CEM – Cultura, Espaço & Memória (E-Journal)
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Interseccionalidade e imagologia nos poemas de Gessica Correia Borges
This paper aims to analyse two poems by Gessica Correia Borges from the perspective of Imagology, highlighting that she is a feminist, Black author, and is herself the «Other» in the literary panorama in Portuguese.
To achieve this purpose, we refer to the importance of symbolic power and male domination that still subjugates our society (Bourdieu 2002; Bourdieu 1989) and which conditions the literary production of Black women writers, and we highlight the issue of sex and gender issues, to make it more concise.
As a theoretical complement, we consider it essential to address the concepts of Intersectionality, the subaltern condition, and Black feminism, given that this is a Black poet and activist who develops her activity in this movement and because these perspectives are essential for a comprehensive analysis.
Finally, we point out the most important Imagology concepts, as this is the prism through which our approach will focus, and we propose our final considerations.Este artigo pretende analisar dois poemas de Gessica Correia Borges sob o prisma da Imagologia, salientando-se que é uma autora feminista, negra, sendo ela própria a «Outra» no panorama literário em língua portuguesa.
Para o efeito, referimos a importância do poder simbólico e da dominação masculina que ainda subjuga a nossa sociedade (Bourdieu 2002; Bourdieu 1989) e que condiciona a produção literária das escritoras negras e sublinhamos a problemática das questões de sexo e de género, para a tornar mais concisa.
Em complemento teórico, consideramos fundamental abordar os conceitos de Interseccionalidade, da condição subalterna e do feminismo negro, atendendo a que se trata de uma poetisa e ativista negra que desenvolve a sua atividade neste movimento e porque estas perspetivas são essenciais para uma análise abrangente.
Por fim, apontamos alguns conceitos de Imagologia por se tratar do prisma em que a nossa abordagem vai incidir e tecemos algumas considerações finais
«Negros aqui brancos acolá»:: imagens do racismo na poesia de Agostinho Neto
The essay aims mainly at: 1) Identifying the condemnation of racial segregation (in Africa, Europe, and the United States of America) made by Agostinho Neto in several lyrical compositions; 2) Examine Neto’s appeal about the African imperative of returning to tradition; 3) Emphasise the value of Neto’s poetics for the rehabilitation of the black colour; 4) Putting the Angolan poet and other African writers into dialogue; 5) Determine whether Agostinho Neto’s poetics sought to deconstruct the rhetoric of colonial literature (based, among other aspects, on the infantilization of black people or even on their animalisation, on the denial of African culture and history and the legitimation of racism).Os propósitos principais do ensaio são: 1) Identificar a denúncia da segregação racial (em África, na Europa e nos Estados Unidos da América) feita por Agostinho Neto em diversas composições líricas; 2) Interpretar o apelo de Agostinho Neto sobre o imperativo africano de retorno à tradição; 3) Enfatizar o valor da poética de Neto para a reabilitação da cor negra; 4) Estabelecer diálogos entre o poeta angolano e outros escritores africanos; 5) Demonstrar que a poética de Agostinho Neto se empenhou na desconstrução da retórica da literatura colonial (assente, entre outros aspetos, na puerilização do negro ou mesmo na sua animalização, na negação da cultura e da História africanas e na legitimação do racismo)
Waz touc mir doch min Altez leben?:: Irmenschart como mater mediatrix em Willehalm de Wolfram von Eschenbach
As personagens femininas são, na literatura medieval, capazes de condicionar o rumo dos acontecimentos através do uso da palavra perante um auditório. Estas mulheres são não raras vezes personagens maternas. Neste artigo, apresentarei uma reconfiguração deste paradigma ao considerar um exemplo da épica do médio-alto-alemão, nomeadamente a matriarca Irmenschart, esboçada no Willehalm (c. 1210-1220) de Wolfram von Eschenbach. A intervenção da personagem materna na narrativa é marcada por uma astuta utilização da palavra na corte imperial em benefício do filho, por quem intercede e de cujo conflito se faz medianeira. Daqui resultará a reabilitação da virtude masculina dos membros da künne, a restauração da identidade da família e, finalmente, a oferta de auxílio material à causa de Willehalm. O caráter medianeiro e intercessor que marca a figuração de Irmenschart no texto será também perspetivado à luz de uma possível relação com o modelo cristão mariano da mater mediatrix.
DOI: https://doi.org/10.21747/2182‑1097/cem15a
Do amor ao ódio:: alguns apontamentos sobre figuras maternas na narrativa cavaleiresca quinhentista portuguesa
Este artigo centra-se na análise de algumas destacadas figuras maternas presentes em três textos cavaleirescos do quinhentismo português (Crónica do Imperador Clarimundo, Palmeirim de Inglaterra e Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda). Pretende-se partir de uma abordagem tipológica da representação da maternidade, analisando em primeiro lugar as mães dos heróis principais, para, a partir daí, evidenciar a figuração de duas mães que se afastam dessa tipologia: Zaraina e Ifranasa. Estas duas figuras do texto de Jorge Ferreira de Vasconcelos destacam-se pela relação de antagonismo relativamente aos seus filhos, Florisbel e Masília. Ao conjugarem dimensões que vão para além da simples figuração maternal, chamaremos igualmente à atenção para a forma através da qual essas duas figuras se destacam numa análise global relativamente à condição das figuras femininas nos textos cavaleirescos de quinhentos.
DOI: https://doi.org/10.21747/2182‑1097/cem15a
Além de Gil Vicente: representações literárias, artísticas e populares sobre os ciganos portugueses da Época Moderna
O Auto das Ciganas de Gil Vicente apresenta-se como um texto-chave na historiografia sobre os ciganos portugueses durante a Época Moderna. Nesse texto, do início de Quinhentos, codificam-se abundantes imagens e preconceitos que os acompanhariam ao longo dos séculos seguintes, de convivência com uma sociedade dominante que lhes era, não raras vezes, hostil. Muitas das representações subsistem na sociedade portuguesa contemporânea: importa analisar as suas raízes históricas. A tal se propõe este texto, resultado de um trabalho de investigação em curso que tem procurado compilar e analisar referências a ciganos em fontes literárias e artísticas portuguesas dos séculos XVI a XVIII. Procurar-se-á, assim, alargar o campo de análise para além das conhecidas páginas vicentinas, englobando-as num conjunto mais amplo. A partir desta metodologia, centrada na mobilização de novos textos, numa cronologia ampla, pretende-se apreender permanências e mutações e, de igual modo, caracterizar as principais ideias-chave construídas em relação à minoria cigana no Portugal da Época Moderna
Diáspora, produção e circulação de conhecimentos no Atlântico: as contribuições de um açoriano para o entendimento da geografia do sul do Brasil (1750-1781)
Na diáspora açoriana podem ser identificados legados na produção e disseminação de conhecimentos geográficos. O entendimento da geografia da América do Sul na segunda metade do século XVIII foi ampliado graças às explorações, mapeamento, levantamento de dados e produção de informações realizadas por um migrante do Faial. De modo geral, a historiografia focaliza a migração de casais e suas formas estáveis de fixação no território de adoção. Mas a diáspora açoriana teve uma leva de emigrados solteiros, como foi o caso de Antonio da Silveira Peixoto. Através de suas cartas, de correspondências oficiais, de funcionários régios e mapas de engenheiros militares será acompanhado o fenômeno da produção e circulação de conhecimentos da geografia do sul do Brasil com o objetivo de contribuir para uma história deste tema mais inclusiva e em interseção com a própria história das migrações
A Línguamãe – Oficina de Leitura e Escrita sobre Literatura e Maternidade como espaço de resistência e pensamento das mães na pandemia
As novas regras sociais estabelecidas pela pandemia de covid-19 conduziram um grande contingente de mulheres ao extremo dos seus limites físicos e emocionais. A Oficina de Leitura e Escrita sobre Literatura e Maternidade Línguamãe é uma iniciativa de duas mães, escritoras e brasileiras expatriadas: uma em Portugal, a outra nos Estados Unidos, porém, ambas sob o mesmo território do isolamento prolongado (o puerpério seguido da pandemia). Apesar de isoladas, as mulheres, em especial as mulheres-mães, ainda mais as mulheres-mães-escritoras permaneceram juntas, falaram o mesmo idioma, pois ser mãe é uma nacionalidade em si. A leitura e escrita sobre a maternidade neste momento distópico não as salva das dificuldades, mas convida a encontrar na literatura um refúgio que as ajuda a atravessar esta tormenta, criando identificação, acolhimento e servindo como ferramenta de elaboração artística.
DOI: https://doi.org/10.21747/2182‑1097/cem15a