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Apresentação do Dossiê - Dimensões do Autobiográfico
Neste dossiê da Revista Poésis apresentamos, como argumento, textos selecionados a partir de um recorte no qual os processos autobiográficos se dinamizam, trazendo contri-buições sobre as possibilidades singulares envolvidas em uma discussão sobre processos de visualidade na arte contemporânea
Trabalho de arte/Evento curatorial
Neste texto são discutidas algumas questões relacionadas à práticacuratorial, tendo como referência a relação entre o gesto de construção da exposição enquanto evento-obra e o contato com obra de arte como dispositivo singular: na medida em que as fronteiras entre exposição e obra se tornam cada vez menos nítidas, como organizar a ativação da exposição enquanto ativação da obra e vice-versa? Em que medida a construção da exposição, ao colocar em movimento interesses diversos, intensifica ou não o contato do visitante com a obra, quando este é cada vez mais capturado pela intensidade do evento-exposição? Do mesmo modo, serão discutidos os limites entre os papéis do curador e do artista, em proximidade também com o crítico, o historiador e outros agentes do circuito da arte contemporânea
(o corpo na caixa): o gato [ou: da condição de ver contemporânea, do visível e da cegueira]
O presente artigo aborda o ver num campo ampliado – um ver que nãoprivilegia a visão como seu principal sentido, um ver cego que depende do não visível –, fundamentado no pensamento sobre o ver, sobre arte como événement e arte como experimentação de Jacques Derrida e Jean-François Lyotard. A autora discute a cegueira, o ver tátil e a visibilidade do som como alteridades do ver visível
Identidade: singularidade: conceitos presentes na arte
O artista com enfoque político, em sua crítica, precisa cada vez maisrecorrer ao conhecimento transdisciplinar da produção do sujeito no meio cultural e socioambiental. Os conceitos de identidade e singularidade envolvem nuances e complexidades. Não poderia simplesmente contrapor identidade à diferença, como dois polos opostos e excludentes, quando as inter-relações são menos dicotômicas ou homogêneas, mesmo porque a realidade não o é. Trata-se de um debate relacionado às formas de pensar a construção de um sujeito. O artigo levanta questões fora do campo institucionalizado da tradição artística, gerando uma reflexão sobre as diferenças, quase labirínticas, presentes na arte conceitual
Dar-se como coisa que ouve: afetos de sonoridade na obra Escuto histórias de amor, de Ana Teixeira
Entre os anos de 2005 e 2012, a artista brasileira Ana Teixeira sentou-seem uma cadeira em vias públicas de diferentes cidades com uma cadeira vazia ao seu lado. Uma placa que dizia Escuto histórias de amor convidava os passantes a sentarem-se ao seu lado e falar. Nenhum registro do teor das narrativas foi feito, à artista interessava apenas a escuta. O presente artigo investiga como, ao se concentrar mais no gesto de ouvir que nas histórias contadas, Ana Teixeira propõe um encontro no qual a via de contágio não é a linguagem, que sempre nos convoca à interpretação, mas o som e, portanto, o corpo: seria a carne e não o intelecto a camada de permeabilidade
Sonho de arquivo
O presente artigo busca analisar as noções de arquivo e de prática dearquivo a partir das reflexões de Walter Benjamin. Buscaremos compreender a novidade do método benjaminiano mostrando sua forma de exposição da obra do poeta Charles Baudelaire. A partir da correspondência entre Benjamin e Adorno, apresentaremos o dispositivo desenvolvido por Benjamin e que se trata não de interpretar a obra de Baudelaire, mas antes de expô-la. Expor essa obra significa, para Benjamin, um engajamento histórico-político do teórico-analista-arquivista e a tensão de suas contradições enquanto sujeito singular histórico. Essas contradições não são resolvidas, mas identificadas e imobilizadas como tal
Sobre o anarquivamento – um encadeamento a partir de Walter Benjamin
O artigo faz uma análise de uma série de obras de arte, sobretudofeitas após a Segunda Guerra Mundial, como uma tentativa de propor a figura do arquivo como uma chave para organizarmos o que se passa na nossa cultura hoje. No século XX o derretimento do arquivo central da razão ocidental serviu para desencadear um trabalho de rememoração e recoleção dos arquivos. A virada biológica entronizou a noção de herança genética e de processo de reinscrição de arquivos herdados. Já a virada cibernética generalizou discursos sobre memórias, arquivos, gravação e apagamento de informações. Os artistas, nessa paisagem, vêm pensando, desde o romantismo, contra-estratégias diante da arquivação e arquivonomia monológicas: eles se tornaram anarquivadores
Grito primal – o parto natural domiciliar como performance como arte
Grito primal – o parto natural domiciliar como performance como artesacraliza o nascimento humano como arte performática, devolvendo à mulher o protagonismo no momento do parto, não apenas pelo direito de movimentação próprio do processo mas da escolha consciente sobre a forma de nascimento de seu filho. Através da performance, o nascimento revela-se um ato político que protesta contra o excesso de cirurgias cesarianas eletivas, contra o desrespeito ao corpo da mulher mutilado por episiotomias, cortes abdominais, induções hormonais, violências veladas, falta de informação e impossibilidade de diálogo. Estabelecer o paralelo entre o parto natural domiciliar e performance como arte é dignificar o nascimento como processo artístico de cunho elevado
Campos Autônomos
O texto trata do ato falante e da experiência do corpo como alternativasàs formas de poder estabelecidas na sociedade contemporânea e da construção de outro lugar sonoro a partir da multidão, onde o ruídodos corpos no espaço público é o elemento dissonante do discurso globalizado representado pela sonoridade urbana e sua rotina