Revista Portuguesa de Cirurgia
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TORÇÃO DE GRANDE EPÍPLOON APÓS BYPASS GÁSTRICO EM Y DE ROUX
A clinical case of rotation and ischemia of the great epiploon is shown. This is a rare complication. However, it must be a diagnostic hypothesis to consider in patients with acute abdomen and history of gastric bypass Roux-en-Y, not only in the postoperative period early, as it may be the cause of a late complication.É apresentado um caso clínico de rotação e isquemia do grande epíploon. Esta é uma complicação rara. Porém, deve ser uma hipótese diagnóstica a considerar em doentes com quadro de abdómen agudo e antecedentes de bypass gástrico em Y de Roux, não só no período pós-operatório imediato, pois pode ser a causa de uma complicação tardia
A AVALIAÇÃO DO RISCO CIRÚRGICO É CRUCIAL PARA MITIGAR AS COMPLICAÇÕES PÓS-OPERATÓRIAS
Postoperative complications often determine the failure of a meticulous and adequate surgical intervention. The surgical risk assessment allows the identification of patients who can benefit from a program to optimize their general condition, reducing the risk of postoperative complications. The purpose of this article is to address the main factors associated with increased perioperative risk as well as the most appropriate tools for an objective assessment of surgical risk and to use this information to mitigate postoperative complications.As complicações pós-operatórias determinam, muitas vezes, o insucesso de uma meticulosa e adequada intervenção cirúrgica. A avaliação do risco cirúrgico permite identificar os doentes que podem beneficiar de um programa de otimização do seu estado geral, reduzindo o risco de complicações pós-operatórias. O propósito deste artigo é abordar os principais fatores associados ao aumento do risco perioperatório assim como as ferramentas mais adequadas para uma avaliação objetiva do risco cirúrgico e usar essa informação na mitigação das complicações pós-operatórias
SARCOPÉNIA NO CANCRO GÁSTRICO E MODIFICAÇÕES DA COMPOSIÇÃO CORPORAL PÓS-GASTRECTOMIA
Sarcopenia is the phenomenon of loss of muscle strength, muscle performance and muscle mass due to either age (primary sarcopenia) or other illnesses such as cancer (secondary sarcopenia). Sarcopenia has often been defined in the literature as low muscle mass. Sarcopenia among gastric cancer patients has been shown to carry a higher risk of post-operative complications and a higher overall and disease-specific mortality. Our study included 86 patients who underwent surgery for gastric cancer at our institution. Muscle mass was assessed by CT scan (L3 Muscle Index). A subgroup analysis was then performed of 39 patients who had had CT scans 12 months postoperatively. We collected demographic, clinical and body composition data. Sarcopenia was defined by the L3 Muscle Mass Index according to cut-off values previously defined in the literature. We found a prevalence of sarcopenia of 40.7% among gastric cancer patients undergoing gastrectomy. Sarcopenia was associated with a higher overall mortality. Nutritional risk and percentage of body weight lost did not identify sarcopenic patients. 51.4% of sarcopenic patients were overweight, 2.9% were obese. At 12 months post-operatively, 82.1% of patients lost weight and BMI and 76.9% of patients lost muscle mass (lower L3 muscle index) after gastrectomy. We did not find a significant association between the change in muscle mass, BMI or weight. We found that total gastrectomy was significantly associated to muscle mass loss compared to subtotal gastrectomy. We also found a significant association between advanced gastric cancer stage and muscle mass loss. We concluded that while sarcopenia is highly prevalent among gastric cancer patients after gastrectomy, the vast majority of patients lose weight and muscle mass. Since most patients will not improve muscle mass postoperatively it is crucial to implement prehabilitation strategies early on.A Sarcopénia é o fenómeno da perda de força, performance e massa muscular. Pode ser primário (relacionado com a idade) ou secundário (por exemplo a neoplasia) e tem sido definida na literatura como massa muscular baixa. A Sarcopénia nos doentes com cancro gástrico acarreta um aumento do risco de complicações pós-operatórias e da mortalidade específica e global. O nosso estudo incluiu 86 doentes submetidos a gastrectomia por cancro gástrico, cuja massa muscular foi avaliada por TC (Índice L3). Realizou-se uma subanálise de 39 doentes que tinham realizado TC também aos 12 meses pós-operatórios. Foram analisados dados demográficos, clínicos e de composição corporal. A Sarcopénia foi definida pelo Índice de Massa Muscular em L3, de acordo com valores previamente definidos na literartura. Verificámos uma prevalência de Sarcopénia de 40.7% em doentes submetidos a gastrectomia. A Sarcopénia relacionou-se com uma mortalidade global mais elevada. O Risco Nutricional e a percentagem de peso perdido não identificaram os doentes sarcopénicos. 51.4% dos doentes sarcopénicos tinham excesso de peso, 2.9% eram obesos. Aos 12 meses após gastrectomia, 82.1% dos doentes tinham diminuído de peso e IMC e 79.6% dos doentes tinham perdido massa muscular. Não encontrámos uma associação significativa entre a modificação na massa muscular e no peso ou IMC. Verificámos que a gastrectomia total se associava a uma perda de massa muscular significativamente superior à da gastrectomia subtotal. Verificámos que estadio avançado da neoplasia gástrica se associava a uma maior perda de massa muscular. Concluímos que a prevalência de Sarcopénia em doentes com cancro gástrico é elevada e que, após gastrectomia, a maior parte desses doentes perde peso e massa muscular. Dado que a maioria dos doentes não irão aumentar a sua massa muscular no pós-operatório, é crucial implementar estratégias de pré-habilitação precocemente
ESTADO NUTRICIONAL PRÉ-OPERATÓRIO E COMPLICAÇÕES CIRÚRGICAS EM DOENTES COM CANCRO DIGESTIVO E DA CABEÇA E PESCOÇO
Introduction: Malnutrition is present in 40-50% of surgical patients upon hospital admission and is one of the most important factors influencing post-surgical morbidity and mortality. It is important to establish routines to identify and monitor patients at nutritional risk nutritional, to start early nutritional therapy, ideally in the pre-surgical phase. The aim of this study was to evaluate the association between pre-surgical nutritional status and postoperative complications and assess the nutritional assessment tool with the best prognostic value for post-surgical complications, in patients referred to surveillance in intermediate and intensive care units during surgical planning.
Methods: We recruited patients at the Digestive Pathology and Head and Neck Units, referred for surgery and signaled at the anesthesia consultation for post-surgical surveillance in Intermediate or Intensive Care, from August to December 2016, at the Portuguese Institute of Oncology of Porto, Francisco Gentil, EPE. Clinical and demographic data were collected from the clinical process of the patients. Risk and nutritional status assessment was performed in the first 24 hours of patient’s admission to hospital using the PG-SGA and NRI. Data analysis was performed using the SPSS 23.0 statistical program.
Results: We included 97 patients, 62 with digestive malignancies and 35 with head and neck malignant tumors. The prevalence of pre-surgical malnutrition was 51.2% and 33%, as assessed by NRI and PG-SGA, respectively. Nutritional status, as assessed by NRI was associated with postoperative complications and length of hospital stay. Nutritional status and lack of nutritional support were also associated with greater odds of prolonged hospitalizations (>10 days).
Conclusion: The odds of developing post-surgical complications was about 3 times higher if the patient is malnourished or at risk of malnutrition, as assessed by NRI.Introdução: A desnutrição está presente em 40-50% dos doentes cirúrgicos no momento da admissão hospitalar, sendo considerada um dos fatores que mais influencia a morbimortalidade pós-cirúrgica. É importante estabelecer rotinas para identificar e monitorizar os doentes em risco nutricional, para iniciar a terapia nutricional precocemente, idealmente na fase pré-cirúrgica. O objetivo do presente trabalho foi avaliar a associação entre estado nutricional pré-cirúrgico e as complicações pós-cirúrgicas e verificar qual o instrumento de avaliação nutricional com melhor valor prognóstico para complicações pós-cirúrgicas, em doentes encaminhados para vigilância para as unidades de cuidados intermédios e intensivos durante o planeamento cirúrgico.
Métodos: Foram recrutados doentes nas Unidades de Patologia Digestiva e de Cabeça e Pescoço, que tinham sido encaminhados para cirurgia e sinalizados na consulta de anestesia para vigilância pós-cirúrgica em Terapia Intermediária ou Intensiva, de agosto a dezembro de 2016, no Instituto Português de Oncologia do Porto, Francisco Gentil, EPE. Dados clínicos e demográficos foram recolhidos através de consulta ao processo clínico. A avaliação do risco e do estado nutricional foi realizada através do PG-SGA e do NRI, nas primeiras 24 horas da admissão do doente para internamento hospitalar. A análise dos dados foi realizada através do programa estatístico SPSS 23.0.
Resultados: Foram incluídos 97 doentes, 62 com neoplasias digestivas e 35 com neoplasias malignas de cabeça e pescoço. A prevalência de desnutrição pré-cirúrgica avaliada foi de 51,2% e 33%, avaliada pelo NRI e PG-SGA, respetivamente. O estado nutricional, avaliado pelo NRI, foi associado a complicações pós-operatórias e maior tempo de hospitalização. O estado nutricional e a falta de suporte nutricional também foram associados a maior risco de hospitalização prolongada (> 10 dias).
Conclusão: O risco de desenvolver complicações pós-cirúrgicas foi cerca de 3 vezes maior em doentes desnutridos ou em risco de desnutrição avaliados pelo NRI
AS CONCENTRAÇÕES SÉRICAS DE IMUNOGLOBULINA NÃO SE CORRELACIONAM COM APENDICITE AGUDA
Immunoglobulins are a central component of humoral immunity and their serum concentrations are routinely determined in clinical practice because they provide key information on the humoral immune status. In a single centre prospective design study, we evaluated IgA, IgE, IgG, and IgM serum concentrations in patients with histologically confirmed acute appendicitis (study group, N=54) and compared it to the control group (N=69), patients submitted to appendectomy, but with normal histological findings, patients submitted to day case surgery and healthy volunteers. The serum concentrations of immunoglobulins were normal in all cases, except for IgE, that were elevated in both the study (20%) and control (21 %) groups (p= 0.609). These values are in good agreement with the prevalence of allergies in the general population. Our study is the first to address specifically the acute appendicitis Immunoglobulins humoral immune response in the English literature. We showed that acute appendicitis does not elicit a specific humoral immune response.As imunoglobulinas são um componente central da imunidade humoral e as suas concentrações séricas são determinadas por rotina na prática clínica, pois fornecem informações importantes sobre o estado imunológico humoral. Num estudo prospetivo de centro único, avaliámos as concentrações séricas de IgA, IgE, IgG e IgM em doentes com apendicite aguda confirmada histologicamente (grupo de estudo, N=54) e comparámos com o grupo controle (N=69), doentes submetidos a apendicectomia, mas com achados histológicos normais, doentes submetidos a cirurgia de ambulatório e voluntários saudáveis. As concentrações séricas de imunoglobulinas foram normais em todos os casos, exceto para IgE, que estava elevada tanto no grupo estudo (20%) quanto no grupo controle (21%) (p= 0,609). Esses valores estão em boa concordância com a prevalência de alergias na população geral. O nosso estudo é o primeiro a abordar especificamente a resposta imune humoral de imunoglobulinas na apendicite aguda na literatura inglesa. Demonstrámos que a apendicite aguda não provoca uma resposta imune humoral específica
NÍVEIS DE ATIVIDADE FÍSICA PRÉ-OPERATÓRIA E PROGNÓSTICO PÓS-CIRÚRGICO EM DOENTES ONCOLÓGICOS: UM ESTUDO OBSERVACIONAL PROSPETIVO
Introduction: There is a growing interest to understand the impact of preoperative physical activity (PA) levels in postoperative morbidity and mortality. The aim of this study is to assess the levels of PA in patients with head/neck or gastric cancer through accelerometry and compare postoperative burden among those “complying” or “not complying” with PA recommendations.
Methods: We conducted an observational, longitudinal and prospective study in newly diagnosed patients with gastric or head/ neck cancer, recruited at IPO-Porto. The levels of PA were evaluated through accelerometry. Data about postoperative burden (complications, length of hospital stay and mortality) were collected from clinical records.
Results: A total of 81 patients were recruited, mostly men (76.5%), with an average age 61.8±11.55 years, 69.08±15.55 kg of weight and a BMI of 25.82±5.29 kg/m2. Fifty-four patients had a diagnosis of gastric cancer (66.7%) and 27 had head/neck cancer (33.3%). Patients spent 54% of their wearing time in sedentary behavior, 42% in light PA, and 4% in moderate to vigorous PA. Their median weekly MVPA was 132 (3-1860) min, and only 46.9% of patients accomplished the minimum amount of MVPA/week recommendations. No differences were noted among gastric and head/neck cancer patients. Regarding postoperative burden, 23.4% of patients had minor complications and 12.5% had major complications. The length of hospital stay was 13.86 ± 15.58 days and 9.9% deaths occurred after surgery. Postoperative mortality was superior among those patients “not complying” with international recommendations of PA (7 vs. 1 death).
Conclusion: Our data suggests that high preoperative PA levels may decrease the risk of postoperative mortality. Assessing preoperative levels of PA could bring value to identify those patients at greater risk of surgical burden and guide them to intervention designed to mitigate that risk by increasing their physical activity, such as prehabilitation.Introdução: Há um interesse crescente em entender o impacto dos níveis de atividade física (AF) pré-operatória na morbimortalidade pós-operatória. O presente trabalho teve como objetivo avaliar os níveis de AF em doentes com cancro da cabeça/pescoço ou estômago e comparar o desfecho pós-operatório entre aqueles que “aderem” ou “não aderem” às recomendações de AF.
Métodos: Foi realizado um estudo observacional, longitudinal e prospetivo em doentes recém-diagnosticados com cancro da cabeça/pescoço ou estômago, recrutados no IPO-Porto. Os níveis de AF foram avaliados por acelerometria. Os dados sobre o desfecho pós-operatório (complicações, tempo de internamento e mortalidade) foram consultados nos registos clínicos.
Resultados: Foram recrutados 81 doentes, a maioria homens (76,5%), com idade média de 61,8 ± 11,55 anos, peso de 69,08 ± 15,55 kg e IMC de 25,82 ± 5,29 kg / m2. Cinquenta e quatro doentes tinham diagnóstico de cancro do estômago (66,7%) e 27 tinham cancro da cabeça/pescoço (33,3%). Os doentes passaram 54% do tempo de uso em comportamento sedentário, 42% em AF leve e 4% em AF moderada a vigorosa (AFMV). A mediana semanal de AFMV foi de 132 (3-1860) min, e apenas 46,9% dos doentes cumpriram as recomendações mínimas de AFMV / semana. Não foram observadas diferenças entre os doentes cancro da cabeça/pescoço ou estômago. Em relação ao desfecho pós-operatório, 23,4% dos doentes apresentaram complicações minor e 12,5%, complicações major. O tempo de internamento hospitalar foi de 13,86 ± 15,58 dias e ocorreram 9,9% mortes no período pós-operatório. A mortalidade pós-operatória foi superior entre os doentes que ou “não aderem” as recomendações internacionais de AF (7 vs. 1 óbito).
Conclusão: Os nossos dados sugerem que níveis elevados de AF no pré-operatório reduzem o risco de mortalidade pós-operatória. A avaliação dos níveis de AF pré-operatória poderá auxiliar na identificação dos doentes com maior risco cirúrgico e orientá-los para intervenções de otimização pré-operatória, como a pré-habilitação
IMPACTO DA GORDURA VISCERAL NO PROGNÓSTICO DA CIRURGIA DO CANCRO PERI-AMPOLAR
Periampullary cancers are located up to a maximum distance of 2 cm from the duodenal papilla, with pancreatic cancer being the most common. Despite advances in surgical technique, survival rates remain low, making it essential to identify prognostic factors. Visceral obesity has been identified as a risk factor for cancer development, but its influence on the morbidity and mortality of operated patients remains controversial. This study aims to identify an association between the presence of preoperative visceral obesity and an increased risk of postoperative morbimortality in patients with periampullary cancers at Hospital de Braga. The sample includes 44 patients with periampullary cancers who underwent surgery with a curative intention between January/2011 and April/2018. The area of visceral fat was measured using the ImageJ software. Statistical analysis was performed using the SPSS software version 25. Visceral fat was not implicated in longer hospital stay or postoperative complications. The survival analysis showed no differences in disease-free survival at 1 year (p = 0.121) and 5 years (p = 0.222) or in overall survival at 1 year (p = 0.163) and 5 years (p = 0.053) between groups. Our data suggest that preoperative visceral obesity is not a risk factor for greater postoperative morbidity and mortality in individuals with periampullary cancers. Despite the reduced sample, this study evaluates visceral obesity in four types of tumors with many similar characteristics. Additional studies with larger samples are needed to confirm our observations.Os tumores periampulares estão localizados a uma distância máxima de 2 cm da papila duodenal, sendo a neoplasia mais comum do pâncreas. Apesar dos avanços da técnica cirúrgica, as taxas de sobrevivência permanecem baixas, sendo fundamental a identificação de fatores determinantes do prognóstico. A obesidade visceral tem sido identificada como fator de risco para o desenvolvimento do cancro, mas a sua influência na morbimortalidade pós-operatória permanece controversa. Este estudo teve como objetivo explorar a associação entre a presença de obesidade visceral pré-operatória e o risco de morbimortalidade pós-operatória em indivíduos com cancro periampular no Hospital de Braga. A amostra é constituída por 44 indivíduos com cancro periampular, submetidos a cirurgia com intenção curativa, entre janeiro de 2011 e abril de 2018. A área de gordura visceral foi medida com recurso ao software ImageJ. A análise estatística foi realizada com o software SPSS versão 25. A gordura visceral não se associou ao maior tempo de internamento ou complicações pós-operatórias. A análise de sobrevivência não revelou diferenças no tempo livre de doença a 1 ano (p = 0,121) ou a 5 anos (p = 0,222), nem na sobrevida global a 1 ano (p = 0,163) ou a 5 anos (p = 0,053) entre os grupos. Os dados sugerem que a obesidade visceral pré-operatória não é fator de risco para maior morbimortalidade pós-operatória em indivíduos com cancro periampular. Apesar da amostra reduzida, este estudo avalia a obesidade visceral em quatro tipos de tumores com muitas características semelhantes. Estudos adicionais com amostras maiores são necessários para confirmar as nossas observações