Análise Psicológica
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Influência da paridade na adaptação da transição para a maternidade em grávidas infectadas pelo VIH e grávidas sem condição médica associada
No presente estudo empírico procuramos explorar a influência da paridade na adaptação na transição para a maternidade de grávidas seropositivas para o VIH e grávidas sem condição médica de risco associada. Noventa e oito mulheres (47 grávidas seropositivas para o VIH e 51 grávidas sem patologia médica associada) foram avaliadas durante o segundo trimestre de gravidez e dois a quatro dias após o parto. O protocolo de avaliação era composto por uma ficha de dados sociodemográficos e grelhas clínicas e obstétricas, e por instrumentos de auto-resposta, destinados a avaliar a sintomatologia psicopatológica (Brief Symptom Inventory), a reactividade emocional (Emotional Assessment Scale)e a qualidade de vida (WHOQOL-Bref). Os resultados obtidos mostram que, para ambos os grupos, a multiparidade se encontra associada a maiores dificuldades de adaptação na transição para a maternidade, de forma mais acentuada entre as mulheres infectadas pelo VIH. O maior poder discriminativo, em função da paridade, registou-se nos domínios Relações sociais e Ambiente, nafaceta geral de qualidade de vida e na dimensão Ansiedade. Ao longo do tempo, a maior estabilidadeindividual registou-se entre as multíparas dos dois grupos e a menor estabilidade entre as primíparasinfectadas pelo VIH. Os resultados do nosso estudo apoiam a existência de diferentes padrões etrajectórias de adaptação das grávidas primíparas e multíparas e, essencialmente, a importância deconsiderar intervenções diferenciadas para cada um dos grupos
O prolongamento da transição para a idade adulta e o conceito de adultez emergente: Especificidades do contexto português e brasileiro
A diminuição da regulação normativa das trajectórias de transição para a vida adulta, nas sociedades da modernidade tardia, favoreceu o prolongamento da condição juvenil até ao final da terceira década de vida e a progressiva privatização e flexibilização dos percursos biográficos. As novas características das sociedades pós-industriais levaram à definição de novos conceitos e perspectivas no âmbito da Psicologia do Desenvolvimento, das quais se destaca a teoria da adultez emergente. Neste artigo discute-se a pertinência e a utilidade do conceito de idade adulta emergente enquanto período de desenvolvimento, interpretando-o à luz das dinâmicas de interacção entre agência individual e as condições que configuram a estrutura de oportunidades, para uma melhor compreensão do estatuto dos jovens na sociedade contemporânea. Procura-se, ainda, analisar a aplicabilidade das novas perspectivas de transição para a vida adulta ao contexto português, considerando que este período de exploração e experimentação é vivido pela maioria dos jovens no seio da família de origem, principal fonte de apoio num clima de crescente precariedade. Finalmente, estabelece-se uma comparação com a realidade brasileira, explorando semelhanças e diferenças entre os dois países
Representações mentais maternas: Um caso de trigémeos
É bem conhecido o facto de a representação mental materna influenciar as interacções mãe-criança e desta forma o desenvolvimento psicoafectivo do bebé. Com os trabalhos de D. Winnicott e de W. Bion torna-se mais evidente a importância do mundo fantasmático da mãe na construção do sentido da identidade da criança. Em 1980, com o artigo Ghosts in the Nursery, Selma Fraiberg enfatiza a importância das fantasias mentais maternas na génese da patologia da relação mãe criança ou na formação de sintomas nesta. A propósito de um caso clínico de trigémeos, os autores propõem-se realizar uma reflexão teórica sobre as representações mentais maternas num contexto de generalidade. O caso clínico apresentado foi observado na nossa unidade a pedido dos pais, por necessidade de inserção das crianças num Infantário.À data da primeira consulta, os bebés tinham quatro meses, sendo dois do sexo masculino e um do sexo feminino. Pela observação, tornaram-se evidentes as diferenças da interacção mãe-criança em relação aos três bebés. Assim, uma questão nos surgiu: existirá uma única representação materna para todas as crianças, sendo a representação individual subsidiária desta, ou existirão à partida representações maternas diferentes? Para uma abordagem mais objectiva desta questão e do caso cliníco, utilizámos os seguintes instrumentos: entrevista R – método de avaliação das representações maternas de Daniel Ster, Cristianne Robert-Tissot et al. – e a Escala de Temparmento de Bates-ICQ
Domínios de esquemas precoces na depressão
Neste trabalho temos um duplo objectivo: (1) identificar os domínios de esquemas desadaptativos do funcionamento psicológico que estão relacionados com a depressão major e a perturbação de pânico e, (2) estudar os domínios de esquemas desadaptativos característicos da depressão major. Os participantes dividiram-se em três grupos, 42 sujeitos com diagnóstico de depressão major, 28 sujeitos com diagnóstico de perturbação de pânico e 51 sujeitos sem alteração psicopatológica. Um grupo de 30 sujeitos com depressão major foi avaliado em dois momentos. Utilizámos o Questionário de Esquemas (Young, 1990), a escala de Hamilton para a Depressão, o Inventário da Depressão de Beck, o Inventário de Ansiedade Estado e Traço. Os resultados demonstram que existem diferenças entre os grupos com alterações psicopatológicas e o grupo sem alterações, no que concerne aos domínios de esquemas desadaptativos precoces. Verificou-se também a existência de domínios de esquemas que seriam característicos dos sujeitos deprimidos. Alguns destes domínios de esquemas desadaptativos seriam sensíveis às alterações do índice de depressão. Discutimos os resultados realçando a importância dos domínios de esquemas desadaptativos precoces no processamento de informação, actividade mnésica e relacionamento interpessoal. Salientamos também o papel que os domínios de esquemas desadaptativos têm na génese e na manutenção da depressão major
Sugestionabilidade interrogativa em crianças de 8 e 9 anos de idade
Para estudar a influência das variáveis idade, inteligência, memória, ansiedade geral e desejabilidade social na sugestionabilidade avaliaram-se crianças de 8 e 9 anos de idade com o Bonn Test of Statement Suggestibility (BTSS). Em 145 crianças averiguou-se o efeito das variáveis memória e inteligência não verbal e, numa subamostra de 74 crianças, para além das variáveis referidas, considerou-se também a inteligência verbal, ansiedade geral e desejabilidade social. As crianças de 8 anos são mais sugestionáveis do que as crianças mais velhas. No grupo dos 8 anos, aquelas com melhores desempenhos ao nível da inteligência não verbal (medida pelas Matrizes Progressivas Coloridas de Raven – MPCR), e na evocação da história do BTSS são menos vsugestionáveis comparativamente às crianças com piores desempenhos nestas provas. De modo análogo, as crianças com 9 anos são tanto mais sugestionáveis quanto piores os desempenhos nas MPCR, evocação da história do BTSS e subtestes informação, vocabulário e aritmética da WISC–III. As crianças deste grupo etário que apresentam desejabilidade social elevada (avaliada pela RCMAS) são também mais sugestionáveis. Estes resultados são discutidos considerando a sua relevância para o âmbito forense
Estudo exploratório da relação entre função eréctil, disfunção eréctil e qualidade de vida em homens portugueses saudáveis
A disfunção eréctil (DE) é uma situação de elevada prevalência nas sociedades moderna, em parte devido ao envelhecimento da população. A função eréctil (FE) é um componente importante do funcionamento sexual mas com uma relação moderada com a DE. O objectivo deste estudo é avaliar a relação entre DE, FE e qualidade de vida (QDV). Participaram 133 homens Portugueses saudáveis, com idades entre 21 e 78 anos (M=43,86; DP=14,39), que responderam a um questionário de auto resposta segundo uma metodologia mail type. A DE foi definida segundo os critérios do IEEF-5, uma versão reduzida do IIEF (International Index of Erectile Function). A QDV foi avaliada com recurso ao SF-36. Os resultados mostram que o grupo DE (32,8% da amostra) manifesta valores de QDV mais baixos dos que o grupo não DE principalmente nas dimensões do componente físico. A FE enquanto resultado proveniente de todos os domínios do IIEF aumenta (principalmente nos domínios do Componente Físico). Os dois componentes do SF-36 (físico e mental) mostram tendência para aumentar quando a FE aumenta. Em conclusão encontrámos uma associação clara e positiva entre a percepção de FE e a QDV com preponderância para as dimensões do componente físico desta mas com uma clara interacção com o Componente Mental
O Burnout como factor hierárquico de 2ª ordem da Escala de Burnout de Maslach
As qualidades psicométricas da escala de burnout de Maslach para estudantes (Maslach Burnout Inventory – Student Survey: MBI-SS) de Schaufeli et al. (2002) foram avaliadas numa amostra por conveniência de 300 estudantes universitários. A estrutura tri-factorial (Descrença, Exaustão e Eficácia Profissional) proposta pelos autores da MBI-SS apresentou reduzida validade factorial e consistência interna aceitável (αestratificado=0.79) na amostra sob estudo. Atendendo às correlações significativas entre os 3 factores da MBI-SS, à assimetria dos itens, e à qualidade do modelo de medida, procedeu-se ao refinamento da escala para uma estrutura factorial onde os 3 factores originais definem um factor de 2ª ordem, denominado “burnout”. A MBI-SS modificada apresentou elevada validade factorial e elevada consistência interna (αestratificado0.83)
Criminalidade feminina e construção do género: Emergência e consolidação das perspectivas feministas na Criminologia
Neste artigo, são analisadas as perspectivas feministas na criminologia, em particular, os discursos sobre criminalidade feminina e construção do género. Parte-se de uma visão ampla sobre feminismos e construção de conhecimento e apresenta-se uma revisão histórica da emergência e da consolidação das perspectivas feministas na criminologia. Discute-se em particular o argumento feminista de que a construção social do género pauta os percursos de vida das mulheres que transgridem, e se reflecte na resposta formal e informal a essas transgressões. São analisadas as principais críticas tecidas pelas autoras feministas ao que designam de ‘discursos tradicionais’ sobre mulher e crime e as propostas que apresentam de reconstrução desses discursos
Abuso sexual na infância e adolescência: Resiliência, competência e coping
O presente trabalho reporta uma revisão crítica da literatura ao nível da resiliência no domínio do abuso sexual na infância e adolescência. Esta é uma área que tem sido pouco explorada, em certa medida, devido a problemas metodológicos e de conceptualização do constructo. Não obstante a diversidade e controvérsia de propostas conceptuais, é relativamente consensual que a resiliência não é sinónimo de invulnerabilidade mas que significa uma maior capacidade da criança/jovem para manter o curso desenvolvimental normativo face a uma situação de stress ou adversidade. Assim, no presente artigo é discutido o conceito de resiliência enquanto resultado desenvolvimental adaptativo na sequência de uma experiência adversa. Neste âmbito, são exploradas as principais linhas de investigação nas últimas décadas, e sistematizadas conclusões centrais neste domínio. Do mesmo modo, são ainda definidos desafios e direcções futuras em termos de investigação. As conclusões da presente revisão advertem para o papel interactivo e generativo da criança/jovem vítima e dos seus contextos de vida no percurso de mudança desenvolvimental. Neste sentido, a adaptação positiva não é uma tarefa individual da vítima mas de todos os intervenientes envolvidos, nomeadamente em termos de disponibilidade de condições e redes de suporte favoráveis a uma recuperação adaptativa
Marte: Da agressividade ao amor A compreensão da agressividade nas pessoas com Lesão Vertebro-Medular
O presente trabalho tem como objectivo a compreensão dos sentimentos e comportamentos agressivos, em sujeitos com Lesão Vertebro-Medular. Para este efeito, realiza-se um estudo exploratório, tendo como referência o quadro teórico psicanalítico. Inicialmente é realizada uma revisão geral sobre o conceito de agressividade, destacando-se a sua definição, as suas origens e funções, a forma de lidar com a agressividade e a sua manifestação nas situações de Lesão Vertebro-Medular. De seguida procede-se à apresentação e análise de dois casos clínicos do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. Do material analisado, chegou-se a aspectos conclusivos que nos permitem considerar que a expressão da agressividade se encontra muitas vezes ligada a situações de perda e frustração, podendo não ter apenas uma conotação negativa, sendo até construtiva e essencial para a saúde mental. Saliente-se ainda nestes casos a intervenção do psicólogo através da relação terapêutica e a pertinência da compreensão destas situações por parte de todos os profissionais de reabilitação