Portal de Periódicos Eletrônicos Científicos (UNICAMP)
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Apresentação
O presente volume da Remate de Males contém o dossiê “ECOCRÍTICA(S). Literatura e Colapso Ambiental”, organizado pelos Professores Elena Brugioni e Alfredo César Barbosa de Melo, bem como artigos e resenhas avulsas. O dossiê possui uma introdução própria, apresentada abaixo, quanto aos textos de temática livre, eles são os seguintes: “Hototogisu, a história de um romance de sucesso”, de Karen Kazue Kawana, examina a obra de Roka Tokutomi (1868-1927), prestando particular atenção ao processo social que introduziu o romance moderno no Japão. Edson Ribeiro da Silva, no seu artigo “A sedimentação e a inovação como atos intencionais que configuram Dora Bruder como um romance-de-testemunho” observa como este romance de Patrick Modiano faz uso tanto da memória individual como da coletiva para que ele possa configurar a verdade daquilo que narra e assumir-se como testemunho com valor de arquivo. João Gabriel Mostazo Lopes j., em “Dificuldade da poesia: desafiando o modelo teórico de Alfredo Bosi” procura desenhar os primeiros parâmetros do que está chamando de “dificuldade da poesia”, tomando como ponto de partida a reflexão crítica sobre o conceito de “resistência” formulado por Alfredo Bosi nos anos 1970. O funcionamento do conceito bosiano de resistência depende de uma dupla projeção: de um lado, tendo perdido a sua capacidade de “nomear a vida”, o poema resistente, ou lido sob a chave da “poesia enquanto resistência”, projeta-se sobre a imagem do que o autor chama de “unidade mítica perdida” da poesia; de outro, instalando-se em um “presente aberto”, o poema resistente profetiza um “futuro promissor”.O presente volume da Remate de Males contém o dossiê “ECOCRÍTICA(S). Literatura e Colapso Ambiental”, organizado pelos Professores Elena Brugioni e Alfredo César Barbosa de Melo, bem como artigos e resenhas avulsas. O dossiê possui uma introdução própria, apresentada abaixo, quanto aos textos de temática livre, eles são os seguintes: “Hototogisu, a história de um romance de sucesso”, de Karen Kazue Kawana, examina a obra de Roka Tokutomi (1868-1927), prestando particular atenção ao processo social que introduziu o romance moderno no Japão. Edson Ribeiro da Silva, no seu artigo “A sedimentação e a inovação como atos intencionais que configuram Dora Bruder como um romance-de-testemunho” observa como este romance de Patrick Modiano faz uso tanto da memória individual como da coletiva para que ele possa configurar a verdade daquilo que narra e assumir-se como testemunho com valor de arquivo. João Gabriel Mostazo Lopes j., em “Dificuldade da poesia: desafiando o modelo teórico de Alfredo Bosi” procura desenhar os primeiros parâmetros do que está chamando de “dificuldade da poesia”, tomando como ponto de partida a reflexão crítica sobre o conceito de “resistência” formulado por Alfredo Bosi nos anos 1970. O funcionamento do conceito bosiano de resistência depende de uma dupla projeção: de um lado, tendo perdido a sua capacidade de “nomear a vida”, o poema resistente, ou lido sob a chave da “poesia enquanto resistência”, projeta-se sobre a imagem do que o autor chama de “unidade mítica perdida” da poesia; de outro, instalando-se em um “presente aberto”, o poema resistente profetiza um “futuro promissor”.O presente volume da Remate de Males contém o dossiê “ECOCRÍTICA(S). Literatura e Colapso Ambiental”, organizado pelos Professores Elena Brugioni e Alfredo César Barbosa de Melo, bem como artigos e resenhas avulsas. O dossiê possui uma introdução própria, apresentada abaixo, quanto aos textos de temática livre, eles são os seguintes: “Hototogisu, a história de um romance de sucesso”, de Karen Kazue Kawana, examina a obra de Roka Tokutomi (1868-1927), prestando particular atenção ao processo social que introduziu o romance moderno no Japão. Edson Ribeiro da Silva, no seu artigo “A sedimentação e a inovação como atos intencionais que configuram Dora Bruder como um romance-de-testemunho” observa como este romance de Patrick Modiano faz uso tanto da memória individual como da coletiva para que ele possa configurar a verdade daquilo que narra e assumir-se como testemunho com valor de arquivo. João Gabriel Mostazo Lopes j., em “Dificuldade da poesia: desafiando o modelo teórico de Alfredo Bosi” procura desenhar os primeiros parâmetros do que está chamando de “dificuldade da poesia”, tomando como ponto de partida a reflexão crítica sobre o conceito de “resistência” formulado por Alfredo Bosi nos anos 1970. O funcionamento do conceito bosiano de resistência depende de uma dupla projeção: de um lado, tendo perdido a sua capacidade de “nomear a vida”, o poema resistente, ou lido sob a chave da “poesia enquanto resistência”, projeta-se sobre a imagem do que o autor chama de “unidade mítica perdida” da poesia; de outro, instalando-se em um “presente aberto”, o poema resistente profetiza um “futuro promissor”
Ecocrítica(s): literatura e colapso ambiental
Ecocriticism stands out among the most relevant developments in contemporary literary studies, especially with regard to the field of comparative literature, postcolonial reflection and the debate on world literature; however, it is a theoretical and analytical perspective that is still poorly consolidated in Brazil, especially in the field of literary theory and criticism. Taking into account the proliferation of categories that generally intend to observe the (geological) impact of the human in its various subjectivities and through distinct critical perspectives – anthropocene, plantationcene capitalocene or chthuluceno (Moore, 2016; Haraway 2015), among others – the environment, to be understood in its inevitable convergence between people, animals, nature and the capitalist world-system, is configured as a theme and a literary problem, offering the possibility of (re)defining literature – its aesthetics, forms and genres, as well as its critical and conceptual paradigms – from an eco-environmentalist perspective.La ecocrítica se destaca entre los desarrollos más relevantes en los estudios literarios contemporáneos, especialmente en lo que respecta al campo de la literatura comparada, la reflexión poscolonial y el debate sobre la literatura mundial; sin embargo, es una perspectiva teórica y analítica que todavía está poco consolidada en Brasil, especialmente en el campo de la teoría y la crítica literaria. Teniendo en cuenta la proliferación de categorías que generalmente pretenden observar el impacto (geológico) del humano en sus diversas subjetividades y a través de distintas perspectivas críticas: antropoceno, capitaloceno de plantación o chthuluceno (Moore, 2016; Haraway 2015), entre otros, el medio ambiente, entendido en su inevitable convergencia entre las personas, los animales, la naturaleza y el sistema-mundo capitalista, se configura como un tema y un problema literario, ofreciendo la posibilidad de (re)definir la literatura – su estética, formas y géneros, así como sus paradigmas críticos y conceptuales – desde una perspectiva eco-ambientalista.A ecocrítica se destaca entre os mais relevantes desdobramentos nos estudos literários contemporâneos, sobretudo no que tange ao campo da literatura comparada, da reflexão pós-colonial e do debate sobre literatura-mundial; trata-se, no entanto, de uma perspectiva teórica e analítica ainda pouco consolidada no Brasil, especialmente no âmbito da teoria e da crítica literárias. Tendo em conta a proliferação de categorias que de um modo geral pretendem observar o impacto (geológico) do humano em suas diversas subjetividades e através de perspectivas críticas distintas – antropoceno, capitaloceno plantationceno ou chthuluceno (Moore, 2016; Haraway 2015), entre outras – o ambiente, a ser entendido em sua inevitável convergência entre pessoas, animais, natureza e sistema-mundial capitalista, se configura como um tema e um problema também literário, oferecendo a possibilidades de se (re)definir a literatura – suas estéticas, formas e gêneros, bem como seus paradigmas críticos e conceituais – a partir de uma perspectiva eco-ambientalista
O “Black Ocean” azul
Na região do Oceano Índico é comum a imagem de uma paisagem paradisíaca com um mar azul. Mas no contexto das narrativas, o motivo do “kalapani”, o mar preto em hindi, está muito presente. Este artigo propõe-se reflectir sobre a utilização do oceano como metáfora a partir de uma estética da literatura, baseada em motivos oceânicos, nomeadamente a partir de trabalhos sobre a “poetização do mar” e “a poética do barco”. Nas ilhas do Oceano Índico de língua francesa, os escritores propõem conceitos novos para reflectir sobre a diversidade de ideias e de conceitos presentes nessas ilhas, como é o caso de Khal Torabully com o conceito “coolitude” e a ideia da identidade de “coral”. Este ensaio convida a algumas reflexões sobre esses conceitos, figurados nos romances de Nathacha Appanah, Ananda Devi (Ilhas Maurícias) e Carlos de Souza (Ilha da Reunião), que desenvolvem de maneira exemplar uma estética oceânica
Como tomar “O comboio das onze”? ou O Surrealismo segundo Jorge de Sena
Este artigo se propõe a ler uma narrativa do escritor português Jorge de Sena pouco visitada pela crítica: o conto “O comboio das onze”, de Andanças do demónio. Investiga-se a relação do texto e do seu autor com o movimento vanguardista Surrealismo e, mais além, o seu posicionamento crítico-teórico acerca dessa estética, a fim de, a partir daí, propor uma nova chave interpretativa para esse texto
E então, por que o Índico?
O dossiê temático “Espaços transnacionais: narrativas do Oceano Índico” que aqui se apresenta constitui um dos resultados das pesquisas e das colaborações científicas e institucionais desenvolvidas no âmbito de dois projetos atualmente em curso na Universidade de Lisboa (Portugal) e na Universidade Estadual de Campinas (Brasil). Em ambos os casos os projetos se situam na área dos Estudos do Oceano Índico (Indian Ocean Studies), desdobrando-se em diversos campos do saber, e incluem o estudo e a análise cultural de diversos contextos geográficos e espaciais, nomeadamente: África, Ásia e Europa
O inferno é verde e “As palavras” de Leslie Kaplan em tradução (inédita) para o português
Leslie Kaplan, nascida em Nova Iorque em 1943, mas criada desde muito cedo na França, escreve peças de teatro, romances, poemas, teoria, crítica literária e cinematográfica, tudo isso, sobretudo, em língua francesa. Poucas traduções da sua obra são encontradas no Brasil, e essa escassez de textos seus em português é, certamente, um dos motivos que me levaram a selecionar e traduzir dois de seus poemas longos (ainda inéditos na nossa língua, mas que serão publicados em breve pela editora Luna Parque): O inferno é verde [L’enfer est vert] e “As palavras (escrever, literatura e sociedade)” [Les mots (écrire, littérature et société)]. A poesia de Kaplan traz à mente questões sobre a tradução de poemas que muito se assemelham à prosa (embora seus versos livres nem sempre sejam tão livres assim) e reflexões sobre como se pode traduzir um texto escrito em mais de uma língua e que aproxime culturas aparentemente muito distantes umas das outras, pois O inferno é verde, cujo ponto de partida é uma viagem da escritora a Recife, faz uso das línguas francesa, inglesa e portuguesa. Trechos da tradução são analisados em comparação com os originais e escolhas tradutórias são justificadas com o auxílio de diversos escritos que concernem ao ofício, inclusive com as próprias palavras de Leslie, que afirma que “traduzir é sexy”
Hartwig Burchard: poeta de vários mundos
In the recente history of art, the German, naturalized Brazilian, Hartwig Burchard (1920-2014) remained obscured in the last few decades, even though, previously, his works were exhibited in major institutions such as MASP and Museu de Arte Moderna, both in São Paulo, and Museu Nacional de Belas Artes, in Rio de Janeiro, and featured in leading national and international collections. The ideia, in this article, is to show how his work, though an observation of the a close relationship between word and image, poetry and visual arts, has remaining extremely contemporary, establishing dialogue with the most topical production at a particular time in Brazilian and international visual arts, and to transform this dialogue into something that is still alive today.En la historia del arte reciente, el brasileño alemán, naturalizado, Hartwig Burchard (1920-2014) permaneció oculto en las últimas décadas, a pesar de que había expuesto, en el pasado, en instituciones como el MASP, el Museo de Arte Moderno, tanto en Sao Paulo, como el Museo Nacional de Bellas Artes, en Río de Janeiro, además de contar con obras en importantes colecciones nacionales e internacionales. La idea, en este artículo, es mostrar cómo su obra, desde la observación de una estrecha relación entre la palabra y la imagen, la poesía y las artes visuales, sigue siendo extremadamente contemporánea, estableciendo diálogos con los más intensos si se producía en las artes Plásticos brasileños y extranjeros de cada momento de su trayectoria y también de transformar este diálogo en algo que aún está vivo en el futuro: nuestro presente.Na história da arte recente, o alemão, naturalizado brasileiro, Hartwig Burchard (1920-2014) permaneceu obscurecido ao longo das últimas décadas, ainda que tivesse exposto, no passado, em instituições como o MASP, o Museu de Arte Moderna, ambos em São Paulo, e o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, além de ter obras em importantes acervos nacionais e internacionais. A ideia, neste artigo, é mostrar como sua obra, a partir da observação de uma estreita relação entre palavra e imagem, poesia e artes visuais, se mantém extremamente contemporânea, estabelecendo diálogos com o que de mais intenso se estava produzindo nas artes plásticas brasileiras e estrangeiras de cada momento de sua trajetória e também de transformar este diálogo em algo ainda vivo no futuro – o nosso presente
Mário de Andrade e o apocalipse das imagens
Mário de Andrade was a collector of images: his drawings and the photos that he has produced throughout his life, but also Brazilian and foreign works of the most varied genres, formats and techniques, which he acquired or won as a gift. On the other hand, his literary work has been recreated with remarkable frequency, whether in covers or illustrations of books, in canvases and other pictorial supports, or in films, plays or even carnival parades. From these two overlapping collections, we will try to think about the places occupied by the images at the intersection of historical and anthropological research, critical reflection and literary creation that singles out this author: can we deduce from this some image theory? Does this image theory, if it exists, have guided the conception and achievement of his books?Mário de Andrade fue un coleccionista de imágenes, tanto suyas -los dibujos como las fotos que produjo a lo largo de su vida- así como otras – obras brasileñas y extranjeras, de los más variados géneros, formatos y técnicas, que fue adquiriendo o ganando como regalo. Por otro lado, su obra literaria ha sido recreada de forma fíntica con notable frecuencia, ya sea en portadas o ilustraciones de libros, ya sea en lienzo y otros medios pictóricas, ya sea en películas, obras de teatro o incluso desfiles de carnaval. A partir de estas dos colecciones superpuestas, trataremos de pensar en los lugares ocupados por las imágenes en la intersección de la investigación histórica y antropológica, la reflexión crítica y la creación literaria que singularizan a este autor: podemos inferir de allí alguna teoría de ¿Imagen? Esta teoría de la imagen, si existe, ¿guió la concepción y realización de sus libros?Mário de Andrade foi um colecionador de imagens, tanto suas – os desenhos e fotos que produziu ao longo da vida –, quanto alheias – obras brasileiras e estrangeiras, dos mais variados gêneros, formatos e técnicas, que foi adquirindo ou ganhando de presente. Por outro lado, sua obra literária tem sido recriada imageticamente com notável frequência, seja em capas ou ilustrações dos livros, seja em telas e outros suportes pictóricos, seja em filmes, peças de teatro ou mesmo desfiles de carnaval. A partir dessas duas coleções sobrepostas, buscaremos pensar sobre os lugares ocupados pelas imagens no cruzamento de pesquisa histórica e antropológica, reflexão crítica e criação literária que singularizam esse autor: podemos depreender daí alguma teoria da imagem? Essa teoria da imagem, se existir, guiou a concepção e realização dos seus livros
Généalogie de l’écriture de Jean Baudrillard
French philosopher as heterodox as capital, Jean Baudrillard could develop his writing with the theoretical confrontation of the greatest minds of his time. Thus, to the sources of Baudrillard’s writing lies above all the life of a reader. And it is through the analysis of his library that an objective genealogy of Baudrillard’s thought becomes possible, by reviewing his critical analyzes of literary, philosophical, anthropological texts, and so on. I will try to show in this article the first elements of an original archival work, which reveals the practice of a philosopher in his textual workshop.Philosophe français aussi hétérodoxe que capital, Jean Baudrillard n’a pu développer son écriture qu’avec la confrontation théorique des plus grands esprits de son temps. Ainsi, aux sources de l’écriture de Baudrillard se trouve avant tout la vie d’un lecteur. Et c’est au travers de l’analyse de sa bibliothèque qu’une généalogie objective de la pensée de Baudrillard devient possible, en faisant retour sur ses analyses critiques des textes littéraires, philosophiques, anthropologiques, etc. J’essaierai de montrer dans cet article les premiers éléments d’un travail d’archives inédit, qui dévoile la pratique d’un philosophe dans son atelier textuel
Pela boca do pai? Tamara Kamenszain e as línguas do judaísmo
This paper explores the place given to Jewish nature – which is conceived as a condition inherited from the father and passed on, even reluctantly, to others – in the poetry of Tamara Kamenszain. We hold that this condition is expressed in the poems by the recurrence of a series of images/concepts, among which the signifier ghetto stands out, and with it, the Jewish condition – understood as a narration that recovers a past, a genealogy – leads to a question comprising the procedure: the question that examines poems as appropriate places to narrate one’s own life and even as favorable places (or not) to inscribe the intimate.Este artigo investiga, na poesia de Tamara Kamenszain, o lugar ocupado pelo “judaico”, concebido como uma condição que se herda do pai e que se transmite, inclusive a contragosto. Pensamos que essa condição se traduz nos poemas na recorrência de uma série de imagens/conceitos, entre os quais se destaca o significante gueto, e, com isso, a condição judaica entendida como narrativa que recupera um passado, uma genealogia, e que se abre para uma pergunta da ordem do procedimento: aquela que interroga acerca do poema como espaço propício para narrar a própria vida e, inclusive, como espaço favorável ou não à inscrição da intimidade