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Paisagens suspensas nas obras de Kishio Suga
O presente artigo trata da obra do artista japonês Kishio Suga, integrante do grupo de arte do pós-guerra Mono-ha, e aborda especialmente seus trabalhos em instalação, tratando da interação destes com a arquitetura. A percepção do artista sobre a "matéria", estabelecida a partir de seu conceito de mono (coisa), é analisada por meio das noções de espaço, paisagem e site-specific, tendo como base os autores Anne Cauquelin, Milton Santos e Miwon Kwon. Os contrastes entre natural e artificial, muito presentes na obra de Kishio Suga, são explanados partindo das análises do antropólogo Bruno Latour acerca da modernidade e as relações entre natureza e cultura
Dois museus de arte no litoral como perguntas sobre a experiência da arquitetura
O Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo em Marselha e o Museu de Arte Contemporânea em Niterói acolhem coleções e exposições em formas arquiteturais icônicas, participando, por suas escalas e singularidades, no desenho da paisagem litoral. A partir da apresentação de um contexto urbano de remodelação comum, se quer apontar como esses museus participam da paisagem e do ordenamento dos litorais com os quais constituem a paisagem. Esses edifícios conseguem abrir a experiência das obras de arte para além do continuum perceptivo tradicional dos espaços fechados da "museologia do ponto de vista". Dessa maneira, eles permitem pensar a complexidade da experiência da arquitetura e sua autonomia em relação aos objetos de arte acolhidos nesses espaços
"Esse universo dos sons que a gente não escuta”: entrevista com Cildo Meireles
Desde janeiro de 2019, temos tido a oportunidade de realizar uma série de entrevistas com Cildo Meireles, além de outras visitas ao ateliê do artista. Esta entrevista, a primeira da série, trata do sonoro em diversas obras de Cildo Meireles, desde o final da década de 1960 até a década de 2010. O desenrolar da entrevista se dá entremeado por reticências que contemplam conversas paralelas à questão sonora e também muitas risadas com o artista e seus assistentes
Um cubo mofado
A partir da investigação de trabalhos de arte contemporânea que incorporam fungos como matéria de sua composição, o texto discute o apodrecimento dos nossos corpos na epistemologia ocidental. Considerando o imaginário das pinturas de natureza-morta e do cubo branco modernista, alguns artistas apontam ironicamente para a tradição da decadência da carne em prol da ascensão de uma condição de humanidade. A colaboração e incorporação da presença dos fungos é ameaça para a chave dicotômica que opõe natureza e cultura, humano e animal. Artistas que dão espaço para a interação com esses seres e que pensam socialmente seus corpos indicam a possibilidade de existência do não humano
Cura-dor: sobre contágios, fissuras e práticas anticoloniais
Este breve ensaio tem como aposta refletir sobre algumas dinâmicas curatoriais, seus modos de fazer e pensar tomando como “ponte analítica” uma exposição curada/conjurada por estudantes da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro como avaliação final de semestre. Diante de tal aposta reflexiva, buscamos tensionar os conceitos de curadoria como uma prática de resgate das memórias e afe(c)tos coletivos de modo a fissurar para fraturar linhas de forças autoritárias e paradigmas coloniais em voga no campo cultural. O termo cura-dor é uma aposta ética que visa, entre outras coisas, colocar o dedo na ferida colonial para repensar as práticas curatoriais e a construção semiótica através dos agenciamentos coletivos corpos-movimentos
A aura da presença em processos de deslocamento: nas ruínas do playground
Tendo como questão a ideia do deslocamento entre territórios, consideramos neste texto as obras do mestre português Grão Vasco, dos brasileiros Antônio Francisco Lisboa e Manuel da Costa Ataíde, artistas que colocaram em questão uma ideia de estilo a partir de matrizes e emulações da arte, mas sob o impacto de circunstâncias autóctones. Obras de arte são atmosferas de acontecimento, nelas há algo que não se determina apenas como forma. Questões como circularidade e sobrevivência nos impactam desde suas próprias origens como processos de transformação
O que pode uma curadoria descolonial? [Apresentação do dossiê]
O dossiê temático da Revista Poiésis 35 traz a público uma constelação de artistxs e autorxs que discutem, em entrevistas, textos e ensaios visuais, uma série de questões relacionadas ao exercício e à prática descolonial da arte contemporânea brasileira e global. Parte-se aqui da constatação de que, já há algumas décadas, as exposições de arte têm sido locais para o exercício do pensamento descolonial, por meio de obras e práticas que privilegiam os processos de subjetivação, de simbolização e de representação subalternizados, bem como a performatização de histórias e culturas não-hegemônicas