Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP)
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O Sertão colonial: Expedições amazônicas e o comércio de escravos indígenas (tradução de Márcio Meira e Raduan Van Velthem)
Depois de expulsar seus rivais europeus da Amazônia no início do século XVII, os portugueses começaram a explorar os principais ativos da vasta bacia – os habitantes indígenas. Como aliados, convertidos e escravos, a população nativa fornecia a mão-de-obra e grande parte do tecido social da colônia em desenvolvimento. Enquanto uma variedade de expedições de canoas se aventurava cada vez mais rio acima e seus afluentes em busca de ouro indescritível, colhendo produtos florestais e expandindo o domínio da coroa, prosperidade e poder para os líderes e patrocinadores dessas incursões derivavam principalmente da carga humana trazida rio abaixo para missões, fortes e outros assentamentos. Como resultado, as autoridades da coroa e das colônias tentaram regular e controlar as expedições, e uma competição acirrada se desenvolveu entre instituições e indivíduos envolvidos no processo. Documentos em arquivos portugueses e brasileiros revelam o papel fundamental desempenhado pelos próprios índios em colaboração com os intermediários transculturais pouco estudados, conhecidos como cunhamenas
ALÉM DO FÍSICO E DO HUMANO:: contribuições de Aziz Ab\u27Sáber para uma geografia regional da Amazônia
O artigo apresenta a contribuição do geógrafo brasileiro Aziz Ab’Sáber para o entendimento da região amazônica. Nele chama-se a atenção para a preocupação desse autor em superar abordagens dualistas muitas vezes presentes na ciência geográfica. A partir de um levantamento bibliográfico de sua obra, assim como de trabalhos de autores que discutiram sua produção científica, analisa-se, inicialmente, o seu perfil intelectual, reconhecendo-o como um pensador clássico dos estudos geográficos brasileiros e amazônicos. Em seguida, identificam-se, em suas contribuições, avanços na compreensão de uma geografia regional da Amazônia que articula o físico ao humano, a sociedade à natureza. Por fim, mostra-se a relevância de sua produção na proposição de políticas de desenvolvimento e de ordenamento territorial preocupadas com o presente e o futuro da região
Os administradores da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão: negócios, conflitos e privilégios (1755-1777)
A Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão foi criada em 1755. Porém, desde o seu início, a companhia monopolista sofrerá críticas e resistências a partir de suas propostas de exclusivismos e privilégios comerciais apresentados durante o seu funcionamento. Tais concessões ocasionavam conflitos surgidos a partir dos choques de jurisdição entre a companhia monopolista e a hierarquia administrativa dos órgãos da Coroa. As prerrogativas da Companhia eram apresentadas e colocadas em prática nas cidades de Belém e São Luís por funcionários, denominados administradores, designados pela Junta que gerenciava os negócios da Companhia em Lisboa. A escolha dos homens que atuariam nesse cargo e suas atitudes foi tema de debates e trocas de informação entre Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário do rei D. José I, e seu irmão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, então governador do Estado do Grão-Pará e Maranhão, estendendo-se durante os anos de funcionamento da Companhia. Percebe-se assim a troca de favores e as redes de influência e sociabilidade estabelecidas, tanto na colônia como no Reino, para a escolha dos indivíduos que ocupariam essa função, sendo estes acusados com o passar dos anos de favorecimentos ilícitos, a partir dos vários negócios da Companhia
Ignácio Moura: Historiador
Com o presente artigo objetivamos discutir sobre a historiografia da Amazônia construída pelo engenheiro Ignácio Moura (1857-1929) acerca do Itacaiúnas, atual Marabá/PA, no final do século XIX. Para tal, a fonte principal é seu diário de viagem, escrito em 1896 e intitulado De Belém a S. João do Araguaia, cujos resultados integraram livros escolares e publicações do Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP). A partir de preceitos da história social e política, a fonte revelou uma produção historiográfica feita por engenheiros que utilizavam a história, a engenharia e a geografia como ferramentas interpretativas do passado e da realidade amazônica a fim de incluir a região em uma tradição de civilização e de modernidade. Nesse caminho, refletiu sobre as possibilidades de desenvolvimento do Itacaiúnas pela perspectiva utilitária dos rios e das terras com a finalidade de desenvolver a pecuária. Assim, cristaliza na história do sudeste paraense uma genealogia fundadora dos “pioneiros”, isto é, dá início a uma narrativa de heróis fundadores regionais
O Jornal "O Paraense" e as ideias liberais no Pará de 1822
O artigo analisa a origem e a circulação do primeiro jornal na Província do Grão-Pará – O Paraense, no contexto das lutas políticas da Independência do Brasil no Grão-Pará. Para isso, retoma o papel da imprensa na divulgação das notícias entre Lisboa e Belém do Pará, seus principais redatores e articulistas, em especial a figura do bacharel em direito Alberto Patroni Martins Maciel Parente (1798-1866). Do mesmo modo, explora o largo campo ideológico no qual o periódico foi impresso, sob a influência que a Revolução Liberal do Porto e a instituição da Lei de Liberdade de Imprensa em Portugal, em 4 de julho de 1821, movimentos esses que estiveram no cerne político-intelectual de Patroni. De linha editorial estritamente liberal, defensora da ordem constitucional, o jornal passa, num segundo momento, para o debate da autonomia brasileira frente ao domínio lusitano
IMAGENS ESCRAVAS NAS VISÕES SENHORIAIS: UMA LEITURA DOS CORPOS ESCRAVOS ATRAVÉS DOS ANÚNCIOS DE FUGAS (SÉCULO XIX)
O presente texto visa tratar das imagens sobre os escravos construídas a partir dos anúncios de fugas publicadosna imprensa periódica paraense do século XIX (1840-1888), durante a escravidão, enfocando as leituras dossenhores de escravos sobre o corpo do escravo ou corpos escravos. Enfim, fazendo uso das imagens escravas nasvisões senhoriais, neste texto vou tratar da relação entre o corpo do escravo e as marcas da estrutura social: bemcomo das relações entre corpo e trabalho; corpo, saúde e doença; corpo e imaginário e, por fim, porém nãomenos importante, a relação entre corpo e identidade. Sendo justamente o corpo ou os corpos cativos ou dosescravos os que serão analisados a partir dos eixos já indicados. Ou seja, a partir de uma análise agregativa equalitativa de cerca de mil anúncios de fugas escravas, fazendo uma taxonomia destes, se quer conhecer o escravopara além tão-somente da condição de mão-de-obra ou propriedade de alguém, mas como sujeitos portadores deidiossincrasias. Sendo as leituras sobre os corpos e os gestuais escravos, informados pelos anunciantes de suasfugas, os eixos para a compreensão dos cativos como pessoas em sua resiliência, ainda que sujeitos ao domíniosenhorial e apesar do tráfico e da escravidão
UMA ANÁLISE DA RELAÇÃO CAMPO-CIDADE NO MUNICÍPIO DE FEIRA DE SANTANA APÓS O PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO DA BAHIA
A relação campo-cidade, entendida aqui como a exiguidade de delimitações ou limites entre os espaçosurbanos e rurais e a similaridade de elementos entre ambos, sofreu e vem sofrendo transformaçõesprofundas no Brasil após o período da Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, pelos processos deurbanização e industrialização ocorridos no século passado, delineando novos formatos de relaçõeseconômicas, produtivas, sociais e políticas. Sendo assim, o propósito deste artigo é analisar como oprocesso de industrialização e urbanização baiana no século passado alterou e/ou modificou a relaçãocampo-cidade no município de Feira de Santana. Para isso, além de uma revisão teórica sobre o processode industrialização baiana e a formação econômica do referido município, este trabalho se utilizou dobanco de dados de instituições como o IBGE e o Censo de Agricultura Familiar. Como resultados, concluiu-se que há uma transformação da estrutura local do rural para o urbano, com a sobreposição do últimosobre o primeiro em diversas perspectivas, mas, em especial com mais ênfase na econômica
A CULTURA DO CACAU NO GRÃO-PARÁ OITOCENTISTA: uma notícia histórica
O presente texto visa tratar da cultura do cacau no contexto da escravidão, do agroextrativismo e da policulturana Amazônia, destacadamente no Grão-Pará, no século XIX. Apesar da importância dessa cultura desde o séculoXVII, sendo o cacau a principal commodity grão-paraense até meados do século XIX e desde então a segundamais importante, a produção cacaueira tem sido pouco estudada pela historiografia, cujo foco tem sido sobre aeconomia da borracha, quando muito sobre os engenhos de açúcar. Enfim, dentro de uma compreensão maisampla, a história econômica, a história da agricultura, ou, ainda, a história da escravidão na região amazônicatrata o cacau como parte de um todo e não como foco de seus estudos, limitando suas análises quando muito atéa década de 1860. Compreendendo então a importância do cacau no Grão-Pará, no período de 1820-1888, dentrodo marco temporal do Império, se apresenta este artigo, crendo que possa contribuir para uma melhorcompreensão da história social da região amazônica grão-paraense, incluindo a perspectiva econômica