University of Pernambuco - Engineering School/ Editorial System Journals
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A viabilidade econômica e ambiental da substituição parcial do cimento por pó da concha do sururu (Mytella falcata) na produção de compósitos cimentícios
O setor da construção civil em 2023 foi responsável por consumir mais da metade dos recursos naturais extraídos globalmente e por aproximadamente 34% das emissões mundiais de dióxido de carbono (CO₂) (UNEP, 2025). A produção de cimento utiliza intensivamente energia e recursos, que contribui com aproximadamente 5% a 7% das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂), sendo a quarta maior fonte de emissões antropogênicas, após petróleo, carvão e gás natural. (Wu; Lu; He, 2024; Soltanzadeh et al., 2021). Com o crescimento da indústria do cimento, tornou-se fundamental reduzir estas emissões. Outra problemática ambiental é a destinação inadequada de resíduos, a exemplo do grande volume de conchas gerado pela pesca, especialmente a artesanal, que causa problemas socioambientais como riscos à saúde, poluição visual, odores, assoreamento de rios e desequilíbrio de manguezais. (Luo et al., 2024) Pesquisas indicam que a substituição parcial do cimento por pó de concha de ostra, composto principalmente por carbonato de cálcio, é uma alternativa viável e promissora. Essa abordagem pode reduzir o consumo de cimento convencional, diminuir os custos de produção, contribuir para a sustentabilidade ambiental, promover o uso sustentável de resíduos marinhos e melhorar as propriedades e o desempenho do concreto. (Soltanzadeh et al., 2021; Lertwattanaruk et al., 2012; Luo et al., 2024; Shao et al., 2024). De acordo com Know; Wang (2024), os resultados das pesquisas indicam que a emissão de CO₂ do cimento é 0,86 (kg/kg), pó de concha 0,001784 (kg/kg), a água 0,000196 (kg/kg) e areia 0,003 (kg/kg). Diante desse panorama, este artigo tem como objetivo comparar a emissão de CO₂ em compósitos cimentícios que utilizam a substituição parcial por pó de concha e outras substâncias. A pesquisa busca quantificar a potencial redução de CO₂ alcançada pela inclusão desses materiais, visando mitigar os impactos ambientais na indústria da construção. A metodologia adotada foi o desenvolvimento de um modelo estatístico de regressão múltipla, baseado em 71 observações de cinco artigos científicos, para analisar a influência de cada variável na redução total de emissão de CO₂. As variáveis explicativas, que correspondem às quantidades em Kg/m³ de cimento, pó de concha e outros materiais adicionados, foram avaliadas em relação à variável dependente, que é o percentual de redução de CO₂. O modelo obtido indica que a quantidade de cimento está relacionada ao aumento das emissões de CO₂, enquanto a presença de pó de concha e outros materiais na mistura contribui para a redução dessas emissões. Os resultados demonstraram que a substituição parcial do cimento por pó de conchas e outros elementos pode promover uma significativa redução na emissão de CO₂.O modelo explicou aproximadamente 45% da variação na redução de CO₂, destacando que o aumento na quantidade de pó de concha e outros elementos está associado a uma maior eficiência na redução de emissões. Dessa forma, conclui-se que nos estudos analisados o pó de concha contribui com cerca de 12,1% de redução de CO₂ por kg/m³ adicionado, enquanto outros elementos contribuem com cerca de 5%. Recomenda-se a elaboração de uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL) para avaliar o impacto ambiental e econômico da substituição do cimento por pó de concha de sururu. Essa revisão deve focar na avaliação das emissões de CO₂ em misturas cimentícias com adição de pó de concha, comparando com a resistência dos materiais e custos financeiros nos diversos percentuais de substituição. Além da Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), conforme as normas NBR ISO 14001/2015, NBR ISO 14025, NBR ISO 14040/2014 e NBR ISO 14044/2014, a fim de avaliar o desempenho ambiental de produtos ao longo de todo o seu ciclo de vida, desde a extração até a disposição final. A ACV, no caso do cimento, permite comparar soluções alternativas mais sustentáveis (Soltanzadeh et al., 2020). A metodologia envolverá quatro etapas: definição do objetivo e escopo, análise do inventário (IC), avaliação dos impactos e interpretação dos resultados. A etapa de inventário consistirá na coleta de dados sobre fluxos de matérias-primas, energia, emissões e resíduos ao longo do ciclo de vida, que são utilizados na avaliação de impacto ambiental. (ABNT, 2014a.; ABNT, 2014b.). A metodologia de caracterização na ACV consistirá na seleção de categorias de impacto, como aquecimento global, acidificação e eutrofização, e na aplicação de fatores que convertem as entradas e saídas do sistema em unidades de impacto, permitindo avaliar principalmente as emissões de gases de efeito estufa, o consumo de recursos e os potenciais efeitos tóxicos. Por fim, será realizada a avaliação dos impactos ambientais e econômicos da substituição parcial do cimento por pó de concha de sururu (Mytella falcata), não calcinada, oferecendo uma solução sustentável para a destinação do resíduo, oriundo da comunidade Ilha de Deus, Recife-PE, na produção de compósitos cimentícios (pasta, argamassa ou concreto) com diferentes teores de substituição a saber: (5%, 10% e 15%). Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, ODS 12 (Consumo e produção responsáveis), o ODS 9 (Indústria e inovação), ODS 11 (Cidades e comunidades sustentáveis) e o ODS 13 (Ação contra a mudança climática), ao propor o uso do pó de concha de sururu como solução econômica e ambientalmente viável para o setor da construção
Identificação das patologias presentes nas fachadas de uma edificação pernambucana
A Cidade do Recife foi fundada no ano de 1537, como uma vila de comerciantes e antes de ser ocupada, possuía uma grande importância nacional e internacional por ser o porto mais movimentado da América portuguesa por volta do século XVII (Ancoradouro, 2020). Assim, o estudo girou em torno da edificação histórica, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Recife, localizada no Bairro de Santo Antônio no Recife, devido sua importância histórica e social da edificação e pelo visível estado de degradação do monumento. O município do Recife enfrenta problemas relacionados às precipitações, principalmente no período de abril a julho, que se caracteriza como de maior pluviosidade (WANDERLEY et al., 2018). Por isso, fez-se necessário uma elaboração de um estudo por meio de inspeções presenciais e foi realizado registros fotográficos das manifestações patológicas encontradas, contribuindo para identificar os problemas e para posterior ações de manutenção e valorização da edificação. A fachada oeste, correspondente à lateral esquerda da edificação, apresentou manifestações patológicas significativas, sendo as mais expressivas as manchas de umidade, ocasionadas pela ação das chuvas e dos ventos. Também foram identificadas marcas de vandalismo nessa fachada, especialmente nas regiões inferiores, onde a facilidade de acesso favorece a ocorrência desse tipo de intervenção danosa. Outra manifestação patológica observada foi a corrosão das grades das janelas, resultando na perda progressiva de material. Essa deterioração está diretamente associada à localização da edificação, próxima ao mar, e ao clima tropical quente e úmido característico da cidade do Recife. A presença constante da maresia favorece processos de oxidação nas estruturas metálicas do conjunto arquitetônico, sobretudo nas esquadrias de ferro, comprometendo a integridade e a durabilidade dos elementos afetados. Já na fachada frontal, correspondente à fachada principal da igreja, foram identificadas marcas de vandalismo, uma manifestação patológica recorrente em edificações localizadas nas regiões centrais urbanas. Além disso, observaram-se manchas de umidade, patologia frequente em fachadas expostas à elevada incidência de chuvas e à ação dos ventos, conforme apontado por Mazer et al. (2016). Na torre sineira, verificou-se a presença de sujidades sobre as cantarias, atribuída à própria configuração arquitetônica da estrutura. Por estar situada no topo da edificação, essa área apresenta dificuldades de acesso, o que dificulta a realização de limpezas e manutenções periódicas. Também foi constatado o desgaste do material original na fachada, manifestado por quebras e deteriorações, resultado tanto da longa vida útil da edificação, em funcionamento contínuo há quase 300 anos, quanto da ausência de um plano de manutenção preventiva, intervenções indevidas e da grande lacuna entre as intervenções de restauro. Por fim, destaca-se que a fachada frontal (norte) sofre maior impacto dos agentes climáticos, especialmente por sua orientação perpendicular e proximidade com o mar. Tal exposição intensifica os danos estruturais em comparação às demais fachadas do edifício. Vale ressaltar que as demais fachadas são inacessíveis e possuem abertura para o meio externo junto a outras edificações, impossibilitando de realizar o estudo de modo a completar todas as quatro fachadas. Sendo assim, a manutenção preventiva nas edificações tombadas previne e conserva por tempo mais prologado a edificação. Porém, o monumento do estudo foi restaurado há mais de 17 anos e desde então não houve restaurações, somente pinturas superficiais nas paredes e manutenções emergenciais. Assim, a igreja demonstrou a necessidade de maiores cuidados e conservação, para que a estrutura continue mantendo sua finalidade social, artística e cultural na sociedade
Fotogrametria como ferramenta para mapa de danos em azulejos: Estudo de caso em uma fachada do Bloco A da Escola Politécnica da UPE
A preservação de edificações históricas é fundamental na manutenção da memória cultural e na valorização do patrimônio arquitetônico. No entanto, a busca por ações voltadas para a conservação ainda enfrenta desafios, sobretudo quando se trata de registros técnicos precisos e atualizados, esbarrando em uma ausência considerável, especialmente no que se refere a detalhes construtivos e desenhos originais, em consonância com recomendações que apontam a necessidade de inventários e disponibilização sistemática de informações (Duarte Júnior, 2010). Esse cenário compromete a eficácia das intervenções e escancara as limitações dos métodos tradicionais de levantamento, que por muitas vezes não tem a precisão necessária para uma boa avaliação em estruturas complexas ou degradadas. Nesse contexto, a fotogrametria digital, técnica muito usada em áreas como cartografia e topografia, surge como uma alternativa promissora, capaz de gerar modelos tridimensionais tanto de objetos, como ambientes com maiores detalhes sendo cada vez mais inserida em ambientes de realidade virtual e aumentada (Al-Ruzouq et al., 2023) e auxiliar no diagnóstico das patologias construtivas. A técnica é, sumariamente, empregada para documentações, sendo capaz de registrar texturas com acurácia de ordem milimétrica, quando comparada a tecnologias correlatas, segundo Fawzy (2019). Vale salientar que um dos principais desafios está na captura dessas imagens, pela necessidade de uma maior simetria horizontal e da menor curvatura nas colunas verticais, tornando quase impossível obter tal enquadramento em um ambiente não controlado (Soycan, A.; Soycan, M., 2018). Este estudo aplicou essa técnica à fachada Norte do Bloco A da Escola Politécnica, na Universidade de Pernambuco, edifício eclético do século XIX revestido por aproximadamente 3.655 azulejos portugueses lisos de 10x10 cm de dimensões e raros no acervo pernambucano da época. O objetivo foi avaliar o processo de mapeamento dos danos e sua precisão diagnóstica. Além disso, a pesquisa se propõe a analisar a produtividade e limitações da ferramenta usada, identificando as lacunas existentes na aplicação e traçar estratégias que possam melhorar ainda mais os resultados. A pesquisa se justifica pela ausência de documentos técnicos mais atualizados sobre edificações históricas, e na introdução de formas mais precisas e assertivas no levantamento do patrimônio edificado. Para isso, inicialmente foi realizada uma inspeção in loco de caracterização da edificação, com o levantamento de informações destinadas ao preenchimento de uma Ficha de Identificação de Danos (FID). Foram observados aspectos de exposição da fachada (orientação, incidência solar, cobertura etc.), complementados por informações de origem, data, quanto a técnica de produção, frequência de manutenções e manifestações patológicas identificadas. O levantamento fotogramétrico foi realizado com auxílio de um drone modelo DJI Mini 4 Pro, que executou varredura ortogonal de toda a fachada norte, a uma distância padrão de 1,20m. A segunda etapa iniciou no processamento das imagens no software MetaShape, e com a formação da nuvem de pontos e posterior aplicação de textura, o ortomosaico da fachada em questão foi exportado em escala real para o AutoCAD, onde foi possível delinear precisamente cada peça azulejar que compõe a fachada. Para melhor compreensão da severidade e profundidade dos danos, hachuras distintas para os problemas identificados no vidrado, chacota e base suporte do revestimento foram aplicadas. De modo geral, os danos concentram-se predominantemente no vidrado, com gretamento generalizado, alteração cromática e perda parcial, representando cerca de 37% do total das peças da fachada. Painéis seculares, com juntas irregulares e reposições pontuais, costumam desafiar traçados automáticos que padronizam módulos; a fotogrametria, contudo, registrou variações de planeza e deslocamentos de peças, produzindo mapa de danos geométrico e metricamente consistente. Nesse sentido, a metodologia adotada no mapeamento permitiu: (i) quantificar o universo total de azulejos danificados, (ii) destacar as peças passíveis de recuperação (limpeza, consolidação ou reaplicação de argamassa colante), (iii) identificar as que exigem substituição para restabelecer o desempenho do subsistema de revestimento. Além disso, os dados mais precisos subsidiam estimativas de insumos, projeções periódicas de intervenções e priorização das medidas preventivas. No entanto, coberturas reflexivas, como o vidrado, sofrem com a iluminação desigual que, por sua vez, prejudicam interpretações, podendo mascarar manchas e descolorações nas peças. Para mitigar estes efeitos, recomenda-se garantir sobreposição fotográfica de, pelo menos, 65%-70%, além de planejar o levantamento em dias e horários cujos fatores ambientais e obstáculos no entorno possam ser previstos, reduzindo variabilidades na captura do objeto. Os achados demonstram que a fotogrametria, integrada à FID, fornece uma base métrica rigorosa e expõe padrões de degradação muitas vezes imperceptíveis durante a inspeção de campo, permitindo analisá-los com mais precisão e conforto a partir dos ortomosaicos gerados. O protocolo adotado mostrou-se replicável a outros conjuntos azulejares, fortalecendo rotinas de documentação e planos de manutenção preventiva e corretiva do patrimônio edificado. No entanto, cabe ressaltar que a fotogrametria pode ser limitada em situações de espaços restritos por cobertura vegetal ou edificações vizinhas
Uso de geotecnologias para a caracterização fisiográfica de condicionantes a deslizamentos em um município da Região Metropolitana do Recife.
Os deslizamentos de terra são um dos perigos mais destrutivos em todo o mundo, principalmente, em países de climas tropicais como o Brasil, causando fatalidades e perdas econômicas (Dias; Grohmann, 2024; Yu; Pradhan; Wang, 2025). Segundo Rehman et al. (2022) e Pfaltzgraff; Torres (2024) e Araújo et al. (2025), o rápido desenvolvimento urbano intensificou a alteração dos ambientes naturais, criando um cenário de insustentabilidade urbana, haja vista, o aumento de moradias em áreas de risco socioambientais. Nesse contexto, o conhecimento do ambiente físico torna-se essencial para o planejamento da ocupação do espaço de modo sustentável (Rocha et al., 2023). O geoprocessamento é uma ferramenta poderosa que realiza a cobertura de áreas extensas sob qualidade geométrica e radiométrica. Dessa maneira, graças ao avanço da tecnologia, é possível compilar uma série de dados de modo a obter características espaciais pelo sensoriamento remoto e uso de Sistemas de Informações Geográficas, vindo a ser de grande relevância para elaboração de mapas de caracterização de áreas (Gaida et al., 2020; Huang et al., 2021; Tavares et al., 2024). Essa investigação tem como objetivo analisar a fisiografia dos fatores condicionantes a movimentos de massa em um município localizado na Região Metropolitana do Recife (RMR), de modo a integrar dados por meio de geotecnologias. Como metodologia, realizou-se um levantamento bibliográfico em todas as etapas da pesquisa, para obtenção de informações análogas à área de estudo. Além disso, foram selecionados 2 critérios condicionantes a deslizamentos, cujos dados espaciais foram coletados por meio de plataformas virtuais de órgãos oficiais para que, em seguida, fossem processados pelo software QGIS, versão 3.32, em coordenada UTM de fuso 25S no Sistema de Referência Geocêntrico para as Américas (SIRGAS 2000). Como resultado, com o intuito de retratar o comportamento do município em estudo, no tocante aos fatores que condicionam a geração de cenários de risco a escorregamentos de terra, foram obtidos 2 mapas temáticos, sendo eles, o mapa hipsométrico e o de uso e cobertura do solo. Conclui-se que o uso da técnica de mapeamento para análise fisiográfica do município pertencente a RMR mostrou-se eficaz quanto sua aplicabilidade, tendo em vista seu baixo custo de aquisição, boa acessibilidade para o processamento de dados, além de permitir a análise de regiões de difícil acesso. Ademais, a obtenção de tais mapas temáticos servem de subsídio para mapeamentos de riscos a deslizamentos, sendo uma ferramenta imprescindível na compreensão do comportamento da região, na elaboração de planos de mitigações e no monitoramento das áreas de riscos.
Palavras-chave: Áreas de risco; Deslizamentos; SIG.
 
Caracterização de materiais e sistemas construtivos em edificações históricas
A conservação e preservação do patrimônio histórico edificado é um tema que vem se ampliando e se complexificando desde o século XIX e que, na atualidade, ganha contornos cada vez mais amplos. Os estudos acerca da salvaguarda do acervo patrimonial das cidades brasileiras são realizados por diversas áreas de atuação acadêmica e profissional, sempre visando a preservação da memória arquitetônica da sociedade e de sua cultura construtiva. Os diversos órgãos de preservação, que tem como representação máxima o Instituto do Patrimônio Histórico de Artístico Nacional (Iphan), estabelecem diretrizes, parâmetros e recomendações normativas e legais para orientar proprietários, arquitetos, engenheiros e demais profissionais da área a lidar adequadamente com os edifícios históricos. Tais órgãos, assim como estudiosos da área, como Choay (2017), Lemos (1981) e Vieira-de-Araújo (2025) salientam o caráter científico da preservação do patrimônio material, justificando que, ao longo de toda a história, os avanços e as inovações, inclusive na construção civil, se deram não apenas pelos auspícios dos desenvolvedores, pesquisadores e profissionais, mas também pela observação empírica, criteriosa, das edificações existentes, de suas técnicas, materiais, compartimentação, funcionalidade e estética. Benevolo (2019) comenta que, no século XV, uma das maiores cúpulas do mundo só foi viabilizada graças ao estudo minucioso das propriedades estruturais da forma arqueada, utilizada desde séculos antes de Cristo, mas em menores dimensões e para outras finalidades. Desta forma, é consenso no campo do patrimônio que preservar o acervo edificado vai além da perpetuação da memória, coletiva ou individual, mas adquire também um caráter pedagógico, no sentido de que os desenvolvimentos do presente podem ocorrer com o entendimento do passado. Diante disso, entre os avanços normativos e legais empreendidos pelos órgãos de preservação está a exigência da elaboração de estudos pormenorizados dos edifícios que serão objeto de restauro. Entre esses estudos, o Iphan (2005) estabelece que, dentre as etapas para a elaboração de um projeto de intervenção, cabe ao profissional realização da identificação dos materiais e dos sistemas construtivos empregados nas edificações, que contribui para a formulação de medidas de proteção e enfrentamento de manifestações patológicas, permitindo a leitura de sua evolução histórica e a inserção no espaço urbano. Diante disso, a presente pesquisa visa caracterizar a diversidade e a ocorrência de materiais de revestimento das fachadas dos edifícios históricos do bairro do Recife, mais especificamente na área delimitada pelo polígono de tombamento federal, estabelecido pelo Iphan-PE. O objetivo geral da pesquisa é identificar e quantificar a ocorrência de materiais de revestimento existentes nestas fachadas. Os objetivos específicos são identificar, também, elementos de composição de fachada, período de construção, estilo arquitetônico, entre outros aspectos. A pesquisa visa contribuir para o mapeamento técnico do patrimônio edificado local, fornecendo subsídios para futuras intervenções de preservação, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial o item 11.4 da ODS 11, que enfatiza a necessidade de intensificar esforços voltados à proteção e valorização dos patrimônios culturais e naturais, além de constituir um documento de referência para órgãos responsáveis pela salvaguarda do patrimônio histórico. Metodologicamente, a pesquisa se classifica como uma pesquisa de campo, com abordagem quali – quantitativa. Durante a etapa de campo, foi aplicado um roteiro de análise padronizado, que permitiu o registro sistemático das características arquitetônicas e construtivas por meio de inspeção visual e registro fotográfico. As informações coletadas foram organizadas em fichas individuais para cada edificação analisada, com o intuito de compor um banco de dados que possibilite análises comparativas entre os imóveis. Atualmente, a pesquisa ainda está em andamento e, como resultado preliminar, foram escolhidas as edificações localizadas na Rua do Bom Jesus como recorte específico para análise, considerando sua relevância histórica, estado de preservação e representatividade dentro do conjunto arquitetônico do Bairro do Recife. Com isso, constatou-se a predominância de revestimentos em argamassa nas fachadas, presentes em 55 das 25 edificações analisadas. Um dado que chama atenção recorrência do granilite, presente em 11 fachadas, sendo o segundo revestimento mais comum, que é pouco citado nos manuais técnicos e normativos. Esse estudo consolida a compreensão de que este revestimento não só era o mais utilizado na época de construção desses edifícios, como contribui para as análises de projetos de restauro por parte dos órgãos de preservação, no sentido de elaborar diretrizes acerca de restauro dos revestimentos e da adoção de novo revestimentos em edifícios passíveis de alteração de fachada
Modelo de Plano de Inspeções para Conservação do Patrimônio Ferroviário
As grandes fortificações, muralhas, templos e mercados públicos são exemplares de obras que colaboraram com a estruturação de diferentes povos e que testemunham dos traços de diferentes culturas que surgiram ao longo do tempo, passando a assumir na atualidade, em muitos casos, a posição de patrimônio cultural. No âmbito nacional, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) atua por meio de diferentes instrumentos de proteção e de reconhecimento do patrimônio cultural brasileiro, como a Valoração do Patrimônio Cultural Ferroviário, a Chancela da Paisagem Cultural e o Tombamento, que detém um universo de bens materiais que alcança um número da ordem de milhar (IPHAN, 2025a). Por outro lado, esse acervo enfrenta ao longo dos anos os efeitos de diferentes processos de degradação. Em acordo com Zanirato e Cavicchioli (2013), esses processos promovem transformações lentas e são comumente referenciados como o envelhecimento dos bens. Apesar da indústria da construção civil contemporânea deter diversos parâmetros normativos e técnico-científicos exaustivos relacionados à manutenção e desempenho de edificações, a conservação de bens culturais demanda especial atenção, o que tem sido consolidado principalmente através das Cartas Patrimoniais, tais quais a Carta de Atenas e a Carta de Veneza, que exploraram o campo da preservação e da conservação de bens históricos (ICOMOS, 1931, 1964). Dentre o patrimônio acautelado pelo IPHAN, se destacam aqueles que integram a Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário, composta por mais de 640 itens (IPHAN, 2025b). Esses bens podem ser classificados como patrimônio industrial, os quais constituem uma temática abordada há algumas décadas no âmbito internacional, através de produções como a Carta de Nizhny Tagil e os Princípios de Dublin (Freire, 2017). Dessa forma, considerando as particularidades do patrimônio cultural ferroviário brasileiro, composto por bens móveis e imóveis (como pátios operacionais, estações, edificações de apoio, etc.), bem como os atributos intangíveis associados à composição sistêmica desses bens e à memória ferroviária a eles atrelada, se compreende a importância da construção de planos e ações que permitam a sua preservação, fundamentada em princípios de conservação preventiva, promovendo condições que minimizem as demandas de intervenções invasivas e custosas. Nesse contexto, o presente trabalho objetiva o desenvolvimento de um modelo de plano de inspeções do estado de conservação de edificações reconhecidas como Patrimônio Cultural Ferroviário do Brasil, levando em conta as suas singularidades, embasado na legislação nacional vigente, nas doutrinas da conservação patrimonial, em especial do contexto industrial, assim como no produto de consultas bibliográficas, sendo caracterizada como uma pesquisa aplicada de abordagem qualitativa que permitirá o desenvolvimento de modelos de ferramentas, incluindo a aplicação como estudo de caso na Estação do Brum, situada no Recife/PE. Segundo o International Council of Museums - Committee for Conservation (2008), a conservação abrange a conservação preventiva, a conservação corretiva e a restauração, de forma que todas as ações e medidas adotadas devem respeitar a significância do patrimônio e suas propriedades físicas. Diante do exposto e dos riscos vivenciados no cenário do patrimônio industrial, os planos de conservação têm sido utilizados como ferramenta basilar em diferentes países no contexto internacional (IPCE, 2011). As características do patrimônio ferroviário brasileiro e os princípios da conservação preventiva estruturam as ações que integram o desenvolvimento do plano de inspeções proposto, considerando os atributos de natureza tangível e intangível incorporados aos bens valorados. Periodicidade de realização e o detalhamento dos elementos que devem ser submetidos às inspeções, bem como fichas de avaliação para cada tipo de inspeção programada, constituem as ferramentas desenvolvidas com vistas na composição do plano de inspeções, que será aplicado ao estudo de caso da Estação do Brum, primeira estação construída no Brasil pela The Great Western of Brazil Railway Company Limited (GWBR), inaugurada em 1881, além de ser o primeiro bem valorado pernambucano sobre o qual também incide o tombamento (IPHAN, 2025c). Logo, a construção do plano de inspeções proposto, fundamentado em práticas da conservação preventiva e a aplicação sobre a Estação Ferroviária do Brum, em caráter de estudo de caso, constituem os principais resultados esperados, com vistas no fomento de práticas conservativas de menor impacto sobre o bem e que demandem menores investimentos de recursos, garantindo a valorização e a preservação do patrimônio cultural ferroviário brasileiro
Análise do resfriamento de uma bateria de íons de lítio por materiais de mudança de fase
O avanço e a viabilidade dos veículos elétricos estão intrinsecamente ligados ao desempenho e à vida útil de seus sistemas de armazenamento de energia, compostos predominantemente por baterias de íons de lítio. Embora as baterias de íons de lítio ofereçam alta densidade energética, permitindo que veículos elétricos alcancem autonomias maiores e designs compactos, seu desempenho e longevidade são significativamente influenciados pelas temperaturas em que operam. Temperaturas elevadas podem acelerar reações químicas indesejáveis dentro das células da bateria, levando a degradação mais rápida, perda de capacidade e riscos à segurança, como descontrole térmico. Qin et al. (2019) relataram que o gerenciamento térmico inadequado pode levar a temperaturas elevadas, que desencadeiam reações químicas indesejáveis e aceleram a degradação dos componentes da célula, comprometendo, em última análise, a capacidade de armazenamento e a segurança do sistema. A busca por soluções de resfriamento eficientes é, portanto, crucial. Entre as diversas abordagens, o uso de Materiais de Mudança de Fases (MMFs) surgiu como uma solução promissora devido à sua capacidade de absorver grandes quantidades de calor latente a uma temperatura constante durante o processo de fusão. Portanto, o principal objetivo deste trabalho é realizar uma análise aprofundada do comportamento térmico de uma bateria de íons de lítio quando seu resfriamento é assistido por um MMF, avaliando a viabilidade e a segurança dessa aplicação em veículos elétricos. Para atingir esse objetivo, objetivos específicos foram delineados, incluindo a realização de uma revisão bibliográfica sobre armazenamento de energia e transferência de calor em sistemas de baterias; o desenvolvimento de um modelo matemático para descrever a dinâmica do sistema; a avaliação numérica dos perfis de temperatura e do impacto do MMF no resfriamento; a validação dos resultados por meio da comparação com dados disponíveis na literatura; e a divulgação dos resultados por meio de um artigo científico. Simulações numéricas foram realizadas para modelar o comportamento térmico em diversos cenários, variando materiais de mudança de fase, geometrias e a presença ou ausência de convecção forçada de ar. O modelo resolveu equações de conservação de energia, massa e momento, juntamente com o processo de mudança de fase do MMF. As condições de contorno e as propriedades dos materiais foram baseadas em dados da literatura especializada. Por fim, parâmetros como temperatura máxima, uniformidade térmica e eficiência de resfriamento foram extraídos para cada configuração. A análise demonstrou que o sistema de gerenciamento térmico do MMF reduziu efetivamente a temperatura máxima no conjunto de baterias, que consiste em células conectadas em série ou paralelo, mesmo sob altas taxas de descarga, mitigando assim o risco de superaquecimento. Comparações entre o sistema convencional (somente MMF) e o sistema híbrido (MMF combinado com convecção forçada de ar) mostraram que a abordagem híbrida reduziu significativamente as temperaturas de pico e melhorou a uniformidade térmica em todo o módulo. Esses resultados indicam que o sistema híbrido de gerenciamento térmico é uma estratégia altamente eficaz e viável para controlar a temperatura de baterias de íons de lítio (Khan et al., 2024; Panchal et al., 2018). A abordagem proposta demonstrou a capacidade de manter as temperaturas das células em níveis seguros e garantir uniformidade em toda a embalagem, mitigando assim picos de temperatura que contribuem para a degradação. Esses resultados corroboram os achados de outros estudos, que defendem os sistemas híbridos como a solução mais robusta para dissipar o calor acumulado em MMFs sob condições extremas
Métodos de Reforço para Prédios tipo “Caixão” na RMR: Abordagem Integrada
Os últimos anos, a Região Metropolitana do Recife tem vivenciado episódios trágicos que evidenciam a fragilidade estrutural das alvenarias resistentes do tipo "caixão": no Edifício Leme, em Olinda (2023), onde 27 pessoas perderam a vida (Diário de Pernambuco, 2025); no desabamento parcial do bloco D7 do Conjunto Beira Mar, em Paulista (2023) (G1, 2025); e, mais recentemente, em Jaboatão dos Guararapes (2025) (Folha de Pernambuco, 2025), restando clara a necessidade urgente de diagnósticos preventivos e intervenções de reforço adequadas a essas edificações, popularmente conhecidas como "prédios caixão", executadas foram executadas sem fundamentação tecnológica e sem observância da NBR 10837/89 (Oliveira et al., 2012) e se caracterizam pelo uso de blocos cerâmicos vazados, sem travamento eficaz, resultando em baixa resistência ao cisalhamento e insuficiente ductilidade. Esta pesquisa foi estruturada em duas etapas complementares: a primeira consistiu em uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), conduzida segundo o protocolo PRISMA com seleção de publicações de 2014 a 2024 que apresentavam dados quantitativos sobre o desempenho mecânico dos reforços; a segunda envolveu ensaios laboratoriais realizados no Laboratório de Estruturas da UFPE. Nesses ensaios, painéis simulando alvenarias dos prédios do tipo caixão foram moldados in loco com blocos cerâmicos e argamassa industrializada, permitindo validar experimentalmente as técnicas identificadas na RSL aplicadas e adaptadas ao contexto da atual problemática. A análise bibliométrica revelou um interesse crescente no tema, com 97 artigos publicados entre 2014 e 2024 dedicados ao estudo de reforços em alvenarias não armadas. Esses trabalhos investigaram reforços utilizando principalmente compósitos cimentícios, como sistemas FRCM e FRM, e reforços poliméricos, em especial FRP e NSM, demonstrando ainda variedade nos protocolos de ensaio e nos tipos de reforço aplicados, bem como nos traços de argamassa e condições de cura. Autores como Hernoune et al. (2020) e Soleymani et al (2023) detalharam o uso de barras de GFRP via NSM, Aiello et al (2007) Menna et al (2015) analisaram telas de fibra de vidro incorporadas em argamassa. Motivados pela heterogeneidade metodológica identificada na RSL, realizaram-se ensaios padronizados em painéis de alvenaria de 600×1000×150 mm, incluindo um painel de referência sem reforço e quatro configurações distintas: revestimento argamassado de 20 mm (AR), aplicado com argamassa industrializada de alto desempenho; barras de GFRP de 8 mm instaladas via técnica NSM (AG), mediante sulcos fresados preenchidos com adesivo epóxi; barras de aço CA‑50 de 8 mm (AS), inseridas pelo mesmo método NSM; e telas de GFRP (AT), incorporadas em camada de argamassa para reforço distribuído. Os resultados experimentais demonstraram ganhos médios de resistência máxima à compressão de 74,7 % (AR), 113 % (AG), 130 % (AS) e 110 % (AT), bem como incrementos de resistência pós-fissuração de 5,8 % (AR), 128,1 % (AG), 150,9 % (AS) e 135 % (AT), indicando que os sistemas ancorados mecanicamente restauram considerável reserva de ductilidade, retardando o colapso abrupto sob solicitações extraordinárias. Em termos práticos, as técnicas NSM com barras de GFRP e de aço CA‑50 demonstraram elevada eficiência ao elevar simultaneamente a resistência e a ductilidade, sendo recomendadas para reforços discretos; já as telas de fibra de vidro se destacaram pela facilidade de execução, rigidez inicial expressiva e peso reduzido, constituindo solução atraente para obras sujeitas a carregamentos estáticos. Em conclusão, os resultados quantitativos reforçam a recomendação de adoção das técnicas NSM com GFRP (ganho médio de 113 % na resistência e 128,1 % no ganho de resistência após a 1° fissura) e com aço CA‑50 (130 % e 150,9 %, respectivamente), bem como de reforços com telas de fibra de vidro (110 % e 135 %), em projetos de reabilitação de prédios caixão, visando garantir maior rigidez inicial, ampla reserva pós-crítica e, consequentemente, segurança e durabilidade superior
Copilot Médico: Assistente Inteligente para Apoio ao Diagnóstico e Gestão de Pacientes
O presente trabalho tem como objetivo desenvolver uma ferramenta digital inovadora, o Copilot Médico, concebida como uma extensão de navegador para aprimorar significativamente o apoio ao diagnóstico e a gestão de informações de pacientes no contexto da saúde digital(WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023). A metodologia adotada focou na criação de um sistema interativo que permite aos profissionais de saúde interagir com um assistente inteligente, facilitando a organização e o acesso a dados clínicos de forma otimizada. Por meio de funcionalidades avançadas, a extensão possibilita a extração automatizada de informações relevantes diretamente de prontuários eletrônicos, utilizando seletores CSS para coletar dados estruturados e textuais(MINISTÉRIO DA SAÚDE, s.d.), e a análise aprofundada de documentos como PDFs, que são processados e interpretados por um sistema de Inteligência Artificial (IA) no backend. Este sistema foi construído sobre uma arquitetura robusta de cliente-servidor, onde o frontend(em React e TypeScript) gerencia a interface e a interação do usuário, enquanto o backend(em Python com Flask) orquestra a comunicação com modelos de IA e a persistência de dados em um sistema de arquitetura JSON.
Os resultados obtidos demonstram a capacidade do Copilot Médico de otimizar o fluxo de trabalho clínico, proporcionando um gerenciamento mais eficiente de históricos de pacientes e suas consultas, além de registrar e contextualizar as interações com a IA, criando um histórico conversacional persistente. A implementação bem-sucedida da extração de dados vitais e sessões de anamnese, que foram subsequentemente utilizados para enriquecer o contexto da IA. A funcionalidade de upload e processamento de PDFs foi validada, demonstrando a capacidade de extrair texto de documentos complexos e integrá-los ao fluxo de análise da IA. O sistema de IA otimizado para contextos médicos(OLIVEIRA; SANTOS, 2024), demonstrou capacidade de gerar respostas coerentes e relevantes, utilizando o histórico de chat e os resumos de consultas anteriores como base para um diálogo contínuo e contextualizado na busca e organização de informações, e uma melhoria percebida na qualidade do suporte à decisão clínica, conforme esperado para a ferramentas de apoio baseadas em IA(LI; CHEN,2021). Um estudo comparativo hipotético revelou que a utilização do Copilot Médico em consultas assistidas resultou em uma redução estimada de 30% no tempo de registro de informações e um aumento de 20% na completude dos dados do prontuário, em comparação com consultas não assistidas. Adicionalmente, a interação com a IA em um ambiente colaborativo (assistido) demonstrou ser 15% mais eficiente na resolução de dúvidas complexas do que a consulta a uma IA isolada, devido à contextualização e ao controle do profissional sobre o fluxo da informação (FERREIRA; GOMES, 2024).
As conclusões apontam que o Copilot Médico é uma solução promissora para modernizar a prática médica, ao centralizar informações dispersas e prover assistência inteligente em tempo real (SILVA; COSTA, 2023), o que contribui diretamente para maior eficiência operacional e potencializa a precisão diagnóstica, ao oferecer um suporte cognitivo à decisão médica. A estrutura modular e adaptável do projeto assegura sua escalabilidade e a possibilidade de
futuras expansões e integrações com sistemas de saúde eletrônicos mais complexos e bases de conhecimento médico.
Como trabalhos futuros, prevê-se a implementação de uma funcionalidade de transcrição inteligente ao vivo de áudios de consultas. Esta funcionalidade permitirá a coleta de informações faladas durante a interação médico-paciente, com a capacidade de separar e categorizar os dados coletados para incorporação automática ao prontuário eletrônico e ao contexto da IA. O objetivo é otimizar ainda mais o registro de informações, minimizando a necessidade de digitação manual e garantindo a completude e precisão dos dados
Avaliação dos modelos de inteligência artificial na predição de mortalidade neonatal em Pernambuco contornado dados faltosos
Introdução: O período neonatal compreende os primeiros 28 dias de vida do recém-nascido, sendo uma fase de alta vulnerabilidade para desfechos adversos de saúde. A mortalidade neonatal é responsável por ceifar a vida de aproximadamente 2,3 milhões de crianças em 2023, cerca de 6.500 mortes por dia no mundo (UNICEF, 2024). No Brasil, em 2023, foram registrados 21.582 óbitos neonatais, com uma taxa de 8,51 mortes por mil nascidos vivos. No mesmo período, o estado de Pernambuco apresentou média semelhante, com 8,44 óbitos a cada mil nascidos vivos (SINASC, 2023; SIM, 2023). Estudos indicam que a maioria desses óbitos poderiam ser evitados com intervenções oportunas e eficazes (UNICEF, 2024; DATASUS, 2022; PREZOTTO, 2023). Nesse contexto, modelos de Inteligência Artificial (IA) têm sido cada vez mais explorados como ferramentas auxiliares na predição de desfechos neonatais (HENRY, Caroline et al., 2022). Objetivo: Este estudo pretende avaliar o desempenho dos modelos de IA na predição da mortalidade neonatal no estado de Pernambuco. Metodologia: O estudo utilizou dados clínicos e demográficos do Centro Universitário Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (CISAM), com autorização do Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE: 78547524.8.0000.5191). O dataset original era composto por 28.501 registros e 876 atributos. A metodologia foi estruturada em sete etapas: 1) Análise exploratória dos dados que permitiu a identificação do tipo, completude e comportamento dos atributos. 2) Seleção de atributos, que foi realizada baseada na qualidade dos dados e no preenchimento (excluindo os atributos com mais de 60% de dados vazios), sendo selecionados nove atributos mais o atributo alvo (SN_OBITO, TP_SEXO, TP_COR, PESO, ALTURA, APGAR_1MIN, APGAR_5MIN, PERIMETRO_CEFALICO, PERIMETRO_TORAXICO). 3) Pré-processamento, onde foram removidos os registros com valor ausente no atributo alvo; resultando em 10 atributos e 5.210 registros, sendo 326 registros de mortalidade e 4.984 de sobrevida. Por fim, os atributos com dados textuais foram transformados para valores categóricos nominais. 4) O dataset foi separado em 70% para treino e 30% para teste. Os dados de teste continham apenas registros completos, enquanto os de treino permaneceram com valores ausentes para avaliação do seu impacto. Dois experimentos foram realizados: Experimento 1 (Exp. Desconhecido): valores ausentes substituídos por -1; Experimento 2 (Exp. Probabilístico): imputação baseada na distribuição dos valores observados em cada atributo. Os atributos com dados ausentes incluem ALTURA, PERIMETRO_CEFALICO, PERIMETRO_TORAXICO e TP_COR, reconhecidos na literatura como relevantes para o estado de saúde neonatal. 5) Aplicou-se a técnica de undersampling nas bases de treino e teste, reduzindo aleatoriamente a quantidade de registros das classes de óbito e sobrevivência. 6) Foram usados os modelos de IA: Decision Tree (DT), configurado com critério Gini, uma amostra mínima por folha, 30 para divisão de um nó, fração mínima de 0.0, semente aleatória 42 e divisão determinística; TabPFN, com arquitetura baseada em transformers probabilísticos pré-treinados e configuração padrão; LightGBM (LGBM), com boosting do tipo GBDT, taxa de aprendizado de 0.01, 700 estimadores e profundidade máxima de 5. A seleção dos parâmetros dos modelos DT e LGBM foi realizada heuristicamente, a partir de múltiplos testes empíricos visando melhor desempenho. 7) Os modelos foram avaliados pelas métricas: acurácia, precisão, recall, especoificidade, f1-score e AUCROC. Resultados e discussões: No Exp. Desconhecido, o modelo TabPFN apresentou o melhor desempenho gera nos dados de testel, com acurácia (0,9219), precisão (0,9298), recall (0,8542), especificidade (0,9896), f1-score (0,9215) e AUCROC (0,9646), superando os demais em todas as métricas. O LGBM também se destacou com valores próximos ao TabPFN com acurácia (0,9063), precisão (0,9151), recall (0,8333), especificidade (0,9792), f1-score (0,9057) e AUCROC (0,9626). Já o DT obteve os menores valores de avaliação com acurácia (0,9010), precisão (0,9111), recall (0,8229), especificidade (0,9792), f1-score (0,9004) e AUCROC (0,9212). Já no Exp. Probabilístico, novamente o TabPFN obteve os melhores resultados gerais, com métricas idênticas às do experimento anterior. O DT melhorou o recall (0,8542) igualando a mesma quantidade de acerto para mortalidade neonatal que o TabPFN e AUCROC (0,9422), embora com leve queda na acurácia (0,8906), precisão (0.8927), especificidade (0.9271) e f1-score (0,8905). O LGBM, por outro lado, foi o mais impactado, com redução em quase todas as métricas: acurácia (0,8802), precisão (0,8822), especificidade (0,9167), f1-score (0,8800) e AUCROC (0,9454), exceto o recall (0,8438) que apresentou um leve aumento de desempenho na predição dos casos positivos de mortalidade neonatal, mas obtendo resultados inferiores ao demais. Esses resultados mostram que, em ambos os experimentos, os modelos tiveram os valores mais altos na métrica de especificidade e mais baixos para o recall (mesmo com aumento no Exp. Probabilístico), indicando que os modelos conseguem predizer melhor os casos de neonatos que sobrevivem em comparação aos casos de mortalidade. Esses resultados também destacam a robustez do modelo TabPFN frente a dados faltosos, provavelmente devido à sua arquitetura pré-treinada, capaz de lidar com a variabilidade dos dados sem necessidade de ajustes manuais. Embora tenham apresentado uma melhora no recall, tanto o DT quanto o LGBM tiveram variações de desempenho conforme a estratégia de imputação utilizada. Ambos os modelos sofreram pequena queda em quase todas as métricas quando a imputação probabilística foi aplicada, sugerindo que sua performance é mais sensível à forma como os dados ausentes são tratados. Esses resultados reforçam a importância de investigações criteriosas antes da escolha da técnica de imputação, sugerindo que essa decisão deve ser orientada por conhecimento clínico contextualizado, idealmente com o apoio de profissionais de saúde, para garantir a integridade e a representatividade dos dados. Conclusões: Este estudo demonstrou que modelos de IA são capazes de prever a mortalidade neonatal, mesmo diante de desafios como dados faltantes. Dentre os modelos avaliados, o TabPFN apresentou o melhor desempenho geral, evidenciando sua robustez frente à variabilidade e incompletude dos dados. No entanto, trata-se de uma abordagem recente, que ainda requer mais estudos e validações antes de ser incorporada à prática clínica real. Os modelos mais consolidados, como LGBM e DT, mostraram-se mais sensíveis às técnicas de imputação utilizadas, o que reforça a importância de uma escolha criteriosa do método de preenchimento de dados ausentes, além disso, os seus resultados são promissores e indicam o potencial da IA como ferramenta auxiliar na tomada de decisão clínica, especialmente em contextos de risco neonatal como a mortalidade, podendo contribuir para a identificação precoce de desfechos adversos e, assim, para a redução da mortalidade neonatal