Portal de Periódicos UNINOVE (Univ. Nove de Julho)
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“Queimem a bruxa!”: Butler e aqueles que têm medo de gênero
O livro “Quem tem medo de gênero?” de Judith Butler foi publicado no ano de 2024. O Brasil foi o primeiro país em que a obra foi lançada, após uma visita da autora à cidade de São Paulo em 2017. A primeira edição foi publicada pela editora Boitempo (272 páginas), com tradução para a Língua Portuguesa realizada pela tradutora e doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Campinas, Heci Regina Candiani.
Judith Butler é estadunidense, nascida na cidade de Cleveland, no estado de Ohio, em 1956. Se declara judia, lésbica, feminista e ativista. É filósofa pós-estruturalista, e obteve seu PhD pela Universidade Yale em 1984. Postulou teorias sobre gênero que se tornaram conhecidas em âmbito global. Justamente por isto, tem sido duramente criticada por movimentos conservadores, feministas antigênero e transexcludentes, neoliberais, religiosos, dentre outros. Atualmente, é professora do Departamento de Pós-Graduação da Universidade da Califórnia em Berkeley, onde mora.
A sua primeira obra é intitulada “Problema de Gênero: feminismo e subversão da identidade”, publicada em 1990. Nessa obra desenvolveu-se diversas reflexões que influenciaram na modificação dos ideais do movimento feminista. Dentre as principais reflexões, pode-se destacar, a teoria da performatividade (gênero como uma construção e reprodução social), o feminismo e a teoria queer, o anticolonialismo e outros.
A obra em tela (Butler, 2024) foi produzida e publicada após uma visita da autora ao Brasil em 2017, para lançar “Caminhos Divergentes: Judaicidade e Crítica do Sionismo” (2017). Durante sua estadia no país foi recebida de maneira hedionda, com xingamentos de bruxa e com queima de uma boneca de bruxa com as suas características[1]. Diante desse cenário, Butler se propõe a divulgá-lo inicialmente no país, com análises e contra-argumentos sobre os movimentos antigênero que ganharam proporções sociais, culturais e políticas em diversas partes do mundo.
No Brasil à época presidido por Jair Bolsonaro[2], com a terminologia “ideologia de gênero”, as teorias de gênero foram colocadas pela direita conservadora como instrumento de ansiedades e medos sociais, a partir de uma visão fantasmagórica, principalmente sobre a educação infantil e acadêmica, como forma de inutilização de categoria de análise que se popularizou a nível global. Fernando Balieiro (2018) já apontava como a categoria gênero era um alvo do que academicamente se compreendeu como a formação de um pânico moral contemporâneo, em decorrência da utilização de recursos discursivos estratégicos para subverter os avanços nos direitos sexuais e reprodutivos como ameaças, potencializando os empreendimentos morais em debates públicos nas mídias convencionais, nos parlamentos e nas redes sociais[3].
“Quem tem medo do gênero” é uma obra composta por 10 capítulos. Em um primeiro momento, e que vai ser utilizado ao longo do livro, Butler (2024) apropria-se de um pensamento dos psicanalistas Jacques Lacan, Jean Laplanche e Freud. Descreve sobre a lógica do fantasma, a partir de uma análise da reprodução de gênero como uma ideologia que visa a destruição, e, consequentemente, acionar modos de demonização e enfrentamento ao temido tema. Essa fantasia é tida como uma “forma de organização de mundo forjada pelo medo de destruição pelo à qual o gênero é considerado responsável” (Butler, 2024, p. 17).
Diante disso, com o governo de Bolsonaro (2019/2022) e o governo estadunidense de Donald Trump (2017/2021), o pensamento crítico sobre gênero é minado pelas generalizações que visam fortalecer o conceito de gênero como estritamente à lógica determinista e biológica do sexo. Desse modo, o medo e ódio sobre gênero ganham proporções ainda maiores com as alianças governamentais à visão religiosa cristã da complementaridade e a heteronormatividade nos conceitos de família, relações sexuais, direito ao aborto, igualdade de gênero e educação sexual nas escolas.
Em um segundo momento, Butler (2024) analisa aos longos dos últimos anos (2013-2024) o posicionamento contraditório do Vaticano em relação às pessoas que não estão enquadradas nas normas construídas, como uma busca por relacionar a homoafetividade a pedofilia. Nesse contraponto, a autora defende que a Igreja distorce o discurso de modo a atacar minorias sobre os problemas que ela mesmo enfrenta: os mais de 300 mil casos de denúncias de relações sexuais de padres com crianças e jovens.
A ideia de uma perigosa Ideologia de Gênero surgiu na década de 1990, quando o Pontifício Conselho para a Família alertou que o “gênero” era uma ameaça à família e à autoridade bíblica. Pode-se traçar as origens da ideia através dos documentos deste Conselho para a Família, mas desde então, ela tem percorrido caminhos que acompanham o poder político do Vaticano, bem como a sua aliança recentemente formada com a igreja evangélica na América Latina (Butler, 2024, p. 41)
Diante de um cenário fantasmático, estudar e discutir sobre gênero torna-se algo “perigoso”, na visão dos movimentos políticos antigênero e religiosos, inclusive sobre o próprio pronunciamento da palavra “gender” (“gênero”, em inglês). Este cenário, para Butler (2024), dificulta a compreensão aberta de gênero e as suas diversas possibilidades, inclusive em termos linguísticos e de tradução ou não em diversos lugares do mundo.
Em um terceiro momento, com uma análise da vida corporificada, a autora destaca diversas dificuldades para ações progressistas sociais no âmbito político, como a garantia de direitos fundamentais para as pessoas gays, lésbicas, trans, intersexo e não binárias. Argumenta que esses indivíduos são impedidos de encontrar ambientes não-tóxicos, igualitários, e em especial, que seus corpos possam viver sem medo das suas expressões. Pela perspectiva da “Família Natural”, reforçada pela Igreja e pelos movimentos antigênero por meio de campanhas morais, essa articulação enfatiza a patologização, a reparação e a criminalização dessas vidas.
O ódio é alimentado e racionalizado pela retidão moral, e todas as pessoas prejudicadas e destruídas por movimentos odiosos são apresentadas como as verdadeiras agentes da destruição. Essa projeção e inversão estruturam o cenário fantasmático do “gênero”. Ficamos, assim, com duas perguntas urgentes: quem quer destruir quem? E de que modo as formas de sadismo moral compartilhado e crescente se manifestam como uma ordem virtuosa? (Butler, 2024, p. 16)
Com isso, a proposta colocada por Butler (2024) é reduzir esse fantasma e revelar a falsidade colocada pelos grupos antigênero, a fim de produzir um outro imaginário sobre essas narrativas que contrapõe o modo de vida mais livre e vivenciável. Assim, a autora engendra uma tentativa de argumentar contra os variados pontos em que buscam demonizar os estudos sobre gênero.
Um deles é a própria discussão sobre o termo ideologia, apropriada pelos grupos de direita e conservadores das postulações de Marx e Engels, e colocada como uma forma de falso conhecimento ou como um “ponto de vista”, sem considerar os diversos elementos históricos críticos dos estudos sobre a ideologia. Assim, o gênero é posto como uma visão totalitária que visa acabar com regimes democráticos, instituindo o fascismo e acabando com a ordem natural por aquilo que acreditam ser dado pelo deus do cristianismo.
Outro ponto levantado por Butler (2024) é sobre o que, ao discutir gênero, é promovido. Isso seja talvez o verdadeiro medo de quem ataca o gênero a partir de um viés religioso: a autoridade patriarcal, a dominação masculina e as estruturas de poder, postas socialmente. Tendo isto em vista, os estudos de gênero colocam em pauta termos sobre a igualdade salarial entre homens e mulheres, a liberdade sexual, a liberdade das mulheres para decidirem sobre o próprio corpo - como a questão do aborto - e participação política efetiva de grupos minorizados, como negros, colonizados e outros.
A partir de uma visão política, Butler (2024) elenca que gênero é rejeitado por distintas formas e por diferentes governos, exemplificando essa visão distorcida como na Rússia de Vladimir Putin, através do apoio da Igreja Ortodoxa Russa, em que gênero é uma forma do ocidente de controle e destruição da identidade nacional – destaca o posicionamento do presidente em relação aos países da Europa com maior aceitação à temática, chamando-a de “gayropa”.
Entretanto, a autora destaca que a visão de rejeição ao gênero ganha formatos diferentes a depender da cultura, da política e dos argumentos nos países do mundo. Na Polônia, por exemplo, é criado zonas “livres de LGBT” como modo de demarcação territorial do preconceito. Em países da África, Butler (2024) enfatiza a influência de grupos evangélicos pentecostais na visão sobre o fantasma do gênero. No caso da Uganda, proíbe-se rigorosamente qualquer expressão de homossexualidade com penas de morte.
Em outro momento, a autora alude ao fato de que os movimentos feministas antigênero não consideram as pessoas trans como mulheres, abrindo questionamentos inclusive sobre o que é ser mulher ou o que torna uma pessoa uma mulher. Assim, essa vertente do feminismo parte de uma visão do senso comum, positivista, sobre a determinação biológica, hormonal e genital. E além disso, generaliza as pessoas com pênis como potenciais estupradores - incluindo pessoas trans ao usarem o banheiro feminino - como se o estrupo fosse causado somente pela penetração indesejada por pênis e não também por objetos, o que pode acontecer inclusive por outras mulheres “naturais”, ditas assim concebidas no nascimento.
Com isso, são colocados os desafios para o debate de gênero como um constructo social: na visão feminista transexcludente, a ideologia de gênero não considera os aspectos biológicos, enquanto promove uma visão determinista dele. Entretanto, Butler (2024) traz a análise de gênero a partir da interação humana e ambiente, sendo social, ambiental e psicológica. Assim, como para viver é preciso de se nutrir com alimentação, o social entra como parte fundamental na vida de uma pessoa. Portanto, o gênero pode ganhar uma proporção biopsicossocial.
Butler (2024) defende gênero como um campo aberto, a ser discutido e não colocado como um determinismo, mas como parte daquilo que envolve a liberdade de se viver bem. Ao mesmo tempo que o sujeito pode se declarar homem ou mulher, possui também a liberdade de não se enquadrar somente neste binarismo – como uma pessoa trans que se declara mulher, ou outra que se identifica/autodeclara de outras formas.
Destarte, “Quem tem medo de gênero?” (Butler, 2024) apresenta um panorama sobre a complexidade e a amplitude que tem a temática de gênero. A autora considera que gênero, em diversos campos sociais e movimentos, é atacado como critério de análise, recaindo no binarismo, no determinismo biológico sexual, ou em ordens religiosas da complementaridade e heteronormatividade. Com isso, busca ampliar o debate sobre gênero, inclusive sobre termos biológicos, ambientais e sociais. Além disso, propõe pontos relevantes a serem refletidos sobre o imperativo de grupos brancos eurocêntricos sobre a configuração de gênero em países colonizados.
O livro tem uma leitura complexa, e em alguns pontos exige que o leitor saiba da contextualização em que a autora exemplifica seus argumentos, sobretudo ao tecer suas análises considerando cenários políticos e sociais específicos. De outro modo, a obra traz a reflexão que debater e discursar sobre gênero é um exercício que exige enxergar os diversos pontos que o contextualizam, bem como tratar sobre causas importantes, tais como as estruturas de poder estabelecidas socialmente, e os acessos e direito à uma vida digna e livre de preconceitos, em que todos possam conviver em ambientes vivenciáveis e com suas liberdades garantidas. Portanto, a obra é uma leitura essencial para quem estuda gênero e sexualidade, pois oferece uma atualização do assunto em várias partes do mundo, enfatizando a abordagem decolonial e anti às múltiplas formas de preconceitos. Vale a leitura!
[1] O Instituto Humanita Unisinos noticiou o ocorrido em: <https://www.ihu.unisinos.br/categorias/186-noticias-2017/573413-queimem-a-bruxa-visita-de-judith-butler-provoca-manifestacoes-nas-ruas-de-sao-paulo>. Acesso em 18 de dezembro de 2024.
[2] Santos (2023) aponta como o bolsonarismo utilizou a ofensiva antigênero como “cortina de fumaça” para avançar em sua plataforma ultraneoliberal, ao mesmo tempo em que propôs uma reconfiguração regressiva no campo das relações sociais, pautadas por um conteúdo ideologicamente moralista e machista.
[3] Richard Miskolci e Maximiliano Campana (2017) traçam uma genealogia do termo “ideologia de gênero” e apontam como o pânico moral contemporâneo se constituiu como uma nova gramática política empreendida por grupos de interesses conservadores em rebate aos ideais dos movimentos feministas e LGBTs. Para uma melhor compreensão sobre a terminologia, recomenda-se Novaes, Andrade e Santos (2020)
Consumption subculture and taste formation: a case study on a brewpub in the south of Minas Gerais (MG)
Objective: It is proposed to investigate how a brewpub from the south of Minas Gerais influences the formation and maintenance of taste in a subculture of craft beer consumers.
Method: Data collection consists of non-participant observation, in addition to the use of documents and semi-structured interviews with actors involved in this context.
Originality/Relevance: The study contributes to discussions about consumer behavior as it is dedicated to understanding how an establishment influences and is influenced by aspects of subculture and taste formation. The brewpub in question is considered a place where cultural practices are expressed.
Results: The brewpub promotes “eccentric” sensory experiences in the observed field, through numerous elements. It was observed that the preferences, choices and desires of these agents rescue sensory stimuli and assume common meanings and symbolism. Furthermore, the shared meanings are also the result of the organization's effort to be a point of connection. The relationships established and identified form a subculture, which directly influences the formation and maintenance of consumer tastes.
Theoretical/methodological contributions: The contributions highlight how taste can be improved and given new meaning based on the activities proposed by the brewpub and the elements that are part of this space. The countless possibilities are reiterated through a qualitative methodology, especially regarding the subjective aspects of the participants in this study
Narrativas (auto) biográficas como espaços de formação de gestores: a dimensão tácita do conhecimento e sua correspondência com a identidade profissional
This text presents partial research results on the tacit dimension of personal knowledge among school administrators in relation to their professional identity. The general objective is to identify the existence of this tacit knowledge dimension and its correspondence with professional identity, based on (auto)biographical narratives as spaces for professional development. Specific objectives include analyzing administrators' perceptions of themselves and their practice, and elucidating the tacit knowledge present in their career paths. The research, using a qualitative approach and action research nature, was conducted with 15 administrators working in Early Childhood Education, Elementary Education, and Adult Education in a municipal school network in São Paulo state. Data collection was carried out through two autobiographical narratives, a testing instrument, and a focus group. The study aims to contribute to the appreciation of experience as an essential part of professional development and identity.Este texto traz resultados parciais de pesquisa sobre a dimensão tácita do conhecimento pessoal dos gestores escolares na correspondência de sua identidade profissional. O objetivo geral é identificar a existência da dimensão de conhecimento tácito e sua correspondência com a identidade profissional a partir das narrativas (auto) biográficas como espaços de formação. Os objetivos específicos envolvem a análise das percepções dos gestores sobre si mesmos e sua prática e a explicitação dos saberes tácitos presentes em suas trajetórias. A pesquisa, de abordagem qualitativa e natureza pesquisa-ação, foi desenvolvida com 15 gestores que atuam na Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos de uma rede municipal de ensino paulista. A produção de dados se deu por meio de duas narrativas autobiográficas, um instrumento de testagem e grupo focal. O estudo visa contribuir para a valorização da experiência como parte essencial da formação e da identidade profissional
Abordagem CTS a partir da temática “Revolução Industrial e a máquina a vapor: reflexos nas mudanças sociais” no ensino de química: um olhar sobre as compreensões dos estudantes
In this study, the Industrial Revolution was used as a theme to explore relationships between science, technology, and society (STS) in Chemistry education. This qualitative research analyzed the understanding of 38 high school students on the topic “Industrial Revolution and the steam engine: reflections on social changes” and was guided by the research question: “How do students understand the relationships between the Industrial Revolution, the steam engine, and society in the context of a pedagogical intervention with an STS approach?” Using Waks’ spiral of responsibility and a historical case study, students' drawings and responses were analyzed. The results revealed significant advancements in their understanding of the social implications of scientific and technological progress. Students' perceptions ranged from viewing progress as “always,” “never,” or “not always” promoting social well-being, demonstrating critical evolution from their initial ideas and highlighting the potential of the STS approach in education.Na presente pesquisa utilizamos a Revolução Industrial como tema para explorar relações entre ciência, tecnologia e sociedade (CTS) no ensino de Química. Neste sentido, este estudo qualitativo analisou compreensões de 38 estudantes do ensino médio sobre o tema “Revolução industrial e a máquina a vapor: reflexos nas mudanças sociais” e foi norteado pela questão de pesquisa: “Como estudantes compreendem relações entre Revolução Industrial, máquina a vapor e sociedade no contexto de uma intervenção pedagógica com abordagem CTS?”. Utilizando a espiral de responsabilidade de Waks e estudo de caso histórico, foram analisados desenhos e respostas dos estudantes. Os resultados apontaram avanços significativos na compreensão das implicações sociais do progresso científico e tecnológico. As percepções dos alunos variaram entre considerar que o progresso “sempre”, “nunca” ou “nem sempre” promove o bem-estar social, demonstrando evolução crítica em relação às ideias iniciais e destacando o potencial da abordagem CTS no ensino
Reforma empresarial da educação:
The article analyzes the groups behind the Business Reform of Education (REE) in Brazil and discusses the strategies they used to promote their interference in school education in Brazil in the post-redemocratization period. Based on Freitas (2012, 2018), Saviani (2020), and Duarte (2020), the text uses documentary analysis of laws, reports, and materials from the institutes involved in these corporate reforms to map the actions of corporate coalitions and their influence on the curriculum and management of education. Among the study's conclusions, it is noteworthy that the REE, supported by think tanks and national and international organizations, promoted the commodification of education, the strangulation of propaedeutic content in the curriculum, and damage to the socialization of knowledge essential to school education.O artigo analisa os grupos por trás da Reforma Empresarial da Educação (REE) no Brasil e discute as estratégias usadas por eles para promover sua ingerência sobre a educação escolar no Brasil no período pós-redemocratização. Baseado em Freitas (2012, 2018), Saviani (2020), Duarte (2020), o texto utiliza análise documental de leis, relatórios e materiais dos institutos envolvidos nessas reformas empresariais para mapear a atuação de coalizões empresariais e sua influência no currículo e na gestão do ensino. Entre as conclusões do estudo, destaca-se que a REE, sustentada por think tanks e organismos nacionais e internacionais, promoveu a mercantilização da educação, o estrangulamento dos conteúdos propedêuticos na organização curricular e prejuízo à socialização dos saberes imprescindíveis à educação escolar
Aprendizagem escolar e integração sensorial: um estudo com alunos inseridos em salas de recursos multifuncionais
This article presents an excerpt from research that investigated how knowledge about sensory processing can contribute to the teaching of students with sensory dysfunction. Teachers' responses to the Sensory Profile 2 - School Follow-up, applied to 44 neuroatypical children of the 2nd and 3rd year of elementary school, also attended in Multifunctional Resource Rooms of public schools in northwestern Paraná, were analyzed. The data, classified in three levels of intensity, revealed that most children presented more intense sensory responses than the normative average. The Exploration, Avoidance, Sensitivity and Observation quadrants were highlighted, in addition to the auditory, visual, tactile and movement domains. The results show that sensory processing directly influences behavior and school participation, highlighting the importance of pedagogical strategies adapted to sensory needs to promote engagement and learning of these students.Este artigo apresenta um recorte de uma pesquisa que investigou como o conhecimento sobre o processamento sensorial pode contribuir para a aprendizagem de alunos com disfunção sensorial. Foram analisadas as respostas de professores ao Perfil Sensorial 2 – Acompanhamento Escolar, aplicado a 44 crianças neuroatípicas do 2º e 3º ano do Ensino Fundamental, atendidas também em Salas de Recursos Multifuncionais de escolas públicas do noroeste do Paraná. Os dados, classificados em três níveis de intensidade, revelaram que a maioria das crianças apresentou respostas sensoriais mais intensas que a média normativa. Destacaram-se os quadrantes de Exploração, Esquiva, Sensibilidade e Observação, além dos domínios auditivo, visual, tátil e de movimento. Os resultados apontam que o processamento sensorial influencia diretamente o comportamento e a participação escolar, evidenciando a importância de estratégias pedagógicas adaptadas às necessidades sensoriais para promover o engajamento e a aprendizagem desses alunos
Saúde mental na conjuntura da infância e juventude: a intersetorialidade nas políticas educacionais de inclusão e de saúde infantojuvenil
The general objective of this paper is to understand mental health in the context of childhood and youth. The specific objective of this study is to analyze intersectorality in educational policies for inclusion and child and adolescent health. The research methodology adopts a qualitative approach, given that it explores the assertions of authors/researchers who discuss mental health, educational policies, and child and adolescent health. Furthermore, in this study, we highlight the perspectives of mental health, education, and intersectorality as defined by Maria Cristina Ventura Couto, Cristiane S Duarte, and Pedro Gabriel Godinho Delgado (2008), as well as Carolina Donato da Silva and Andrea Perosa Saigh Jurdi (2022) and other authors who discuss the topic. We conclude that children and adolescents who require mental health services remain largely invisible in these policies. This reveals a disconnect between the legal recognition of their rights and the implementation of concrete actions to address their specific needs.El objetivo general de este artículo es comprender la salud mental en el contexto de la infancia y la juventud. Como objetivo específico, este estudio analizará la intersectorialidad en las políticas educativas de inclusión y salud infantil y juvenil. En cuanto a la metodología, la investigación adopta un enfoque cualitativo, ya que recorre los meandros de las afirmaciones de autores/investigadores que discuten sobre la salud mental, las políticas educativas y la salud infantil y juvenil. Además, en esta investigación destacamos las perspectivas de salud mental, educación e intersectorialidad en las acepciones de Maria Cristina Ventura Couto, Cristiane S Duarte y Pedro Gabriel Godinho Delgado (2008), además de Carolina Donato da Silva y Andrea Perosa Saigh Jurdi (2022), y otros autores que discuten el tema en cuestión. Llegamos a la conclusión de que la población infantil y juvenil que necesita asistencia de los servicios de salud mental sigue siendo, en gran medida, invisible en estas políticas. Esto revela una desconexión entre el reconocimiento legal de sus derechos y la implementación de acciones concretas para sus necesidades específicas.Este artigo tem por objetivo geral compreender a saúde mental na conjuntura da infância e juventude. Por objetivo específico, este estudo irá analisar a intersetorialidade nas políticas educacionais de inclusão e de saúde infantojuvenil. Por metodologia, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, haja vista percorrer os meandros das assertivas de autores/pesquisadores que discorrem acerca da saúde mental, políticas educacionais e saúde infantojuvenil. Ademais, salientamos nessa pesquisa as perspectivas de saúde mental, educação e intersetorialidade nas acepções de Maria Cristina Ventura Couto, Cristiane S Duarte, e Pedro Gabriel Godinho Delgado (2008), além de Carolina Donato da Silva e Andrea Perosa Saigh Jurdi (2022), e outros(as) autores(as) que discorrem a temática aferida. Temos por conclusão de que a população infantojuvenil que demanda assistência de serviços de saúde mental permanece, em grande medida, invisível nessas políticas. Isso revela uma desconexão entre o reconhecimento legal de seus direitos e a implementação de ações concretas para suas necessidades específicas
Aplicação de ferramentas computacionais de otimização na gestão de recursos humanos em redes hospitalares: Evolução e tendências
In times of major pandemics, where difficulties in efficiently managing health resources are increased, the use of mathematical and computational solutions that provide a better use of resources becomes even more critical. Thus, the healthcare optimization theme has been increasingly addressed in several hospital networks worldwide, which can also be evidenced by the growing number of practical scientific researches conducted in the area. In this sense, the present study aimed to perform a broad literature review on the development of combinatorial optimization approaches applied to human resource management problems in hospital environments. As the main results, it was possible to identify and highlight the evolution of the principal problems addressed in recent years and map the main approaches developed in the studies. These results contribute to scientific advancement in the theme, allowing a systemic view of the current scenario and verifying future scientific trends and perspectives in the area.Em tempos de grandes pandemias, onde as dificuldades na gestão eficiente de recursos de saúde são ampliadas, o uso de soluções matemáticas e computacionais que proporcionem um melhor aproveitamento dos recursos se tornam ainda mais importantes. Com isso, a temática de healthcare optimization vem sendo cada vez mais abordada em redes hospitalares no mundo, evidenciado também pelo crescente aumento de pesquisas científicas conduzidas na área. Neste sentido, o presente estudo teve como objetivo realizar uma vasta revisão da literatura sobre o desenvolvimento de abordagens de otimização combinatória aplicada a problemas de gerenciamento de recursos humanos em ambientes hospitalares. Como principais resultados, foi possível identificar e analisar as principais problemáticas tratadas nos últimos anos, mapeando as principais abordagens de resolução desenvolvidas nos estudos. Tais resultados contribuem para o avanço científico na temática, possibilitando uma visualização sistêmica do cenário atual, assim como a constatação de tendências e perspectivas científicas futuras na área
A torre mágica do cinema: formação estética em O Menino e a Garça
This article analyzes the film The Boy and the Heron (2023), by Hayao Miyazaki, as a formative aesthetic experience. Between the real and the imaginary, Miyazaki builds a narrative about grief, coming of age, and the transformative power of imagination in navigating these experiences. The film operates as a meditation on escapism and the role of fictional narratives in shaping subjectivity. Drawing on a hermeneutic approach, the study proposes understanding cinema not as a logical-rational pedagogical tool – what the Greeks called máthema ¬– but as a sensitive provocation operating through páthei máthos, a form of knowledge that arises from experience, suffering, and imagination. The film is examined in its symbolic, intertextual, and poetic complexity, inviting the viewer to become a co-creator of meaning. With support from authors such as Nietzsche, Sontag, Barthes, and Merleau-Ponty, the article argues that the film contributes to a pedagogy of choice, not aimed at instruction but at opening possibilities for (trans)formation. The cinematic image, far from offering univocal answers, creates space for a sensibility-based formation that enables confronting nihilism not through escape, but through self-creation. In this way, cinema reveals itself as a “magic tower” that, by allowing a temporary detachment from reality through fantasy, enables the viewer to return transformed.El artículo analiza la película El Niño y la Garza (2023), de Hayao Miyazaki, como una experiencia estética formativa. Entre lo real y lo imaginario, Miyazaki construye una narrativa sobre el duelo, el crecimiento y el poder transformador de la imaginación en el afrontamiento de estos procesos. La película funciona como una reflexión sobre el escapismo y el papel de las narrativas de ficción en la formación de la subjetividad. A partir de una lectura hermenéutica, se propone comprender el cine no como una herramienta pedagógica lógico-racional – saber que los griegos denominaban máthema –, sino como una provocación sensible que opera mediante el páthei máthos, conocimiento que surge de la experiencia, el sufrimiento y la imaginación. La obra es examinada en su complejidad simbólica, intertextual y poética, convocando al espectador a la coautoría del sentido. Con el respaldo de autores como Nietzsche, Sontag, Barthes y Merleau-Ponty, se defiende que la película contribuye a una pedagogía de la elección, que no pretende instruir, sino abrirse a posibilidades de (trans)formación. La imagen cinematográfica, lejos de ofrecer respuestas unívocas, abre espacio para una formación desde lo sensible, que permite enfrentar el nihilismo no mediante la evasión, sino mediante la creación de sí. Así, el cine se revela como una “torre mágica” que, al proponer un alejamiento temporal de la realidad a través de la fantasía, posibilita un retorno transformado al mundo real.O artigo analisa o filme O Menino e a Garça (2023), de Hayao Miyazaki, como uma experiência estética formativa. Entre o real e o imaginário, Miyazaki constrói uma narrativa sensível sobre o luto, o amadurecimento e o poder transformador da imaginação diante desses processos. O filme opera, assim, como uma meditação sobre o escapismo e o papel das narrativas ficcionais na constituição da subjetividade. Partindo de uma leitura hermenêutica, propõe-se compreender o cinema não como ferramenta pedagógica lógico-racional, saber que os gregos definiam como máthema, mas como provocação sensível que opera pela via do páthei máthos, saber que advém da experiência, do sofrimento e da imaginação. A obra é examinada em sua complexidade simbólica, intertextual e poética, convocando o espectador à coautoria do sentido. Com apoio em autores como Nietzsche, Sontag, Barthes e Merleau-Ponty, defende-se que o filme contribui para uma pedagogia da escolha, que não visa à instrução, mas abre para possibilidades de (trans)formação. A imagem cinematográfica, longe de fornecer respostas unívocas, abre espaço para uma formação pelo sensível, que permite o enfrentamento do niilismo não pela fuga, mas pela criação de si. Assim, o cinema revela-se como uma “torre mágica” que, ao propor um afastamento temporário da realidade pela incursão no reino da fantasia, possibilita que se retorne ao real transformado
Cinema, educação e ensino de história
Cinema is a relevant artistic cultural artifact, given that its production and product, the film, is directly related to the educational process. Although its purpose is not didactic or pedagogical, but rather conceived as entertainment and leisure, it can be used by teachers in the classroom. We cannot ignore the fact that film educates, since every film production tells a story and, through narrative, produces representations of facts and subjects from different times and spaces, thus seeking to convey a truth. From this perspective, in this text, we analyze the film Madame Satã, that is, the representations of Black subjects and their cultural practices in Brazil in the 1930s, when modernization and modernity in Brazil were consolidated as a political, social, and cultural phenomenon. In this sense, we are interested in the place of Black people and their cultural practices in the context of the modern city of Rio de Janeiro, the seat of the republican state. In the film Madame Satã, what representations of Black people are recurrent, differing from how they are generally represented in Brazilian cinema: enslaved people, favela dwellers, and criminals? What contribution does this representation make to the general public's educational process in understanding Black history in Brazil from a perspective other than slavery? To inform our discussion, we engaged with researchers such as Carvalho and Domingos (2017), Napolitano (2003), Foucault (1987), and Jeudi (2002). Because of this, we believe this film can be used by history teachers in basic education classrooms to teach about Black history in post-abolition Brazil, especially the mechanisms and strategies of existence and resistance that these people employed to assert themselves as citizens.El cine es un artefacto cultural artístico relevante, dado que su producción y producto, la película, está directamente relacionada con el proceso educativo. Si bien su propósito no es didáctico ni pedagógico, sino que se concibe como entretenimiento y ocio, puede ser utilizado por el profesorado en el aula. No podemos ignorar que el cine educa, ya que toda producción cinematográfica cuenta una historia y, a través de la narrativa, produce representaciones de hechos y sujetos de diferentes épocas y espacios, buscando así transmitir una verdad. Desde esta perspectiva, en este texto analizamos la película Madame Satã, es decir, las representaciones de los sujetos negros y sus prácticas culturales en el Brasil de la década de 1930, cuando la modernización y la modernidad se consolidaron como un fenómeno político, social y cultural. En este sentido, nos interesa el lugar de las personas negras y sus prácticas culturales en el contexto de la moderna ciudad de Río de Janeiro, sede del estado republicano. En la película Madame Satã, ¿qué representaciones de las personas negras son recurrentes, a diferencia de cómo se las representa generalmente en el cine brasileño: personas esclavizadas, habitantes de favelas y criminales? ¿Qué aporta esta representación al proceso educativo del público general para comprender la historia negra en Brasil desde una perspectiva distinta a la de la esclavitud? Para fundamentar nuestra discusión, colaboramos con investigadores como Carvalho y Domingos (2017), Napolitano (2003), Foucault (1987) y Jeudi (2002). Por ello, creemos que esta película puede ser utilizada por el profesorado de historia en las aulas de educación básica para enseñar sobre la historia negra en el Brasil posabolicionista, especialmente los mecanismos y estrategias de existencia y resistencia que estas personas emplearon para afirmarse como ciudadanos.O cinema é um artefato cultural artístico relevante, visto o seu fazer e produto, o filme, está diretamente relacionado ao processo educativo, ainda que seu fim não seja didático-pedagógico, mas concebido como entretenimento e lazer, pode ser utilizado por professores/as em sala de aula. Não podemos prescindir que o filme educa, visto que toda produção fílmica conta uma história, e por meio da narrativa produz representações sobre fatos e sujeitos de diferentes tempos e espaços, e assim deseja imprimir uma verdade. A partir de então, neste texto analisamos o filme Madame Satã, ou seja, as representações dos sujeitos negros e suas práticas culturais no Brasil dos anos 1930, quando a modernização e a modernidade no Brasil se consolidaram como fenômeno político, social e cultural. Neste sentido, nos interessa nesse filme o lugar das pessoas negras e suas práticas culturais no contexto da cidade do Rio de Janeiro moderna, e sede do estado republicano. No filme Madame Satã, que representações são recorrentes as pessoas negras, que difere do modo como geralmente estas são representadas no cinema brasileiro: escravizadas, faveladas e bandidos? Qual contribuição dessa representação para o processo educativo do público em geral na compreensão acerca da história do negro no Brasil por outro viés, que não apenas o escravista? Para fundamentar essa nossa discussão, dialogamos com alguns pesquisadores/as, tais como Carvalho e Domingos (2017), Napolitano (2003), Foucault (1987) e Jeudi (2002). Devido a esse aspecto, consideramos que esse filme pode ser utilizado por professores/as de História em sala de aula da educação básica para ensinar sobre a história do negro no Brasil pós abolição, sobretudo, os mecanismos e as estratégias de existência e resistência que essa gente empreendeu para se afirmar cidadão/ã