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    Intersecções e divergências entre a desobediência civil e o conceito libertário de ação direta

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    O objetivo deste artigo é discutir comparativamente o conceito libertário de ação direta e a ideia de desobediência civil. Defino a desobediência civil como conflito com leis ou ordens governamentais, com ou sem uso de força, visando comunicar discordância e intenção transformativa por meio de apelos à sociedade e ao governo, sem entretanto desafiar intrinsecamente sua constituição, ao invés respeitando-a, já que envolve atos públicos, principiológicos, e aceitação de punições e consequências legais. Abordo a ação direta a partir do seu enquadramento libertário por razões históricas e normativas, definindo-a como ação executada pelas pessoas diretamente envolvidas em uma situação, consideradas de forma amplamente inclusiva, com o objetivo de resolver um problema ou obter um resultado sem referência ou à revelia de instâncias de autoridade hierárquica, sem ter por objetivo criar ou concentrar poder hierárquico e sem classificar a existência de terceiros como problemas. Comparo as formas de ação e concluo que, apesar de similares, a diferença entre suas características fundamentais ainda é evidente. A desobediência civil é tática de contestação ao mesmo tempo em que reafirma a legitimidade sistêmica, enquanto a ação direta visa indicar precisamente sua ilegitimidade. A desobediência civil não aponta, como faz a ação direta em virtude de sua própria lógica, para um modelo político alternativo ao vigente. A desobediência civil busca chamar a atenção para um problema cuja resolução segue como responsabilidade superior, enquanto a ação direta volta-se para resolver diretamente um problema à revelia das estruturas de poder vigente

    O anticapitalismo de Adorno. Entre o marxismo e as novas leituras de Marx

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    É ponto de disputa se Adorno permaneceu sendo um teórico anticapitalista em sua obra tardia. Enquanto parte da literatura argumenta que ele deixou de ser um crítico da economia política para passar a ter por alvo a dominação da natureza, e com isso teria deixado de criticar o capitalismo para passar a criticar a civilização, outra parte insiste que sua obra tardia segue tendo por alvo o capital, e deve ser compreendida como um esforço em alguma medida revolucionário para a superação deste modo de produção, tal como usual nos mais distintos marxismos. O presente artigo busca desenvolver uma interpretação alternativa, de acordo com a qual Adorno segue sendo um anticapitalista, mas que rompe com o marxismo tradicional, tanto por causa de sua forma de ler a obra tardia marxiana (que se aproxima muito das Novas leituras de Marx), quanto por seu diagnóstico de época, centrado no bloqueio dos processos de emancipação devido à integração do proletariado e à intensificação da dominação por meio da indústria cultural e da concentração do poder.It is controversial whether Adorno remained an anti-capitalist theorist in his later work. Part of the literature claims that he shifted from being a critic of political economy to being a critic of the domination of nature, and thereby ceased to criticize capitalism to criticize civilization, another argues that his late work continues to target capitalism, and must be understood as an effort to some extent revolutionary to overcome this mode of production, as usual in different Marxisms. This paper seeks to develop an alternative interpretation, according to which Adorno remains an anti-capitalist, but which breaks with traditional Marxism, both because of his way of reading the late Marxian work (which comes very close to New Marx Reading) and because of his diagnosis, centered on the blockade of emancipation processes due to the integration of the proletariat and the intensification of domination through the cultural industry and of the concentration of power

    Pensamento crítico e subversão onto-epistêmica: Propondo um diálogo entre Butler e Quijano

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    O artigo apresenta algumas considerações acerca dos fundamentos epistemológicos das perspectivas teóricas de Judith Butler e Aníbal Quijano, buscando pontos de diálogo que nos permitam pensar em subsídios para o pensamento crítico em tempos nos quais se alardeia o esgotamento do marxismo e da democracia liberal. A partir de uma análise bibliográfica, tenta-se articular os conceitos de colonialidade, elaborado por Quijano, e vulnerabilidade, desenvolvido por Butler, traçando parte do caminho trilhado por ambos ao propor a subversão onto-epistêmica das categorias de pensamento que nos precedem e que delimitam as fronteiras do pensável e do humano. A despeito de se tratar de autores que estruturam suas abordagens a partir de lugares distintos, o texto arrisca a abertura de uma conversação entre ambos, na esperança de que uma interação assim constituída contribua para a expansão do pensamento crítico, cujo mote deve ser o compromisso com a construção de condições que possibilitem o florescimento de todas as formas de viver e de existir.The paper presents some considerations about the epistemological foundations of the theoretical perspectives of Judith Butler and Aníbal Quijano, seeking points of dialogue that allow us to think about subsidies for critical thinking in times when the exhaustion of Marxism and liberal democracy is proclaimed. From a bibliographical analysis, we try to articulate the concepts of coloniality, elaborated by Quijano, and vulnerability, developed by Butler, tracing part of the path followed by both in proposing the onto-epistemic subversion of the categories of thought that precede us and that delimit the boundaries of the thinkable and the human. In spite of being authors who structure their approaches from different starting points, the text rehearses opening a conversation between them, hoping that an interaction thus constituted will contribute to the expansion of critical thinking, whose motive should be the commitment with the construction of conditions that enable the flourishing of all forms of living and existing

    Roberto Schwarz and the Brazilian Dialectic of Enlightenment: On the Reception of Critical Theory in Brazil

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    This article aims to reconstruct Roberto Schwarz's reception of Adornian Critical Theory, particularly in what concerns the dialectic of Enlightenment. It argues that a specific intellectual experience of Brazilian reality, produced by alliances between archaic and modern forces and filtered through some Brazilian theories of modernisation, determined this reception to a great extent. In this way, Adorno's dialectics of myth and reason had unexpectedly encountered a particular historical framework in Brazil. By discreetly joining Fernando Henrique Cardoso's Theory of Dependency and Adorno's Dialectic of Enlightenment, Schwarz could spell out the ideological life of Brazilian elites incomparably. At the same time, this unpredictable arrangement tends to diminish the critical place for social conflicts. The crucial concept of favour takes a meaning considerably different from that originally stated by Maria Sylvia de Carvalho Franco in her theory of Brazilian social violence. Furthermore, when seeking to interpret, in Brazilian literature, some contesting characters, illustrative of historical, social struggles, Schwarz has to presuppose a concept of Enlightenment that contradicts the volatile reversion of the modern into the archaic.This article aims to reconstruct Roberto Schwarz's reception of Adornian Critical Theory, particularly in what concerns the dialectic of Enlightenment. It argues that a specific intellectual experience of Brazilian reality, produced by alliances between archaic and modern forces and filtered through some Brazilian theories of modernisation, determined this reception to a great extent. In this way, Adorno's dialectics of myth and reason had unexpectedly encountered a particular historical framework in Brazil. By discreetly joining Fernando Henrique Cardoso's Theory of Dependency and Adorno's Dialectic of Enlightenment, Schwarz could spell out the ideological life of Brazilian elites incomparably. At the same time, this unpredictable arrangement tends to diminish the critical place for social conflicts. The crucial concept of favour takes a meaning considerably different from that originally stated by Maria Sylvia de Carvalho Franco in her theory of Brazilian social violence. Furthermore, when seeking to interpret, in Brazilian literature, some contesting characters, illustrative of historical, social struggles, Schwarz has to presuppose a concept of Enlightenment that contradicts the volatile reversion of the modern into the archaic

    A hipótese do “concomitante-dependende” como resposta freudiana ao problema mente-corpo no início dos anos 1890: The “dependent concomitant” hypothesis as a freudian solution to the mind-body problem in the early 1890s

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    Em meio a uma discussão sobre a localização cerebral dos fenômenos psicológicos, Freud propõe em 1891, em seu trabalho sobre as afasias, a chamada hipótese do “concomitante dependente”. Segundo esta hipótese, atribuída pelo autor ao neurologista John Hughlings Jackson, os estados mentais serão considerados como distintos, não redutíveis e paralelos aos processos cerebrais, não havendo relação causal entre ambos. Entendendo que estes princípios constituem resposta possível ao problema mente-corpo, nosso objetivo neste artigo será situar a posição assumida por Freud no interior deste debate filosófico durante a segunda metade do século XIX. Para tal, nosso trabalho será dividido em três partes: em um primeiro momento 1) abordaremos alguns antecedentes deste debate nos dedicando ao estudo da noção de psiquismo durante as primeiras décadas do século XIX. Na sequência, considerando a emergência e a consolidação do paradigma monista e materialista a partir dos anos 1820, 2) discutiremos o surgimento de duas posições distintas, o localizacionismo e o funcionalismo. Por fim, nos aprofundando na segunda destas posições, dita funcionalista, 3) buscaremos demonstrar o vínculo da hipótese freudiana a uma determinada tradição neurológica de língua inglesa, em grande medida orientada pelos trabalhos do filósofo escocês Alexander Bain

    A guerra dos sexos: The war of the sexes

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    A liberação sexual iniciada em meados do século passado, embora fosse um subproduto do movimento contra a guerra do Vietnã, implantou-se de modo definitivo, tendo mudado a moral sexual de todo o mundo, quase sem exceção. O lema da contracultura - “faça amor, não faça a guerra” -, convocava ao prazer na cama e não no campo de batalha e, no entanto, acabou por fomentar a guerra dos sexos a que assistimos na contemporaneidade. Qual o alcance das revoluções sociais? Em se tratando do desejo sexual, será suficiente abordá-lo através do socius? Qual a diferença entre o sujeito do inconsciente de que trata a psicanálise e o sujeito social em sua dimensão psicológica? Qual contribuição a psicanálise tem a oferecer ao tratamento do impasse do desejo? Destas questões, trataremos aqui

    Não há analista lacaniano

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    Qual a necessidade de se dizer lacaniano? Quem o pede? É suficiente, vamos dizer, se autorizar a praticar a análise de maneira séria e o analista ser julgado por seus atos. Certamente, mas seus atos não vão sem dizer. Já a fórmula “se autorizar”, em um sentido outro que o da afirmação do eu [“affirmation moïque” no texto em francês], ressoa com o dizer de Lacan: “O analista só se autoriza de si mesmo e de alguns outros.” Então, será que se autoriza de Lacan

    A sexualidade e seus destinos: Pensar o circuito pulsional a partir de uma situação antropológica fundamental: Sexuality and its destinies: Thinking the drive circuit from a fundamental anthropological situation

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    Pretende-se fazer a leitura de um Freud que consideraria as estruturas de uma constituição pulsional humana não a-histórica, mas pensada no contexto de uma ação recíproca entre fatores sociais e psicológicos. Será preciso, portanto, recorrer a um aparelho psíquico que não se sustente por uma dinâmica pulsional atomística isolada na realidade intrapsíquica dos indivíduos. Procurar-se-á, a partir disso, compreender o movimento de investimento pulsional como sendo um processo vital em sua totalidade incluindo, por consequência, elementos que estruturam o psiquismo singular (mas, não solipsista) nas dimensões do corpo (organização somática e psíquica), do choque com a realidade, com o papel dos Outros na constituição do Eu e com as estruturas da moralidade (escrupulosidade da consciência moral, Educação): a teoria psicológica freudiana abarcaria o funcionamento de um psiquismo não circunscrito ao individual, já que este se depararia com a condição da presença efetiva do Outro, de suas designações e da Cultura (condição antropológica fundamental). Com isso, o biológico (arco-reflexo, prazer-desprazer, configuração inata) encontrar-se-á inserido na adversidade do real (casualidade, contingências do vivido e do objeto). Desejar-se-á, por fim, pensar na problemática da Educação, oferecendo tanto a adaptação social (regulamentação das relações dos homens entre si) quanto um elevado gasto de força psíquica e um empobrecimento interior pelo poder sufocador das exigências culturais. É neste contexto histórico que normalidade e anormalidade colocar-se-ão como problema etiológico.It is intended to make the reading of a Freud that would consider the structures of a non a-historical human drive constitution, but thought in the context of a reciprocal action between social and psychological factors. Therefore, it will be necessary to resort to a psychic apparatus that is not sustained by an atomistic drive dynamics isolated in the intrapsychic reality of individuals. It will be sought, from this, to understand the movement of drive investment as a vital process in its totality, including, consequently, elements that structure the singular (but not solipsist).psychism in the dimensions of the body (somatic and psychic organization), of the shock with reality, with the role of the Others in the constitution of the Self and with the structures of morality (scrupulosity of the moral conscience, Education): Freudian psychological theory would cover the functioning of a psychism not circumscribed to the individual, as it would encounter the condition of the effective presence of the Other, of its designations and of Culture (fundamental anthropological condition). With this, the biological (arc-reflex, pleasure-displeasure, innate configuration) will find itself inserted in the adversity of the real (chance, contingencies of the living and the object). Finally, it is aspired to think about the problematics of Education, offering both social adaptation (regulation of human relations among themselves) and a high expenditure of psychic force and an internal impoverishment by the suffocating power of cultural demands. It is in this historical context that normality and abnormality will become an etiological problem

    A ética à margem da educação: Uma ameaça à construção da humanidade: Ethics in the margins of education: A threat to the construction of humanity

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    Este trabalho tem a intenção de desenvolver uma reflexão sobre a dimensão ética do trabalho educativo, muitas vezes desconsiderada no contexto contemporâneo. Embora a ética esteja presente na maioria dos discursos e das propostas sobre educação, nem sempre ela é levada em conta na concretização dessas propostas, especialmente quando se trata de políticas educacionais. É dessa constatação que se parte, sem dúvida, quando se afirma que “a filosofia, que foi o ‘texto central da educação’, ... é hoje relegada para suas margens”. E a face da filosofia que realmente se encontra mais marginalizada aí é a da ética. Na verdade, isso é um reflexo do que encontramos no contexto social global. Aí se manifesta um desencontro entre discurso e prática, com consequências desastrosas na vida dos indivíduos e grupos. Gera-se uma crise que se revela em todas as instâncias – na economia, na política, na totalidade das instituições. Na medida em que a educação pode ser definida como gesto de construção da humanidade, partilha, construção e reconstrução de cultura, o processo educativo não pode prescindir de um olhar crítico, que questione a consistência, o fundamento dos valores de caráter moral que orientam a vida dos sujeitos nas diversas sociedades, suas ações e relações. É esse o olhar da ética. Assim, é preciso um esforço no sentido de garantir a presença desse olhar no processo educativo, “desmarginalizá-lo”, incluí-lo como elemento essencial da educação, numa perspectiva utópica. Isso requer dos educadores consciência e compromisso, engajamento e aposta na realização da vida boa, para todos. Palavras-chave: Educação; humanidade; ética; “desmarginalização”

    Du centre et des marges de l’enseignement : réflexions critiques sur le discours anti pédagogiste: From the Center and the Margins of Education: critical Reflections on the anti-pedagogical discoursev

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    Le discours anti pédagogiste s’épuise à vouloir recentrer l’école sur des finalités présentées comme constitutives (et donc anhistoriques) : instituer l’homme et le citoyen par l’instruction. Le début du texte déjà trentenaire de Jean-Claude Milner– De l’École – est à cet égard explicite : il y a école lorsqu’il y a savoir transmissible et transmis. Le reste (l’école comme « apprentissage de la vie » et lieu de socialisation) peut bien aussi exister mais de façon contingente et comme par surcroît. En somme à la marge. L’anti pédagogisme peut ainsi se comprendre comme un discours sur ce qui est central et ce qui doit rester marginal dans l’éducation scolaire. Il soutient que l’école actuelle tend à rendre central ce qui est marginal et marginal ce qui doit être central ; il prétend remettre à l’endroit les rapports du centre et des marges. Mais cela a-t-il un sens de distinguer, dans l’école, entre son centre et ses marges ? Ne faut-il pas plutôt, quelle que soit la forme d’école considérée, comprendre l’unité profonde et dialectique entre les différentes finalités de l’éducation scolaire, et notamment entre l’œuvre d’instruction et l’œuvre de socialisation ? Mots clés: École, Éducation, Instruction, Pédagogie, (Anti)Pédagogism

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