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O fatum em Nietzsche: culpa e responsabilidade: The fatum in Nietzsche: guilt and responsibility
The article presents an analysis of the concept of fatum in Friedrich Nietzsche’s thought, relating it to two other concepts – guilty and moral responsibility. Fatum is, as well as destiny, linked to the necessity of a relational chain among all things. Thus, the notions of guilt and responsibility, so much to the taste of morality, are under suspicion, since in the face of necessity nothing could be different from what it was. Facing this problematic, two aspects will be considered. The first, starting from an analysis of freedom of will and responsibility, points to a sense of fatum as a counterpoint to unlimited freedom. The other aspect aims at mapping the nietzschean understanding of man as part of the fatum. In this sense, man and world are not necessarily separated things, they connected somehow.
Keywords: Fatum. Guilty. Responsability. Will. Power.O artigo apresenta uma análise sobre o conceito de fatum, no pensamento de Friedrich Nietzsche, relacionando-o a dois outros conceitos – culpa e responsabilidade moral. Fatum, como destino, mostra-se vinculado à necessidade do encadeamento relacional entre todas as coisas. Assim, as noções de culpa e de responsabilidade, tão ao gosto da moral, ficam sob suspeição, já que ante a necessidade nada poderia ser diferente do que foi. Diante dessa problemática, dois aspectos serão abordados. O primeiro, partindo de uma análise sobre a liberdade da vontade e a responsabilidade, aponta para um sentido do fatum como contraponto de uma liberdade ilimitada. O outro aspecto visa mapear o entendimento nietzschiano sobre o homem como parte do fatum. Nesse sentido, homem e mundo não são como coisas separadas, mas conectados de forma necessária.
Palavras chaves: Fatum. Culpa. Responsabilidade. Vontade. Força
Autoidentidade e continuidade do mundo
O que eu chamo de autoidentidade não significa apenas que uma coisa é uma coisa; mas que ao mudar, não muda; e que quando é múltiplo, é um. O que eu chamo de continuidade também deve possuir tal significado, isto é, que quando é múltiplo, é um. O mero um não pode ser chamado de continuidade; e, da mesma forma, o mero múltiplo não pode ser chamado de continuidade
Muito além do Infinito e do Instante: O Tempo como Reunião em Śaṅkarācārya e Abhinavagupta: Far beyond the Infinite and the Instant: Time as Reunion in Śaṅkarācārya e Abhinavagupta
A inquirição sobre a fundamentalidade do Tempo insere-se num contexto principial que transcende o conceptualismo teórico e a objetificação discursiva. Sua necessidade impõe-se, desde tempos imemoriais, como imperativo existencial que pleiteia uma relação íntima entre Tempo (kāla), Conhecimento (jñāna) e Felicidade ou Bem-aventurança (ānanda). É objetivo deste artigo apresentar alguns dos argumentos centrais que informam a concepção de Tempo (kāla) das escolas filosóficas indianas da Não-dualidade (advaita), em especial as tradições do Advaita Vedānta de Śaṅkarācārya (séc. VIII) e do Śaivismo da Caxemira de Abhinavagupta (séc. X).
Palavras-chave: Tempo; kāla; Śaṅkarācārya; Abhinavagupta; Advaita Vedānta; Śaivismo da CaxemiraThe inquiry into the fundamentality of Time belongs to a context that transcends theoretical conceptualism and discursive objectification. Its necessity has been, since time immemorial, an existential imperative that pleads for an intimate relationship between Time (kāla), Knowledge (jñāna) and Happiness or Bliss (ānanda). The purpose of this article is to present some of the central arguments that inform the conception of Time (kāla) in Indian philosophical schools of Non-duality (advaita), in particular the traditions of Śaṅkarācārya’s Advaita Vedānta (8th century) and Abhinavagupta’s Kashmir Śaivism (10th century).
Key-words: Time; kāla; Śaṅkarācārya; Abhinavagupta; Advaita Vedānta; Kashmir Śaivis
Primeiras Objeções De um Sábio Teólogo dos Países-Baixos
Ilustríssimos Senhores;Tão logo que reconheci o desejo que tínheis que examinasse cuidadosamente os escritos de Descartes, pensei que era meu dever de dar satisfação nesta ocasião a umas pessoas que me são tão queridas, tanto para vos testemunhar com isso a estima que faço por vossa amizade, como para vos fazer reconhecer o que falta à minha suficiência e à perfeição de meu espírito; que, no futuro se eu precisasse, me amassem um pouco mais e, se eu falhasse, me dessen uma tarefa mais leve
Nietzsche e as transmutações da liberdade: Nietzsche and the transmutations of freedom
Este artigo acompanha o aprofundamento da crítica nietzschiana à noção de livre-arbítrio e práticas morais dela derivadas, ao longo da obra, simultaneamente ao desenvolvimento de uma concepção propriamente nietzschiana de liberdade, construída através de diversos personagens conceituais que iluminam diferentes aspectos da história dos ideais de liberdade, e suas reelaborações possíveis. Nessa versão altamente revisionista da ideia de liberdade, a filosofia nietzschiana abre espaço para que se pense novamente a liberdade, não como um estado de desobstrução e controle racional, mas como uma disposição instintiva que financia um compromisso valorativo que orienta uma prática política de liberdade, indo além, portanto, das alternativas que circunscreveram a liberdade ao campo meramente “subjetivo”.
Palavras-chave: Nietzsche, liberdade, instinto, valoresThis article follows the development of the Nietzschian criticism to the concept of free will and the moral practices associated to it. While deepening his critics to free will, Nietzsche develops a proper Nietzschian concept of freedom, experimentally built through many conceptual characters, who shed light on different aspects of the history of the ideals of freedom, and their possible reelaboration. In his highly revisionist version of freedom, Nietzsche makes it possible to the rethink freedom, no longer as a state of non-obstruction and rational control, but rather as an instinctive disposition that finances a value commitment orienting the political practice of freedom, going beyond the alternatives that circumscribed freedom to the sphere of “subjectivity”.
Key-words: Nietzsche, freedom, instinct, value
O corpo além da pele. Nietzsche, egoísmo e cuidado: The body beyond the skin. Nietzsche, egoism and care
This article seeks an approximation between Nietzsche’s considerations of egoism — that is, of the selfish primacy proper to moral behaviors held by altruists — and recent studies in neuroscience that emphasize the plasticity of brain activity with regard to an expansion of the limits of the self beyond the body itself. The main hypothesis is that institutions and even personal relationships could, in general, be understood as prolongations and, ultimately, symptoms of our own impulses – whose characteristic would be that of the clash between more or less ephemeral forms of regimentation aimed at expansion – and to whose fictionalization expressed in the idea of self we attribute the notion of egoism; which would lead us, finally, to envision an ethics of care as a phenotypic extension of self-care.
Keywords: egoism; phenotypic extension; will to power; ethics of care; care of selfO presente artigo busca uma aproximação entre as considerações de Nietzsche sobre o egoísmo – isto é, acerca do primado egoísta próprio aos comportamentos morais tidos por altruístas – e estudos recentes em neurociência que salientam a plasticidade da atividade cerebral no que se refere a uma expansão dos limites do eu para além do próprio corpo. A hipótese de fundo é a de que instituições e mesmo relações pessoais poderiam, de um modo geral, ser compreendidas como prolongamentos e, em última instância, sintomas de nossos próprios impulsos – cuja característica seria a do embate entre formas mais ou menos efêmeras de arregimentação que visam à expansão – e a cuja ficcionalização expressa na ideia de eu atribuímos a noção de egoísmo; o que daria margem, enfim, para se vislumbrar uma ética do cuidado como extensão fenotípica do cuidado de si.
Palavras-Chave: egoísmo; extensão fenotípica; vontade de poder; ética do cuidado; cuidado de si
Considerações sobre a crítica nietzscheana ao antifinalismo de Spinoza: Considerations on the nietzschean critique of spinoza’s anti-finalism
The critique undertaken by the German thinker Friedrich Nietzsche about the problem of antifinalism in the thought of the seventeenth-century Dutch thinker Benedictus de Spinoza will be analyzed by us, mainly, from the perspective of two works: Beyond Good and Evil and The Gay Science. In addition, with the help of Nietzschean and Spinoza commentators, we will analyze some excerpts from a letter and Posthumous Fragments by the German author about Spinoza and his problem about the finalism represented in the ontology of his masterpiece Ethics. With this, we will seek to understand how Nietzsche pointed out Spinoza’s theoretical insufficiencies regarding his critique of final causes, or the finalism, which would regulate the world, as well as to explain the extent to which his critique of Spinoza proved to be inconsequential in some points of his philosophy.
Keywords: Spinoza; Nietzsche; finalism; philosophy.A crítica empreendida pelo pensador alemão Friedrich Nietzsche acerca do problema do antifinalismo no pensamento do seiscentista holandês Benedictus de Spinoza será analisada por nós, principalmente, a partir da abordagem de duas obras: Além do Bem e do Mal e A Gaia Ciência. Além disso, com o auxílio de comentadores nietzscheanos e spinozanos, analisaremos alguns trechos de uma carta e dos Fragmentos Póstumos do autor alemão sobre Spinoza e o problema deste sobre o finalismo presente na ontologia da sua obra magna Ética. Com isso, buscaremos entender como Nietzsche apontou as insuficiências teóricas de Spinoza quanto à sua crítica das causas finais, ou o finalismo que regularia o mundo, bem como explicitar em que medida sua crítica a Spinoza mostrou-se inconsequente em alguns pontos da filosofia deste.
Palavras-chave: Spinoza; Nietzsche; finalismo; filosofi
A filosofia chinesa e o sistema de crédito social chinês: Chinese philosophy and the Chinese social credit system
O sistema de crédito social chinês (SCS) se tornou nos últimos anos fonte de análise, preocupação e, em grande parte, visões equivocadas e exageros a respeito do que ocorre em um país tão distante e de cultura tão distinta do denominado “mundo ocidental”. Para evitar ampliar as confusões que já existem em quantidade suficiente a respeito deste tema, este artigo se propõe a uma tarefa relativamente simples, ainda que de grande importância: entender em vias gerais como algumas correntes da filosofia chinesa podem ser empregadas para interpretar a existência e o funcionamento do SCS a fim de evitar o erro de tentar enxergar temáticas relacionadas a outros povos pelo viés da democracia liberal. Para cumprir este objetivo, três serão as correntes escolhidas: legalismo, moísmo e confucionismo. Analisaremos alguns dos principais autores destas (Han Fei, 2003; Mozi, 2013; Mêncio, 2008; Zhu Xi, 2019; e outros) buscando elencar noções caras a cada uma delas que possam dialogar com a iniciativa do crédito social, seja em concordância ou como forma de crítica. Esta análise comparativa almeja assim estabelecer as inspirações do sistema e os desafios que este poderá ter pela frente.
Palavras-chave: sistema de crédito social, filosofia chinesa, confucionismo, moísmo, legalismoThe Chinese social credit system (SCS) has become in recent years a source of curiosity, concern and, mostly, misguided views and excesses concerning what is going on in a country so far away that owns a culture so different from the so-called “western culture”. To avoid increasing confusion already existent in sufficient quantity regarding this subject, this article intends to accomplish a rather simple, albeit of vital importance, task: to understand in general how some Chinese philosophical currents can be employed to interpret the existence and functioning of SCS to avoid the error of trying to observe topics related to other peoples through the bias of liberal democracy. To accomplish this goal, three will be the chosen currents: Legalism, Mohism and Confucianism. We will analyze some of the main authors of these (Han Fei, 2003; Mozi, 2013; Mencius, 2008; Zhu Xi, 2019; and others) seeking to list key views to each of them that can dialogue with the social credit initiative, either in agreement or as a form of criticism. This comparative analysis thus aims to establish the inspirations of the system and the challenges it may face ahead.
Keywords: social credit system, Chinese philosophy, confucianism, mohism, legalis
Resenha crítica da tradução comentada dos sete capítulos internos do Zhuangzi : Critical review of the commented translation of the seven inner chapters of Zhuangzi
Podemos observar no Brasil do século XXI uma ascensão progressiva e contínua da produção acadêmica filosófica de matriz chinesa. Sabemos que os três filósofos mais conhecidos, lidos e citados atualmente por aqui são Confúcio, Laozi e Zhuangzi (Sousa, 2020) – sem contar aqui o Sunzi, da Arte da Guerra (Sunzi Bingfa 孫子兵法). O Laozi 老子, também conhecido pela obra Daodejing 道德經 (Clássico do Caminho e da Virtude), já contava com dezenas de traduções, inclusive cerca de meia dúzia delas já diretamente da língua chinesa para o português, mas ainda nenhuma com tradução de algum comentador chinês tradicional do Laozi, até 2016. O livro Os Analectos (Lun Yu 論語), atribuído a Confúcio, até 2012 não tinha uma tradução completa e comentada feita diretamente do chinês para o português