinensis, que é rica em fibras, como o amido resistente, um carboidrato importante para a digestão e regulador dos níveis de colesterol e glicemia, além de flavonoides, vitaminas e outros compostos bioativos, capazes de ajudar na regulação da homeostase e estabilização de espécies reativas de oxigênio. Em meio a tantos benefícios, o presente trabalho buscou avaliar os efeitos da postura de ovos (ovoposição) em D. melanogaster alimentadas com farinha de banana verde. Para isso, as moscas fêmeas (de 0 a 5 dias de eclosão) foram expostas as concentrações de 100 e 500 mg de FBV em uma mistura de 10 mL de uma mistura contendo 1% de ágar, sacarose e leite em pó em água por um, quatro e oito dias. Ao decorrer dos dias descritos no parágrafo anterior, as moscas fêmeas foram retiradas do tratamento e colocadas em contato com moscas machos, não expostas a FBV, em ágar por 24h na proporção de 2:1 fêmeas/ machos. Após esse período, todas as moscas foram retiradas dos frascos e após 24h foi feita a contagem dos ovos com o auxílio de uma fonte de luz branca no fundo dos frascos em um ambiente de baixa luminosidade. Para o controle, moscas fêmeas foram expostas somente em ágar em um, quatro e oito dias. O tratamento estatístico foi realizado via ANOVA de uma via. Em análise aos grupos avaliados, em relação a variação de dias, observou-se que a concentração de 100 mg FBV obteve uma diminuição na postura dos 500 mg tiveram redução na postura dos ovos no quarto dia de exposição e aumento no oitavo dia. Quando avaliados os grupos em função dos dias, foi analisado que o grupo FBV 500 mg teve aumento na reprodução tendo como resultado maior postura de ovos em relação a concentração de 100 mg e ao grupo controle (ágar). Esse protocolo foi desenvolvido para possibilitar a análise da reprodução de D. melanogaster, possibilitando investigar posteriormente, o crescimento das larvas e seu desenvolvimento por meio de uma alimentação nutritiva e rica em nutrientes, contribuindo para estudos nutricionais e farmacológicos. Embora o uso FBV não seja é um tratamento direto para infertilidade, seu uso pode auxiliar na melhora do ambiente metabólico e hormonal, pois seu uso auxilia na saúde intestinal, o que pode ter um efeito positivo na absorção de nutrientes essenciais para a fertilidade (como zinco, ferro, ácido fólico e vitaminas do complexo B); auxiliar na redução de processos inflamatórios, uma vez que a fermentação do amido resistente no intestino produz ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato, com efeitos anti-inflamatórios; auxiliar no controle de peso corporal, pois seu consumo regular pode ajudar na saciedade e no controle do peso, o que é importante, pois tanto o sobrepeso quanto o baixo peso afetam a fertilidade e ação antioxidante indireta pois através da melhora metabólica geral reduz o estresse oxidativo, que pode afetar a qualidade de óvulos e espermatozoides
Avaliação da Segurança de Nanoesponjas de Grafeno Puro e Funcionalizado com Metais no Modelo Alternativo Caenorhabditis Elegans
O óxido de grafeno (GO) é um nanomaterial promissor com diversas aplicações biomédicas e tecnológicas. No entanto, estudos indicam que ele pode apresentar toxicidade, provocando estresse oxidativo, danos celulares e inflamações, já que, seus resíduos, principalmente de indústrias, são liberados para as águas do meio ambiente, causando malefícios tanto para animais quanto para humanos. Para minimizar esses efeitos adversos, nanoesponjas de grafeno puro e grafeno funcionalizado com metais como ouro (Au), ferro (Fe) e prata (Ag) foram produzidas com o objetivo de adsorver esse tipo de poluição das águas de forma mais segura. Nesse contexto, compreender os riscos à saúde e ao meio ambiente desses novos materiais é fundamental para orientar seu uso seguro. Considerando isso, foi empregado o modelo alternativo Caenorhabditis elegans, que já é amplamente utilizado em estudos na área de nanotoxicologia por suas diversas vantagens, como 6080% de homologia genética com humanos, ciclo de vida curto, fácil manutenção e alta taxa de reprodução.O objetivo foi avaliar a segurança das nanopartículas de grafeno, buscando compreender melhor seus possíveis efeitos sobre a saúde e o meio ambiente. Esses vermes foram cultivados em meio NGM (Nematode Growth Medium) contendo Escherichia coli OP50, como fonte de alimento. A cepa utilizada foi a N2 (tipo selvagem). Para garantir uniformidade no estágio de desenvolvimento (L1), os ovos foram obtidos por meio de sincronização, onde houve a ruptura de sua cutícula. Os vermes foram então expostos às concentrações de 1 mg/L, 2,5 mg/L e 5 mg/L das nanopartículas. A exposição consistiu na incubação e homogeneização em meio líquido por 30 minutos em microtubos, seguida pela transferência para placas contendo a solução de tratamento por 48 horas. Após esse período, os vermes no estágio L4 foram avaliados quanto à sobrevivência, comprimento corporal, taxa de reprodução (número de descendentes), comportamento de natação e a resposta de paralisia dopaminérgica quando expostos à dopamina. Com isso, foram observadas diferenças significativas na maior concentração das nanopartículas de grafeno funcionalizadas com prata (Ag), que causaram uma diminuição significativa nos parâmetros de sobrevivência e tamanho do verme, indicando toxicidade e atraso desenvolvimento do C. elegans. Entretanto, não observamos diferenças na reprodução, comportamento de natação e resposta dopaminérgica dos animais em relação ao grupo controle. Porém, na solução de grafeno puro e com os outros metais (Fe, Au), não foi observado essa diferença em nenhuma concentração, em nenhum dos parâmetros analisados. Tendo isso em vista, os resultados sugerem que a toxicidade e atraso no desenvolvimento estão relacionadas com a prata e não com o grafeno, já que as nanoesponjas de grafeno puro não causaram os efeitos nas nanoesponjas decoradas com Ag . Contudo, as nanoesponjas de grafeno puro e com os metais (Fe, Au), em todas concentrações e na prata apenas em 1 mg/L e 2,5 mg/L, apresentam um perfil de segurança promissor com base nos critérios avaliados de sobrevivência, tamanho, taxa de reprodução, comportamento natatório, que está ligado a sistemas de neurotransmissores relacionados ao movimento, como sistema serotoninérgico e gabaérgico; e também sistema dopaminérgico, considerando a resposta ao experimento de paralisia realizado na presença de dopamina. No entanto, estudos adicionais são necessários para confirmar se as nanopartículas acabam se acumulando no intestino no interior do verme e se a funcionalização com os metais realmente contribui para a redução dos efeitos tóxicos associados ao óxido de grafeno
Avaliação Físico-química de Complexos de microRNA-208a e Nanoemulsões Catiônicas para Tratamento do Tecido Cardíaco
Os microRNAs possuem um grande potencial de estudo e de desenvolvimento para aplicação em terapias de doenças crônicas. Tendo em vista o crescimento da taxa de mortalidade por doenças crônicas nos últimos anos no Brasil, especialmente por complicações cardíacas, destaca-se a importância de novas estratégias com potencial terapêutico. A manipulação de microRNAs como forma de terapia, busca o tratamento do tecido cardíaco por regeneração e preservação. No coração, o microRNA denominado miR208a está associado fortemente à hipertrofia cardíaca. Porém, o uso destas moléculas tem como desafio a sua entrega específica e direcionada, uma vez que elas são suscetíveis a degradação e tem baixa permeabilidade intracelular. Neste contexto, carreadores não virais surgem como estratégia promissora, destacando-se as nanopartículas lipídicas, com a proposta de proteger e direcionar os ácidos nucléicos até o tecido alvo. Assim, o estudo teve por objetivo produzir e caracterizar complexos formados por nanoemulsões lipídicas para o carreamento do miR208a e seu inibidor antimiR208a. Os ácidos nucléicos foram complexados a nanoemulsões catiônicas (óleo/água) preparadas por emulsificação espontânea e compostas por: triglicerídeos de cadeia média, lecitina, o lipídeo catiônico 1,2-dioleoil-3-trimetil amônio propano (DOTAP), polissorbato 80, glicerol e água. Os complexos formados pelos miR208a e antimiR208a (cargas negativas) com a nanoemulsão (carga positiva) foram preparados por mistura simples, nas proporções de cargas de [+16/-] até [+128/-], todos realizados em triplicata para cada microRNA. A caracterização dessas formulações foi realizada referentes a: tamanho médio de partícula e índice de polidispersão, através da leitura conduzida no equipamento NanoBrook®, empregando a técnica de espalhamento de luz dinâmica; e potencial zeta, pela técnica de migração electroforética. As técnicas também foram aplicadas à formulação branca (sem os microRNAs). Os resultados obtidos para a nanoemulsão branca indicaram tamanho médio inferior a 300 nanômetros, índice de polidispersão inferior a 0,3 e um potencial zeta positivo entre +5 e +15 mV, conforme esperado para esse tipo de formulação, como previamente estudado pelo grupo de pesquisa. Porém, esses valores mostraram-se alterados quando ocorreu a etapa de complexação, dependendo da relação de cargas [+/-] e do microRNA testado. Foi possível observar que os valores do potencial zeta dos complexos contendo miR208a e antimiR208a, demonstraram a inversão de cargas para valores negativos, de -20 a -40 mV, dependendo da proporção (relação de cargas +/-) e tipo de microRNA adicionado. Esse fato sugere a associação dos microRNAs na interface óleo-água da nanoemulsão. Os dados condizem com os valores dos diâmetros de gotícula obtidos após a adição dos microRNAs, que aumentaram até cerca de 1 µm de tamanho, novamente dependendo da proporção de cargas e do microRNA adicionado. O índice de polidispersão dos complexos também atingiu valores próximos de 1, mostrando que se formam complexos polidipsersos, provavelmente contendo agregados em suas estruturas. Esses resultados sugerem que os microRNAs devem estar localizados intercalados entre as gotículas, favorecendo a aglomeração das mesmas. Assim, este estudo demonstra que é possível complexar o miR208a e seu inibidor antimiR208a a nanoemulsões lipídicas. Porém, suas propriedades físico-químicas são dependentes da proporção entre cargas positivas e negativas, bem como da sequência de microRNA utilizada. O estudo sugere que esta formulação possui grande potencial para servir como veículo de entrega para terapia gênica no tecido cardíaco, e tem como perspectiva avaliar quantitativamente a taxa de associação dos microRNAs, auxiliando na otimização destas proporções para futuros estudos in vitro/in vivo
Potencial Terapêutico da Colchicina em Nanocápsulas Catiônicas: Estudo de Farmacocinética Populacional
A malária continua sendo uma das enfermidades infecciosas mais impactantes em nível global, responsável por elevada taxa de morbimortalidade em regiões endêmicas. Além da ação direta do parasita, a doença desencadeia um intenso processo inflamatório sistêmico, o que agrava os quadros clínicos. Nesse cenário, a colchicina (CC), fármaco com reconhecida ação anti-inflamatória, surge como uma alternativa de interesse. Contudo, sua utilização clínica encontra barreiras devido à elevada toxicidade, estreita janela terapêutica e ampla distribuição tecidual, fatores que aumentam o risco de efeitos adversos graves. Assim, torna-se essencial o desenvolvimento de novas formas farmacêuticas capazes de otimizar a eficácia da CC e reduzir seus riscos. A nanotecnologia farmacêutica representa uma abordagem promissora nesse campo, especialmente por meio de sistemas de liberação controlada, como as nanocápsulas (NC). Essas nanopartículas poliméricas oferecem vantagens como a proteção do princípio ativo, estabilidade aumentada, perfil de liberação prolongado e possível diminuição da toxicidade sistêmica. Em especial, as nanocápsulas catiônicas se destacam por sua carga superficial positiva, que favorece maior interação com membranas celulares e pode alterar de forma benéfica a biodistribuição. O objetivo deste estudo foi otimizar uma formulação de NC catiônicas contendo CC e caracterizar seu comportamento farmacocinético em um modelo populacional (PopPK). Para isso, foi utilizado um planejamento experimental fatorial 2³, no qual foram avaliadas as variáveis: concentração do polímero catiônico Eudragit® RS100, proporção do surfactante Span 80 e presença ou ausência do coestabilizante TPGS. O delineamento resultou em oito formulações (NC1NC8), todas obtidas pelo método de nanoprecipitação e contendo 1 mg/mL de CC. As amostras foram analisadas quanto ao diâmetro médio, índice de polidispersidade, potencial zeta, pH, teor de fármaco, eficiência de encapsulação e perfil de liberação in vitro. Dentre as formulações desenvolvidas, a NC7 apresentou características mais promissoras, com menor teor de Eudragit®, maior concentração de Span 80 e adição de TPGS. Essa formulação apresentou diâmetro médio de aproximadamente 196 nm, potencial zeta positivo de 30,41 mV e liberação sustentada do fármaco, sendo selecionada para os ensaios biológicos. Em estudo in vivo, ratas Wistar fêmeas receberam uma dose intravenosa única (0,5 mg/kg) da NC7 ou da CC livre (CEUA/UNIPAMPA, protocolo nº 027/2020). O plasma coletado em diferentes tempos foi analisado por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas, após precipitação proteica. Os dados obtidos foram submetidos à modelagem farmacocinética populacional utilizando o software Monolix® (Simulation Plus). Foram testados modelos de um, dois e três compartimentos, incluindo diferentes estruturas de variabilidade e de erro residual. O modelo bicompartimental com eliminação linear foi o que melhor descreveu os dados, sendo a formulação considerada como covariável significativa. Os resultados mostraram que a NC7 reduziu o clearance em 14 vezes em comparação à colchicina livre, além de diminuir os volumes de distribuição central e periférico e a depuração intercompartimental. Essas alterações favoreceram a permanência da CC no compartimento plasmático, prolongando sua interação com o parasita e reduzindo a dispersão indesejada para outros tecidos, o que pode contribuir para um perfil de maior eficácia e segurança. De forma geral, este trabalho evidencia que a encapsulação da CC em nanocápsulas catiônicas pode representar uma estratégia inovadora para reposicionamento do fármaco em doenças infecciosas de caráter inflamatório, como a malária. A formulação otimizada demonstrou estabilidade, perfil de liberação controlada e alterações relevantes na farmacocinética, sustentando concentrações plasmáticas elevadas por mais tempo. Esses resultados reforçam o potencial das nanocápsulas catiônicas como plataformas versáteis para o desenvolvimento de terapias mais eficazes e seguras