Vista - Revista de Cultura Visual
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(In)visibilidades: imagem e racismo
And Still I Rise, o poema de Maya Angelou descreve de forma magistral o movimento que perpassa os textos que aqui introduzimos. Trata-se de sublimação. Vista do lugar onde escolhemos estar, a História da humanidade é precisamente feita de resistência e de superação. As imagens refletem ou desafiam “velhas” clivagens abissais, forjadas durante o colonialismo europeu e são, ao mesmo tempo, expressão da opressão e da resistência que lhe tem sido feita. No que revelam e sobretudo no que remetem para a invisibilidade. As reflexões propostas descortinam subentendidos, denunciam ofensas naturalizadas, questionam silêncios e, finalmente, propõem novas visualidades para os corpos negros. Não necessariamente por esta ordem. Mais do que dar visibilidade procura-se mostrar o quão invisível permanece uma parte substancial do visível – tornar visível a própria invisibilidade, na impossibilidade de recuperar o que foi sistemática e prolongadamente apagado. Deste modo, este número da VISTA propõe-se como contributo – ainda que modesto - para a luta antirracista dos nossos dias. A luta antirracista de um mundo onde, por todo lado, novas e velhas formas de racismo trituram vidas de pessoas negras
Is there, for the black person, only one destiny? A psychoanalytical approach
Este artigo pretende refletir sobre como o racismo interfere na construção da imagem da pessoa negra no processo de constituição subjetiva, em sua articulação com o discurso do Outro, como concebido por Jacques Lacan, a saber, como inconsciente, e suas manifestações no nível cultural e no nível do laço social. Para tanto, faremos referência às elaborações teóricas de Neusa Santos Souza, Frantz Fanon e Grada Kilomba, autores que empreenderam, cada um em seu tempo e suas respectivas leituras e contextos sociais, reflexões poderosas sobre o racismo, do ponto de vista da psicanálise. Por meio da concepção de linguagem proposta por Lacan e do conceito de negritude em Munanga, indicamos como a questão se atualiza hoje no Brasil. Para concluir, entendendo que há sofrimento psíquico gerado por esse modo de segregação, sugerimos alternativas e formas que articulam o empoderamento do sujeito que atravessa e é, ao mesmo tempo, atravessado pelo coletivo.This paper intends to think about how racism interferes in building the image of the black person in the process of subjective constitution, in its articulation with the discourse of the Other, as conceived by Jacques Lacan in his work, namely, as unconscious and its manifestations at the cultural level and at the level of the social bond. To this end, we will refer to the theoretical elaborations of Neusa Santos Souza, Frantz Fanon, and Grada Kilomba, authors who undertook, each in their own time and their respective readings and social contexts, powerful reflections on racism from a psychoanalysis standpoint. Through the conception of language as proposed by Lacan and the concept of blackness in Munanga, we indicate how the issue updates itself in Brazil today. To conclude, understanding that there is psychic suffering engendered by this mode of segregation, we suggest alternatives and ways that articulate the empowerment of the subject that crosses and is at the same time crossed by the collective
Body, ancestry, and ecstasy: reading Rotimi Fani-Kayode’s photographs in contemporary times
O presente artigo aborda diferentes apropriações e representações da vida de homens negros gays, oriundos da diáspora africana e com trânsitos estabelecidos na Europa do final do século XX, a partir dos ensaios fotográficos do artista nigeriano Rotimi Fani-Kayode (1955-1989), que viveu durante muito tempo na Inglaterra do final do século XX. Busca-se, no trânsito vivido pelo artista entre África e Europa, bem como na potência das mais diversas linguagens empregadas em seus ensaios fotográficos, conferir uma leitura contemporânea sobre o corpo negro homossexual masculino a partir de um erotismo e uma espiritualidade que escapam às narrativas hegemônicas e heteronormativas, que durante muito tempo aprisionaram esses modos de ver e narrar o homem negro gay na clausura das tensões raciais, dos crimes de caráter homofóbico que ainda marcam ambos os espaços geográficos em evidência e de conflitos da ordem da sexualidade.This article addresses different appropriations and representations of the lives of Black gay men, from the African diaspora and with transits established in late twentieth-century Europe, concerning the photographic essays of the Nigerian artist Rotimi Fani-Kayode (1955-1989), who lived for a long time in late twentieth-century England. This work seeks, through the analysis of the transit experienced by the artist between Africa and Europe, as well as in the power of the most diverse languages used in his photo essays, to give a contemporary reading of the male homosexual black body based on an eroticism and spirituality that escape the hegemonic and heteronormative narratives that have long imprisoned these ways of seeing and narrating Black gay men in the enclosure of racial tensions, homophobic crimes and conflicts of other order of sexuality
Filha Natural
A partir de uma análise inédita de iconografia histórica e relatos orais da minha família, trago à tona hipóteses possíveis sobre as origens de minha tataravó. Há indícios que ela tenha nascido por volta de 1855 em uma fazenda de café em Vassouras, zona rural do Rio de Janeiro, considerado o epicentro do escravismo brasileiro no século XIX
Black women’s oppositional gaze making images
Considerando a produção audiovisual realizada por mulheres negras no Brasil depois da segunda década do século XX, propomos pensar, através de um viés interseccional, como um olhar opositivo (hooks, 1992) criador de imagens rompe com estereótipos racistas e interpela a branquitude. Argumentamos que a produção de mulheres negras no Brasil, interpela, através da disputa narrativa que o olhar opositivo feminino opera no campo do cinema, a reprodução do racismo institucional e aprofunda a questão do legado colonial.In this article, we consider the audio-visual production carried out by black women in Brazil since the second decade of the 21st century. Our objective is to propose a reflection, adopting an intersectional approach, on how an oppositional gaze creates images that break with racist stereotypes and challenge whiteness (hooks, 1992). We argue that the production of black women in Brazil questions the reproduction of institutional racism and digs deeper into the issue of colonial past. They create a narrative dispute that the oppositional feminine gaze imposes on the film industry
Entrevista com Vanessa Fernandes. Imaginar sobre a memória e a tradição
A realizadora de cinema Vanessa Fernandes nasceu na Guiné Bissau e viveu em Paris e Macau durante a infância e adolescência. Depois, veio para Portugal, onde permanece, embora tenha estado durante algum tempo na Alemanha
Breaking Canons: Intersectional Feminism and Anti-Racism in the Work of Black Women Artists
In this essay, I will argue for the relevance of the visual production of several contemporary black women artists for the shattering of Eurocentric stereotypes and racist and patriarchal narratives, which, as legacies of the colonial and enslaving past, continue to wound the social and psychic lives of non-white people. While envisaging contemporary artistic practice as being in close dialogue with, or located within, other epistemic and cultural practices – such as the disciplinary fields of history and art history, and visual culture at large –, which have produced and reproduced racist discourses and racialized subjectivities for centuries, I will examine the ways in which black women artists break Eurocentric canons and counter racism, patriarchy, capitalism, homophobia, transphobia, and ableism from within the specific field of contemporary art, in between theory and practice, and drawing on the invaluable lessons of intersectional feminism. Relevant examples will be works by Grada Kilomba (Portugal, 1968), Eurídice Kala aka Zaituna Kala (Mozambique, 1987), and Keyezua (Angola, 1988). This essay will consider the ethico-political valences of such critiques through contemporary art, while not avoiding the problems that are inherent to the ways in which neo-liberal capitalism and white privilege remain structurally at the heart of numerous artistic institutions.Neste ensaio, argumentarei a favor da relevância da produção visual de várias artistas contemporâneas negras para o quebrar de estereótipos eurocêntricos e de narrativas racistas e patriarcais, que, enquanto legados do passado colonial e escravizador, continuam a ferir as vidas sociais e psíquicas das pessoas não brancas. Considerando a prática artística contemporânea como estando em diálogo próximo com, ou situada no âmbito de, outras práticas epistémicas e culturais – como os campos disciplinares da história e da história de arte, e a cultura visual em geral –, que têm produzido e reproduzido discursos racistas e racializado subjetividades desde há séculos, examinarei as formas através das quais artistas negras quebram cânones eurocêntricos e combatem o racismo, o patriarcado, o capitalismo, a homofobia, a transfobia e o capacitismo, a partir do campo específico da arte contemporânea, entre a teoria e a prática, e inspirando-se nas lições valiosas do feminismo interseccional. Exemplos relevantes serão os trabalhos de Grada Kilomba (Portugal, 1968), Eurídice Kala aka Zaituna Kala (Moçambique, 1987) e Keyezua (Angola, 1988). Este ensaio considerará as valências ético-políticas de tais críticas através da arte contemporânea, sem evitar os problemas inerentes às formas pelas quais o capitalismo neoliberal e o privilégio branco permanecem estruturalmente no âmago de inúmeras instituições artísticas
O blackface em Portugal. Breve história do humor racista
A sobrevalorização da capacidade transgressora do humor tende a colocá-lo fora da crítica, mesmo quando exercício humorístico gera estereótipos racistas. O sistema hierárquico e dis- criminatório das sociedades coloniais e a construção da especificidade identitária do negro foi sendo reforçada por formas racializadas de entretenimento, entre as quais, formas de humor que recorriam ao blackface. Conhecido pelo seu racismo primário, o subgénero blackface retratava a população negra como falha em inteligência, preguiçosa, supersticiosa. Embora seja um subgénero humorístico de origem norte-americana, a prática do blackface internacionalizou-se e chegou também a Portugal. Neste artigo, pretende-se o fazer uma breve história do humor racista em Portugal, começando por identificar os primeiros humoristas que recorreram ao blackface no contexto histórico do colonialismo português, sem deixar de referir exemplos recentes, que revelam como este subgénero humorístico, não só persiste, como porventura se intensificou e diversificou no contexto pós-colonial.The overvaluation of the transgressive capacity of humor tends to put it out of criticism, even when humorous exercise generates racist stereotypes. The hierarchical and discriminatory sys- tem of colonial societies was reinforced by racialized forms of entertainment, namely black-face. Known for its primary racism, blackface humor portrayed the black population as lack of intelligence, lazy, superstitious, etc. Although it is a humorous sub-genre of North American origin, the practice of blackface has internationalized and has also reached Portugal. This arti-cle will make a brief history of racist humor in Portugal, starting by identifying the first comedi-ans who resorted to blackface in the historical context of Portuguese colonialism, while men-tioning recent examples, which reveal how this practice, not only persists, but somehow it has intensified and diversified in the post-colonial context
Portrayal of Life Stages on Swedish Municipal Media: A Life Course Perspective
O retrato midiático de idosos é concebido como uma forma de expressão de realidades e expectativas sociais, e a imagem do envelhecimento tem implicações significativas nas relações inter geracionais. Uma perspectiva de curso da vida é sugerida para observar a velhice como a etapa final de desenvolvimento sucessivo da vida e para investigar o significado social da velhice através da comparação entre fases da vida. Este artigo focará em retratos visuais de cidadãos em uma fase específica da vida (primeira infância, infância, adolescência, maioridade e velhice) na nova mídia municipal sueca. Este artigo visa responder à maneira que a municipalidade constrói o retrato visual de cidadãos em diferentes fases da vida, e quais retratos midiáticos de idosos foram produzidos sob uma perspectiva de curso da vida. Para esse estudo, foram executadas análises documentais de diretrizes municipais de linguagem visual e outros documentos pertinentes, também foi realizada uma elaborada análise visual de seis fotos representativas do Facebook publicadas pela municipalidade em 2018. Este artigo revela que a municipalidade formalizou diversidade e inclusão (inclusive etária) como dois objetivos vitais de comunicação, assim como fez uso de uma técnica de agrupamento por fases da vida para análise de audiência. O resultado da análise visual sugere que o retrato visual dddddde cidadãos se comunica com um conjunto de traços atribuídos às fases da vida representadas. Especificamente, o resultado sugere que certos componentes visuais servem para categorizar idosos como um grupo vulnerável, perpetuando estereótipos etários e discriminação geracional na sociedade.Media portrayal of older adults is an expression of social realities and expectations, and the image of ageing has significant implications for intergenerational relations. A life course perspective is suggested for viewing old age as the final stage of successive lifespan development and investigating the social meaning of old age through comparisons of life stages. This article focuses on the visual portrayal of citizens at a particular life stage (infancy, childhood, adolescence, adulthood and old age) in Swedish municipal new media. It aims to examine the ways that the municipality visually portrayed citizens at different life stages, as well as the media portrayal of older people that was produced from a life course perspective. This study is based on document analysis of municipal guidelines for visual language and other pertinent documents, as well as in- depth visual analysis of six representative Facebook photos published by the municipality in 2018. This article finds that the municipality has designated diversity and inclusiveness (including age) as two vital communication goals, in addition to applying a life-stage grouping technique to audience analysis. Visual analysis reveals that the visual portrayal of citizens is communicated using a set of traits attributed to the life stages represented. Specifically, these findings suggest that the particular visual components serve to categorize older people as a vulnerable group, while perpetuating age stereotypes and ageist perceptions in society
Cultura visual, digital e mediática: Imagens entre gerações
O contexto social marcado pela cultura de convergência mediática, em conjunto com a proliferação dos dispositivos digitais ligados à internet e a sua penetração junto da população conferiram relevância, mais do que nunca, à cultura mediática e visual. Meios digitais e imagens conduziram aos estudos das práticas de consumidores e produtores de imagens, de acordo com os aspetos sociais e os contextos culturais inerentes, dando lugar a um novo ecossistema cultural (Buckingham, 2003; Koltay, 2011)