Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS): Periódicos UEMS
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    O testemunho de Ricardo Piglia em “Um dia na vida”

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    As escritas de si têm desempenhado um papel significativo na literatura, permitindo aos autores explorar suas próprias experiências de vida e oferecer insights profundos sobre a condição humana. Esses escritos desafiam os limites entre a realidade e a ficção, convidando o leitor a adentrar na intimidade do autor e a refletir sobre questões universais através das lentes individuais. Além disso, também desempenham um papel crucial na preservação da memória coletiva e na construção de uma narrativa histórica mais abrangente. Ao compartilhar suas experiências pessoais, os autores fornecem testemunhos vivos de eventos e contextos históricos, contribuindo para a compreensão e reflexão sobre determinados períodos e culturas. Essa interseção entre o individual e o coletivo enriquece a literatura e possibilita um diálogo profundo entre o passado, o presente e o futuro. Neste contexto, um trabalho literário que se destaca é a trilogia Os diários de Emilio Renzi, escrita pelo argentino Ricardo Piglia. Piglia é considerado referência na literatura contemporânea argentina, por ter escrito obras como Respiración artificial (1980) e Plata quemada (1997). Além de escritor, era professor, editor, crítico literário e grande estudioso da literatura de seu país. Ao longo de sua vida, Piglia dedicou-se à escrita de diários íntimos, registrando experiências e reflexões pessoais. Esses registros, que totalizam 327 cadernos, foram cuidadosamente organizados e transcritos para três livros, enriquecidos com detalhes, introduções e textos inéditos, todos assinados pelo personagem assíduo de sua obra, Emilio Renzi. As obras que compõem a trilogia, Años de formación (2015), Los años felices (2016) e Un día en la vida (2017), foram publicadas no Brasil pela editora Todavia, nos anos 2017, 2019 e 2021, respectivamente. Nestas obras, Piglia reflete sobre diversos temas como literatura, identidade, memória e a própria escrita. Suas reflexões são desafiadoras e nos oferecem uma visão singular sobre a vida de um escritor e os prós e contras do processo criativo.  Ao longo de seus diários, o autor transita entre 1ª e 3ª pessoa verbal para falar sobre si, resultando em um distanciamento, uma cisão. Piglia fala sobre “viver em terceira pessoa” e, desse modo, estabelece um duplo: Piglia/Renzi, eu/outro: “o tempo todo me espanto, como se eu fosse outro (e é isso que eu sou)” (PIGLIA, 2017, p. 224). O mesmo discurso permanece no último tomo da trilogia: “Falo e sou outro, estou afastado de mim [...]” (PIGLIA, 2021, p. 111). Assim, Piglia ancora-se em outro para escrever sobre si, apresentando-se como um “biógrafo de si mesmo”, o que torna o texto paradoxal. Vale ressaltar que essa cisão já se manifesta no ato de Piglia desarquivar seus cadernos e realizar um trabalho de reescrita, posto que aquele que revisita os diários e os reescreve já não é o mesmo captado no momento da escrita, tampouco aquele que foi escrito, é de fato, um outro, um “isto foi”, pensando na teoria da fotografia, de Barthes (2017). Tomarei como foco aqui o último volume da trilogia, Um dia na vida (2021), que encerra de forma magistral a saga iniciada nos tomos anteriores. A obra está dividida em três partes: I. Os anos da peste, que apresenta alguns fragmentos de diários, datados de 1976 a 1982; II. Um dia na vida, narrativa em que Renzi fala sobre si em terceira pessoa; e III. Dias sem data, composta por relatos aleatórios da vida do personagem, como sua última aula ministrada em Princeton e o surgimento da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença que afetou sua mobilidade e comunicação.  Em Os anos da peste, Piglia nos conduz por um labirinto de memórias e reflexões sobre a última ditadura militar argentina, principalmente. O título do capítulo faz referência à obra A peste, de Albert Camus. A peste é uma metáfora utilizada pelo autor para definir uma “praga que assolava uma comunidade em consequência de um crime perpetrado na própria sede do poder do Estado. Um crime estatal que provoca nos cidadãos – sob a forma de uma epidemia – o terror e a morte.” (PIGLIA, 2021, p. 13). Desse modo, os anos da peste são os anos sombrios em que os cidadãos argentinos sofrem desse mal estatal que aterroriza a sociedade. Temas como a repressão, a censura e a violação dos direitos humanos são abordados pelo autor, que, gradativamente, revela as consequências do regime militar sobre a sociedade argentina, contando o que viu e viveu nesse período.  Assim, os cadernos de Renzi, como ele próprio reconhece, servem como um testemunho literário desse tempo, de modo a oferecer uma visão poderosa e crítica sobre a história argentina:   A peste, portanto, e nós, testemunhas, contamos o que vivemos naquele tempo sombrio; meus cadernos são um registro alucinado e sereno da experiência de vida em estado de exceção. Tudo parece continuar igual, as pessoas trabalham, se divertem, se apaixonam, se distraem e não parece haver sinais visíveis do horror. Isso é o mais sinistro, sob uma aparência de normalidade, o terror persiste e a realidade cotidiana continua aí como um manto, mas às vezes um vazamento deixa ver a verdade crua. (PIGLIA, 2021, p. 14-15)   Piglia observa que, apesar de tudo aparentar normalidade no início da ditadura, o terror persiste oculto por trás de uma fachada cotidiana. Por isso, também, ele precisa narrar e dar seu testemunho. Esse fragmento nos lembra da importância de documentar e dar voz às vivências em momentos de repressão e opressão, visando preservar a memória histórica e desvendar a realidade por trás das aparências. Em meio a todo o horror, amigos de Renzi desapareciam e exilavam-se, no entanto, mesmo correndo riscos, ele resiste ao exílio e permanece na Argentina. Nesse período, acompanhamos ainda os bastidores da criação da célebre obra de Ricardo Piglia, seu primeiro romance, Respiración artificial. O escritor, na voz de Renzi, compartilha suas primeiras ideias e fornece detalhes sobre a produção dos capítulos, as alterações feitas, a finalização, a expectativa de publicação e o medo da censura, posto que a obra trata da ditadura argentina sem mencioná-la diretamente. Essas colocações permitem que o leitor entenda melhor o processo criativo de Piglia, de modo a adquirir uma perspectiva mais profunda sobre as motivações, as escolhas artísticas e o processo de transformação de ideias do autor ao escrever sua obra.  Em Um dia na vida, Renzi cede a palavra a outro narrador e sua vida passa a ser contada integralmente em terceira pessoa. O capítulo inclui fragmentos de cartas, sonhos e a narrativa de um barman que costumava servir Renzi e observá-lo no bar em que frequentava. Também são apresentadas reflexões ensaísticas sobre temas como memória e esquecimento, produzidas a partir das aulas ministradas por Renzi. O capítulo abrange diferentes dias da vida de do escritor, tornando difícil identificar sobre qual dia em particular o título se refere. No entanto, podemos supor que seria o dia da morte de seu primo Horacio, considerado seu "duplo fraternal". Renzi se sente culpado por não ter feito o suficiente para impedir a morte de seu primo e carrega o peso dessa culpa, o que o deixa amargurado e traumatizado. O tema da morte de Horacio abre o capítulo e é retomado ao longo de toda essa segunda parte do tomo. Renzi é levado a relembrar este fato e, com isso, passa a refletir sobre os infortúnios e as alegrias do esquecimento. Ele quer esquecer, deixar esse passado para trás e acredita que precisa narrar para apagar essas lembranças: “Se você consegue narrar, está salvo. É preciso repetir para não lembrar. Não lembrar (a morte de Horacio?), esquecer é uma arte como qualquer outra” (PIGLIA, 2021, p. 185, grifo meu). O remorso de Renzi é tão grande que ele finaliza o capítulo com uma confissão ao padre, admitindo: “Eu me sinto um criminoso, carrego um morto na consciência [...]” (PIGLIA, 2021, p. 262). Em seguida, após o término da confissão, Renzi se sente aliviado, “puro e a salvo”, segundo o narrador, e pronto para iniciar o próximo capítulo. Um ponto muito interessante presente na segunda parte do livro de Piglia é a descrição do trabalho de transcrição dos diários de Renzi. Acompanhamos o personagem transformando seus cadernos no que agora temos em nossas mãos: seu romance, o que atribui à obra um caráter metaficcional. Além disso, Piglia insere um fragmento peculiar em seu livro: um texto crítico sobre os diários de Emilio Renzi. Somos apresentados a um fragmento sobre o chamado Livro do naufrágio, que corresponde aos diários de Renzi. O texto, escrito em linguagem formal, aborda a descoberta do livro por dois pescadores que o encontram entre ruínas e o impacto que essa descoberta causa. O autor constrói um texto informativo e crítico sobre os diários, considerado por estudiosos (no universo do relato, após sua descoberta), como “um dos testemunhos mais antigos da prática literária nos tempos de expansão da cultura web” (PIGLIA, 2021, p. 249). Em seguida, o leitor passa a compreender a gênese desse relato sobre o descobrimento do diário e o motivo pelo qual ele foi inserido na narrativa. Tudo foi resultado de um sonho de Renzi, que optou por registrá-lo e incorporá-lo ao seu livro como uma espécie de conto ensaístico sobre a própria obra. Com isso, Piglia apresenta uma autoreflexividade narrativa, própria da metaficção que, segundo Hutcheon (1984), consiste em uma ficção que inclui em si um comentário sobre sua própria narrativa ou identidade linguística. Assim, o texto possui um viés metalínguistico, uma vez que traz reflexões e discussões sobre a própria linguagem e sobre o processo de construção da obra. A última parte dos diários de Emilio Renzi, intitulada "Dias sem data", encerra a série com uma estrutura dividida em 11 partes. Narrado em primeira pessoa, o capítulo apresenta fragmentos não datados organizados por temas. Essas anotações abrangem os últimos anos do escritor, mesclando memórias felizes com relatos dos melancólicos dias da "queda" de Renzi, termo utilizado no último fragmento para descrever o período em que ele esteve doente. Ao longo do capítulo, testemunhamos o personagem sendo progressivamente afetado pela ELA: “Morrer é difícil, algo está acontecendo comigo, não é uma doença, é um estado progressivo que altera meus movimentos. Isto não está funcionando. Começou em setembro do ano passado, não conseguia fechar os botões de uma camisa branca” (PIGLIA, 2021, p. 310).  Conforme os dias passam, a situação se agrava cada vez mais: “os dedos pararam de obedecer” [...]. A mão direita está pesada e indócil, mas consigo escrever. Quando não conseguir mais...” (PIGLIA, 2021, p. 310-311). Piglia descreve o estado progressivo que afeta seus movimentos físicos. Através dessas palavras, sentimos a percepção do autor sobre sua própria condição e a conscientização de que algo está se transformando dentro dele. O ato de não conseguir fechar os botões de sua camisa, por exemplo, revela a gradual perda de habilidades e o impacto dessas mudanças em sua vida. Esse fragmento desperta reflexões sobre a finitude humana e a luta contra os efeitos debilitantes da doença, evidenciando a batalha enfrentada diante da inexorabilidade da condição. Além disso, assim como em seus diários anteriores, Renzi, ao longo de Dias sem data, narra sobre o processo de criação, compartilha reflexões sobre suas leituras e cita frases de grandes escritores, como Tchékhov, Tolstói, Beckett, Kafka, Hemingway, etc. Nesse conjunto de relatos, somos levados a testemunhar a despedida de Renzi em Princeton e seu retorno à Argentina, seu país de origem, agora redemocratizado. Ademais, o autor também nos conduz por suas reflexões acerca do gênero diário:   Depois de tantos anos escrevendo nestes cadernos, comecei a me perguntar em que tempo verbal eu deveria situar os acontecimentos. Um diário registra os fatos enquanto eles ocorrem, não os rememora nem os organiza narrativamente. Tende à linguagem privada, ao idioleto. Por isso, quando lemos um diário, encontramos blocos de existência, sempre no presente, e só a leitura permite reconstruir a história que se desenrola invisível ao longo dos anos. Mas os diários aspiram ao relato e nesse sentido são escritos para serem lidos (mesmo que ninguém os leia). (PIGLIA, 2021, p. 278)   Neste trecho, Piglia ressalta que os diários aspiram ao relato, ou seja, eles têm a vontade intrínseca de se tornarem narrativas, mesmo que sejam destinados a uma audiência potencialmente inexistente. Essa dualidade é fascinante, pois revela a ambiguidade inerente ao ato de escrever um diário. Por um lado, ele serve como um espaço íntimo de expressão pessoal, onde o autor pode despejar seus pensamentos, emoções e reflexões sem restrições. Por outro lado, há a esperança de que alguém, mesmo que no futuro distante, possa ler essas palavras e compartilhar da experiência do autor. Dessa forma, Piglia nos convida a refletir sobre a complexidade do gênero diário, que transcende sua função inicial de registro pessoal. Em Um dia na vida, Piglia, por meio de Renzi, explora a intersecção entre a vida pessoal e a esfera pública, oferecendo um relato sobre si e um retrato da sociedade argentina e do contexto histórico em que a narrativa se desenrola. Assim, seu texto está ligado à reconstrução do presente e do passado e possui uma relação intrínseca com o testemunho, uma vez que traz consigo o relato de sua experiência pessoal. Segundo Derrida (2015), um testemunho “diz, na primeira pessoa, o segredo, partilhável e impartilhável, do que me aconteceu, a mim, só a mim, o segredo absoluto do que estive em posição de viver, ver, entender, tocar, sentir e ressentir” (DERRIDA, 2015, p. 52), sendo, portanto, a experiência algo fundamental para sua existência. É importante ressaltar que Piglia utiliza uma abordagem literária e ficcional em sua escrita, o que significa que os Diários de Emilio Renzi não devem ser interpretados como um registro estritamente autobiográfico, mas sim como uma construção narrativa que incorpora elementos reais e fictícios, incluindo o testemunho como uma das ferramentas para explorar a condição humana e a sociedade. Por fim, Um dia na vida é uma leitura que exige atenção e envolvimento do leitor, mas recompensa generosamente aqueles que se entregam à experiência. Piglia nos desafia a questionar nossas próprias percepções da realidade e a refletir sobre escrita, memória, política, arte e relacionamentos. A obra é um exemplo notável da maestria literária de Piglia que, mais uma vez, demonstra sua habilidade em explorar diferentes formas e estilos narrativos, aprofundando-se em temas universais de uma maneira singular. Para os amantes da literatura contemporânea, Um dia na vida é uma leitura indispensável, que provoca, emociona e nos convida a mergulhar nas profundezas da mente e do coração de Emilio Renzi/Ricardo Piglia

    Longe da água, de Michel Laub: da construção narrativa ao herói problemático

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    The objective of this work, from a look towards the narrator self (present) and the narrated self (past), is to think about the characteristics of the contemporary narrator, observing how the temporal element acted in this character of the novel Longe da água (2004 ), by Michel Laub. Regarding the methodology, it is based on the narratological perspective of Gérard Genette (1979), and comes to the studies of Sigmund Freud by facing the traumatic trajectory of the protagonist character of Michel Laub. Furthermore, the reflections of Jeanne Marie Gagnebin (2006) will be relevant for understanding the role of memory in the construction of the novel by Laub's author-hero. By understanding that the traumatic trajectory of the protagonist is directly linked to his choices made in the past, the presence of the problematic hero within the novel is glimpsed and, thus, Georg Lukács (2000) will be invited to the discussion. It is hoped that this work results in an understanding of certain peculiarities of contemporary Brazilian literature, which seems to assume the difficult mission of representing the individual as a being torn apart by interiors conflicts.Objetiva-se, neste trabalho, a partir de um olhar em direção ao eu narrador (presente) e ao eu narrado (passado), pensar nas características do narrador contemporâneo, observando como o elemento temporal atuou nesta personagem do romance Longe da água (2004), de Michel Laub. Em relação à metodologia, embasa-se na perspectiva narratológica de Gérard Genette (1979), e chega-se aos estudos de Sigmund Freud por deparar-se com a trajetória traumática do personagem protagonista de Michel Laub. Além disso, as reflexões de Jeanne Marie Gagnebin (2006), serão relevantes para a compreensão do papel da memória na construção do romance pelo herói-autor de Laub. Ao compreender que a trajetória traumática do protagonista liga-se diretamente às suas escolhas feitas no passado, vislumbra-se a presença do herói problemático no interior do romance e, assim, Georg Lukács (2000) será convidado à discussão. Espera-se que este trabalho resulte em compreensão de certas peculiaridades da literatura brasileira contemporânea, que parece assumir a difícil missão de representar o indivíduo como ser despedaçado por conflitos interiores

    Autobiographical texts by Leo Hamalian: memory and armenian cultural identity

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    This article aims to analyze two autobiographical texts by Leo Hamalian, an American author of Armenian descent, using theoretical assumptions of cultural studies. In “Amid Bounty, Longing”, Hamalian recollects childhood memories, reflecting on his difficult relationship with his father, from the perspective of the trauma of the genocide perpetrated against Armenians in the Ottoman Empire at the beginning of the XX century, and the consequent expatriation of the Armenian people. In “A Small Question of Identity”, the author narrates his experiences on trips to the Middle East, more specifically, to Syria, Lebanon, Turkey, and Jordan, where he has relationships with people of Armenian origin, which leads him to think about his cultural identity.O presente artigo tem como objetivo analisar dois textos autobiográficos de Leo Hamalian, autor americano de ascendência armênia, utilizando pressupostos teóricos dos estudos culturais. Em “Amid Bounty, Longing” (Em meio à generosidade, a nostalgia), Hamalian recupera as memórias de infância, refletindo sobre sua difícil relação com o pai, sob a perspectiva do trauma do genocídio perpetrado contra os armênios no Império Otomano no início do século XX, e da consequente expatriação do povo armênio. Em “A Small Question of Identity” (Uma pequena questão de identidade), o autor narra suas experiências em viagens ao Oriente Médio, mais especificamente, a Síria, Líbano, Turquia e Jordânia, onde se relaciona com pessoas de origem armênia, o que o leva a pensar sobre sua identidade cultural.&nbsp

    Mini(auto)biographies: brief accounts of insurgent lives

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    In contemporary times, the boundaries of the biographical space are becoming increasingly expanded. Within this panorama, the writings of the "self" assume a relevant role insofar as its exposure not only encompasses the revelation of intimacies and details of daily life, but also refer to themes that end up guiding the very construction of the subject's identity. In this way, talking about oneself takes on, especially in the media sphere, the contours of engagement and resistance on the part of minority segments, all of them guided by agendas that seek to protect their rights and affirm their existence.  In an attempt to combat the long-lasting marks of invisibility, different authors disseminate their personal stories, evoking painful memories, denouncing the violence they have suffered, but above all extolling the liberating and creative power of their literary and artistic productions. With its attention focused on so-called mini(auto)biographies, which are short texts written by authors with the aim of presenting a summary of their trajectories in spaces dedicated to literary dissemination, this article takes an analytical approach to samples of the narratives whose content is directly opposed to the erasures experienced by minority subjects. Based on stories published in the digital magazine Ruído Manifesto, which accompany poems, short stories and chronicles by these writers, we seek to discuss the extent to which the expressions profiled there are instruments for the survival of individuals and their respective communities.Na contemporaneidade, as fronteiras do espaço biográfico mostram-se cada vez mais expandidas. Dentro desse panorama, as escritas do “eu” assumem um papel de relevância na medida em que a sua exposição não somente abrange a revelação das intimidades e pormenores do cotidiano, mas também remete a temas que acabam por nortear a própria construção identitária dos sujeitos. Assim, falar de si ganha, sobretudo na esfera midiática, contornos de engajamento e resistência por parte de segmentos minoritários, todos eles norteados por pautas que intentam a proteção de direitos e a afirmação de suas existências.  Na tentativa de combater as marcas longevas da invisibilidade, diferentes autores protagonizam o compartilhar de suas histórias pessoais, evocando memórias dolorosas, denunciando violências sofridas, mas sobretudo enaltecendo a potência libertadora e criativa de suas produções literárias e artísticas. Com suas atenções voltadas para as chamadas mini(auto)biografias, que são pequenos textos elaborados pelos autores com o objetivo de apresentarem um resumo sobre suas trajetórias em espaços dedicados à divulgação literária, o presente artigo promove um recorte analítico das narrativas cujos conteúdos se opõem frontalmente aos apagamentos vividos por sujeitos minoritários. Tendo por base relatos publicados na revista digital Ruído Manifesto, os quais acompanham poemas, contos e crônicas desses escritores, procuramos discutir o quanto as expressões ali perfiladas se constituem como instrumentos de sobrevivência de indivíduos e suas respectivas comunidades.  &nbsp

    REVELL - v.2, n. 35 - 2023 - Genealogias, gênero e memória na literatura mundial

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    GENEALOGIAS, GÊNERO E MEMÓRIA NA LITERATURA MUNDIAL A crítica literária vem dando especial atenção às escritas do Eu, debruçando-se sobre gêneros como as autobiografias, autoficções, narrativas memoriais, romances de filiação e demais relatos fundados no ato de rememoração, protagonizados por indivíduos e grupos que ficaram à margem da hegemonia histórica e social. São produções que costumam apresentar personagens que se reapropriam da memória genealógica e familiar e/ou da memória geracional, estabelecendo continuidades e também rupturas que propiciam o questionamento de memórias traumáticas, heranças identitárias essencializadas e/ou genealogias familiares apoiadas em modelos patriarcais. Este número objetivou reunir artigos sobre narrativas publicadas a partir do século XX, que discutiram e problematizaram pontos de vista teóricos com obras, analisaram estratégias discursivas e a conformação de espaços autobiográficos em imaginários individuais e coletivos, dentre outros aspectos, a partir das teorizações acerca das escritas do Eu, dos estudos culturais e de gênero

    Imagética Africana Reivindica decolonialidade

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    O presente artigo, fruto de projeto de extensão “O reconhecimento da cultura e imagética africana pela sociedade brasileira” buscou o desvelamento das razões pelas quais a arte africana foi estigmatizada através do tempo e sua imagética ainda hoje é motivo de estranhamento no país. Embasado em autores referenciais verificou a urgência de mudança nas posturas político-educacionais no intuito de criar uma cultura promotora de meios que viabilizem a devida fruição artística africana dentro de padrões que lhessejam correspondentes já que a atual epistemologia protecionista ocidental e etnocêntrica tende a manter seu estigma de primitiva. A partir do roteiro traçado no projeto foi possível vivenciar o cenário da realidade do ensino superior e médio em pequena amostra da região de Minas Gerais representada pela cidade de Muriaé verificando de modo teórico-prático a incipiente noção da temática oportunizando desmistificações. A palavra-chave DIVERSIDADE peculiar da cultura africana interrelacionando-se à ideia de Boaventura Santos sobre as colonialidades do poder, saber e do ser, apontou a decolonolização do saber como ruptura a esta lógica de mundo. A cultura brasileira via educação libertadora futuramente poderá reconhecer mais legitimamente sua cultura matriz negra e o legado historicamente factual afrobrasileiro rumo à efetiva justiça social e cultural

    História & narrativas cinematográficas: em busca de um letramento

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    A partir de uma semiótica da cultura, propõe-se a construção de um letramento sobre narrativas cinematográficas que tenha como objeto privilegiado a história/História. A partir da exposição de um quadro teórico que permite a abordagem de narrativas cinematográficas, apresenta-se um exercício prático abordando uma sequência do filme Tempos Modernos (CHAPLIN, 1936). A semiótica da cultura que defendemos (VIGOTSKI, BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, WERTSCH) incorpora aspectos dos estudos de Cinema (STAM) e das Performances Culturais (BAUMAN), em diálogo estreito com o campo da História, especialmente, a Teoria e Didática da História (RÜSEN)

    A fenomenologia da memória como possibilidade metodológica para pesquisas em Educação Profissional e Tecnológica

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    A pesquisa qualitativa fenomenológica na educação surge com o principal interesse de compreender as diversas relações heterogêneas existentes em grupos escolares. Objetiva-se exibi-la como oportunidade metodológica em uma investigação sobre a memória da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) no Brasil. Considera-se a abordagem como mecanismo para compreender e descrever fenômenos ao passo que se investiga os seres humanos como sujeitos e não como objetos, entendendo as conexões e as pluralidades existentes no processo de rememorar, pois ao contrário de outros métodos científicos, ela abarca ainda, a subjetividade do pesquisador. Retratou-se a técnica de histórias de vida junto as pesquisas bibliográfica e documental para enriquecer a definição do fenômeno, no qual os procedimentos estão respaldados na garantia de não interferência das informações. Nos resultados descreve-se a análise dos dados em documentos escritos buscando convergências nas informações e interpretando as experiências, considerando-se como possibilidade de trajetória metodológica que abarque a dimensão simbólica cultural do ensino em instituições escolares

    Impactos de uma intervenção pedagógica na transformação das representações sociais de estudantes de educação física sobre práticas sustentáveis

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    As Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Educação Física instituem a necessidade do tratamento dos conhecimentos relativos às práticas sustentáveis e ao meio ambiente, porém, as discussões científicas sobre a atuação desses professores no esporte, mais especificamente naqueles praticados em meio à natureza e de forma sustentável ainda são poucos. Portanto, a pesquisa buscou explorar e analisar as representações sociais que uma turma de um curso de graduação em Educação Física de uma instituição privada do centro da cidade do Rio de Janeiro possui sobre práticas sustentáveis. Para atingir ao objetivo proposto, foi realizada uma intervenção pedagógica com aulas sobre práticas sustentáveis e houve aplicação da técnica de associação livre de palavras em dois momentos distintos. O grupo amostral foi constituído por uma turma de 33 estudantes do quarto período. A primeira coleta foi realizada antes do início das aulas e a segunda ao final do processo. Os resultados pré-intervenção desvelaram representações sociais majoritariamente associadas à saúde, mas as evidências identificadas após as aulas demonstraram uma maior associação com o meio ambiente. A pesquisa concluiu que um semestre do curso de uma disciplina sobre práticas sustentáveis permitiu impactar superficialmente as representações sociais dos universitários sobre práticas sustentáveis

    ELEMENTOS DE CONEXÃO E UM VIÉS DA NACIONALIDADE

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    A distância entre países e povos diminui a cada dia. Isso se deve, principalmente, ao rápido avanço tecnológico a que o mundo assiste, bem como à dinâmica comercial na ordem global. É certo, ainda, a diferença legislativa entre os Estados e, presente um conflito entre eles, a dúvida paira sobre qual ordenamento jurídico será respeitado. Na tentativa de solucionar tais conflitos é que surgem os elementos de conexão, pelos quais pode-se definir qual a melhor normativa aplicável. No entanto, eventual fraude à lei do direito internacional privado pode ser constatada, quando da mudança de algum elemento de conexão com um Estado, eis a razão do presente estudo se basear na análise da doutrina e legislação aplicável à matéria, com o fim de demonstrar os referidos elementos e as nuances pertinentes à nacionalidade. Procede-se, assim, à reanálise do conceito de nacionalidade, seus reflexos no âmbito internacional, sobretudo os princípios constitucionais fundamentais, a concluir que a mudança de tal elemento não implicaria em fraude, mas mera mudança legítima

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