Universidade Catolica de Pernambuco: Portal de Periódicos da UNICAP
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Jesus da gente – um entre-lugar teoliterário: a construção do (samba) enredo da Estação Primeira de Mangueira 2020
A leitura e a interpretação de uma obra nunca serão suficientes para explicá-la e tampouco poderão mitigar as controvérsias suscitadas com o seu surgimento ou mesmo negligenciá-las. Nesse sentido, lançar um olhar interessado para a construção do (samba) enredo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira 2020 abre-nos a um campo teórico discursivo sobre o qual refluem distintos elementos, fazendo emergir um espaço rico de enunciação e de interlocução teoliterária. Assim, se uma leitura realista se aproximaria para ver melhor, a poética textual que queremos privilegiar, aqui, distancia-se para poder aproximar-se mais. Concluímos, portanto, que “A verdade vos fará livre”, proposta por Leandro Vieira, transcende tanto a construção histórica nela representada como ainda a compreensão desse mesmo funcionamento. Afinal, ainda que advindo de uma história e de uma sociedade, o Jesus da gente cumpre bem sua missão, articulando e escapando aos limites da história e da sociedade que o originaram, independentemente da opinião crítica dos seus sucessivos leitores-espectadores-ouvintes
Por não saberem ler nem escrever: os testamentos deixados por mulheres no termo da Cidade do Natal (1767-1786)
O objetivo deste trabalho, é apresentar as transcrições dos testamentos das senhoras Joana da Rocha (1767), Januária da Rocha (1770) e Ana Ferreira Miranda (1786). Todavia, buscando preservar os documentos originais que estão sob a guarda do arquivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), especificamente depositados naDivisão de Documentos Manuscritos. Os testamentos foram elaborados na Capitania do Rio Grande do Norte, freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, termo da Cidade do Natal, especificamente entre os anos de 1767-1786. As transcrições foram realizadas dentro das normas estabelecidas no Estado brasileiro, sendo resultado de uma pesquisa de Pós-Doutorado realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com financiamento da CAPES. Assim, demonstra-se sobretudo o rústico cabedal declarado por mulheres católicas no apagar das luzes do século XVIII na capitania supramencionada. Ao cabo, as transcrições em tela poderão servir como material no processo de ensino e aprendizado de jovens pesquisadores, capacitação de historiadores e como fonte para investigações nos múltiplos campos das Ciências Humanas e Sociais.
Por uma história das Capitanias do Norte: questões conceituais e historiográficas sobre uma região colonial no Brasil
O artigo analisa o uso do termo Capitanias do Norte do Estado do Brasil, fazendo um pequeno balanço historiográfico das principais contribuições sobre o assunto e contrapondo com uma nova produção mais recente de jovens historiadores. Propõe, portanto, uma reflexão teórico-metodológica sobre o conceito, defendendo a sua utilização para determinado contexto. Entendemos que as Capitanias do Norte abarcam as conjunturas de 1654 a 1817, englobando o contexto da Restauração, mas também das transformações políticas e econômicas na virada doXIX
FÉ E POLÍTICA EM MARTIM LUTERO
O artigo busca identificar interpretações e interações de Martim Lutero com a política institucional de seu tempo, a partir da análise de alguns de seus escritos, em especial seu comentário ao Magnificat de Maria e do escrito Da Autoridade Secular. Na Idade Média, era inconcebível pensar Igreja e sociedade separadamente. Essa íntima relação entre o poder da Igreja e o poder político da época e a respectiva relação do reformador com os dois poderes o levou a refletir sobre a relação entre política e Igreja na sociedade. Tais reflexões estão contempladas em alguns de seus escritos. O presente artigo analisa de forma mais sistemática dois deles. Na interpretação do Magnificat, Lutero exortou as autoridades seculares a olharem para os pobres e marginalizados, buscando o bem comum ao invés de seus próprios interesses ou dos grupos já favorecidos economicamente. No escrito Da Autoridade Secular, orienta as autoridades seculares a agirem cristãmente, identificando os limites e incumbências de sua ação na sociedade. Afirma que a autoridade secular não deve decidir sobre questões de fé,; tampouco, a Igreja deve almejar decidir sobre questões que competem ao poder político. As teses defendidas pelo reformador mostram-se extremamente atuais e proféticas diante da realidade política brasileira e do respectivo papel das igrejas nesse cenário
Transformação histórica da educação escolar indígena no Brasil: da política integracionista do século XX à interculturalidade?
O presente artigo se propõe a discutir as influências do Integracionismo vigente durante o século XX sobre o sistema de educação escolar indígena (EEI) na atualidade. Pretende-se compreender como vem sendo desenvolvida a política educacional em favor das comunidades indígenas, em especial diante das disposições contidas na Constituição Federal de 1988, na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Partindo da hipótese de que não é possível afirmar a completa superação da teoria integracionista e a efetiva implementação das concepções pluriétnica e intercultural no plano da educação, deu-se ênfase a levantamentos bibliográficos e documentais para apresentar, ao final, as principais dificuldades práticas que persistem nesse contexto
Observações sobre a natureza: a experiência de John Luccock pelo Pampa argentino e uruguaio no início do século XIX
Marcando os 200 anos da primeira publicação, ainda no idioma inglês, de “Notas sôbre o Rio-de-Janeiro e partes meridionais do Brasil” escrita pelo Comerciante inglês John Luccock (1770-1826) proponho revisitar este texto tão lido pela historiografia brasileira, porém agora com o foco em aspectos sobre a natureza e sobre o Pampa. Este relato de viagem trás passagens interessantes para refletirmos sobre as formas de pensamento ambiental e a relação humanidade-natureza no determinado recorte espaço-temporal. Neste artigo irei trabalhar especificamente com as experiências do viajante pelo Pampa argentino e uruguaio, uma viagem que ficou bastante restrita ao litoral, passando por cidades como Punta del Diablo, Maldonado, Montevidéu, Colônia do Sacramento e Buenos Aires. Parto da História Ambiental para poder compreender as diferentes percepções da natureza existentes no século XIX, um período marcante por possuir uma variedade de formas de compreensão do mundo natural que acabavam refletindo diretamente nos usos que se faziam sobre a natureza
Indivíduo Vivo: Duas Interpretações Filosóficas de Hegel e de Dimas Masolo
Neste trabalho de culminação da Doutrina do Conceito de Hegel, pretendemos compreender a noção hegeliana de indivíduo vivo e refletir o seu entrosamento com a abordagem de Dimas Masolo no contexto da filosofia africana. Partimos do pressuposto que o indivíduo vivo constitui o primeiro momento da vida, o qual ele se coloca como indiferente frente a uma objetividade que lhe contrapõe como indiferente, na medida em que, simultaneamente, autodetermina-se como conceito, por si e para si, dentro da doutrina do conceito. Ele é o princípio de individuação, que a vida exige que se torne distinto de outras realidades. A vida enquanto conceito relaciona-se consigo mesma e autodetermina-se como singularidade subjetiva, a ideia imediata que é somente a alma universal criadora. Portanto, falar de indivíduo vivo equivale-se a dizer vida, a ideia de vida, uma universalidade. A relação da subjetividade e objetividade está sempre presente no indivíduo vivo. Analogamente à análise anterior, encontramos o muntu (pessoa ou indivíduo), que é resultado da união entre mu + ntu ₌ muntu, um ser concreto constituído de corpo, mente e cultura. “Eu sou porque nós somos” mostra a ideia de relação que o pensamento africano no geral finca como um humanismo da filosofia do nós. Por fim, pretendemos sustentar que a noção de indivíduo vivo em Hegel, assim como a de indivíduo/pessoa em Masolo convergem, na medida em que ambos colocam a comunidade e o Estado como garantias da efetivação do indivíduo, sem violar a sua individualidade, porque a existência dele determina de alguma medida a plenitude do Estado
HUMBERTO PLUMMEN: UM SOCIÓLOGO EDUCADOR DA IGREJA DOS POBRES NO NORDESTE
O artigo alinhava informações biográficas e a trajetória do padre sociólogo e educador, Humberto Plummen. Com isso, amplia os registros históricos e reflexões acerca da Igreja dos Pobres no Nordeste. Mais especificamente em Olinda e Recife e no Regional da CNBB NE2. Discute a partir das ideias e das práticas desse intelectual, traços de uma teologia pastoral que conformou essa Igreja dos Pobres. Estabelece conexões entre o seu surgimento nos anos 1960, a crise e conflito eclesial instaurados pela Cúria Romana em meados dos anos 80 e o cristianismo da libertação hoje. Problematiza a relação entre fé e política, a desinstitucionalização da religião e a diáspora de católicos da libertação
Comida e comunhão nas religiões afro-brasileiras: um olhar antropológico
Denominamos de religiões afro-brasileiras o complexo das diversas tradições religiosas trazidas para o Brasil pelos negros africanos escravizados e que surge de um processo híbrido e sincrético proveniente de um confronto de valores lusos, ameríndios e afro-brasileiros e não como uma fusão de elementos diferenciados. Partindo dessa concepção, o objetivo deste artigo foi demonstrar que a comida ou refeição é um dos atos mais importantes nessas religiões. Para tanto, enveredamos por suas características e singularidades. A partir daí, descrevemos sua organização e a hierarquia e ressaltamos que o sacrifício de animais (no caso das religiões afro-brasileiras) e as oferendas de frutas (no caso da Umbanda e da Jurema) constituem obrigações centrais nos rituais. Essas, por sua vez, estão diretamente relacionadas às festas e às refeições. Dessa forma demonstramos que não só os humanos, mas os deuses e os objetos se alimentam e comungam