Vista - Revista de Cultura Visual
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    Povos expostos, povos figurantes

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    O primeiro filme projetado da história tem por título, como é sabido, A saída da fábrica Lumière. No dia 22 de março de 1895, na rua de Rennes em Paris, diante de cerca de duas centenas de espetadores, Auguste e Louis Lumière expuseram pela primeira vez, numa tela, o povo humilde em movimento (figura 1). Os seus próprios operários tinham sido enquadrados diante do portão da fábrica de Monplaisir, abandonando as suas oficinas, num intervalo do trabalho, pelo meio-dia. É, então, saindo da sua fábrica que os povos terão entrado em cena – terão beneficiado de um novo valor de exposição – na era do cinematógrafo. Tudo isto é bastante simples, está visto, mas também muito paradoxal

    Vicente, F. L. (2014). O Império da Visão: Fotografia no Contexto Colonial Português (1860-1990). Lisboa: Edições 70.

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    No volume organizado por Filipa Vicente, é possível reencontrar o interesse da historiadora pelo estudo de períodos e temas da história da cultura observados a partir da expressão artística, mais concretamente de documentos visuais. Numa linha de continuidade com trabalhos anteriores, este volume retoma a reflexão sobre a imagem como instrumento de conhecimento. Especialmente relevante para o estudo dos impérios e da vivência colonial, a cultura visual tem demonstrado ser uma ferramenta útil para se entender o quotidiano, ora capturado na sua espontaneidade natural ora representado com efeitos de encenação. O Império da Visão é disso mesmo um claro emblema ao dar a conhecer obras, autores e análises que demonstram tanto o interesse científico quanto o caráter empolgante e inovador das análises ancoradas no documento visual. O volume situa-se, assim, numa linha de reflexão que, embora tardiamente, tem vindo a crescer em Portugal e que a cada novo passo que dá estimula a ambição de desenterrar informação visual que tem estado escondida ou sido ignorada nos lugares públicos e privados onde aguarda pelo momento em que a sua chegada às mesas de trabalho dos investigadores logre acrescentar novas luzes ao conhecimento do passado

    Who will make me real? Mulheres, arte e feminismos, modos de ver diferentemente

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    My aim in this paper is to reflect upon some of the central issues that “frame” contemporary strategies of re-presentation in the work of women artists in a dialogue with Feminism (s) today – issues around the body, new feminine cartographies and their mapping in contemporary world, within the context of a “politics of location”. Such processes of framing/reframing/unframing will be the main focus of my analysis, through direct study of some case-studies.Este artigo pretende ilustrar alguns tópicos e questões fulcrais que “enquadram” as estratégias de mulheres artistas no diálogo com os Feminismos contemporâneos, no tocante à representação do corpo, às novas corpografias do feminino e ao seu mapeamento no mundo contemporâneo. Analisarei os conceitos e as técnicas de “desenquadramento” e desconstrução que nos propõem e as alternativas de “reenquadramento” sugeridas através das suas linguagens artísticas (fotografia, pintura, instalação, performance), como modos de resistência à ordem universalista e homológica. A questão da política da localização, a assimilação e o questionamento das “grandes narrativas” quer ocidentais, quer orientais, através de um discurso crítico e de uma retórica paródica que incita à desconstrução de estereótipos culturais e de género (tanto do “eterno feminino”, como da femme-fatale, como a exotização da mulher oriental) serão reenquadrados enquanto ‘modos de ver diferentemente’ no diálogo com a resiliência indisciplinar dos Feminismos contemporâneos

    Cardoso, M. (2015). Yvone Kane. Moçambique, Portugal, Brasil: Filmes do Tejo & MPC Filmes.

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    Margarida Cardoso nasceu em Portugal e passou a infância em Moçambique onde o pai, militar da força aérea, esteve destacado desde 1966. Cresceu durante a guerra colonial, rodeada de silêncio sobre este e outros assuntos, como a existência de livros proibidos, ou o desaparecimento de pessoas. Quando voltou a Portugal deparou-se novamente com silêncios: sobre a nostalgia do império, a defesa do colonialismo, a permanência de Portugal em África e a guerra colonial. A obra desta autora é marcada pela necessidade de dar um corpo discursivo ao silêncio relativo a esse período da sua infância e juventude e pelo desejo de “guardar e reconstituir um tempo à beira do fim”2. Yvone Kane, a segunda longa-metragem de ficção de Margarida Cardoso (depois de Costa dos Murmúrios de 2004), é uma coprodução entre Portugal e o Brasil, que estreou em fevereiro de 2014, foi rodada em Portugal e Moçambique e conta com a participação de atores portugueses, brasileiros e moçambicanos

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