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Os não-linguistas e a mobilização de práticas emancipatórias nas discursividades contemporâneas
A Linguística Popular, campo de estudos da linguagem já bem constituído no contexto estadunidense, a partir dos trabalhos de Niedzielski e Preston (1999 e 2003) e no francês, a partir dos trabalhos de Paveau (2008 e 2019), começa a produzir os seus primeiros resultados no Brasil com os trabalhos de Baronas e seu grupo. Segundo Baronas (2021), a Linguística Popular/Folk Linguistics designa as práticas linguísticas espontaneamente construídas pelos mais diversos sujeitos, que não estão necessariamente fundamentados em uma lógica de uma teoria da linguagem. Compreendemos, na esteira de Marie-Anne Paveau (2018), que as abordagens científica e popular são anti-eliminativas, assim a Linguística Popular não se coloca em oposição à Linguística Acadêmica. Esse campo de estudos, a partir do viés francês, se debruça, reflexivamente, sobre as práticas linguísticas dos não-linguistas, isto é, busca entender o funcionamento de práticas categorizadas como descritivas, prescritivas, intervencionistas e emancipatórias de sujeitos que não têm formação em Linguística, mas mesmo assim, produzem saberes sobre a própria língua e a língua dos outros. Neste trabalho, procuraremos levantar um conjunto de práticas linguistas emancipatórias, nas quais predominam a questão ética em detrimento da estética, que circulam no ambiente digital, buscando compreendê-las de modo a empreender uma tipologia específica para tais práticas em virtude do corpus de análise selecionado, denominadas como práticas originárias. Ainda, à luz de um diálogo teórico-metodológico entre a Linguística Popular e a Análise de Discurso na sua vertente francesa, procuraremos entender até que ponto tais práticas emancipatórias influenciam nas práticas discursivas de outros sujeitos, já que temos diversas discussões ou, até mesmo, indicações de utilização ou não utilização de determinado léxico por não-linguistas. Em última instância, é essa nossa questão de fundo, verificar em que medida, para além do politicamente correto, as ditas práticas emancipatórias produzem reconfigurações linguísticas nas falas das pessoas
O apagamento do -R em final de infinitivos verbais em textos escolares do 6º ano do Ensino Fundamental II
Este estudo tem como objetivo investigar o apagamento do -R em final de infinitivos verbais presentes em textos de alunos do Ensino Fundamental II, tecendo reflexões a partir dos dados gerados, observando os possíveis fatores linguísticos condicionantes do fenômeno, tais como os contextos fonológicos precedentes e seguintes e a extensão do vocábulo. Para o corpus desta pesquisa, foram coletadas, quantificadas e analisadas 82 redações de alunos do 6º ano do Ensino Fundamental II de duas instituições de ensino de Porto Velho – RO. Constatamos que, dos 545 infinitivos verbais escritos, houve 112 ocorrências de apagamento do rótico em posição de coda final, o que corresponde a 20,55% do total, a partir das quais se constata que a posição de coda final e o contexto fonológico podem influenciar o (não) apagamento do rótico, que se mostra mais frequente em verbos de 1ª conjugação e seguidos de consoante
Por que não li antes? Da vergonha ao orgulho de ler em postagens de jovens leitores na rede SKOOB
Partindo do pressuposto de que a ordem dos discursos não apenas define o “que” e o “como” se deve/se pode enunciar, mas também as emoções que convêm ao que se enuncia sobre uma dada prática, neste artigo analisamos discursos sobre a leitura compartilhados por jovens internautas inscritos na maior rede social digital de leitores no Brasil, a rede SKOOB. Descrevemos enunciados em que, direta ou indiretamente, são materializadas certas emoções relacionadas à condição leitora, em especial aquelas da ‘vergonha’ ou do ‘orgulho’, manifestas pela reiteração de um dos discursos bastante recorrente em relação a essa prática: o da adequação ou não ao tempo ideal previsto para a leitura de certos títulos e autores, sob a forma ora de retratação do atraso ora de ostentação da precocidade na leitura. Para tanto, apoiamo-nos em princípios da Análise do Discurso e da História Cultural da leitura
Sequência didática no Ensino Superior: a progressão das práticas de linguagem com base em gêneros textuais
O objetivo deste artigo, uma síntese de uma tese de doutorado, é fazer um relato das etapas de construção da pesquisa, partindo das bases teóricas até as análises feitas a partir dos dados coletados durante a aplicação do projeto em sala de aula. Primeiramente, o artigo mostra os princípios norteadores do Interacionismo Sociodiscursivo de Jean-Paul Bronckart e do Grupo da Didática de Línguas de Genebra. Depois, apresenta a construção e a aplicação das ferramentas didáticas utilizadas em sala de aula em torno de dois gêneros selecionados (crônica argumentativa e resenha crítica) para a realização das sequências didáticas, por meio do método da pesquisa-ação, com a aplicação do projeto feita em uma turma do curso de Pedagogia pela pesquisadora-professora. Por fim, aponta que são profícuos e necessários os projetos didáticos integrados para desenvolver atividades de práticas de linguagem com mais de um gênero da mesma ordem tipológica
Seria a Linguística popular não hegemônica?
Neste ensaio, intentamos refletir sobre a Linguística popular como uma prática de pesquisa no âmbito da linguagem, que se inscreve no conjunto de práticas contra hegemônicas, especificamente, no que concerne às ciências da linguagem, praticadas no contexto brasileiro. Os dados analisados são produzidos por linguistas populares e dizem metalinguisticamente sobre o acontecimento discursivo “Pelé no dicionário”. Com menos vagar, nossa discussão também passa por questões relacionadas à descolonização dos saberes linguísticos. A partir da discussão teórica empreendida e das análises realizadas, respondemos positivamente à pergunta do título, indicando como resultado que a Linguística popular pode ser considerada não hegemônica
Designações para pipa sem varetas na região do falar amazônico: um estudo com dados do projeto ALiB
Este trabalho analisa as designações para pipa sem varetas a partir de dados extraídos da dissertação O falar amazônico: uma análise da proposta de Nascentes (1953) a partir de dados do projeto ALiB (Portilho, 2013), que utilizou dados geolinguísticos do Projeto ALiB em 26 localidades das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com o objetivo de visualizar se há uma marca dialetal própria da região do falar amazônico, proposta por Nascentes (1953), no que se refere ao nível lexical. Para isso, foram utilizados procedimentos teórico-metodológicos da Dialetologia, da Geolinguística e da Lexicologia, com a finalidade de verificar se a designação curica, mais produtiva na região analisada, seria uma possível marca dialetal própria da região em foco, influenciando a norma linguística da área de controle no que se refere ao nível lexical da língua, especificamente na área semântica de jogos e diversões infantis
Metadiscursividade e memória: dentro das quatro linhas da instituição
Proponho-me a analisar, no campo da Linguística Aplicada, na perspectiva discursiva da Análise do Discurso Francesa, expressões metadiscursivas (Maingueneau, 1997, p. 93) em textos jornalísticos publicados no período correspondente ao anúncio da contratação de Cuca como técnico de futebol do Corinthians, até os dias seguintes a sua renúncia. A demissão remete a uma condenação, por violência sexual praticada em 1987. O objetivo do trabalho é mostrar como a metadiscursividade remete a relações interdiscursivas do que chamei instituição “futebol brasileiro” com a(s) jornalística(s), ambas as instituições forjadas a partir de um território simbólico da realidade brasileira (Duarte Júnior, 1984, p. 53). Os resultados indicam que entre os polos futebol-força e futebol-arte, a representação predominante do jogador brasileiro é a da arte