Revista Linguagem em Foco
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Cancelados, revogados e incanceláveis: a cultura do cancelamento na imprensa e nas redes sociodigitais
The culture of cancellation is an expression used to refer to a form of ostracism in which someone is removed from social or professional circles for their offensive conduct. This article discusses the characteristics of this process in cyberspace, based on a documentary survey of the press and the social-digital network X between 2018 and 2022. The objective was to demonstrate the presence of patterns and recurrences in the practice of cancelation against public figures, suggesting that there are three main types: canceled, revoked and uncancellable. A total of 18 cases of cancellation with major repercussions in Brazilian society were analyzed, of which 4 were selected to indicate the existence of these typologies. The results indicate that the culture of cancellation, although multifaceted, has characteristics specific to each type. In general, its implications point to the cultural and political relevance of the debate on the impact of socio-digital networks on offline social behaviour, since the results reveal the possibility of public reaction and expression of opinion to practices and discourses considered morally offensive, in particular to historically marginalized and oppressed groups.A cultura do cancelamento é uma expressão usada para se referir a uma forma de estigmatização social em que alguém é empurrado para fora dos círculos sociais ou profissionais devido a uma conduta considerada ofensiva pelos pares e pelo público em geral. Este artigo discute as características deste processo no ciberespaço a partir de uma pesquisa documental junto à imprensa e à rede sociodigital X entre os anos de 2018 e 2022. O objetivo foi demonstrar a presença de padrões e recorrências na prática do cancelamento contra personagens públicos sugerindo haver a existência de três tipologias principais: os cancelados, os revogados e os incanceláveis. Foram analisados 18 casos de cancelamento com grande repercussão na sociedade brasileira, dos quais 4 foram selecionados para indicar a existência destas tipologias. Os resultados alcançados indicam que a cultura do cancelamento, embora multifacetada, possui características próprias a cada tipo. De um modo geral, seus desdobramentos apontam para a relevância cultural e política do debate sobre o impacto das redes sociodigitais nos comportamentos sociais offline, uma vez que os resultados revelam a possibilidade de reação e manifestação da opinião públicas a práticas e discursos considerados moralmente ofensivos, em particular direcionados a grupos historicamente marginalizados e oprimidos
A ciência linguística nas dinâmicas do capitalismo digital: uma análise sociotécnica da Linguística no desenvolvimento do Projeto Cibernético
This paper describes the onto-epistemological and political commitments between Linguistics and the Cybernetic Project in the field of human sciences and in the technopolitical developments of digital capitalism. To this end, it draws theoretically-methodologically from symmetrical anthropology (LATOUR, 2009, 2011, 2012, 2016 AND 2017; DOMENECH; TIRADO, 1998) and the principle of generalized symmetry (CALLON, 1986; LATOUR; WOOLGAR, 1997) to launch on the Linguistics discipline a critical look, in seeking to describe it as a socio-technical network resulting from compositions, assemblages, interests between intra- and extra-scientific courses of action. With the original rescue of the military and political dimension of Cybernetics, we are faced with the mathematization of language and communication as that which brings it closer to Linguistics or vice-versa, with the consequent project of controlling performativity and its logic of desubjectivation of the other. Finally, this analysis raises the question about ongoing actions, in Linguistics or outside it, that denote resistance to refined human exploration through language and interaction, in digital technologies.Este artigo descreve os compromissos ontoepistemológicos e políticos entre a Linguística e o Projeto Cibernético no campo das ciências humanas e nos desdobramentos tecnopolíticos do capitalismo digital. Para tanto, partimos teórico-metodologicamente da antropologia simétrica (LATOUR, 2009, 2011, 2012, 2016 E 2017; DOMENECH; TIRADO, 1998) e do princípio da simetria generalizada (CALLON, 1986; LATOUR; WOOLGAR, 1997) para lançar sobre a Linguística um olhar crítico, em busca de descrevê-la como rede sociotécnica fruto de composições, agenciamentos, interessamentos entre cursos de ação intra e extracientíficos. Com o resgate originário da dimensão militar e política da Cibernética, deparamos com a matematização da linguagem e da comunicação enquanto aquilo que a aproxima da Linguística ou vice-versa, com o consequente projeto de controle da performatividade e sua lógica de dessubjetivação do outro. Por fim, essa análise levanta a questão sobre ações em curso, na Linguística ou fora dela, que denotem resistência à refinada exploração humana por meio da linguagem e da interação, em tecnologias digitais
ChatGPT 4.0: desafios na interpretação de textos multimodais
This study investigates the capability of the AI model ChatGPT 4.0 in interpreting cartoons, using human benchmarks as a reference. Cartoons were selected for their integration of verbal and non-verbal elements, allowing a detailed assessment of how ChatGPT handles contextual nuances, humor, and satire. The results show that although ChatGPT identifies main visual elements, it faces significant challenges in understanding broader contexts and interpreting complex humor and subtexts. The study reveals that ChatGPT's interpretations tend to be superficial and less detailed compared to human interpretations, particularly in aspects such as artistic style, visual techniques, and cultural contexts. Additionally, ChatGPT shows difficulties in capturing the depth and critical intent of satirical elements, resulting in interpretations that do not fully reflect the implicit messages in cartoons. The findings of this study contribute to the understanding of the current capabilities and limitations of AI models in interpreting complex discourses, offering valuable insights for the advancement of cognitive linguistics and natural language processing technologies.Este estudo investiga a capacidade do modelo de inteligência artificial ChatGPT 4.0 em interpretar charges, utilizando benchmarks humanos como referência. As charges foram escolhidas por integrarem elementos verbais e não-verbais, permitindo uma avaliação detalhada de como o ChatGPT lida com nuances contextuais, humor e sátira. Os resultados demonstram que, embora o ChatGPT consiga identificar elementos visuais principais, ele enfrenta desafios significativos na compreensão de contextos mais amplos e na interpretação de humor e subtextos complexos. O estudo revela que as interpretações do ChatGPT tendem a ser superficiais e menos detalhadas em comparação com as humanas, especialmente em aspectos como estilo artístico, técnicas visuais e contextos culturais. Além disso, o ChatGPT mostra dificuldades em captar a profundidade e a intenção crítica de elementos satíricos, resultando em interpretações que não refletem completamente as mensagens implícitas nas charges. Os achados deste estudo contribuem para a compreensão das capacidades e limitações atuais dos modelos de IA na interpretação de discursos complexos, oferecendo insights valiosos para o avanço da linguística cognitiva e das tecnologias de processamento de linguagem natural
"Frankenstein" e Tecnologia: uma leitura do romance de Mary Shelley como crítica da ciência moderna
When philosopher Yuk Hui (2020a) introduced the concept of technodiversity into discussions about technology, he paved the way for understanding this term and others surrounding it – such as the idea of progress – as always “situated”, meaning they are the products of our worldviews, intertwined with the material, social, historical, and political conditions of knowledge production. This study aims to contribute to this discussion through an analysis of Mary Shelley's “Frankenstein” as an exercise in critique of Western modern science, considering that the novel emerges precisely when this ideal of science was solidifying in the 19th century. The novel, by revealing fundamental tensions between the desire for knowledge and its consequences, challenges the alliances between science and similarly situated ideals of progress and nature, questioning the traditional view of science as something separate from humanity and, thus, separate from the Humanities. Shelley’s book provides significant reflections on the construction of epistemologies that integrate science and humanities as equally products of the cultures in which they are situated; both sciences and humanities are, therefore, equally rooted in their specific socio-historical-political contexts. Thus, as we examine the pages of “Frankenstein,” we are invited to reflect on the implications of our ways of knowing and inhabiting the world. This makes literature in general and science fiction in particular powerful tools for thinking about the sciences, humanities or not, and their technologies.Quando o filósofo Yuk Hui (2020a) introduz o conceito de tecnodiversidade no universo das discussões acerca da tecnologia, ele abre caminho para entendermos esse termo e outros que o cercam – como a ideia de progresso – como sendo sempre “localizado”, ou seja, como fruto de nossas visões de mundo, imbricado nas condições materiais, sociais, históricas e políticas da produção do saber. O presente trabalho busca contribuir com essa discussão a partir de uma análise de “Frankenstein”, de Mary Shelley, como um exercício de crítica da ciência moderna ocidental, o qual surge justamente no momento de consolidação desse ideal de ciência no século XIX. O romance, ao revelar tensões fundamentais entre o desejo de conhecer e suas consequências, questiona as alianças da ciência com ideais igualmente situados de progresso e natureza, desafiando a visão tradicional da ciência como algo separado do humano e, assim, separado das Humanidades. A obra proporciona reflexões importantes sobre a construção de epistemologias que integram ciência e humanidades como igualmente produtos das culturas nas quais estão situadas; tanto as ciências quanto as humanidades estariam, portanto, igualmente enraizadas em seus contextos socio-históricos-políticos específicos. Dessa forma, ao examinarmos as páginas de “Frankenstein”, somos convidados a refletir sobre as implicações de nossos modos de conhecer e habitar o mundo, o que torna a literatura no geral e a ficção científica em específico ferramentas potentes para pensar as ciências, humanas ou não, e suas tecnologias
Ecologias digitais de aprendizagem na era da Inteligência Artificial: multimodalidade, multiletramentos, tecnologia e ética
In the era of Artificial Intelligence (AI), the multiple learning ecologies in which we are immersed influence the creation of new educational territories, impacting individual and collective experiences of teaching and learning across all levels of the educational system. Considering some of the challenges imposed by this context, in this theoretical-reflective essay, we seek to explore the complex relationships between multimodality, multiliteracies, Digital Information and Communication Technologies (DICT), and ethical implications of AI use in contemporary times. In our reflections, we draw on theoretical support regarding learning ecologies (Barron, 2006; Jackson, 2013), multimodality and technology (Canale, 2019; van Leeuwen, 2021), multiliteracies (New London Group, 2021; Kalantzis; Cope, 2023), digital contexts (Jenks, 2010), territorialization (Kambeba, 2021; Leander; Vasudevan, 2011), modes of subjectivation (Foucault, 1997), cyberculture (Lévy, 2010a, 2010b), AI (Kafai; Burke, 2020; Suleyman; Bhaskar, 2023), ethical implications (Benjamin, 1987; Diniz, 2021; Freire, 1992; Linares; Fuentes; Galdames, 2023; Peters, 2018; Santaella, 2023; Segato, 2021) and social aspects associated with its use (Akotirene, 2019; Almeida, 2019; Hooks, 2017; Ngomane, 2022). As preliminary reflections, we highlight the importance of reterritorialization and of taking into account different modes of subjectivation in the digital educational context, considering relevant ethical and social aspects for the articulation of dynamic and critical-reflexive processes regarding the use of these technological advancements in various sectors of social life.Na era da Inteligência Artificial (IA), as múltiplas ecologias de aprendizagem nas quais nos inserimos influenciam a criação de novos territórios educacionais, impactando experiências individuais e coletivas de ensino-aprendizagem em todos os níveis do sistema educacional. A partir de alguns dos desafios colocados por este contexto, neste ensaio teórico-reflexivo, buscamos tecer algumas considerações sobre as complexas relações entre multimodalidade, multiletramentos, tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) e implicações éticas do uso da IA na contemporaneidade. Para isso, contamos com suporte teórico sobre ecologias de aprendizagem (Barron, 2006; Jackson, 2013), multimodalidade e tecnologia (Canale, 2019; van Leeuwen, 2021), multiletramentos (Grupo Nova Londres, 2021; Kalantzis; Cope, 2023), contextos digitais (Jenks, 2010), territorialização (Kambeba, 2021; Leander; Vasudevan, 2011), modos de subjetivação (Foucault, 1997), cibercultura (Lévy, 2010a, 2010b), IA (Kafai; Burke, 2020; Suleyman; Bhaskar, 2023), implicações éticas (Benjamin, 1987; Diniz, 2021; Freire, 1992; Linares; Fuentes; Galdames, 2023; Peters, 2018; Santaella, 2023; Segato, 2021) e sociais associadas com seu uso (Akotirene, 2019; Almeida, 2019; Hooks, 2017; Ngomane, 2022). Como reflexões preliminares, destacamos a importância da reterritorialização e de se atentar para os diferentes modos de subjetivação no contexto educacional digital, considerando aspectos éticos e sociais relevantes para a articulação de processos dinâmicos e crítico-reflexivos sobre a utilização desses avanços tecnológicos nos mais diversos setores da vida em sociedade
Big techs, algoritmos de redes sociais e decorrentes impactos para a performatividade linguística
This article aims to demonstrate how big tech companies, through algorithmic choices for social network configuration, affect the communicative channel and, consequently, the production context of online linguistic performativities. For this purpose, an initial discussion about the characteristics of new digital enunciation contexts is presented (MARWICK; BOYD, 2010; VARIS, 2016), to then, using examples of linguistic activity in virtual public spaces, demonstrate that computational designs modulate scales at different levels of the performative act (AUSTIN, 1962), contributing in a supporting role, as extensions of the subject (MCLUHAN, 1964), to predatory uses of language such as the dissemination of misinformation and subversion of discourses and identities. This publication also relates temporally and thematically to the Parliamentary Inquiry Commission on Anti-democratic Acts of the Legislative Chamber of the Federal District, regarding the attacks of January 8, 2023, in the Brazilian capital, and to Bill No. 2630, the fake news law, bringing enunciations related to these recent national events as prototypical elements of the theme developed here. Finally, it proposes the need for greater user autonomy over technologies as a condition to prevent the maintenance of social inequalities and to allow power minorities to produce counter-hegemonic actions in digital environments.Este artigo visa a evidenciar de que modo as big techs, via escolhas de algoritmo para configuração de redes sociais, afetam o canal comunicativo e, consequentemente, o contexto de produção das performatividades linguísticas online. Com esse propósito, apresenta-se discussão inicial sobre características dos novos contextos digitais de enunciação (MARWICK; BOYD, 2010; VARIS, 2016), para então, utilizando-se de exemplos de atividade linguísticas em espaços públicos virtuais, demonstrar que designs computacionais modulam escalas nos diferentes níveis do ato performativo (AUSTIN, 1962), contribuindo de modo coadjuvante, enquanto extensões do sujeito (MCLUHAN, 1964), para usos predatórios da linguagem como dispersão de desinformação e subversão de discursos e identidades. Esta publicação ainda se relaciona temporal e tematicamente à CPI dos Atos Antidemocráticos da Câmara Legislativa do Distrito Federal, referente aos ataques do dia 8 de janeiro de 2023 na capital brasileira e ao Projeto de Lei Nº 2630, Lei das fake news, trazendo enunciações referentes a esses recentes fatos nacionais como elementos prototípicos da temática aqui desenvolvida. Propõe-se, por fim, a necessidade de maior autonomia dos usuários sobre as tecnologias como condição para se evitar a manutenção de desigualdades sociais e propiciar, às minorias do poder, a produção de ações contra hegemônicas em ambientes digitais
Por um primitivismo estratégico: um diálogo entre Eduardo Viveiros de Castro e Yuk Hui
In this dialogue with Yuk Hui, Eduardo Viveiros de Castro discusses his work on the Amerindian perspectivism, multinaturalism; the relation between nature, culture and technics in his ethnographic studies; as well as the necessity of a non-anthropocentric definition of technology. He also discusses a haunting futurism of ecological crisis and automation of the Anthropocene, and explores a “strategic primitivism” as survival tool.Neste diálogo com Yuk Hui, Eduardo Viveiros de Castro discute seu trabalho sobre o perspectivismo ameríndio e o multiculturalismo; a relação entre natureza, cultura e técnica em seus estudos etnográficos; bem como a necessidade de uma definição não antropológica de tecnologia. Também trata de um futuro assustador da crise ecológica e da automação do Antropoceno, além de explorar um “primitivismo estratégico” como ferramenta de sobrevivência