Griot : Revista de Filosofia
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Jônios e itálicos: antagonismo nos primórdios da filosofia grega
The subject of this article is the antagonism among two philosophical “schools” developed from opposites principles: the ionian and italic “schools”. The former developed since Thales, passing through Anaximander, Anaximenes, Heraclitus, Leucippus, Democritus, Epicurus... wich philosophy is called materialist. The second, from Parmenides, Zenon... till mainly Socrates, Plato and Aristotle, wich is called idealist. The proposal is a scheme rereading of this history and a minimun questioning of its consequences. Since the Antiquity it can be seeing that the philosophers used to reconize the existence of that antagonism and wittingly used to battle among themselves, and as the history tells, the victorious were the idealists. It is not a exaustiv study about each one of those philosophers but only a few, those that I consider the most exemplary in the beggining of the greek phillosphy. It is considered yet how this antagonism has been negligected by the manuals of philosophy history. As the only way to show it is through the texts and testimonials themselves of the philosopheres thinking, the lector will find with greater emphasis an analysis of the atomism development by Leucippus from Anaximenes philosophy, in the opposite way of the usual assertion according to wich atomism has been arised from Parmenides doctrine of the Being.O tema deste artigo é o antagonismo entre duas “escolas” filosóficas que se desenvolveram a partir de princípios opostos: as “escolas” jônica e a itálica. Aquela desenvolveu-se desde Tales em Mileto, passando por Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Leucipo, Demócrito, Epicuro..., cuja filosofia se denomina materialista A segunda, de Parmênides, Zenão... até, principalmente, Sócrates, Platão e Aristóteles, cuja filosofia se chama idealista. O proposto é um esquema de releitura dessa história e uma problematização mínima das suas consequências. Verifica-se que desde a Antiguidade os filósofos reconheciam a existência desse antagonismo e conscientemente opunham-se entre si, numa luta cuja vitória, a história o conta, foi dos idealistas. Não se trata de um estudo exaustivo de cada um desses filósofos, mas apenas alguns, aqueles por mim considerados mais exemplares da época dos primórdios da filosofia grega. Ressalta-se, ainda, que esse antagonismo vem sendo recorrentemente negligenciado nos manuais de história da filosofia. Como o único meio para mostrar isso é o de evidenciar a incoerência dos manuais a partir dos próprios textos e testemunhos desses filósofos, o leitor encontrará, com maior ênfase, uma análise do desenvolvimento do atomismo em Leucipo a partir da filosofia de Anaxímenes, ao contrário da afirmação costumeira de que o atomismo se originou da doutrina do Ser de Parmênides
Pensamento indígena brasileiro como crítica da modernidade: sobre uma expressão de Ailton Krenak
In this paper, we will develop the Ailton Krenak’s criticism to Western modernity-modernization as a monoculture of ideas that constitutes itself as a self-referential, self-subsistent, endogenous, autonomous and self-sufficient structure which does not need the help and the critic by the other of modernity. Using the notion of colonialism as theory of modernity, we will identify five fundamental problems that permeates the construction of Jürgen Habermas’ theory of Western modernity-modernization, problems that justify this Ailton Krenak’s criticism, namely: (a) the modernity as a society-culture marked by an absolute singularity as post-metaphysical universalism-globalism from cultural-communicative rationality, entirely different of the rest of societies-cultures as traditionalism in general based on essentialist and naturalized foundations; (c) the comprehension of the constitution and development of European modernity as an endogenous, autonomous, self-sufficient and closed movement-principle relatively to the other of modernity, totally capable of self-comprehension, self-reflexivity and self-correction from inside, by its own means, with no necessity of external help; (c) the reduction of the constitutive and distinctive dynamics of Western modernization to the notion of correlation, separation and tension-contradiction between cultural modernity and social-economic modernization, with the silencing about and the erasing of the colonialism as movement, principle and consequence of the process of Western modernization; (d) the restrictive comprehension of the constitutive and evolutionary way of Western modernization as a straight, direct and linear process which goes from modern Europe towards the First and Second Worlds, again silencing about and erasing the Third World as a constitutive part and consequence of the Western modernity-modernization as a whole; and, finally, (e) the correlation of cultural-modernity (as post-metaphysical universalism-globalism from cultural-communicative rationality) with/as humankind, the humankind as a big process of modernization, and each society-culture as a proto-modernity, which sustains and supports exactly the idea of Western modernization as the apogee of human evolution and, therefore, its universalist-globalist sense and vocation, a characteristic that is denied to the other of modernity.Neste artigo, desenvolveremos a crítica de Ailton Krenak à modernidade-modernização ocidental como uma monocultura de ideias que se constitui como uma estrutura autorreferencial, autossubsistente, endógena, autônoma e autossuficiente, não necessitando do outro da modernidade em termos de ajuda e de crítica. Utilizando a ideia de colonialismo como teoria da modernidade, identificaremos cinco problemas fundamentais apresentados pela teoria da modernidade-modernização ocidental de Jürgen Habermas que justificam a crítica de Ailton Krenak, a saber: (a) a modernidade como uma sociedade-cultura marcada por uma singularidade absoluta, enquanto universalismo-globalismo pós-metafísico via racionalidade cultural-comunicativa, diferente de todo o resto das sociedades-culturas como tradicionalismo em geral via fundamentações essencialistas e naturalizadas; (b) a compreensão do processo de constituição e de desenvolvimento da modernidade europeia como um movimento-princípio endógeno, autônomo, autossuficiente e fechado relativamente ao outro da modernidade, plenamente capaz de autocompreensão, autorreflexividade e autocorreção desde dentro, por seus próprios meios, sem necessidade de ajuda externa; (c) a redução da dinâmica constitutiva e caracterizadora da modernidade como correlação, separação e tensão-contradição entre modernidade cultural e modernização econômico-social, com o silenciamento sobre o e o apagamento do colonialismo como movimento, princípio e consequência do processo de modernização ocidental; (d) a compreensão restritiva do caminho constitutivo e evolutivo da modernidade-modernização ocidental, como um processo reto, direto e linear que vai da Europa moderna ao Primeiro e Segundo Mundos, mais uma vez silenciando-se sobre e apagando o Terceiro Mundo enquanto parte constitutiva e consequência da modernidade-modernização ocidental como um todo; e, finalmente, (e) a correlação de modernidade cultural (enquanto universalismo-globalismo pós-metafísico via racionalidade cultural-comunicativa) com/como o gênero humano, do gênero humano como um grande processo de modernização e de cada sociedade-cultura particular como uma proto-modernidade, o que sustenta e respalda exatamente a modernidade-modernização ocidental como ápice da evolução humana e, assim, seu sentido e sua vocação universalistas-globalistas, característica negada ao outro da modernidade
John Dewey, reconstrução da filosofia e empirismo imediato
In this paper, I analyze John Dewey's concept of philosophy, in relation with its specificity within the pragmatic philosophical tradition. For this, I will approach the problem of the reconstruction of philosophy as Dewey presents in his work Reconstruction in Philosophy (1920), a work in which he completely and explicitly exposes his concept of and what he believes to be the role of philosophy. In particular, I will characterize Dewey's concept of philosophy from his critique to what he think to be the problems of modern or traditional philosophies. From this point of view, I will examine Dewey's use of his postulate of immediate empiricism as a philosophical methodology to avoid the alleged misconceptions of past philosophies and to develop a philosophy of concrete experience.Este artigo pretende abordar o conceito de filosofia de John Dewey, em sua especificidade em relação à tradição pragmatista. Para isso, partiremos da reconstrução da filosofia apresentada por este autor em Reconstruction in Philosophy, de 1920, obra na qual expõe completa e explicitamente o conceito e o que acredita ser o papel da filosofia. Em especial, caracterizaremos a concepção de filosofia de Dewey a partir das críticas que o pragmatista americano lançou contra certas maneiras de fazer filosofia, por ele denominadas filosofias modernas ou tradicionais. A partir dessa crítica, examinaremos o uso que Dewey faz de seu postulado do empirismo imediato, enquanto uma metodologia filosófica, para evitar os supostos equívocos das filosofias passadas e desenvolver uma filosofia que faz jus à experiência concreta
Bens irredutivelmente sociais como pressuposto para a defesa de direitos coletivos
The present study analyses the taylorian concept of irreducibly social goods. Besides that, aims to evaluate the possibity of existence of intrinsically social goods, or if all the goods, ultimately, shoud be understood only as goods originally formulated as individual goods. If there are intrinsically social goods, what consequence does this point of view have for the treatment of collective rights? The treatment of these questions is carried out by Taylor’s article Irreducibly Social Goods, where the Canadian philosopher states that there are convergent goods and irreducibly social goods. Convergent goods would be those that can be broken down into individual goods, that is, those that only individual can access; on the other hand irreducibly social goods are those shared by a human group or having a common meaning given by a background, this goods have not be broken down into individual goods. Finally, the study aims to present the consequences of this discussion in relation to the concept of collective rights.O presente estudo analisa o conceito tayloriano de bens irredutivelmente sociais. Além disso, visa avaliar a possibilidade da existência de bens intrinsecamente sociais, ou se todos os bens, em última análise, devem ser compreendidos apenas como bens originariamente formulados enquanto bens individuais. Caso existam bens intrinsecamente sociais, que consequências podem ser derivadas no que tange à discussão em torno dos direitos coletivos? O tratamento destas questões é levado à cabo no artigo Bens irredutivelmente sociais, de Charles Taylor, onde o filósofo canadense afirma que existem bens convergentes e bens irredutivelmente sociais. Os convergentes seriam aqueles que podem ser decompostos em bens individuais, ou seja, são aqueles que somente indivíduos podem acessar; por outro lado, bens irredutivelmente sociais são aqueles partilhados por um grupo humano ou que possuam um significado comum concedido por um pano de fundo, o que impede que sejam decompostos primariamente em bens individuais. Após essa análise, nos propomos a apresentar as consequências teóricas que podem ser derivadas da defesa de bens sociais
O paradigma estético de Félix Guattari
The objective of this text is to address the singularity of what the thinker Felix Guattari called the "aesthetic paradigm." Sometimes also called an ethical-aesthetic or political-aesthetic paradigm, it pretends to function as a proposition, rather than a proposal, to raise in the most diverse areas, fields and practices the problematic of ethical creation and political re-creation, both inseparable. Thus, it is necessary to investigate what is meant by "aesthetics", what is art and who is the artist of this paradigm. What are the motivations, the landscapes and the conditions of the issues that led Guattari to formulate this idea of a paradigm capable, from art, through ethics, to instituting a new way of thinking politics and to think politically.O objetivo deste texto é o de abordar a singularidade daquilo que o pensador Félix Guattari chamou de “paradigma estético”. Por vezes também chamado de paradigma ético-estético ou político-estético, este paradigma tem a pretensão de funcionar como uma proposição, mais que uma proposta, para suscitar nas mais diversas áreas, campos e práticas a problemática da criação ética e da recriação política, ambas, indissociáveis. Assim, cabe investigar o que se entende por “estética”, o que é a arte e quem é o artista deste paradigma. Quais são as motivações, as paisagens e as condições das questões que levaram Guattari a formular esta ideia de um paradigma capaz, a partir da arte, passando pela ética, instaurar um novo modo de pensar a política e de pensar politicamente
Arte e virtude em Montaigne e Diderot
Montaigne and Diderot were philosophers, humanists, and defenders of critical skepticism. His writings are characterized by a fluid, private, and comic writing style. In Diderot we see a philosopher playwright, author and critical theatrical. In Montaigne a non-academic philosopher, a magistrate averse to the perfectionism of scholastic philosophy, which instituted a new style of writing. There is a common trait in how they both understand philosophy. For Montaigne and Diderot, ethics and aesthetics are two domains of philosophy that have a close relationship. The work of art is an essential element that has the power to awaken the human spirit and lead it to the experience of true virtue.Montaigne e Diderot foram filósofos, humanistas e defensores de um ceticismo crítico. Seus escritos se caracterizam por um estilo de escrita fluído, privado e cômico. Em Diderot vemos um filósofo dramaturgo, autor e crítico de peças teatrais. Em Montaigne um filósofo não acadêmico, um magistrado avesso ao perfeccionismo da filosofia escolástica, que instaurou um novo estilo de escrita. Há um traço em comum na forma como ambos compreendem a filosofia. Para Montaigne e Diderot, ética e estética são dois domínios da filosofia que possuem uma estreita relação. A obra de arte é um elemento essencial que possui o poder de despertar o espírito humano e conduzi-lo à vivência da verdadeira virtude
O prólogo de A condição humana e a pergunta de Arendt: “o que estamos fazendo”?
this article analyzes some passages from the prologue to The Human Condition of Hannah Arendt and highlights some projections about the future. The purpose of the investigation is to follow the author's question about what "we are doing"? This monitoring points out that the scientific achievements of the time, in the middle of the 20th century, circumscribed the author's background. But, after more than half a century, this question asked by Arendt motivated by scientific achievements must be put back in a more up-to-date context. The article is dedicated to this update, to further deepen Arendt's main concerns with the future. The answer found after the development of the two-part text, still focusing on the "what are we doing?" question, reflects the technological and social dynamics of recent years. More precisely, the answer points to a worrying connection between the generation of artificiality and the "objectivity of the world."este artigo aborda algumas passagens do prólogo de A condição humana de Hannah Arendt e destaca algumas projeções sobre o futuro. O propósito da investigação é acompanhar a pergunta da autora sobre o que “estamos fazendo”? Este acompanhamento assinala que as realizações científicas daquela época, em meados do século XX, circunscreveram o contexto de fundo da autora. Mas, passados mais de meio século, esta pergunta feita por Arendt motivada pelas realizações científicas, deve ser recolocada em um contexto mais atualizado. O artigo se dedica a esta atualização, para tanto aprofunda as principais preocupações de Arendt com o futuro. A resposta encontrada após o desenvolvimento do texto em duas partes, ainda com o foco na pergunta sobre “o que estamos fazendo?”, reflete as dinâmicas tecnológicas e sociais dos anos mais recentes. De forma mais precisa, a resposta assinala uma preocupante ligação entre a geração de um artificialismo e a “objetividade do mundo”
O discurso feminista no cartesianismo de Poulain de la Barre
The work of Poulain de la Barre presents the effort on the issue of gender equality. His rationalist philosophy, anchored in cartesianism developed in his speeches, proposes overcoming prejudice, regarding the place of women in society, by demonstrating that this is a truth guided by the force of opinion and custom. With the use of reason and the scrutiny of nature, knowledge would overcome inequality established in the name of humanity's progress. This text seeks to discuss about his thesis and analyze how the female condition was approached by the French philosopher.A obra de Poulain de La Barre apresenta um empenho sobre a questão da igualdade entre os sexos. A filosofia racionalista, ancorada no cartesianismo desenvolvido em seus discursos, propõe uma superação do preconceito, no que tange ao lugar da mulher na sociedade, ao demonstrar ser essa uma verdade pautada na força da opinião e do costume. Com o uso da razão e o exame minucioso da natureza, o conhecimento permitiria superar a desigualdade instaurada em nome do progresso da humanidade. O presente texto busca discorrer acerca dessa tese e analisar como a condição feminina foi abordada pelo filósofo francês
Da coisa — de se a frequentam outras coisas
This project investigates the originality of the poetry of Alberto Caeiro, one of Fernando Pessoa’s heteronymous, within modern and contemporary thought. By combining an original experience of immediate reality, an unlearning of modern/metaphysic abstractions, and a language reconciled with things themselves, Caeiro's poetry can help transcend the dichotomies of modern thought, such those opposing subject and object. It can also solve some of the impasses of Merleau-Ponty's phenomenology, such as the articulation between body and nature, and the passage from a mute perceptual experience to language. Therefore, we consider the Caeirian experience of thing, body, language, and its denial of Reality understood as time and as desire.Propomos investigar a originalidade da poesia de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, frente ao pensamento moderno e contemporâneo. Ao aliar uma experiência original da realidade imediata, uma desaprendizagem das abstrações metafísicas/modernas e uma linguagem conciliada com as coisas elas mesmas, a poesia de Caeiro se mostra apta a figurar como uma superação possível das dicotomias características do pensamento moderno, como sujeito e objeto. Ela pode solucionar também os impasses da fenomenologia de Merleau-Ponty, como a articulação corpo e natureza e a passagem da experiência perceptiva muda à linguagem. Para tanto, consideramos pontualmente a experiência caeiriana da coisa, do corpo, da linguagem, e sua negação da Realidade como tempo e como desejo
Sociedade de consumidores e o desinteresse pela esfera pública: escravização invisível e a política instrumental em Hannah Arendt
Erecting the increase of wealth and abundance as a primary objective for the active vita was already devised as the axiomatic premise of classical political economy, as well as the idealized dream of the poor and dispossessed people. There was, however, a certain utopian hope that by living in a society with greater wealth the citizens would more fully seek the development of appropriate conscious abstention from labor and consumption in their free time, ie: free from pain and of the effort to work and to consume, the animal laborans would become productive for itself, nourishing itself with "superior" activities. However, how much free time the laborans has, the greater are their appetites for consumption, and more than that, an abundant society properly exposes the fallacy of that previous reasoning, since everything can be reified and marketed. This article intends to analyze the phenomenon of contemporary consumer society as a cog in the life cycle, describing why the citizens have just an instrumental policy in their own processes of labor and consumption. This alienation promotes the victory of animal laborans over zoon politikon.Erigir o aumento da riqueza e da abundância como um objetivo primordial para a vita activa já se desenhava como premissa axiomática da economia política clássica, além do sonho idealizado dos pobres e despossuídos. Havia, no entanto, certa esperança utópica de que, ao viver em uma sociedade com maior abastança, as pessoas cidadãs buscariam mais plenamente o desenvolvimento de apropriada abstenção consciente do trabalho e do consumo em seu tempo livre, ou seja: que isento da dor e do esforço de trabalhar e consumir, o animal laborans tornar-se-ia produtivo para si próprio, nutrindo-se de atividades “superiores”. No entanto, de quanto mais horas vagas dispõe o laborans, maiores são seus apetites de consumo e, sobretudo, uma sociedade abundante expõe devidamente a falácia do raciocínio anterior, uma vez que tudo pode ser reificado e comercializado. Esse artigo pretende analisar o fenômeno da sociedade de consumo contemporânea como engrenagem do ciclo vital, descrevendo de que modo, presas em seus próprios processos de trabalho e consumo, as pessoas cidadãs desfrutam apenas de uma política instrumental. Essa alienação promove a vitória do animal laborans sobre o zoon politikon