Revista Linguagem em Foco
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LINGUÍSTICA APLICADA E FORMAÇÃO DE PROFESSORES: ENTENDENDO O TORNAR-SE PROFESSOR
Este artigo é uma apresentação da minha pesquisa de mestrado na área de Linguística Aplicada, nos moldes em que é entendida hoje pelos autores que desenvolveram os conceitos de uma Linguística Aplicada de caráter exploratório, em que pese o intercâmbio entre a Linguística Aplicada e os Estudos do Discurso. A proposta é correlacionar esses conceitos da Linguística Aplicada com outros construídos no processo da análise de dados gerados pela pesquisa, a fim de justificar a relevância da análise em questão, para esse campo de estudos do discurso. Tendo a formação de professores como tema, a investigação concentra-se em buscar entender a desaprendizagem do momento de tornar-se professor e como são construídas as identidades de futuros professores em suas experiências nas escolas públicas de hoje. Para tanto, lanço mão dos conceitos formulados por Moita Lopes (2006), Inês Miller (2010), Beatriz Barreto (2008), Branca Fabrício (2006) entre outros, somados à minha experiência pessoal enquanto professora regente em uma escola da Rede Pública da cidade do Rio de Janeiro. Através do acompanhamento das reuniões entre professores, observa-se seus discursos, de modo a construir uma reflexão crítica acerca da formação docente; de modo a esboçar o posicionamento teórico da dissertação a ser construída a partir dos princípios da Prática Exploratória e das teorizações da Linguística Aplicada, com a intenção de criar inteligibilidades sobre as projeções identitárias de um grupo de professores em formação inicial
BRINCANDO COM CORES: POLISSEMIA EM ESQUEMAS DE COMPOSIÇÃO
A princípio, para um falante nativo da Língua Portuguesa conceptualizar uma cor como “verde maçã” pode ser uma tarefa simples. Entretanto, a conceptualização de cores, em especial algumas cores compostas, necessita de um exercício mental que muitas vezes o falante da língua não percebe. Para entender “verde maçã” não bastaria unir [[VERDE]/[verde]] + [[MAÇÃ]/[maçã]] = [[VERDE MAÇÃ] /[verde maçã]]. E, em “maçã verde”, conceptualizamos [[VERDE]/[verde]] como um tipo de maçã ou o estado de uma maça não madura . A polissemia dessas estruturas é possível porque as características que distinguem as unidades de sentido pleno de outros tipos de unidade são o antagonismo e os limites/bounding das unidades (CROFT, 2004). Basicamente, isso significa que as duas estruturas simbólicas ([[VERDE]/[verde]] e [[MAÇÃ]/[maçã]] possuem focos de atenção diferentes. Ao optar por um dos sentidos de ([[VERDE]/[verde]] colocamos um sentido no foco de atenção, escondemos o outro. Por isso temos diferentes conceptualizações de “verde maçã” e “maçã verde”. Este recurso é complicado pelo fato de que as relações de sentido são por si próprias basicamente sensíveis ao construal, isto é, sensíveis às nossas experiências sensoriais, emotivas e contextuais (EVANS & GREEN, 2006). Além dessas relações polissêmicas, cada composição surge a partir de um esquema de construção, conforme descreve a Gramática Cognitiva (TAYLOR, 2003; LANGACKER, 2008). Na cor citada, ao analisar cada entidade separadamente, notamos que há o esquema substantivo+substantivo. Para averiguar o comportamento desses procedimentos linguísticos, realizamos uma pesquisa de campo com quarenta crianças, entre oito e onze anos, falantes da Língua Portuguesa, para constatar se apenas com os esquemas de construção de composição, que os falantes dominam, seriam capazes de distinguir quais estruturas simbólicas compostas são cores ou não. Desta forma, este estudo contribui para compreendermos o funcionamento da polissemia e o armazenamento de esquemas de construções proposto pela Gramática Cognitiva
LINGUÍSTICA SISTÊMICO-FUNCIONAL: LINGUÍSTICA TEÓRICA OU APLICADA?
Neste ensaio, pretendo demonstrar que a Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), tal como proposta por Michael Halliday, é, a um só tempo, linguística teórica (LT) e linguística aplicada (LA), mas transcendendo ambas e podendo ser considerada linguística aplicável. Para atingir esse objetivo, discorrerei, a princípio, sobre as definições de LT e LA, mostrando que a segunda derivou da primeira, tendo, depois, dela se distanciado; ademais, tentarei explicar a razão do distanciamento e a afinidade da LSF com a LT do ponto de vista da descrição e tipologia linguísticas. Em seguida, dentro do escopo da LT, abordarei as diferenças entre formalismo e funcionalismo tendo em vista a localização epistemológica da LSF. A partir da explicitação dessa localização, definirei ‘sistêmico’ e ‘funcional’ com a intenção de argumentar a favor tanto do fato de que a semântica sistêmico-funcional pode prescindir da disciplina ‘pragmática’ quanto do fato, portanto, de que a LSF é compatível com a LA. Por fim, tentarei construir a argumentação a favor da terceira via: LSF como linguística aplicável
TRADUÇÃO COMO UM PROCESSO SEMIÓTICO
O presente trabalho propõe discutir a interpretação como tradução de signos em signos, e consequentemente, como um processo semiótico. Ao percebermos algo, traduzimos o percebido em uma representação mental, chamada por Peirce de interpretante (SANTAELLA, 2005). Toda percepção ou tradução consiste, dessa forma, em uma nova interpretação. Ao lermos, por exemplo, as várias associações que as palavras provocam, de forma rápida, nos passam muitas vezes percebidas. O pensamento humano floresce e se desenvolve através de uma série de traduções: durante uma leitura, por exemplo, traduzimos os signos verbais em signos mentais. Primeiro, cada leitor/tradutor lê o texto, e cada mente o concebe de uma forma diversa. Posteriormente tal leitor traduz o material em um outro código, a linguagem do texto traduzido. Se, por exemplo, leio o vocábulo “pedra”, esta causa em minha mente, em linguagem não-verbal, uma imagem ou signo psíquico (SANTAELLA; NÖTH, 2008), interpretante do primeiro. Assim, quanto mais intérpretes de “pedra” tivermos, mais signos psíquicos tradutores serão produzidos. Nesse processo de traduções sucessivas, tal signo mental gera, seja em uma outra língua, cultura ou sistema sígnico, um outro signo. No caso do cinema, por exemplo, considero que qualquer filme é, desde o princípio, uma tradução, mesmo que não se inspire em alguma obra literária: tudo começa com a tradução de uma ideia para o roteiro, e então desse roteiro para a produção do filme
SUPER-HERÓIS, SERES INVISÍVEIS E SACERDOTES: A CONCEPTUALIZAÇÃO DO TRABALHO POLICIAL
Esta pesquisa supõe as metáforas como um fenômeno de pensamento, de língua(gem) e de ação, que se realiza como processos mentais, socialmente mediados, e discursivamente realizados. Toma-se como referencial teórico a linguística cognitiva e a noção de metáfora como a compreensão e a experiência de um fenômeno em termos de outro (Lakoff & Johnson, 1980, Lakoff, 1987). Explora-se essa perspectiva teórica para investigar como uma subcategoria cultural – os policiais – conceptualiza o seu trabalho, isto é, busca-se identificar, reconstruir e problematizar os conceitos metafóricos que esses sujeitos atualizam para a compreensão de sua prática profissional. Para tanto, toma-se como guia metodológico a Análise Sistemática de Metáforas (Schmitt, 2016, 2017) e inspira-se no protocolo de pesquisa utilizado por Guerrero e Villamil (2000, 2002). Participaram da pesquisa 20 policiais militares do Estado de Pernambuco. Os conceitos metafóricos mais salientes, que emergiram após análises, foram: policial é super-herói; policial é um ser invisível; e policial é sacerdote. Esses conceitos são metáforas concorrentes e têm diferentes implicações cognitivas para a compreensão do trabalho policial
ANÁLISE DA REPETIÇÃO GESTUAL E DE METÁFORAS MULTIMODAIS EM DISCURSOS POLÍTICOS DE DEPUTADOS DE ESQUERDA
O presente artigo tem o objetivo de analisar a repetição gestual e emergência de metáforas multimodais no discurso de três diferentes deputados que se autodenominam de Esquerda. A análise dos dados foi feita com base em três vídeos de sessões legislativas com Jean Wyllys, Ivan Valente e Erika Kokay. Este estudo propõe uma análise interdisciplinar entre a Linguística Cognitiva e os Estudos Gestuais. A análise das metáforas multimodais foi embasada na Teoria da Metáfora Conceptual de Lakoff e Johnson (2003), a qual discute os processos metáforicos incorporados na linguagem, no pensamento e na ação. No que diz respeito aos gestos, foram utilizadas as diretrizes para identificação de metáforas nos gestos, propostas por Cienki (2017), em que há uma análise mais abrangente dos gestos metafóricos. Além disso, foram considerados os pressupostos metodológicos apresentados por Bressem (2014), em que as discussões sobre repetição são realizadas a partir de uma perspectiva gestual e multimodal. O foco principal das análises foi dado à comparação entre os vídeos escolhidos, para encontrar as semelhanças e diferenças em relação ao uso dos gestos metafóricos identificados nos discursos
Terminografia trilíngue
O presente trabalho tem como objetivo apresentar o produto final do projeto Glosterm, pesquisa desenvolvida ao longo de três anos no âmbito do Departamento de Letras Estrangeiras da UFC.Trata-se de um glossário trilíngue, que tem como língua de partida (LP) o português brasileiro (PB) e, como línguas de chegada (LC),o francês e o inglês. Pretendemos, pois, apresentar os motivos que nos levaram a investigar o universo discursivo da Moda, as etapas processuais adotadas na elaboração do glossário, como também, evidenciar algumas das dificuldades na execução de um projeto desta natureza
ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA E AMBIENTE DIGITAL: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA PARA O TRABALHO COM GÊNEROS ARGUMENTATIVOS NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES
As transformações ocorridas na sociedade demandam mudanças nas práticas educativas, mas aquilo a que assistimos é um distanciamento entre as atividades desenvolvidas na escola, na universidade e na vida dos alunos. Este artigo se propõe a analisar e discutir práticas letradas que se dão em um contexto universitário específico, a saber, o curso de Letras de uma universidade pública do interior do Maranhão, por meio do acompanhamento de 29 estudantesdo primeiro semestre que cursavam a disciplina de Leitura e Produção Textual, sob um viés teórico que perpassa o letramento digital e as práticas de leitura e escrita acadêmicas, buscando desenvolver e aprimorar as habilidades de leitura, conforme empreendidas por Paiva (2013). Os alunos fizeram pesquisa no impresso e no digital para construir argumentos para um debate regrado e posteriormente para a escrita de um artigo de opinião. Buscamos aporte teóricoem Street (2008, 2012, 2014), Kleiman (2002, 2007, 2014), acerca dos novos estudos de letramentos; contamos ainda com as contribuições de Coscarelli (2002, 2005, 2013, 2016) e Ribeiro (2005, 2013, 2016), a respeito do ensino de Língua Portuguesa nos contextos interacionais digitais; e, ressaltamos também, as contribuições elencadas por Paiva (2013) quanto às habilidades de leitura desenvolvidas na leitura de textos multimodais em que o educando se insere pormeio da leitura e produção de textos nos ambientes digitais. Os alunos atribuíram importância à atividade proposta, pois puderam construir real significado na sua aprendizagem, identificando a atividade como importante para sua formação de futuro professor. Além disso, engajaram-se individual e coletivamente para conseguirem realizar as atividades, e, consequentemente, empreenderem uma aprendizagem, além da universidade
A CONSTRUÇÃO DO ETHOS DO SUJEITO NEGRO NO GÊNERO PUBLICITÁRIO: O CASO COCA-COLA
A temática do racismo é uma marca que transversaliza nossa história. A construção de uma identidade marcada pela ideologia do preconceito é uma realidade manifestada nos mais diversos tipos de discurso. Questiona-se como o ethos (identidade dita ou mostrada e sócio-historicamente determinada) se inscreve na memória coletiva através dos objetos culturais. Neste trabalho, descrevemos a construção do ethos discursivo do sujeito negro que se constitui a partir da análise da transcrição de texto presente no gênero anúncio publicitário (Coca-cola “Adotar alimenta a felicidade”, 2015), pois é na instância do discurso que as escolhas linguísticas e estilísticas se manifestam, demonstrando o modo como as representações do mundo foram historicamente delimitadas e categorizadas nos paradigmas de signos próprios de uma língua natural, projetando a imagem implícita e o comportamento ideológico dos sujeitos no ato de interação social. O trabalho apresenta como aporte teórico a conjunção entre o interacionismo sociodiscursivo nos estudos voltados para as modalizações enunciativas e vozes (BRONCKART 2007), a categoria do ethos em Análise do Discurso (MAINGUENEAU, 2008) e as estratégias de controle dos enunciados nas situações de comunicação (FOUCAULT, 2012). O estudo comprova que a construção da identidade está ligada às escolhas ou omissões de palavras e estratégias de fala que orientam a produção do efeito de sentidos. Demonstra ainda, através da análise das materialidades linguísticas presentes nas vozes (sociais e dos personagens) e nas escolhas lexicais responsáveis pelas verdades produzidas, os procedimentos de domínio e de silenciamento dos sentidos contidos na construção da imagem do sujeito negro em circulação na sociedade
Singularidade, transgressão e ética na legendagem
Este estudo tem por objeto a prática da legendagem, a qual apresenta particularidades que, além de problematizar os limites entre tradução, interpretação e adaptação, evidenciam a todo momento a intervenção singular do tradutor. A partir das características peculiares desta modalidade de tradução e levando em conta discussões recentes no contexto do Pós-estruturalismo e particularmente dos Estudos Descritivos de Tradução, procuraremos examinar a interface entre as diferentes práticas tradutórias, revelar o complexo sistema de relações no qual se inserem esta e outras modalidades de tradução e buscar parâmetros éticos para delimitar interferências necessárias e transgressoras do tradutor