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Soldados, “guerra longa” e a sutil manutenção do império
Robert D. Kaplan é correspondente da revista The Atlantic Monthly (na qual tem publicado artigos sobre segurança internacional – alguns deles republicados em jornais brasileiros1), professor visitante da Academia Naval norte-americana, membro do Centro para uma Nova Segurança Americana (Center for a New American Security) e autor, além do volume supra-citado, de outros livros, que versam basicamente sobre relações internacionais e viagens2. Entre eles, destacamos Warrior Politics: Why Leadership Demands a Pagan Ethos (2002)3 e The Coming Anarchy: Shattering the Dreams of the Post Cold War (2001)4, que faz uma previsão das ameaças e conflitos “menores”, mas não menos perigosos, que emergem com o fim da Guerra Fria e o término da “estabilidade” bipolar do sistema internacional. Tais embates transformariam em pesadelo o até então sonho da vitória e proliferação da democracia liberal mundo afora. O establishment militar dos EUA, que até então funcionava muito bem quando se tratava de uma ameaça estatal (a então URSS), não pode afirmar que foi pego de surpresa: diversos autores, entre eles Martin van Creveld (The Transformation of War), Mary Kaldor (New and Old Wars) e o próprio Kaplan identificam a emergência das “novas guerras”, não mais necessariamente explicadas pelo recorte clássico trinitário do general prussiano Carl von Clausewitz
De conferência em conferência: a Ásia aproximando-se da África
A recente Conferência Internacional de Tóquio para o Desenvolvimento de África, que teve lugar na última semana de Maio de 2008, em Yokohama, no Japão, contou com a presença de pelo menos 36 Chefes de Estado africanos. Esta conferência que se realiza na esteira de outras conferências, sobretudo Pequim, China, 2006, reacendeu o debate em torno do interesse dos asiáticos pelo continente africano. Analogamente, parece ficar evidente que o continente africano inclina-se, em definitivo, para a Ásia
A revitalização da indústria de defesa brasileira: uma contribuição ao processo decisório
Em setembro de 2003, cumprindo um de seus compromissos de campanha e atendendo a uma antiga reivindicação dos militares, o governo recém eleito resolveu tratar a questão da ampliação do orçamento das Forças Armadas. Ao contrário da prática até então vigente, isso foi feito no contexto dos vários temas a ela relacionados e no marco de um Ciclo de Debates que se prolongou até junho de 2004.Entre esses temas, estava o do reaparelhamento das Forças Armadas e o do atendimento de uma outra reivindicação de militares e empresários: a revitalização da indústria de defesa. Embora não tenha havido consenso a respeito da conveniência em levá-la a cabo, a aceitação de que uma maior profissionalização das Forças Armadas1 seria facilitada através de um reaparelhamento viabilizado pela produção local de material de defesa sugeria que o início do processo de revitalização era iminente
Geopolítica e regionalismo continental
Em artigo recente, interessante tanto pelo conteúdo como pela oportunidade, José Luís Fiori recorda a visão que, na década de 1940, Nicholas Spykman, grande geoestrategista norte-americano do século XX, tinha da América Latina – e em particular da “luta pela América do Sul” – no quadro da geopolítica de Washington. Segundo ele, a América dos latinos, radicalmente separada da dos anglo-saxões, compreenderia, do ponto de vista político-estratégico, duas regiões: uma primeira, que ele denomina de “mediterrânea”, que abrangeria o México, a América Central, o Caribe, a Venezuela e a Colômbia; e outra, que incluiria toda a América do Sul abaixo daqueles dois países sul-americanos. Na percepção de Spykman, a primeira ficaria sempre numa posição de dependência em relação aos Estados Unidos, já que México, Venezuela e Colômbia não teriam, no seu entender, condições de tornarem-se grandes potências. Assim, qualquer tentativa de contrabalançar a supremacia regional de Washington só poderia vir dos grandes países do sul do continente, particularmente Argentina, Brasil e Chile, quer através de uma ação comum, quer pelo recurso a influências extracontinentais. Nesta hipótese, concluiria o autor citado por Fiori, “uma ameaça à hegemonia americana nesta região do hemisfério (a região do ABC) terá de ser respondida através da guerra”
A integração produtiva regional: uma nova escala nas relações capital-trabalho
Entre as transformações observadas nas últimas décadas do século XX no modo de produção capitalista, destaca-se a maior mobilidade do capital industrial, em decorrência da abertura e desregulamentação dos mercados nacionais, e também da formação e/ou fortalecimento de blocos econômicos regionais. No caso da América do Sul, o estabelecimento do Mercado Comum do Sul (Mercosul), além de aumentar os fluxos comerciais entre os países membros, contribuiu para a possibilidade de uma maior integração das cadeias produtivas de setores industriais dos distintos países, para uma focalização das atividades, para a redução do número de unidades produtivas e para a ampliação do leque de alternativas de localização das plantas industriais. Ao mesmo tempo em que o capital, que passa a ter maior liberdade de movimento, acelera o seu “espaço-tempo”, a classe trabalhadora ainda enfrenta controles em sua mobilidade, além de grandes dificuldades para uma organização transfronteiriça que possa responder à nova geografia industrial, ficando em nítida desvantagem no processo negociador
Mercosul, sociedade e opinião: exercícios de hegemonia na página de opinião da Folha de S. Paulo
O Brasil é a maior economia do Mercosul1. Em termos de população, território e base industrial, o país apresenta uma ampla vantagem em relação a seus sócios (Argentina, Paraguai, Uruguai, como sócios plenos e Equador, Bolívia e Chile como associados). É possível afirmar, portanto, que a hegemonia econômica dentro do bloco é protagonizada pelo país. Tal liderança se revela incontestável quando a economia brasileira atravessa momentos de crise e suas conseqüências se refletem nos fluxos comerciais intrabloco. Quando crises econômicas acontecem nos outros países, o Brasil age como agência de socorro imediato, impedindo que tais eventos causem grandes impactos nas demais economias do bloco, a exemplo do que ocorreu com a crise argentina de 2001
Brasil y México: continuidad y cambio en las relaciones bilaterales durante los primeros años del siglo XXI
A lo largo de muchos años, Brasil y México lograron construir relaciones correctas, cooperativas y pacíficas, aunque también de baja intensidad, modestas y, en ciertos aspectos, irrelevantes. En general, los países priorizaron sus relaciones con otros actores internacionales y terminaron adoptando una actitud negligente para su agenda recíproca. En los primeros años del siglo XXI, la tendencia histórica de relaciones correctas pero de baja intensidad comenzó a cambiar. Estas tendencias generan importantes consecuencias tanto en términos estrictamente bilaterales, como en ámbitos multilaterales – quiere decir hemisféricos y globales
O crescimento do orçamento de defesa chinês: caraterísticas, prioridades e objetivos
Desde 1989, a República Popular da China (RPC) vem investindo pesadamente na modernização do Exército de Libertação do Povo (ELP), que é o principal segmento das forças armadas chinesas.1 Isso tem preocupado os vizinhos da China e especialmente os Estados Unidos, que enfrentam sérias possibilidades de guerra contra a RPC em função de Taiwan. Assim, nosso objetivo nesse artigo é analisar o orçamento de defesa chinês, buscando determinar suas características e prioridades, bem como seu significado político-militar para as relações entre Estados Unidos, Taiwan e China
¿Puede Brasil liderar el apoyo internacional a la transición política en Cuba?
No resulta fácil reflexionar sobre las relaciones Brasil-Cuba cuando se parte de una deficiencia básica para el análisis de estas relaciones: la ausencia de bibliografía de referencia y la dificultad para el acceso a la documentación diplomática. A este factor debe añadirse, desde la perspectiva brasileña, el escaso interés que el tema ha suscitado en el campo académico de las relaciones internacionales de Brasil, siendo limitadísimas las aportaciones existentes1. La falta de estudios exhaustivos obliga a concentrar el examen de la cuestión en los discursos oficiales, declaraciones e informaciones periodísticas. Estas limitaciones no impiden, sin embargo, la enumeración de algunas constantes o características generales en las relaciones entre Brasil y Cuba en el contexto de la política exterior brasileña. Estas características generales sirven para enmarcar la evolución de las relaciones cubano-brasileñas en los últimos años
Complexidades de um mundo não tão novo
Desde o fim da Guerra Fria, os estudos sobre relações internacionais passam por algumas dificuldades na definição de um balanço efetivo entre o novo – os elementos políticos inéditos deste século – e a dimensão da continuidade. Existe uma séria tendência e, por que não, preferência pelo novo. Da “hiperpotência militar” dos EUA à globalização – além das previsões sobre o fim do Estado – muito se falou sobre novidades, as quais ainda não permitiriam que se definisse claramente o sistema internacional que substituiu ou substituirá a bipolaridade característica da maior parte do século XX