Portal de Periódicos Eletrônicos Científicos (UNICAMP)
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O desafio do Timor-Leste atual: em busca de uma identidade nacional ligada à língua portuguesa
Produto de extensa pesquisa sobre educação em Timor-Leste, este artigo apresenta um recorte sobre os desafios da implantação da língua portuguesa naquele país, que a colocou como língua oficial de instrução na sua Constituição. O Timor é considerado um país transcontinental por apresentar seus domínios tanto no continente asiático, em sua porção norte, sob a influência do Pacífico, quanto na Oceania, em sua porção sul, ligada ao Oceano Índico. Antiga colônia portuguesa, provavelmente a menos prestigiada do Império Português ultramar, possui uma história eivada de desafios em busca de sua autonomia como nação. O objetivo do trabalho é apresentar, por meio das narrativas de antigos governadores portugueses no Timor do período colonial, Afonso de Castro (1824-1885) e Teófilo Duarte (1898-1958), as dificuldades do empreendimento colonial português naquelas terras frente à pluralidade linguística e cultural delas, ao espírito arredio dos seus habitantes em relação ao domínio português e aos obstáculos, conferidos pela distância da metrópole, para implantação definitiva da empresa colonial. Para isso, empreendeu-se pesquisa bibliográfica a livros e documentos na Biblioteca do Programa de Pós-Graduação e Pesquisa (PPGP) da Universidade Nacional de Timor Lorosa’e (UNTL), em Díli, Timor-Leste, assim como à Biblioteca do Instituto Nacional de Formação de Docentes e Profissionais da Educação (Infordepe), e entrevistas a professores, a formadores de professores e a estudantes no país. Como resultados, é possível identificar a dificuldade na implantação da língua portuguesa pela via educacional, em função da ausência de imersão nessa língua no espaço escolar, da grande oferta de línguas maternas para a comunicação cotidiana, do fortalecimento do movimento pela implantação de línguas maternas na escolarização inicial das crianças, ao mesmo tempo em que aponta a possibilidade de aquisição da língua portuguesa por seu povo pelo alcance do ciclo completo de escolarização até o nível superior
Espaços intersticiais e identitários em a Rosa Caramela e Rosalinda, a nenhuma, de Mia Couto
A contemporaneidade tem apresentado diversidades culturais que exigem reflexão, sobretudo no âmbito da literatura. A representação do ser humano na ficção corrobora para a negociação estabelecida entre a autenticidade literária e a globalidade. Os espaços estão cada vez mais intersticiais porque se fazem notar a partir de uma busca híbrida de elementos identitários. Nesse contexto, o continente africano tem chamado a atenção a transnacionalidade de escritas pós-coloniais como a de Mia Couto, autor moçambicano. Nos contos A Rosa Caramela e Rosalinda, a nenhuma, a realidade sensível das personagens é delineada pela sutileza dos espaços externos e internos, os quais se dão em interstícios fragmentados por uma identidade em processo de (des)estabilização. Este artigo busca analisar como os espaços intersticiais se articulam enquanto representação fendida para formarem o que se pode chamar identidade
Indígenas em movimento. Literatura como ativismo
Neste artigo, correlacionamos o desenvolvimento e o protagonismo público-políticos do Movimento Indígena brasileiro, a partir de meados de 1970, com a emergência e a consolidação da literatura indígena brasileira, a partir de 1990. Argumentaremos que, assim como as lideranças e os intelectuais indígenas fundadores do Movimento Indígena perceberam que somente a publicização e a politização de sua condição e de sua causa a partir da dinamização de uma voz-práxis direta, dos próprios indígenas por si mesmos e desde si mesmos, sem mediações institucionalistas, poderiam desvelar e problematizar a situação indígena no país, os escritores indígenas perceberam que somente produzindo suas próprias obras poderiam tanto descontruir a imagem caricata, folclórica e negativa feita de modo extemporâneo sobre seus povos, quanto reorientar o olhar, reformular a compreensão e recriar a imagem desses mesmos indígenas. Nesse sentido, a literatura indígena brasileira vincula-se diretamente ao Movimento Indígena e objetiva a publicização e a politização dos povos indígenas, constituindo-se em uma voz-práxis ativista, militante e engajada, em que o eu-nós lírico-político assume a promoção da singularidade antropológica e da diversidade cultural, e a denúncia da exclusão, da marginalização e da violência como seu objetivo e seu direcionamento mais básicos, buscando superar a invisibilização, o silenciamento e o privatismo a que os povos indígenas foram submetidos em nossa sociedade
Traduzir O estrangeiro, de Albert Camus: pensar a luz estrangeira na literatura em prosa
O objetivo deste artigo é apresentar uma leitura da novela O estrangeiro, de Albert Camus, publicado pela primeira vez em 1942, pautado no conceito de “lumière étrangère” [luz estrangeira], advindo das artes plásticas. A análise do protagonista é crucial e tem como base obras de José Régio, D. H. Lawrence ou ainda cartas de Mário de Andrade. Num segundo momento, pretende-se detalhar o gesto singular que emana da tradução dessa obra e que busca assimilar conscientemente aquele elemento estrangeiro. Em seguida, será necessário ressaltar as divergências da nossa tradução para o português brasileiro, com as que estão disponíveis no mercado, para mostrar que o elemento estrangeiro pode provocar um grande desconforto para o tradutor, que tenderá a neutralizá-lo. Num terceiro momento, procura-se estabelecer uma reflexão, a partir do exercício tradutório, para ressaltar problemas específicos à tradução de textos literários em prosa. Essa reflexão passa por teóricos como Antoine Berman e Haroldo de Campos, notadamente na problematização dos conceitos de “informação semântica” e “informação estética”, elaborados por Max Bense
Em 1974: : os princípios da Biblioteca Ayacucho
This article presents the political discurses mobilized in the construction of Biblioteca Ayacucho, inaugurated in 1974 by the Presidency of Venezuela. Trough the intellectual history, I analyze the mechanisms that initially organized the past that founds both the Biblioteca’s narrative and the concept of Latin America that it exposes. It should be noted that this past is highly plastic and malleable because, to this day, the Bibilioteca Ayacucho, regardless of political uses, is a successful cultural diffusion project with more than forty years of existence.Este artigo apresenta alguns dos discursos políticos mobilizados na construção da Biblioteca Ayacucho, inaugurada em 1974 pela Presidência da Venezuela. Através da história intelectual, analiso os mecanismos que inicialmente organizaram o passado que funda tanto a narrativa da Biblioteca como o conceito de América Latina que ela expõe. Cabe ressaltar que esse passado é altamente plástico e maleável porque, até os dias de hoje, a Biblioteca Ayacucho, independentemente dos usos políticos, é um projeto de difusão cultural bem-sucedido com mais de quarenta anos de existência
Cartas e manuscritos de Haroldo de Campos
Os documentos que seguem permitem entrever brevemente o processo de trocas de cartas que sustentaram a fabricação das Galáxias em francês.Note-se que na época em que Haroldo de Campos e eu começamos a trabalhar nessa tradução, que resultaria nas Galaxies quase trinta anos depois, não havia os meios de comunicação de hoje: Haroldo enviava seus textos paulatinamente batidos à máquina (uma Remington...), eu os retornava à mão ou à máquina, ele relia e os reenviava à mão etc
Macunaíma e Chico Antônio: heróis do Brasil profundo
Mário de Andrade understood the nation from relations between pairs of opposites. Brazil would be the hybrid image between the city and the sertão, the modern and the archaic, the progress and the backwardness. This article questions the way in which the writer thought the Brazilian identity from the analysis of two texts: the classic narrative Macunaíma and the chronicler series Vida do cantador, based on the real character Chico Antônio, a popular singer the Mário de Andrade met when he traveled to the Northeast in the late 1920s. It seeks to show, in particular, the construction of an image of Brazil as a criticism or reaction to modern civilization. In other words, according to the author, the Brazilian nation would be a new, so-called tropical civilization, averse to the paradigm of European bourgeois society.Mário de Andrade entendió la nación a partir de las relaciones entre pares de opuestos. Brasil sería la imagen híbrida entre la ciudad y el backcountry, lo moderno y lo arcaico, el progreso y el retraso. Este artículo cuestiona cómo el escritor pensó la identidad brasileña a partir del análisis de dos textos: la narrativa clásica Macunaíma y la serie de crónicas Vida do cantador, basadas en el personaje real Chico Antônio, popular cantante que Mário de Andrade conoció cuando viajó al Noreste a fines de la década de 1920. Busca mostrar, particularmente, la construcción de una imagen de Brasil como crítica o reacción a la civilización moderna. En otras palabras, según el autor, la nación brasileña sería una nueva civilización, llamada tropical, reacia al paradigma de la sociedad burguesa europea.Mário de Andrade compreendeu a nação a partir de relações entre pares de opostos. O Brasil seria a imagem híbrida entre a cidade e o sertão, o moderno e o arcaico, o progresso e o atraso. Este artigo questiona o modo como o escritor pensou a identidade brasileira a partir da análise de dois textos: a narrativa clássica Macunaíma e a série de crônicas Vida do cantador, baseada no personagem real Chico Antônio, cantor popular que Mário de Andrade conheceu quando de sua viagem ao Nordeste em fins dos anos 1920. Busca-se mostrar, particularmente, a construção de uma imagem do Brasil enquanto crítica ou reação à civilização moderna. Em outros termos, segundo o autor, a nação brasileira seria uma civilização nova, dita tropical, avessa ao paradigma de sociedade burguesa europeia
Seja como for: entrevistas, retratos e documentos
Resenha de Seja como for, do Roberto Schwarz.Resenha de Seja como for, do Roberto Schwarz.Resenha de Seja como for, do Roberto Schwarz
O discurso de posse de um poeta-diplomata na Academia Brasileira de Letras e outros opúsculos
Em 1969, João Cabral de Melo Neto tomou posse na Academia Brasileira de Letras com um discurso sobre a prosa de seu antecessor na cadeira 37, sob o título de “Elogio a Assis Chateaubriand”. A partir desse escrito, intenta-se descrever algo acerca da vida cultural e literária brasileiras, considerando os lugares sociais ocupados pelo autor enquanto diplomata e acadêmico, mediados pelas relações pessoais ou familiares de que ele privou. De igual modo, serão depreendidas informações daquele texto a fim de explorar relações entre vida social e forma literária, levando em conta suas eleições temáticas e estilísticas, bem como sua compreensão sobre o desenvolvimento literário, notadamente o modernismo brasileiro. Para tanto, serão acionadas outras modalidades textuais, que sirvam de aparato ou contraponto ao discurso de posse, quais sejam, cartas, prefácios ou opúsculos pouco conhecidos do poeta que possam ampliar o entendimento de sua obra, ilustrada pelo poema “Vicente Yañez Pinzón”
Literatura como antropofagia em Silviano Santiago: anotações sobre um percurso ficcional até o romance Machado
O presente texto pretende desenvolver uma reflexão sobre o romance mais recente de Silviano Santiago: Machado (2016b). Já estudado por suas incursões pela ficcionalização de Graciliano Ramos depois do cárcere, no Em liberdade (1981), e da viagem de Antonin Artaud ao México, no Viagem ao México (1995), o escritor agora aventura-se na celebração do universo de Machado de Assis. A narrativa de 2016, ao perfazer uma mistura entre romance, ensaio, biografia e crítica de costumes, dedica-se a retomar os últimos anos do mais aclamado romancista da literatura brasileira, em seu ocaso de melancólica viuvez e crises nervosas. A abordagem se propõe a enlaçar a perspectiva da assinatura como identidade móvel e em constante processo de mutação com o legado da antropofagia, em que a apropriação criativa da contribuição do outro celebra um horizonte compartilhado como ponto de fuga