Publica-se Portal de Periódicos Científicos da Universidade Federal do Pampa
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Detecção Contínua de Temperatura Corporal com Sensoriamento Sem Contato e Aprendizado de Máquina
A febre (pirexia) é um dos principais sinais clínicos em ambientes hospitalares, frequentemente associada a processos infecciosos, inflamatórios ou outras condições que exigem intervenção imediata. Métodos tradicionais de aferição em humanos, como termômetros axilares, orais e retais, embora amplamente utilizados, apresentam limitações: medições pontuais, dependência da presença de profissionais, risco de contaminação cruzada e desconforto ao paciente. Alinhado ao conceito de Internet of Medical Things (IoMT), este trabalho propõe um sistema para aferição contínua e não invasiva da temperatura corporal, utilizando um sensor térmico Lepton 2.5 acoplado a um microcontrolador ESP32. O sistema captura dados térmicos, identifica a face do paciente por meio de processamento de imagens e calcula a temperatura média com base em regiões de interesse, como a região frontal e temporal. Um modelo de inteligência artificial (IA) analisa os dados em tempo real, integrando variáveis ambientais e fisiológicas para detectar padrões anômalos, como estados febris ou hipotérmicos. Em caso de alterações significativas, alertas são enviados automaticamente aos sistemas hospitalares, permitindo intervenções rápidas e precisas. Essa abordagem espera superar limitações dos métodos tradicionais, como a necessidade de contato físico e medições pontuais, oferecendo uma solução precisa, segura e adaptável a diferentes ambientes. A integração de hardware e software permite a detecção precoce de variações térmicas anômalas, facilitando intervenções e melhorando o cuidado ao paciente. O ambiente de monitoramento proposto é composto por diversos componentes: sensor Lepton 2.5, que captura imagens térmicas com resolução de 80x60 pixels; ESP32, que recebe os dados do sensor e os transmite de forma segura via MQTT para o modelo de IA em nuvem; e modelo de inteligência artificial, que analisa os dados térmicos, detecta áreas de interesse no rosto do paciente, avalia variações térmicas considerando fatores ambientais e metabolismo basal e envia informações ao sistema de monitoramento hospitalar. No entanto, a implementação do sistema enfrenta alguns desafios técnicos: precisão da medição térmica, sendo que fatores externos, como iluminação e movimentação do paciente, podem influenciar a medição; identificação de pontos de interesse, visto que a baixa resolução do sensor Lepton 2.5 exige algoritmos sofisticados para segmentação térmica e detecção precisa das regiões faciais; latência na transmissão de dados, pois o ESP32 possui limitações de processamento, exigindo um balanceamento entre qualidade dos dados e eficiência de rede e interpretação dos resultados, já que a análise deve considerar variações individuais e condições ambientais para evitar falsos positivos. Espera-se que o sistema proporcione monitoramento contínuo e eficiente da temperatura corporal, reduzindo atrasos na identificação de febre ou hipotermia. O processamento e a análise em nuvem permitirão percepções sobre tendências térmicas individuais, contribuindo para a melhoria dos alertas clínicos. A integração ao ambiente hospitalar facilitará a triagem e acompanhamento de pacientes em enfermarias e unidades de terapia intensiva. O desempenho do sistema será validado em diferentes cenários clínicos, considerando variações ambientais e movimentação do paciente, garantindo confiabilidade em condições reais. Os próximos passos incluem implementação do protótipo, testes em condições controladas e ajustes nos algoritmos de detecção. A integração com outros sensores biométricos e técnicas avançadas de aprendizado de máquina poderá aumentar a precisão da análise, tornando o sistema mais robusto, preciso e confiável
Aplicação de Inteligência Artificial Generativa para Análise e Intervenção da Fisioterapia Respiratória
Ainda hoje, a pandemia de COVID-19, traz consigo efeitos colaterais advindos do vírus SARS-CoV2. Dentre os impactos da doença, como hospitalizações em massa e a sobrecarga dos sistemas de saúde, a COVID-19 deixou um legado preocupante de problemas de saúde a longo prazo, especialmente no que diz respeito à função respiratória dos pacientes, resultando em um aumento substancial de pacientes com complicações respiratórias agudas e crônicas, e evidenciando a necessidade de estratégias eficazes de diagnóstico e monitoramento. O presente projeto investiga como a aplicação da Inteligência Artificial Generativa (IAG) para otimizar a análise de exames de espirometria pode auxiliar a identificar ou prevenir disfunções pulmonares. O exame de espirometria surge como peça fundamental na fisioterapia respiratória, pois permite medir o volume de ar inspirado e expirado para avaliar a função pulmonar. É uma ferramenta poderosa e versátil, amplamente utilizada para diagnosticar e monitorar doenças como asma e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). Ao fornecer dados detalhados sobre a capacidade vital e os fluxos de ar, a espirometria auxilia os profissionais de saúde a determinar a gravidade das disfunções respiratórias, a monitorar a evolução dos pacientes e a personalizar planos de tratamento, contribuindo significativamente para a reabilitação e a melhoria da qualidade de vida.O projeto propõe o desenvolvimento de uma ferramenta tecnológica para auxiliar fisioterapeutas, gerando laudos mais precisos e promovendo maior agilidade e padronização no processo. A pesquisa é classificada como aplicada, quantitativa, descritiva e explicativa, utilizando o método dedutivo. O trabalho foi dividido em fases decisória, construtiva e redacional. O sistema foi desenvolvido com uma arquitetura robusta, utilizando o framework Laravel no backend e o banco de dados PostgreSQL. A integração com a API do Google Gemini é o ponto central da solução, permitindo o processamento de linguagem natural e a geração automatizada dos laudos. Ferramentas como o Smalot/PdfParser foram empregadas para extrair o conteúdo textual dos exames em PDF. A modelagem do sistema, detalhada em diagramas UML e em um Modelo Entidade-Relacionamento, guiou o desenvolvimento de módulos essenciais: gerenciamento de pacientes, upload de exames, geração de laudos e uma funcionalidade avançada de análise da evolução do paciente. Este último módulo se destaca por sua capacidade de interpretar o histórico de exames de um paciente, fornecendo uma visão clara sobre a progressão da sua função pulmonar ao longo do tempo. A validação do protótipo foi rigorosa, abrangendo testes de unidade, funcionais e de integração. Os resultados demonstram a robustez e a viabilidade da solução. A análise qualitativa dos laudos gerados pela IA, a partir de casos reais e sintéticos, confirmou a capacidade do sistema em produzir laudos precisos e coerentes para padrões clínicos normais, obstrutivos e restritivos. O sistema provou ser uma ferramenta eficaz para auxiliar na tomada de decisões, reduzindo a variabilidade diagnóstica e otimizando o fluxo de trabalho dos profissionais. Em suma, este trabalho valida o uso da Inteligência Artificial Generativa como uma ferramenta promissora na informática médica. A solução desenvolvida não apenas agiliza o processo de diagnóstico, mas também contribui para a excelência na assistência à saúde, abrindo caminho para futuras inovações na área, como a inclusão de análise de gráficos e o desenvolvimento de um chat interativo para discussões sobre os exames
RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS NO CÁLCULO NUMÉRICO: CONTRIBUIÇÕES, VANTAGENS E DESAFIOS
O ensino de Cálculo Numérico ocupa lugar central na formação em Engenharia e Licenciatura por demandar o domínio de métodos numéricos voltados à análise, à aproximação e à resolução de situações complexas, frequentemente modeladas por dados incompletos e restrições computacionais. Entretanto, práticas centradas na exposição teórica têm se mostrado insuficientes para sustentar o envolvimento dos estudantes e para favorecer o uso criterioso desses métodos em contextos que exigem justificar escolhas e interpretar limitações. À luz desse problema, este estudo examina a Metodologia de Resolução de Problemas (RP) como dispositivo pedagógico capaz de reorganizar a experiência de aprendizagem, deslocando o estudante para um papel investigativo no qual precisa interpretar o enunciado, selecionar um método numérico pertinente, executar procedimentos com controle de etapas, avaliar a consistência dos resultados e comparar estratégias alternativas à procura de soluções sustentáveis do ponto de vista matemático e computacional (Blass; Duarte; Rhoden, 2024; Allevato; Onuchic, 2019). O objetivo foi investigar a percepção discente sobre a RP no ensino de Cálculo Numérico, identificando contribuições, vantagens e desafios atribuídos à abordagem. A pesquisa, realizada no semestre 2025.1 com 14 estudantes regularmente matriculados na disciplina na Universidade Federal do Pampa (cursos de Engenharia Química, Engenharia de Alimentos, Engenharia de Energia, Engenharia de Computação, Engenharia de Produção, Licenciatura em Matemática e Licenciatura em Física), utilizou questionário online aplicado ao final da disciplina. As respostas foram submetidas a análise qualitativa com apoio do software IRaMuTeQ, com ênfase em recorrências lexicais e agrupamentos de termos que sintetizam sentidos atribuídos pelos participantes às experiências com RP. Os achados convergem para três eixos. No primeiro, a RP favoreceu a articulação entre teoria e prática ao demandar compreensão de cada etapa de aplicação dos métodos numéricos, em contraste com a simples reprodução de fórmulas. Estudantes relataram que a necessidade de explicitar passos e checar a plausibilidade de resultados em problemas contextualizados tornou mais transparente o que cada método efetivamente resolve, elevando o grau de responsabilidade sobre as escolhas. No segundo eixo, as vantagens apontadas incluíram autonomia intelectual, maior engajamento nas discussões em grupo e uso dos erros como gatilhos de reelaboração conceitual: ao confrontar resultados improváveis ou inconsistentes, os estudantes eram levados a revisar hipóteses, refinar parâmetros e justificar a adoção de novas estratégias, convertendo dificuldades em evidências para tomada de decisão. No terceiro eixo, emergiram desafios estruturais, sobretudo a seleção do método numérico adequado a cada classe de problema; tal dificuldade expôs a necessidade de mediação docente sistemática para orientar critérios de escolha (escopo de aplicação, supostos do método, sensibilidade a parâmetros e implicações de arredondamento), bem como de instrumentos de apoio que tornem explícitas as consequências de optar por uma técnica em detrimento de outra. A discussão sugere que a RP, quando assumida como eixo metodológico, reconfigura o contrato didático da disciplina: o foco desloca-se da execução mecânica para uma prática argumentativa em que se requer justificar a pertinência do método, interpretar as margens de erro e avaliar a robustez das soluções diante de variações nos dados. Conclui-se que a adoção sistemática da RP no Cálculo Numérico amplia a compreensão dos métodos numéricos e sua aplicabilidade, fortalece competências analíticas e colaborativas e estimula a capacidade de os estudantes operarem criticamente com critérios de escolha, validação e interpretação de resultados. Ao mesmo tempo, evidencia-se a necessidade de planejamento docente criterioso (sequências de tarefas progressivas, momentos de comparação entre métodos, feedback orientado à justificativa técnica) e de acompanhamento contínuo para mitigar a dificuldade de seleção de métodos e promover a transição de uma cultura de memorização para uma cultura de análise e decisão. O estudo oferece evidências empíricas de que a RP é particularmente profícua no ensino de Cálculo Numérico ao articular, no mesmo gesto formativo, resolução de problemas, discussão coletiva e explicitação de critérios técnicos, contribuindo para práticas pedagógicas que alinham rigor matemático, pertinência aplicada e desenvolvimento profissional
Integração da América Latina: Mercosul Como Bloco de Cooperação
Este estudo buscou entender como MERCOSUL coopera dentro de seu bloco, com o intuito de explorar a questão de integração regional e seu contexto político e histórico, salientando como funciona a sua cooperação e quais consequências disto para o mesmo, esta pesquisa se torna relevante pelo fato de que nas últimas décadas tem diminuído o número de pesquisas que tenham relação com MERCOSUL, ao qual se deve a fatores como o próprio processo de integração e enfoco do bloco no início da década de 90 e início dos anos 2000, tanto pelo fato de que os últimos dois governos tanto governo Bolsonaro quanto governo Lula III, tenha colocado o foco em outras questões durante seus respectivos mandatos, quanto pela ascencao de governos de direita em países que são os Estados Partes com um viés mais liberal em sua economia como é caso da Argentina com o Governo de Javier Milei na Argentina, e Santiago Peña no Paraguai. ntegração regional segundo Ernst Haas é o processo de interação entre diferentes grupos, que vai muito além das fronteiras de seus Estados ao qual tem o intuito de resolver problemas comuns, segundo o autor a integração política se caracteriza como a mudança de lealdade e das expectativas políticas que os Estados adotam que vai em busca de de um novo centro decisório como os órgãos supranacionais No que diz respeito ao objetivo específico deste estudo buscou-se entender como o MERCOSUL coopera entre si, com destaque para como o bloco está hoje e quais mudanças ocorreram na últimas duas décadas Para este estudo foi adotada uma abordagem qualitativa devido à sua capacidade de captar a complexidade e subjetividade das experiências humanas, utilizando documentos e notícias relacionadas ao tema, permitindo uma análise rica e contextualizada, a fim de proporcionar uma compreensão aprofundada do conflito. Trata-se de um estudo exploratório, ideal para identificar padrões e gerar hipóteses iniciais sobre a temática como o MERCOSUL e a situação atual do bloco. Embora a generalização dos resultados seja limitada e a subjetividade do pesquisador possa influenciar a interpretação dos dados, medidas como a revisão por pares podem ser utilizadas para mitigar esses problemas. A cooperação regional é um pilar fundamental para o desenvolvimento e a integração de blocos econômicos, como o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). A sinergia entre os países membros em projetos colaborativos é essencial para impulsionar o crescimento em áreas estratégicas, garantindo o fortalecimento mútuo e a resolução de desafios compartilhados. No entanto, a complexidade dos desafios contemporâneos e a emergência de novas necessidades demonstram que a integração regional vai além da simples remoção de barreiras comerciais, exigindo uma coordenação política mais profunda e a criação de novas agendas de cooperação. Neste contexto, o MERCOSUL, embora enfrentando desafios como a assimetria entre seus membros, tem se adaptado para assegurar um desenvolvimento mais equitativo. Conforme a Resolução GMC Nº 31/22, as prioridades para a cooperação evoluíram para incluir áreas críticas como Saúde, Meio Ambiente, Gênero e Inovação. Essa ampliação do escopo demonstra a visão pragmática do bloco de buscar benefícios econômicos e sociais concretos para seus membros, ao mesmo tempo em que fortalece sua posição no cenário internacional. Ao qual a cooperação do MERCOSUL é uma ferramenta que fortalece a capacidade de cada um dos Estados membros contribuir para a integração regional dos mesmos, com este objetivo é executar diversos projetos com o apoio de inúmeros organismos internacionais e de seus países cooperantes. Para que haja o desenvolvimento deste se executa os mais diversos programas e projetos de cooperação ao qual atualiza se diferentes áreas temáticas consideradas como prioritárias como saúde, educação, meio ambiente, gênero, comércio intra regional, integração produtiva, entre outros. Nos últimos anos, além da implementação da cooperação extrarregional, foi considerada a necessidade de avançar na criação de estratégias e políticas de desenvolvimento no interior do Bloco para que se reduzissem assimetrias entre os sócios e para a troca de maneira horizontal, conhecimento e experiências. Dado este contexto, os Estados Partes concordaram no desenvolvimento das mais diversas ações ligadas à Cooperação Sul-Sul, de forma tal a revalorizar este tipo de cooperação no bloco regional Nesse sentido, conclui-se que, a análise sobre o processo de integração do Mercado Interno Comum MERCOSUL, está atrelada a fatores estruturais desde sua criação em 31 de Dezembro de 1994 com a assinatura do Tratado de Assunção como também como o bloco conseguiu conquistar espaço dentro da América Latina atualmente fazendo parte deste o que chama de Estados Partes, sendo eles: Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela, e os Estados Associados: Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Panamá, Peru e Suriname. Como também conquistado o acordo com a União Europeia d
O Brasil e os BRICS: Fortalecimento do Sul Geopolítico (2006-2025)
Com as constantes transformações que marcam o início do século XXI, pode-se destacar o desenvolvimento econômico e comercial de potências emergentes frente a hegemonia dos Estados Unidos, caracterizando o sistema mundial a partir de então, como multipolar. Tais Potências emergentes questionam o funcionamento do sistema de instituições como o FMI e Banco Mundial, criadas no pós-guerra e que, portanto, não atendem às demandas desses países e são excludentes à participação e tomada de decisão do Sul Geopolítico. Portanto, segundo Stuenkel (2017, p.8), para que haja uma redistribuição mais fundamental dos poderes institucionais nas estruturas de governança global.
Diante desse cenário, os países que compõem o BRICS funcionam unidos, como um mecanismo político-diplomático que começa a tomar forma em um momento de redesenho da governança global, tendo o Brasil uma participação ativa dentro desse agrupamento.
O primeiro encontro, ainda informal, entre Brasil, Rússia, Índia e China, realizado em 2006, marcou o início da trajetória do agrupamento, que viria a consolidar-se formalmente em 2009 e contou com a entrada da África do Sul em 2010. Recentemente, em 2024 foram adicionados novos membros, como a Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Ainda em 2024, foi aprovada a categoria de membros parceiro onde inclui Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia, Uganda e Uzbequistão. Essa categoria faz parte da reorganização e ampliação do agrupamento. Países parceiros são convidados para a Cúpula, para a reunião de Ministros das Relações Exteriores e podem integrar outros espaços de discussão do fórum, após consulta aos países membros e decisão por consenso. Essas nações podem ainda endossar às Declarações de Cúpula do BRICS, Conjuntas dos Ministros das Relações Exteriores do BRICS, bem como a outros documentos finais. (BRASIL, 2025)
A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e do Arranjo Contingente de Reservas, ambos em 2013, simbolizou um marco institucional importante, refletindo o esforço do BRICS para construir uma alternativa ao sistema financeiro internacional vigente. Desde então, o bloco tem passado por significativas transformações em sua agenda e composição, ampliando-se para incluir novos membros e buscando consolidar-se como um mecanismo político-diplomático de crescente relevância global.
Nesse contexto, a atuação do Brasil no BRICS também pode ser compreendida como um instrumento de afirmação de sua Política Externa Autônoma, ao buscar maior protagonismo no cenário internacional por meio de alianças multilaterais não alinhadas diretamente aos polos tradicionais de poder, como Estados Unidos e União Europeia. Tal orientação segue o princípio de diversificação de parcerias e valorização do multilateralismo que marcou a formulação da PEI nos anos 1960, com o objetivo de ampliar a margem de autonomia do país frente às potências hegemônicas (CERVO & BUENO, 2011).
O presente estudo, busca compreender qual papel o Brasil desempenha ao longo do desenvolvimento do BRICS e como o Brasil utiliza da dinâmica cada vez mais ativa do agrupamento como instrumento de sua política externa e maior protagonismo na atual conjuntura do sistema internacional. Tendo em vista que este trabalho se propõe a analisar o papel do Brasil na criação e no amadurecimento dos BRICS, no período de 2006 a 2025, adota-se uma abordagem de natureza qualitativa, privilegiando a interpretação elaborada pelo pesquisador a partir da compreensão do fenômeno investigado. Parte-se do método hipotético-dedutivo, o qual, a partir da formulação de um problema inicial, possibilita a construção da hipótese que será confirmada ou refutada ao longo do desenvolvimento da pesquisa.
O estudo assume caráter descritivo e explicativo, concentrando-se, em um primeiro momento, nos desdobramentos protagonizados no processo de amadurecimento do agrupamento, e, posteriormente, na análise de conceitos teóricos e diretrizes de Política Externa corroborando as ações do Brasil e que favoreçam a compreensão do objeto.
A investigação será conduzida por meio de procedimentos de natureza bibliográfica e documental, com ênfase na interpretação qualitativa. Embora haja possibilidade de recorrer a dados estatísticos, gráficos ou tabelas para subsidiar determinadas análises, a essência da abordagem permanece ancorada em uma perspectiva qualitativa.
Considerando que a pesquisa ainda não foi concluída, não se dispõe, até o presente momento, de resultados consolidados, os quais, entretanto, estarão finalizados na data prevista para a apresentação
Biocombustíveis Como Estratégia de Política Externa no Governo Lula (2003-2010).
A segurança energética se tornou um dos principais eixos da política externa brasileira no início do século XXI, sobretudo durante os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Assim, durante esse período o Itamaraty passou a articular sua política internacional em torno da valorização dos biocombustíveis, com destaque para o etanol e o biodiesel, promovendo uma diversificação energética e estratégias de inserção internacional, visto que, a conjuntura global estava marcada pela crescente preocupação com a nova agenda climática, a alta volatilidade dos preços do petróleo e a necessidade de diversificação da matriz energética. Visto isso, os biocombustíveis foram utilizados como mecanismo da política externa brasileira, fortalecendo a imagem do Brasil como um ator ambiental e energético, destacando diversas iniciativas multilaterais, como a criação do Fórum Internacional de Biocombustíveis em 2007, além de parcerias bilaterais estratégicas, sobretudo com os Estados Unidos, União Europeia, Índia e países africanos. Esses acordos ampliaram a projeção internacional do Brasil, reforçando a narrativa que o país poderia se tornar uma potência energética diversificada no Sul Global, influenciando a agenda internacional sobre energias renováveis e desenvolvimento sustentável. A proposta da pesquisa busca compreender de que maneira os biocombustíveis foram incorporados à política externa brasileira, contribuindo para a segurança energética e para a projeção internacional do Brasil, a partir de uma análise qualitativa baseada em literatura acadêmica, documentos oficiais do Itamaraty, discursos presidenciais e notícias jornalísticas.
No início do século XXI, o cenário internacional de segurança energética era marcado pela volatilidade nos preços dos barris de petróleo, crises periódicas de abastecimento e a crescente pressão por alternativas sustentáveis, onde a agenda ambiental passou a ser impulsionada pelo Protocolo Kyoto e por discussões sobre mudanças climáticas, assim, pressionando os países produtores e consumidores de energia a diversificar suas fontes a investir em tecnologias limpas. Nesse sentido, o Brasil emergia como um ator relevante, possuindo experiência consolidada no uso de etanol e biodiesel e capacidade tecnológica e diplomática de ampliar a produção de biocombustíveis de maneira competitiva, possuindo uma oportunidade estratégica de transformar seus recursos energéticos em ferramenta de inserção internacional. Logo, o governo Lula adotou políticas internas robustas para fortalecer a produção e o uso de biocombustíveis, ampliando o Programa Nacional de Produção e o Uso de Biodiesel, consolidando o Proálcool como instrumento de longo prazo para a diversificação energética. Ademais, a Petrobrás desempenhou um papel central nesse processo, atuando no desenvolvimento tecnológico, na expansão da produção e do mercado interno do etanol e o biodiesel, onde a articulação entre políticas internas e políticas externas permitiu que o setor energético se tornasse um vetor da diplomacia energética brasileira, conectando interesses econômicos, ambientais e estratégicos. Além disso, o uso estratégico dos biocombustíveis também teve impacto direto na segurança energética brasileira, visto que, ao reduzir a dependência do petróleo importado, os biocombustíveis contribuíram para o estabelecimento do mercado interno e para a mitigação de riscos associados à volatilidade dos mercados internacionais. Assim, o governo Lula articulou o setor energético com objetivos sociais e de desenvolvimento, destacando o papel dos biocombustíveis na geração de empregos, no fortalecimento da agricultura familiar e no combate à pobreza, posicionando o Brasil internacionalmente como um ator relevante em debates energéticos e ambientais. Portanto, as políticas adotadas no governo Lula demonstraram que os biocombustíveis funcionaram simultaneamente como mecanismo de segurança energética, instrumentos de política externa e estratégias de projeção internacional. A política externa desse período promoveu a diversificação da matriz nacional e consolidou o Brasil como referência global em energia renovável, ampliando sua influência em fóruns multilaterais e fortalecendo sua inserção regional e internacional, onde, apesar dos desafios e limitações, a estratégia do governo Lula oferece caminhos sobre como recursos energéticos podem ser mobilizados em mecanismos diplomáticos
PROFESSORES SURDOS EM FOCO: BARREIRAS E ESTRATÉGIAS DE APOIO NO CURSO DUA NA PRÁTICA
Este trabalho apresenta um recorte do estudo de caso realizado no Programa de Pós-Graduação em Ensino, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), tendo como foco de estudo a turma bilíngue Colaboração do curso de aperfeiçoamento DUA na prática, o qual foi promovido pelo Programa de Extensão Tertúlias Pedagógicas Inclusivas do Pampa. O objetivo da pesquisa consistiu em investigar de que forma o curso DUA na prática garantiu acessibilidade aos cursistas Surdos, identificando quais foram as estratégias ou apoios disponibilizados. O campo de pesquisa foi delimitado na turma bilíngue denominada Colaboração e os sujeitos selecionados foram os nove cursistas Surdos inseridos na turma e os dois tradutores/intérpretes de Libras que atuaram durante a formação acadêmico-profissional (Diniz-Pereira, 2008). A turma bilíngue Colaboração teve vinte e cinco cursistas matriculados, desses, nove cursistas eram Surdos sinalizantes e dezesseis eram ouvintes com diferentes níveis de conhecimento em Libras. Os dados foram coletados em dois momentos: análise documental nos documentos do curso e duas entrevistas semiestruturadas distintas, uma conduzida em português com os tradutores/intérpretes de Libras e a outra, foi conduzida em Libras, com os cursistas Surdos. Todos os cursistas Surdos foram convidados a participar da entrevista, dos quais quatro aceitaram, compondo o corpus dessa fase da pesquisa. A análise dos dados foi embasada em Bardin (1977), no que tange à análise de conteúdo, e foram delimitados em três categorias: a) Formação acadêmico-profissional de professores na perspectiva inclusiva com foco na acessibilidade; b) Barreiras e apoios à formação de professores Surdos considerando múltiplas formas de ensino e aprendizagem; c) Prática profissional a partir das contribuições da formação, considerando o trabalho colaborativo. Apresentaremos os resultados elencados na segunda categoria. Em relação às barreiras identificadas durante sua trajetória formativa, foi possível evidenciar a partir das respostas obtidas que todos os cursistas enfrentaram algum tipo de barreira, como por exemplo: comunicacional, metodológica ou atitudinal. Quando questionados quanto a descoberta da surdez, somente um cursista respondeu que nasceu Surdo, todos os demais responderam que a surdez foi descoberta tardiamente, o que certamente causou atrasos no desenvolvimento cognitivo dos cursistas, essas respostas evidenciam também o esforço realizado pelos Surdos para estabelecer algum tipo de comunicação nos diferentes ambientes que estavam inseridos, inclusive no ambiente familiar onde a surdez passava despercebida. Especificamente em relação à sua formação acadêmico-profissional, os cursistas destacaram as barreiras comunicacionais, metodológicas e atitudinais como as principais barreiras enfrentadas. A barreira comunicacional se apresenta como aquela mais facilmente identificada e diz respeito à dificuldade de comunicação, sendo que na maioria dos casos o Surdo utiliza alguma estratégia para ultrapassar essa barreira, como a leitura labial e a utilização de transcritores. Já a barreira metodológica diz respeito aos entraves na aprendizagem, exigindo do professor estratégias para que o estudante Surdo consiga construir conhecimento junto à turma. Em relação às barreiras atitudinais, elas normalmente não aparecem isoladas conforme aponta Sassaki (2009), sendo que pode-se evidenciar as barreiras de preconceito, baixa expectativa e rejeição. O enfrentamento dessas barreiras revela que os cursistas Surdos precisam de muita resiliência para acessar e permanecer em determinados ambientes formativos. Durante a entrevista, ao serem questionados sobre a identificação de barreiras semelhantes às enfrentadas anteriormente, os cursistas foram unânimes em argumentar que o curso Dua na prática consistiu numa formação inclusiva, na qual não foram identificadas barreiras. Esse argumento pode ser sustentado, através da implementação de estratégias de apoio. Para eliminação da barreira comunicacional utilizou-se a participação de dois tradutores/intérpretes de Libras, realização de encontros para leitura em Libras dos cadernos formativos pautada na tradução à prima vista (Sampaio, 2022), além da construção de uma turma bilíngue com tutoria fluente na língua de sinais. Já no caso da barreira metodológica utilizou-se recursos visuais nos cadernos formativos e nas lives, bem como, audiodescrição dessas imagens além da flexibilização para a realização das atividades em Libras. Em relação à eliminação das barreiras atitudinais, destacou-se como estratégia a coerência entre teoria e prática proposto pelos professores formadores. A partir das respostas obtidas, foi possível perceber que os cursistas Surdos sentiram-se contemplados em relação às estratégias de acessibilidade disponibilizadas durante a formação, assim, compra-se que a implementação de estratégias inclusivas é determinante para a remoção de barreiras
Acervo Fotográfico do Clube 24 de Agosto: História Pública do Povo Negro da Fronteira Brasil-uruguai
O presente resumo tem como objetivo relatar as atividades realizadas do Grupo de Estudos Sobre Escravidão e Pós-Abolição (GEESPA), vinculado ao Laboratório de História Social e Política (LAHISP), do curso de História do Campus Jaguarão. O GEESPA desenvolve um conjunto de atividades dentro do acervo do Clube 24 de Agosto, uma delas, a salvaguarda e catalogação do acervo fotográfico da instituição. O acervo fotográfico contempla diversos registros da história do Clube 24, desde os seus primeiros anos, logo depois da fundação em 1918, até os dias atuais, com fotografias de bailes, carnavais e outros eventos. Essas fotografias, que datam da década de 1920, como uma foto de 1922, da primeira rainha de carnaval do 24, Dona Eugênia, também registram a construção da atual sede, os carnavais nas décadas de 1980 e 1990, e também a história mais recente. Vale enfatizar a idealização para a construção deste acervo, feita por Neir Madruga Crespo, que levou também a sucessão da presidência do Clube 24 para sua filha, Patrícia Madruga Crespo Oliveira, a primeira presidenta mulher da instituição, e que é bisneta de um dos fundadores, seu Malaquias Oliveira. Um registro potente da ancestralidade presente no Clube 24 de Agosto.
Em 2012, após alguns anos de luta contra o leilão da sua atual sede, motivado por dívidas junto ao ECAD, o Clube 24 de Agosto recebeu o título de Patrimônio Cultural do Estado do Rio Grande do Sul. Foi nessa conjuntura que a presidência do Clube, na pessoa do Neir Madruga Crespo, percebeu a necessidade e a importância da criação de um acervo que pudesse salvaguardar a história do povo negro da região. Dentro do acervo do Clube 24 de Agosto, existem dois gaveteiros de metal, onde são armazenadas as fotografias em pastas suspensas e envelopes feitos com material alcalino para aumentar a durabilidade das imagens e preservá-las com qualidade para que não sejam afetadas pela umidade ou outros fenômenos. No acervo do Clube, já passaram outros coletivos de docentes e estudantes que contribuíram na sua conservação. O GEESPA, retomou o trabalho em março de 2023, e encontramos, naquele momento, pouco mais de 30 fotos acondicionadas nos envelopes de papel sem acidez. Neste processo de salvaguarda, foram catalogadas pelo coletivo, 631 fotos, entre fotografias em preto e branco e coloridas, sendo 429 fotografias impressas que foram obtidas em forma de doação ou registros feitos pela própria instituição e que foram submetidas ao processo de higienização, digitalização e catalogação. As outras 202 fotos, são registros que já estavam no formato digital ou que foram emprestadas ao GEESPA por terceiros, para que pudessem ser digitalizadas e catalogadas, no intuito de enriquecer mais ainda o acervo com registros da comunidade que frequentava o clube social negro. Estes registros digitalizados, junto de seus catálogos, serão disponibilizados, futuramente, como um acervo digital, em site com base na plataforma Tainacan, que servirá para expor as fotografias, atas e outros documentos do acervo do Clube. Estes trabalhos são muito importantes para visibilizar cada vez mais a história do Clube 24 e do povo negro da cidade, sendo instrumentos importantes para atividades pedagógicas antirracistas junto ao público escolar e demais pessoas da região, como as que o coletivo do GEESPA tem realizado nos últimos anos. Também, potencializa pesquisas, como por exemplo, as que podem analisar as representações das festas, do carnaval, desde o início do século XX, assim como o próprio cotidiano de luta contra o racismo da comunidade negra, ou até mesmo os protagonismo das mulheres enquanto rainhas de carnaval da instituição. Este Clube social negro centenário, através da luta pela preservação da memória, proporciona referenciais de resistência para a juventude negra na fronteira, fazendo de seu acervo uma inspiração para as lutas do present
Gestão Escolar na Educação Básica de Educação Infantil
O presente trabalho tem como objetivo realizar uma análise qualitativa da pesquisa realizada através de um questionário que trabalha questões referentes ao gerenciamento de uma escola buscando compreender o andamento do espaço educacional, com foco na Escola Municipal de Educação Infantil Natércia Cunha Santos, que forneceu informações detalhadas acerca do funcionamento de sua gestão escolar. Para enriquecer a análise, foram utilizados artigos acadêmicos relacionados ao tema, possibilitando o cruzamento de dados e a compreensão tanto da organização interna da escola quanto das relações estabelecidas entre o ambiente escolar e a comunidade que a frequenta, permitindo identificar práticas, limitações e perspectivas da gestão em termos de participação, inclusão e tomada de decisão. A aplicação do questionário ocorreu na sala da direção, com a participação da diretora que se disponibilizou para responder às questões de maneira objetiva e direta, esclarecendo aspectos do funcionamento cotidiano da escola, a relação com as famílias e as formas de participação comunitária, evidenciando o caráter qualitativo do estudo, que concentrou-se em uma única instituição. A pesquisa realizada contou com inúmeras perguntas, mas seis dentre elas dão uma ampla visão do que a escola executa no seu cotidiano, a primeira diz respeito ao cargo ocupado Você foi eleito para o cargo que ocupa? Não. No contexto das EMEIs, o cargo de diretor(a) não é definido por meio de eleição direta, sendo ocupado por indicação como CC (cargo de confiança), função que envolve aspectos políticos e decisões administrativas estratégicas; quando há mudança de gestão, novos indicados podem assumir o cargo, enquanto a reeleição do mesmo partido mantém os ocupantes anteriores, como ocorre no caso da diretora desta instituição, embora atualmente a legislação exija formação específica em gestão escolar, diferentemente do contexto histórico de 1980, quando os ocupantes poderiam não possuir qualificação adequada para a função. a seguir Você concorda que a gestão escolar deve ser participativa? Concordo, De que maneira ocorre a participação da comunidade escolar na gestão da sua escola? Por meio de reuniões, apresentações, eventos, os pais estão sempre presentes dentro da escola,De que maneira a comunidade escolar é ouvida sobre o funcionamento da sua escola? Reuniões, recados nos grupos, A escola que você gere atua para solucionar os problemas da vida da comunidade a qual ela faz parte? Sim, e para finalizar Se a pergunta anterior for respondida com sim, diga de que forma o PPP menciona a possibilidade de solução de problema? Normalmente o que diz respeito às crianças é dialogado com os pais, procura achar uma solução, no que diz respeito à escola, vida escolar da criança, tentando entrar num consenso para a escola ajudar a família e a família ajudar a escola para que a criança consiga ter um bom desenvolvimento dentro de sala de aula. Ao comparar os dados do questionário com os conceitos apresentados na literatura sobre gestão escolar democrática, observa-se que a principal diferença reside na forma de escolha da direção: enquanto a gestão democrática envolve provas, votações, concursos públicos, autonomia plena e decisões compartilhadas em todas as áreas da escola, a Escola Natércia Cunha Santos mantém seu gestor por indicação política, mas assegura que todos os membros da comunidade escolar sejam ouvidos e possam contribuir ativamente nas decisões, promovendo um ambiente inclusivo e colaborativo. Além da diretora, a escola conta com uma secretária e, recentemente, com o auxílio de uma supervisora para complementar o grupo diretivo; ambos os cargos não são por indicação política, sendo ocupados mediante aprovação em provas, garantindo qualificação técnica e reforçando a capacidade da equipe de gerir a escola de forma eficiente. Dessa forma, observa-se que, mesmo mantendo características históricas da gestão política em cargos de confiança, a instituição busca alinhar suas práticas com os princípios contemporâneos de gestão democrática e participativa, promovendo a inclusão, o diálogo e a participação efetiva de todos os envolvidos no processo educativo, reforçando a importância de uma gestão escolar consciente, técnica e socialmente comprometida, capaz de integrar teoria e prática, autonomia e responsabilidade, tradição e inovação na construção de um ambiente educativo que valoriza tanto a escuta quanto a ação coletiva
ENSINO DE HISTÓRIA SOBRE A DITADURA NO BRASIL: ANÁLISE LIVROS DIDÁTICOS
O ensino de História sobre o tema sensível do terrorismo de Estado da ditadura militar no Brasil: a análise em livro didático do 9º ano do ensino fundamental
O presente estudo investiga como o tema sensível do terrorismo de Estado durante a ditadura militar brasileira (19641985) é abordado em livros didáticos do 9º ano do Ensino Fundamental. Diante do crescimento de discursos autoritários e da exaltação acrítica de eventos históricos, a historiografia tem sido convocada a revisitar temas traumáticos, como as violações de direitos humanos e a disputa pela memória coletiva. O ensino de História, nesse contexto, assume papel fundamental na construção de uma memória social comprometida com os direitos humanos e na promoção de políticas de reparação. O trabalho tem como objetivo analisar criticamente o conteúdo de dois livros didáticos amplamente utilizados na Educação Básica, buscando identificar como o terrorismo de Estado é representado e se essa abordagem contribui para a formação cidadã e a consolidação da democracia. A pesquisa adotou uma abordagem bibliográfica, combinando métodos quantitativos e qualitativos. Foram identificadas ocorrências de termos-chave como terrorismo de Estado, memória traumática e tema sensível. A análise qualitativa concentrou-se na profundidade e na criticidade das abordagens sobre a ditadura militar, especialmente no que diz respeito à construção da memória e à problematização dos silêncios e omissões presentes nos materiais didáticos. Foram selecionadas duas obras: Se liga na história (Moderna, 2022), de Patrícia Ramos Braick e Anna Barreto; Historiar (Saraiva, 2018), de Gilberto Cotrim e Jaime Rodrigues. A primeira apresenta uma abordagem mais crítica e abrangente, tratando de temas como repressão na Argentina, resistência armada, atuação da Comissão da Verdade, manipulação de dados econômicos, marginalização de povos originários, e problematização da Lei da Anistia. Já a segunda obra revela lacunas significativas, omitindo temas centrais como a Operação Condor, as ditaduras vizinhas, as lutas armadas, as Mães da Praça de Maio e a memória das vítimas do terrorismo de Estado. A análise comparativa demonstra que os livros didáticos não abordam de forma satisfatória o tema da ditadura militar. A memória é tratada superficialmente, sem conceituação ou problematização, e o tema do esquecimento é negligenciado. A Comissão Nacional da Verdade é mencionada de forma breve, sem aprofundamento. A obra Historiar, em especial, dedica apenas doze páginas ao tema e sugere, de forma controversa, a leitura de memórias escritas por militares envolvidos com práticas de tortura, o que levanta questionamentos sobre a intencionalidade da narrativa. Essas limitações evidenciam a necessidade de que o(a) professor(a) recorra a outras fontes e recursos para garantir uma abordagem crítica e comprometida com a reparação da memória histórica. O papel do docente é central na mediação entre o conhecimento histórico e a construção de uma memória coletiva voltada à justiça e à emancipação social. Conclui-se que o ensino da ditadura militar nas aulas de História deve ir além do conteúdo dos livros didáticos, incorporando práticas pedagógicas que estimulem a reflexão sobre a cultura do medo, os mecanismos de repressão e a importância da memória como instrumento de justiça e reparação histórica. A responsabilidade educacional e social do(a) professor(a) é essencial para promover a consciência histórica, a formação cidadã e o fortalecimento dos valores democráticos