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Ethos discursivo e gênero social: Os desenvolvimentos críticos de um aparato conceitual-metodológico
In a recent publication, Dominique Maingueneau (2020) outlined the incompatibility between studies on discursive ethos and gender issues, stating that these should be linked to the disciplinary field of Conversation Analysis. Through a sense of estrangement, I describe the modes of conceptual and methodological articulation of self-images in discourse and the agencements of gendered subjectivities based on a corpus consisting of six scientific articles collected from three thematic dossiers published between 2018 and 2022. Drawing on Maingueneau\u27s works on ethos (1993, 2008a, 2008b, 2018, 2020) and the contributions of Butler (2019) and Preciado (2014) as an analytical standpoint, I conclude that the relationships between discursive ethos and gender studies move towards elucidating the discursive mechanisms that compress and reinvent gendered self-images, while simultaneously suggesting potential deepening through rearrangements in the situationalities of gender issues.Em recente publicação, Dominique Maingueneau (2020) delimitou a incompatibilidade entre os estudos em ethosdiscursivo e questões de gênero, afirmando que estas devem estar atreladas ao campo disciplinar da Análise da Conversação. A partir do estranhamento, descrevo os modos de articulação conceitual-metodológica das imagens de si no discurso e os agenciamentos de subjetividades generificadas a partir de um corpus composto por seis artigos científicos recolhidos de três dossiês temáticos publicados entre 2018 e 2022. Mediante os textos de Maingueneau sobre ethos (1993, 2008a, 2008b, 2018, 2020) e as contribuições de Butler (2019) e Preciado (2014) como mirante analítico, concluo que as relações entre ethos discursivo e estudos de gênero caminham em direção a elucidação dos mecanismos discursivos que comprimem e reinventam as imagens de si generificadas, ao mesmo tempo que poderiam ser aprofundadas com rearranjos às situacionalidades das questões de gênero
A Ilíada de Simone Weil
This article discusses the essay "L\u27Iliade ou le poème de la force" by Simone Weil (1940-1941) as an example of the reception of Homer\u27s Iliad. It starts from its central idea, which is then explored in a close reading of some of its passages, with emphasis on how Weil translates Homeric quotations. Although the essay has often been lauded or, even more commonly, criticized by Hellenists, it has rarely been the subject of a discussion focused on Homeric studies. The aim is to show that Weil’s composition, due to its radical, innovative and aesthetically captivating character, contributes to a dialog with the ancient poem. Perhaps no other author has argued as acutely as Weil that much more than a praise of martial heroism, Iliad is rather and paradoxically a document that reflects barbarity.Este artigo discute o ensaio "L\u27Iliade ou le poème de la force" de Simone Weil (1940-1941) como um exemplo de recepção da Ilíada de Homero. Parte-se de sua ideia central que então é explorada numa leitura atenta de algumas de suas passagens, com destaque para a forma como Weil traduz as citações homéricas. Embora o ensaio, da parte de helenistas, tenha muitas vezes recebido elogios ou, mais comumente, críticas, poucas vezes foi objeto de uma discussão focada nos estudos homéricos. Pretende-se mostrar que a composição de Weil, pelo seu caráter radical, inovador e esteticamente cativante contribui para um diálogo com o poema antigo. Talvez nenhum outro autor tenha defendido da forma aguda como o faz Weil que, muito mais que um elogio do heroísmo marcial, a Ilíada é antes e paradoxalmente um documento que reflete a barbárie
"Por que buscas em vão agarrar uma fugitiva imagem?": As Metamorfoses de Ovídio nos romances de James Joyce
This text proposes a reading of some excerpts from the novels A Portrait of the Artist as a Young Man and Ulysses, by James Joyce, in which there are references to myths narrated in Ovid’s Metamorphoses. The objective is to analyze the reasons why the protagonists’ novels are presented by Joyce as interlaced to three myths from Ovid’s Metamorphoses: the myth of goddess Diana and the myth of Narcissus, from book III; and the myth of Daedalus and Icarus, from book VIII.O presente texto propõe a leitura de excertos dos romances Um Retrato do Artista quando Jovem e Ulysses, de James Joyce, em que há referências a mitos narrados na obra Metamorfoses, de Ovídio. O objetivo é analisar as razões de os conflitos dos protagonistas dos romances serem apresentados, por Joyce, entrelaçados a três mitos das Metamorfoses,de Ovídio, a saber, o mito da deusa Diana e o mito de Narciso, do livro III; e o mito de Dédalo e Ícaro, do livro VIII
Witches, Liliths, and Fairies: Unusual Characters in Literature and Other Arts
O tema da bruxa nunca se esgota. Para esta edição da Revista Letras & Letras, recebemos dezenas de artigos. Ficamos surpresos com a quantidade de pesquisadores que se interessam pelas figuras das Liliths, fadas e feiticeiras. É um assunto que desperta entusiasmos e polêmicas. O leitor, com certeza, também se sentirá seduzido pelas interessantes reflexões em torno destas personagens insólitas. São ao todo 27 artigos (divididos neste volume 40 e no anterior, o v. 39), em que se mesclam, de forma original, a literatura, outras artes, a história, a psicanálise, os estudos culturais, os estudos de gênero e a teoria literária. Desejamos a todos e todas, boas leituras, durante este voo mágico com as bruxas!Witches have been an everlasting topic of interest. For this issue of Letras & Letras, we received dozens of manuscripts. We were surprised by the number of researchers who are interested in the figures of Liliths, fairies and witches. It is a subject that arouses enthusiasm and controversy. The reader will certainly be seduced by the interesting reflections surrounding these unusual characters. In total, 27 articles (divided into this vol.40 and the previous vol. 39) originally combine literature, other arts, history, psychoanalysis, cultural studies, gender studies and literary theory. May the reader enjoy this magical flight with the witches
A incerteza como método: “Negative capability” e a construção de ambiguidades imagéticas em “La Belle Dame sans Merci”, de John Keats
In the following pages, we explore the “rich set of ambiguities” in the poem “La Belle Dame sans Merci” by John Keats, starting with the presentation of the idea of “negative capability”, barely outlined by the poet, but with echoes in his poetry and reverberations in other times and places; passing through the figure of the Belle Dame sans Merci, its most accepted meanings, its essential ambiguity and some of its pictorial representation; ending in an exploratory conclusion, in which the notion outlined by Keats and practiced in his poetry may reflect its current relevance. It can be seen that John Keats works with ekphrasis in his poem with precision, highlighting its visuality, eliciting diverse reinterpretations in visual forms, so that we thus have a dialectic between the poetic image, full of constitutive uncertainties and pregnant with meanings, and the ekphrastic exercises derived from the poem over time. In this way, the exercise of “negative capacity” in the construction of the poem guarantees to the figures of the lady and the knight a symbolic opening that has been inspiring the pictorial imagination since the 19th century – as we see in the images read in the article.Nas páginas a seguir, exploraremos o “rico conjunto de ambiguidades” do poema “La Belle Dame sans Merci”, de John Keats, começando pela apresentação da ideia de “negative capability”, apenas esboçada pelo poeta, mas com ecos em sua poesia e reverberações em outros tempos e lugares; passando pela figura da Belle Dame sans Merci, seus sentidos mais aceitos, sua ambiguidade essencial e algumas de suas representações pictóricas; terminando em uma conclusão exploratória, em que a noção esboçada por Keats e praticada em sua poesia poderá versar sua atualidade. Pode-se perceber que John Keats trabalha com acuidade a écfrase em seu poema, destacando sua visualidade, suscitando releituras diversas em formas visuais, de modo que temos, assim, uma dialética entre a imagem poética, repleta de incertezas constitutivas e prenhe de significados, e os exercícios ecfrásticos derivados do poema ao longo dos tempos. Dessa maneira, o exercício da “capacidade negativa” na construção do poema garante às figuras da dama e do cavaleiro uma abertura simbólica que vem aguçando a imaginação pictórica desde o século XIX – como veremos nas imagens lidas no artigo
Da Ilha de Circe ao submundo de Hades
This essay approaches the witch Circe, as per her myth in Homer’s Odyssey and in the novel Circe by Madeline Miller (2019). According to the male voice in Homer’s chants and the main character’s own voice in the novel, we follow Circe in the hero Ulysses’ journey back to Ithaca, after the long and painful war between Achaeans and Trojans. From Gregory Nagy’s perspective of translation from Classic Greek to English, as posited in his lectures for the course “Ancient Greek Heroes” (2023) at Harvard University, we delve into the symbolism of the name Circe. We point to this symbolism when Ulysses goes to Hades’ underworld, passing by Circe’s Island, which entails the returning from darkness and death to light and life. Such a journey of the hero’s soul, symbolically from Circe’s Island to Hades’ underworld, teaches something about the witch exiled from Olympus.O presente ensaio aborda a feiticeira Circe, a partir da representação de seu mito na Odisseia de Homero e no romance contemporâneo Circe, de Madeline Miller (2019). Nas vozes do eu lírico masculino dos cantos homéricos e na da própria protagonista no romance, observamos Circe na jornada do herói em seu retorno à Ítaca, após a longa e penosa guerra entre aqueus e troianos. Sob a perspectiva da tradução da epopeia do grego clássico para o inglês, apresentada pelo Professor Gregory Nagy em seu curso “Antigos Heróis Gregos” (2023) na Universidade de Harvard, discorremos sobre o simbolismo do nome Circe. Nosso recorte evidencia esse simbolismo na descida de Ulisses ao submundo de Hades, pela ilha de Circe, como um despertar da escuridão e morte para a luz e a vida. Essa jornada da alma do herói, simbolicamente da ilha de Circe ao submundo de Hades, ensina algo sobre a feiticeira exilada do Olimpo
Francisco de Quevedo e Las nueve musas castellanas (1648): Clio e os homens ilustres
In this article, we seek to understand how Clio, one of the nine ancient muses and the protector of history, is appropriated by poet Francisco de Quevedo in the book Las nueve musas castellanas (1648). In this journey, we discuss the origin of the muses in archaic poems, their use in classical poetry, their relationship with art and history, and their appropriation by the Spanish poet in the 17th century in the creation of sonnets in the book.En este artículo, buscamos comprender cómo Clio, una de las nueve musas antiguas y protectora de la historia, es apropiada por el poeta Francisco de Quevedo en el libro "Las nueve musas castellanas" (1648). En este recorrido, discutiremos sobre el origen de las musas en los poemas arcaicos, su uso en la poesía clásica, su relación con el arte y la historia, y su apropiación por parte del español en el siglo XVII, en la producción de los sonetos del libro.Buscamos, neste artigo, compreender como Clio, uma das nove musas antigas e protetora da história, é apropriada pelo poeta Francisco de Quevedo no livro Las nueve musas castellanas (1648). Neste percurso, discorreremos sobre a origem das musas nos poemas arcaicos, seu emprego na poesia clássica, sua relação com a arte e com a história e sua apropriação pelo espanhol no século XVII, na produção dos sonetos do livro
O saber e o sabor do texto literário: Uma experiência com Tchau, de Lygia Bojunga
This article aims to present a didactic proposal applied in an initial class of Elementary School 2 at Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues Silveira/CAp UERJ. It was based on a critical reading of the book Tchau, by Lygia Bojunga (2021), conducted in the classroom. The pedagogical perspective of the activity led us to reflections and theoretical notes on reading literary texts, considering the association between Literature and Linguistics as an important tool for teaching the mother tongue. In this sense, we deal with the impacts of Literature on the reading and cultural formation of 6th-grade students, in addition to reflecting on its role in relation to aspects of psycho-affective development in the transition phase from childhood to adolescence. We highlight the urgent defense of reading literary texts in basic education as a privileged source for the linguistic-discursive emancipation of students, because it ultimately emerges as a symbolic potential for emancipation and recognition of oneself and the world.O trabalho em questão tem por objetivo apresentar proposta didática aplicada em turma inicial do Ensino Fundamental 2, no Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues Silveira/CAp UERJ, a partir da leitura crítica, feita em sala de aula, do livro Tchau, de Lygia Bojunga (2021). A perspectiva pedagógica da atividade encaminhou-nos para reflexões e apontamentos teóricos sobre a leitura do texto literário, considerando a associação entre Literatura e Linguística importante ferramenta para o ensino de língua materna. Nesse sentido, tratamos dos impactos da Literatura para a formação leitora e cultural de estudantes do 6º ano, além de refletir sobre o seu papel no tocante a aspectos do desenvolvimento psicoafetivo na fase de transição da infância para adolescência. Destacamos a defesa premente da leitura do texto literário na educação básica, como fonte privilegiada para a emancipação linguístico-discursiva dos estudantes, porque, antes, configura-se como potencialidade simbólica para emancipação e reconhecimento de si próprio e do mundo
Uma retradução feminista da peça As Troianas de Sêneca
Seneca’s Trojan Women is set in a prison camp on trojan territory, after the melee of the Trojan War. The reading of the play proposes that the Trojan women, led by Queen Hecuba, fight their last battle, using the voice they have left in the prison camp as a weapon. This article presents excerpts from the feminist retranslation of the play Trojan Women, in order to propose both a critical approach to the reception of works from Greco-Roman antiquity and a translation that makes explicit the violent themes from the source text. This approach promotes transdisciplinarity amongst Classical Reception Studies, Feminist Translation Studies and Critical Gender, Race and Sexuality Studies, proposing an engaged perspective for the critical classical reception studies and challenging the marks of eurocentrism, colonialism, and above all, sexism in classical texts.As troianas
de Sêneca é ambientada no campo de prisioneiras em solo troiano, após o conflito corpo a corpo da guerra de Troia. A leitura da peça propõe que as mulheres troianas, lideradas pela rainha Hécuba, travem o último combate, usando como arma a voz que ainda lhes resta no campo de prisioneiras. O presente artigo apresenta trechos da retradução feminista da peça As troianas, a fim de propor uma abordagem crítica de recepção das obras da Antiguidade greco-romana, bem como propor uma tradução que explicite temáticas violentas presentes no texto de partida. Esta abordagem promove a transdisciplinaridade entre os Estudos de Recepção dos Clássicos, os Estudos Feministas da Tradução e os Estudos Críticos de Gênero, de Raça e de Sexualidade, propondo uma perspectiva engajada para a recepção crítica dos Estudos Clássicos e desafiando as marcas do eurocentrismo, do colonialismo e, principalmente, do sexismo nos textos clássicos
Eva, Pandora e a criação da mulher nas culturas judaico-cristã e grega: Uma leitura comparada
The female figure is one of the most explored aspects in literature, and in several cultures its origin is shrouded in mist: Eve, Pandora, Saravasti, Embla, there are several possibilities depending on where one looks for. In this article, considerations are made about both Eve (the first woman created according to the Judeo-Christian vision, by using the Holy Bible as its main bibliographic source, specifically chapters 1, 2 and 3 of the book of Genesis) and Pandora (the first woman created according to the Greek vision, by using as main bibliographical sources two works by Hesiod: Theogony, and Works and days). The objective is not to make a value judgment regarding the feminine origins narrated by both peoples, but to make comparisons, verifying their similarities and differences, in considering by Marcel Detiene’s thought formulated in “Comparar o Incomparável”.A figura feminina é um dos aspectos mais explorados na literatura, e em diversas culturas sua origem está envolta em uma névoa: Eva, Pandora, Saravasti, Embla, diversas são as possibilidades a depender do local onde você procure. Neste artigo, são tecidas considerações acerca de Eva, a primeira mulher criada segundo a visão judaico-cristã, tendo como fonte bibliográfica principal a Bíblia Sagrada, especificamente os capítulos 1, 2 e 3 do livro de Gênesis; e Pandora, a primeira mulher criada segundo a visão grega, usando como principais fontes bibliográficas duas obras de Hesíodo: Teogonia; e Os trabalhos e os dias. O objetivo deste artigo não é fazer juízo de valor quanto às origens femininas narradas por ambos os povos, mas tecer comparações, verificando suas semelhanças e suas diferenças, considerando o pensamento formulado por Marcel Detiene, em “Comparar o Incomparável”