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A polifonia bakhtiniana e a sociossemiótica em Grande Sertão: Veredas
Mikhail Bakhtin criou o conceito de polifonia – uma metáfora vinda da teoria musical – para designar romances em que a ação representa a vida no seu fluir vasto, lento e profundo. Bakhtin não fez uma súmula de seus conceitos, de modo que a polifonia ainda não é bem definida, causando divergências e mal-entendidos entre seus estudiosos. Dessa forma, nosso objetivo é operacionalizar o conceito, mostrando-o como um fazer-sentir do enunciatário, além disso, expondo como pode ser aplicável em outros romances, não apenas nos de Dostoievski – ou seja, tornando-o aplicável e repetível. Para isso, nosso corpus será o romance de João Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas. Em um primeiro momento, demonstraremos que Grande Sertão é um romance polifônico a partir de um diálogo velado entre Riobaldo e seu interlocutário (“o senhor”). O romance em pauta carrega a síntese do gênero sob a perspectiva do filósofo russo: os problemas e as contradições desta vida não se resolvem, são irremediavelmente contraditórios, o universo de sentido é plural, a construção semiótica dos atores é, antes de qualquer coisa, a representação de consciências plurais, nunca de um “eu” único, mas produto da interação de muitas consciências, dotadas de valores próprios, que interagem ao longo da narrativa, preenchendo, com suas vozes, as lacunas deixadas no enunciado de seus interlocutores. Em um segundo momento, buscaremos demonstrar como a polifonia está, também, adensada no ator do enunciado Riobaldo. Isso será feito na medida em que ele se apresenta na ordem do inacabamento actorial, sendo fundamental, para a noção de ator, as bases teóricas oferecidas pela semiótica discursiva (GREIMAS; COURTÉS, 2020). Por fim, nosso objetivo final é demonstrar como essas lacunas, de acordo com as teorias de Eric Landowski (2014a), levam o enunciatário roseano a deslizar para os eixos do ajustamento e acidente
Aquisição de linguagem: o envelope multimodal em uma criança autista
Com foco na abordagem multimodal, perspectiva teórica que defende a matriz gesto-vocal como um sistema único de significação, objetivamos analisar a mescla entre olhar, vocalizações e gestos na produção de uma criança autista do sexo feminino. Especificamente, intencionamos identificar como os referidos elementos semióticos contribuem para a negociação de sentidos na interação e quais os papéis emitidos por esses componentes significativos. Nesse sentido, constatamos que a tríade semiótica de articulação entre gesto, produção vocal e olhar promove um lócus de enunciação para a criança autista e percebemos o quão necessário é considerar esses componentes, que constituem o envelope multimodal, no processo de aquisição linguística
A pandemia no Brasil: atos de dizer e fazer do governo federal: The pandemic in Brazil: acts of saying and doing by the federal government
Neste trabalho, propõe-se uma análise de dois pronunciamentos oficiais do presidente do Brasil (2020-2021) sobre a condução do país durante a pandemia. O objetivo principal é analisar quais concepções do governo federal, com relação à pandemia, têm se modificado e quais se encontram mantidas. Este artigo se fundamenta nos estudos bakhtinianos, especialmente nas concepções de diálogo, reflexo e refração, sujeito e enunciado. A pesquisa, qualitativa e interpretativa, utiliza a metodologia dialético-dialógica. Os resultados apontam para uma oscilação entre repetição, mudança sutil e mudança substancial de posicionamento, o que compõe três estratégias discursivas do governo federal com relação à pandemia: o falseamento (de dados, recomendações e práticas), a minimização (da doença e da crise nacional generalizada) e a aparente perdição (falta de organização), que revelam o projeto e a prática eugenista institucional em curso.Palavras-chave: Círculo de Bakhtin; política brasileira; pandemia; verbivocovisualidade
A vergonha e o orgulho em memes sobre a leitura: The shame and the pride in memes about reading
De modo a contribuir com os estudos dedicados à leitura e às formas como essa prática é comumente referida entre nós, apresentamos, neste artigo, uma análise de enunciados peculiares, coletados junto a memes de internet que abordam o tema da leitura e nos quais se evocam certas emoções quando se fala acerca dessa prática. Observamos, com base em princípios da Análise do discurso, da História cultural da leitura e da História das sensibilidades, que a “vergonha” e o “orgulho” relacionados à condição leitora compõem as emoções prototípicas constitutivas dos discursos sobre a leitura mais frequentemente atualizados em memes nacionais e contemporâneos.Palavras-chave: discursos sobre a leitura; memes; emoções; vergonha; orgulho
Os discursos conservador e neoliberal na fala de Bolsonaro: Conservative and neoliberal discourses in Bolsonaro’s speech
A primeira resposta de Jair Bolsonaro no programa Roda Viva, de 30 de julho de 2018, revela as matrizes ideológicas conservadora e neoliberal, cuja análise é feita neste trabalho a partir dos conceitos de discurso e ideologia, como desenvolvidos pelo Círculo de Bakhtin. Na fala, os posicionamentos sócioideológicos relacionam-se com o contexto de produção dessas ideologias. Tal contexto refere-se à expansão neoliberal em países de centro e periferia. A hipótese que se levanta é a de que tais matrizes não são contraditórias entre si, mas necessárias uma à outra. Então, é traçado um breve percurso do neoliberalismo; conclui-se que tanto o discurso conservador quanto o neoliberal, presentes na fala de Bolsonaro, possuem uma lógica interna e um programa, consonantes ao contexto e articuladores de sentidos sociais, como o recrudescimento da violência e o fim da possibilidade de conciliação entre Estado, trabalho e capital. Palavras-chave: Jair Bolsonaro; neoliberalismo; análise sociológica do discurso
O senhorio brasileiro e os sacramentos católicos: sentidos de senhor na legislação sobre batismo e enterro de escravos: Brazilian senhorio and the Catholic sacraments: meanings of senhor in the legislation on baptism burial of and slaves
Neste trabalho, analisamos funcionamentos semânticos estabelecidos pela palavra senhor em textos da legislação extravagante portuguesa dos séculos XVII e XVIII. Elegemos como corpus dez cartas régias e duas provisões que tratam da aplicação de sacramentos católicos aos escravos. A partir desse corpus, perguntamos: Quais sentidos de senhor se materializam na legislação extravagante que trata do batismo e do enterro de escravos? Recorrendo ao quadro teórico da Semântica do Acontecimento (cf. GUIMARÃES, 2002, 2005, 2011), e empregando procedimentos enunciativos de análise, objetivamos demonstrar que nesses textos ocorre um litígio político que resulta na imposição da religião católica pelos senhores aos escravos como religião dominante criando um espaço de cruzamento entre o poder jurídico e religioso.Palavras-chave: senhorio; religião; semântica
Fraseologia especializada e relações metafóricas em corpus jornalístico de espanhol rio-platense
Este trabalho apresenta uma amostra analítico-metodológica de nossa pesquisa de pós-doutorado (NOVODVORSKI, 2020, 2021). Abordamos a metaforização do domínio político a partir de Unidades Fraseológicas Especializadas (UFEs) do futebol. Nosso objeto de pesquisa é um corpus jornalístico em espanhol rio-platense. O quadro teórico-metodológico congrega Terminologia, Fraseologia Especializada, Metáfora Conceptual e Linguística Descritiva, assim como a abordagem e os procedimentos quanto à utilização de ferramentas do programa WordSmith Tools (WST), versão 7,0 (SCOTT, 2016). O reconhecimento das fraseologias, das áreas de especialidade convergentes e do contexto sócio-histórico e cultural é fundamental para a compreensão dos usos metafóricos das UFEs. Ilustramos os procedimentos adotados para identificação das fraseologias e para compreensão das relações metafóricas, em variadas ocorrências tomadas do corpus
Os vários usos de "mesmo" no português brasieiro dos séculos XVIII, XIX e XX
This study investigates the usage of mesmo in Brazilian Portuguese in the 18th, 19th and 20th centuries. The proposal is to verify, in the recent history of Portuguese, the persistence or not of the multifunctionality of this item. For this, it takes as research database private and official letters extracted from the corpus of the Project for the History of Brazilian Portuguese (https://sites.google.com/site/corporaphpb), and, as theoretical support, Functional Discourse Grammar framework, developed by Hengeveld and Mackenzie (2008). The objective is to verify whether the five different usages (emphasis operator, pragmatic function Contrast, identical identity operator, anaphoric nucleus and configural property modifier), detected by AUTOR, in a synchronic viewpoint, have already existed since the XVIII century and if they have remained during the XIX and XX centuries. The results reveal that there was no substantial change in the usages of mesmo and that they did not undergo change in the formal encoding during the three centuries. What this study really reveals is that some usages are decreasing while others are rising according to communicative needs.Este estudo investiga o uso de mesmo no português brasileiro, nos séculos XVIII, XIX e XX. A proposta consiste em verificar, na história recente do português, a persistência ou não da multifuncionalidade desse item. Para tanto, toma como universo de pesquisa cartas particulares e cartas oficiais extraídas do córpus do Projeto para a História do Português Brasileiro (https://sites.google.com/site/corporaphpb), e, como suporte teórico, a Gramática Discursivo-Funcional, desenvolvida por Hengeveld e Mackenzie (2008). Os resultados mostram que os cinco diferentes usos (operador de ênfase, função pragmática Contraste, operador de identidade idêntica, núcleo anafórico e modificador de propriedade configuracional), detectados por Peres (2020), já existiam desde o século XVIII e permaneceram no decorrer dos séculos XIX e XX. Além disso, não houve alteração substancial nos usos de mesmo e não sofreram alteração na forma de codificação no decorrer dos três séculos. O que este estudo revela é que alguns usos estão em decréscimo e outros em ascendência, apontando para um processo de gramaticalização