CEM – Cultura, Espaço & Memória (E-Journal)
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A leitura histórica do erro como base de novas perspetivas de investigação
Os documentos da Ordem de Cristo, copiados no século XVI, mas que remontam à instalação dos Templários no nosso território, constituíram o nosso objeto de estudo. A avaliação do seu conteúdo e a deteção de erros de leitura permitiram abrir novas perspetivas de investigação histórica. Paralelamente, há descrições arquivísticas que induzem em erro os investigadores em virtude de conterem informação inexata, e só uma leitura atenta dos documentos permite detetar esses lapsos. Os avanços tecnológicos permitem disponibilizar imagens de documentos de grande qualidade. Neste sentido, os estudiosos, sobretudo da história medieval e moderna, deveriam ser impelidos a divulgar essas fontes históricas, com forte impacto para o avanço da investigação
A falha como acerto na física, no manuscrito e na pintura
O neurocientista Gerald Edelman adverte que da sucessão de estímulos recebidos pela mente nasce um fluxo constante de impulsões neuronais a partir das quais se constrói a percepção e depois o pensamento conceitual (Plus vaste que le ciel, Une nouvelle théorie générale du cerveau (Paris: Ed. Odile Jacob, 2004)); assim podemos entender as possibilidades de erros devido à multiplicidade das conexões no cérebro e a dificuldade do pensamento nas suas decisões. Ilustrarei os resultados em dois casos: um erro feliz no processo decriação do Nobel de física em 1996, Douglas Osheroff e a nossa compreensão do tempo contrária à da mecânica quântica (Carlo Rovelli). Em seguida, partirei para a análise de um texto de Sodoma e Gomorra de Proust comentando o curso habitual da mente cheio de hesitações e os erros de percepção na procura da verdade artística. Para concluir, lembrarei os esboços das Demoiselles d’Avignon de Picasso e as dificuldades do narrador proustiano na fixação do início da Busca do Tempo Perdido
Impermanência e queda: coreografias da fortuna [e do erro]
O que existirá de comum entre a escultura de Jörg Immendorff Fortuna: Läuferin auf der Weltkugel (1989), a sua pintura Ohne Titel (Fortuna) de 2000 e/ou as distintas figurações estereotipadas da deidade Fortuna ao longo da Cultura e Arte na Europa? Procede-se ao meapeamento das iconografias que representamFortuna e/ou Tyché, considerando a postura, pose e esboço de movimento, assim como os atributos, objetos e enquadramentos que sejam representados. Tomou-se como substância uma compilação de certas imagens escolhidas que cumprem um arco cronológico, iniciado na Antiguidade Grega, atravessando os séculos e apontando casos na Arte Moderna e Contemporânea. Qual a recorrência, repetição de estereotipos e atitudes convencionais na personificação da deidade, quais os contextos que assim a determinam, associada ao Erro… eis como se o mundo, em cronologias tão díspares, afinal fosse um doppelgänger, uma dimensão pequena perante o gigantismo cosmogónico
Riscar. O desenho como processo sensível e racional na investigação suportada pelo erro
Uma das primeiras ações que acarreta o desenho é, precisamente, o erro, a falha, sendo que o erro é comummente uma atitude censurável. No entanto, a imagem do desenho ocorre através da repetição do traço gerado pelo desenhador e apoiada sucessivamente no binómio erro/correção, expondo incertezas, hesitações, dúvidas, acertos, soluções, invenções, perante questões que a realidade suscita a par com a imaginação ou a investigação; procurando propor outros modos de visibilidade antes alcançados, do visto e do não visto, do visível e do aparentemente invisível, como processo sensível e racional que o erro/correção através do desenho proporciona. Pode-se sugerir como verdadeiro que a ação de riscar é um ato inato no homem, próprio das suas inquietações. Daí, pensar-se no axioma de que o traço gerou a escrita, que do vestígio do gesto ritmado nasceu o número e que do percurso da linha surgiu a geometria, instaurando a base de todo o processo de inteleção e de imaginação do homem. Colocando-nos, portanto, diante de um percurso que encontra no desenhoa génese de tudo aquilo que criamos. O erro no desenho encontra-se proporcionalmente relacionado com a correção, retificação, alteração, repetição, reprodução, memória, recordação, imagem, reflexo, interrogação, etc., vocábulos que perpetuam um vasto sistema de ligações entre o Ser e o Mundo, que a mão, a visão e o cérebro compatibilizam num mesmo ato físico e manual; por isso, o desenho é tão complexo como o próprio Ser, prescrevendo conceções de ordem existencial, sensível e racional. Trata-se de imagens que surgem danecessidade de ver para além de e fixar ideias; ora, o desenho constrói-se sob uma estrutura implícita e explicita sustentada pelo binómio erro/correção enquanto processo fundamental de descoberta e autocorreção que genericamente compõe a transposição da experiência sensível para as formas inteligíveis e racionais da representação. O desenho é, portanto, o dispositivo que acompanha o pensamento onde o erro potencia o acerto de sentido e significado das configurações do real e do imaginário ao revelar um trabalho de múltiplas relações e possibilitando uma aproximação sistemática ao trabalho. O lugar onde se conjuga a sensibilidade e a inteligência, como apropriação e antecipação da realidade; consequentemente, espaço de ensaio, de erro,de dúvida, de apreensão dos limites, das revisões, das formulações e hipóteses até se prefigurar numa solução adequada à investigação
Would i lie to you? A mistake and a fake mistake in wolfram’s willehalm
Este artigo analisa a forma como o poeta alemão medieval Wolfram von Eschenbach reage a um erro na matéria da fonte francesa do seu poema Willehalm. Wolfram nota um erro flagrante na canção de gesta La Bataille d’Aliscans e faz uma observação: no entanto, ao fazê-lo, ele criou o seu próprio erro, já que ele deliberadamente cita mal o nome do poeta francês da fonte, como Chrétien de Troyes. Com toda a probabilidade, Wolfram fez essa citação errada com o objetivo de tecer considerações sobre a natureza da ficção narrativa
Itinerário do erro em Tristan de Gottfried von Strassburg
Tristan, texto de Gottfried von Straßburg (ca. 1210-1220), sustenta-se da exploração temática do erro: o erro representado pelo adultério de Tristan e de Isolde desdobra-se numa série de episódios nos quais Marke, o rei traído, procura insistentemente averiguar a culpa da mulher e do sobrinho. Estas tentativas apresentam-se sob a forma de artimanhas, auxíliadas por Marjodo e Melot, sendo prontamente retaliadas por contra-artimanhas engendradas pelos amantes e por Brangäne, aia de Isolde. O presente artigo apresenta umaexcursão pelos diferentes momentos do texto em que o rei da Cornualha é induzido em erro, tematizando-se o motivo da ambiguidade associada à perceção do real. Esta ambivalência é gerada pela linguagem como meio de dissimulação, nomeadamente pela linguagem do simbólico, deduzindo-se e mascarando-se intenções. Esta faceta do texto deixa-se materializar diegeticamente através do motivo da língua, nomeadamente das três línguas cortadas a que o texto faz referência, permitindo refletir sobre questões epistemológicas como a verdade e a mentira, o real e a ilusão, a conformidade e a subversão.
Almada– projecto(s)/trajeto(s) (recombinatória e amplificação em tempos de leitura diversos)
Reescrita de alguns fragmentos de «Da Histoire du Portugal par Coeur», ao Encontro da Ingenuidade, relativos às duas versões do texto «Histoire du Portugal par Coeur», escrito em 1919 por Almada Negreiros em Paris, à luz de novos dados, com particular relevo para a articulação literatura-desenho-performance-dança
Impurities: an aesthetic reflection
The history of aesthetic ideas has explored, from its beginnings, an incompatibility between aesthetics and perfection. On the one hand, this explains the tension found in Plato and Aristotle between the prescribed theory and the practice. On the other hand, it also explains the modern claim of imperfection — as an attribute of the work of art — in authors such as Victor Hugo and Baudelaire. In fact, this claim was only possible in the wake of the third Kantian Critique, which restored the foundations of aesthetics while removing the idea of perfection as end. This essay proposes that an aesthetics of imperfection rests not on an apology of chance and error, but that flaw rises in the exercise of maximum freedom linked to a maximal demand. Whether in creation or reception, aesthetic experience implies moving on a risky course, without guarantees or safety
Uma matriz sigilar real portuguesa de ouro do século xv
Os autores dão notícia, no presente artigo, do achado de uma matriz sigilar áurea inédita, datada de meados do século XV e atribuível ao Infante D. Fernando, irmão do rei D. Afonso V, quando usou o título de «Príncipe de Portugal». Expõem-se as circunstâncias do achado da peça, estabelece-se a sua composição metálica,em ouro puro, analisando-se o contexto histórico dessa época em termos do uso jurídico de matrizes sigilográficas, propondo-se a interpretação da empresa heráldica e, por fim, a leitura heráldica do brasão real que surge nesta peça singular
«Errare humanum est»: o erro na metodologia das humanidades
O comportamento errático das pessoas e dos raciocínios tem comummente um sentido pejorativo. Entre o judeu errante e o pensamento errático, pesa uma indelével punição. Por outro lado, se errar é humano, o homem é também metaforicamente, um ser errático, torto: Kant di-lo um lenho. O erro tem porém uma terceira categorização: já não é somente falta ou fatalidade, mas também funcionalidade. Em muitos filósofos e viajantes, a errância e o erro tornam-se sinónimos da independência, coerência e método. E em áreas tão distintasquanto a edição crítica, a historiografia literária, ou a escrita criativa, o erro vai fazendo parte de uma «metodologia», isto é, desde logo etimologicamente, de um conhecimento (-logia) feito através (meta-) do percurso (-odos-)