Cadernos Espinosanos (E-Journal)
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Natureza e história: notas sobre a crítica à noção abstrata de natureza humana em Marx e Vico
O artigo analisa a ruptura na obra de Marx e de Vico em relação à concepção abstrata de natureza humana. Apesar dos objetos e objetivos serem distintos em ambos os filósofos, eles coincidem na crítica a esta noção, uma vez que esta recusa é inseparável da concepção que os dois filósofos têm do homem como ser histórico e social
Leituras cruzadas. Espinosa e Marx
Neste artigo procuramos tensionar o campo de leituras contemporâneas de Espinosa segundo dois eixos: um que considera a forma mais ou menos explícita em que o intérprete invoca o nome do filósofo; outro que, partindo dos encontros entre espinosismo e marxismo, assinala diversos posicionamentos na polêmica em torno da contradição. Aproveitando esses cruzamentos, seria possível conceber outra ideia da contradição que, tendo em conta as críticas que apontaram seus efeitos mistificadores, possa servir para pensar a complexidade dos processos políticos contemporâneos
Vigotski: notas para uma psicologia geral e concreta das emoções/afetos
Este artigo sustenta que o projeto de psicologia de L.S. Vigotski organiza-se segundo uma estrutura triádica, dividindo-se em psicologia geral, particular e concreta – expressão de seu compromisso com a edificação de uma psicologia científica fundada no materialismo dialético. Descreve, brevemente, os percalços que têm afetado estudos mais detalhados da obra vigotskiana e problematiza presença de Espinosa na obra do autor. A partir disso, trata do compromisso de Vigotski em compor, em quadro único, uma psicologia das emoções/afetos em que coubessem as múltiplas manifestações da vida emocional humana, vivenciais e comportamentais. Expõe a extrema importância da filosofia de Espinosa nas ideias vigotskianas sobre a regulação dos afetos. Também, indica algumas ideias inspiradas em Espinosa para abordagem dos afetos no campo da “psicologia concreta da personalidade/pessoa”
Para remendar a fé no existente: superstição secundária e ceticismo desiludido nos escritos sociológicos de Theodor Adorno
A partir de uma leitura dos textos em que Theodor Adorno analisa a coluna de horóscopo do Los Angeles Times, busca-se delimitar a especificidade dos fenômenos sociais que o autor compreende sob o conceito de “superstição secundária”. Tratar-se-ia, para o autor, de novos processos de relação social, no interior dos quais os indivíduos estariam alienados em relação às fontes produtoras do conhecimento mágico concernente ao seu próprio presente e futuro. O que chama especialmente a atenção do autor é a postura cética e desiludida do receptor diante das informações que lhe são fornecidas: o público, mesmo não levando completamente a sério a validade objetiva do que dizem as colunas de horóscopo, nem por isso deixa de se orientar por seus imperativos. Na perspectiva adorniana, isso ocorre porque o horóscopo responde às necessidades libidinais de sujeitos que, incapazes de configurar intelectualmente os problemas sociais que os afligem, sucumbem ao conhecimento pseudorracional de ordem supersticiosa. Adorno encontra a chave para ultrapassar esse impasse numa figura renovada de Bildung, que envolve, por um lado, a ênfase na capacidade da consciência crítica de efetuar sínteses e a recuperação de uma vivência da temporalidade em que a duração, em chave bergsoniana, se sobreponha à espacialização do devir
Leo Strauss e o pretenso “Materialismo Ateu”
Analisaremos uma leitura antimarxista da obra de Espinosa. Com uma escrita sedutora, Strauss pretende mostrar que a subversão de Espinosa consistia em propagar, sob a forma do ensinamento oculto, o “materialismo ateu”. Ora, esta imagem, como se sabe, nos tempos da guerra-fria era forjada pela propaganda anticomunista. O método de Leo Strauss é guiado pelo conceito do político de Carl Schmitt que foi elaborado em polêmica mortal contra o liberalismo político e o socialismo para dar fundamentos “ontológicos” à teoria das elites. Sob a aparência de desvendar o ensinamento subversivo oculto da filosofia de Espinosa, Leo Strauss sobrepõe-lhe um sentido que lhe é estranho, impõe-lhe uma marca que não é sua e inaugura, quiçá de maneira oculta, uma nova matriz para leituras antimarxistas da obra. Neste artigo analisamos o método e alguns resultados da leitura que Leo Strauss propõe para o Tratado Teológico-Político de Espinosa
Emancipação e direito como potência: apontamentos espinosanos sobre a concepção atual do jurídico
Pode o direito natural levar à emancipação? Esta questão de fundo parece, num primeiro momento, não ter qualquer pertinência em tempos de quase completa identidade entre direito e lei positivada pelo Estado. Com efeito, a dicotomia direito natural versus direito positivo, contemporaneamente, perdeu seu poder. Segundo certa vertente da literatura, isto ocorreu em razão da positivação, nas Constituições dos países democráticos, dos conteúdos presentes em várias das doutrinas do direito natural. O objetivo do artigo é levantar a hipótese, a partir de Espinosa, da força e da pertinência do conceito de direito natural. Tal conceito pode ser contraposto às violências que costumam ser chamadas de direito
Negri, Hardt e a dialética hegeliana
Nosso propósito aqui é o de apresentar um panorama das leituras que Antonio Negri faz de Hegel, ou, antes, da dialética hegeliana, ao longo de sua obra. Pretendemos mostrar como a leitura de Negri passa de um discurso favorável à dialética como instrumento conceitual a um segundo momento – no qual também figurará Michael Hardt, coautor de algumas de suas obras mais recentes – em que ela é criticada e abandonada, e as dificuldades encontradas pelos autores nesse percurso
Um conceito de classe
Com o conceito de “multidão”, o filósofo italiano Antonio Negri quer designar o surgimento de um novo sujeito coletivo capaz de fazer frente ao domínio capitalista tal como tomou forma no mundo contemporâneo, o que ele nomeia “Império”. Daí a centralidade da multidão na trilogia que Negri publicou nos últimos anos com Michael Hardt: Império, Multidão, Commonwealth. Uma peculiaridade do conceito, reiterada por Negri, é consistir num “conceito de classe”. O que isso quer dizer? Nosso propósito é, partindo dessa indicação, retomar o fio do surgimento da “multidão” nos textos negrianos da década de 70, mostrar como o conceito é tomado a Espinosa (Negri sempre o dá como um conceito “espinosano”) e por fim, com base no percurso, entender esse aspecto “classista” da multidão negriana e espinosana. Com efeito, a partir de Espinosa o que Negri descobre é uma nova forma de pensar a classe explorada pelo capital; com o conceito de multidão ele consegue formular um conceito não empírico de classe, o único que, ao seu ver, daria conta de designar, hoje, a classe que pode enfrentar o Império
Espinosa e Marx: a potência do pensamento e a inteligibilidade do real
Este artigo faz uma aproximação entre os pensamentos filosóficos de Karl Marx e Baruch de Espinosa. Os dois filósofos apresentam em comum um pensamento rigorosamente elaborado, e cuja potência explicativa extrapola as barreiras do tempo, colocando-se como referência obrigatória para pensar o real (tanto em seu sentido ontológico quanto em seus aspectos históricos e sociais). O cerne dessa potência explicativa contida no pensamento de ambos os filósofos estaria na adoção e colocação em prática do antigo preceito “conhecer é conhecer pela causa”. Sugere-se, por fim, que a dialética em Marx seria melhor apreendida, não pela referência hegeliana, mas pela “causalidade circular” imanente de Espinosa