Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Open Journals System
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Entre a autonomia e o alinhamento: o trabalhismo e o PTB nas páginas do Ultima Hora (1951-1954)
O presente artigo examina como o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o trabalhismo foram representados pelo jornal carioca "Ultima Hora" entre 1951 e 1954 (durante o segundo governo Vargas). O objetivo é questionar a premissa de que o periódico servia como um mero instrumento de reprodução dos discursos getulistas. Para isso, utilizou-se a Análise de Conteúdo como metodologia, observando ocorrências de estratégias específicas na construção das representações sociais sobre o partido e a doutrina. Ao final do artigo, conclui-se que o jornal apresentava uma autonomia relativa em relação aos elementos analisados
"O crime ensanguenta o papel": os faits divers e as narrativas criminais na Belle Époque
Na obra “A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque” (que teve sua primeira edição publicada no Brasil no ano de 2019, por meio da editora Unesp, ligada à Universidade Estadual Paulista), Dominique Kalifa, historiador francês e importante pensador da história social, se debruça sobre a atuação da mídia impressa parisiense no recorte que ficou conhecido como Belle Époque. A obra, produto da tese doutoral de 1994 de Dominique Kalifa, discute e aprofunda a historicidade dos faits divers e as possibilidades de uso destes como objeto de reflexão a análise histórica, reforçando a voltagem do olhar científico histórico para a história do cotidiano
Apresentação
Este dossiê reúne um conjunto plural de reflexões críticas em resposta ao artigo de Marco Aurélio Werle, intitulado A especificidade da filosofia ocidental europeia diante da filosofia oriental ou africana, no qual se sustenta que apenas a tradição ocidental europeia teria desenvolvido uma filosofia em sentido pleno. Essa tese, ao postular como critério definidor a inserção numa história crítica e conceitual contínua — conforme o modelo da Wirkungsgeschichte hegeliano-gadameriana —, termina por excluir de forma sistemática as expressões filosóficas de outros contextos culturais e históricos. O dossiê parte da premissa de que essa visão não apenas reduz a filosofia a um cânone autolegitimador, mas também reproduz uma lógica colonial de exclusão epistêmica, ao desautorizar como filosóficos os pensamentos que emergem fora dos moldes e tradições europeias.As contribuições aqui reunidas propõem, em contraposição, uma ampliação crítica da noção de filosofia, que reconheça sua historicidade múltipla, seus modos diversos de constituição e suas articulações possíveis com tradições religiosas, espirituais, poéticas e práticas. Recusando a oposição simplista entre universalidade e particularismo, os textos demonstram que o pensamento sistemático, o rigor conceitual e a crítica reflexiva não são prerrogativas de um único espaço-tempo, mas aparecem sob formas variadas em diferentes culturas e cosmovisões. Em lugar de uma identidade filosófica fixa e normativa, propõe-se pensar a filosofia como campo em disputa, permeado por múltiplas racionalidades e vocações críticas, sempre situado e, ao mesmo tempo, potencialmente universalizante
A rãzinha do poço e o debate sobre a filosofia na China: The frog in the well and the debate on philosophy in China
A recurring debate in contemporary times discusses whether there is Philosophy outside the Western Eurocentric world. Despite numerous historical and epistemological considerations that demonstrate the contrary, several authors insist on the philosophical absence of other civilizations, revealing that racism, xenophobia and prejudice still dominate many studies on history and philosophical theories. In our brief article, we want to offer the views of some Chinese authors on the issue.
Keywords: Chinese Philosophies; Epistemology; Intercultural Philosophy; Sinology.Um debate reincidente na contemporaneidade discute se há Filosofia fora do mundo eurocêntrico ocidental. Apesar das inúmeras considerações históricas e epistemológicas que demonstram o contrário, vários autores insistem na ausência filosófica de outras civilizações, revelando que o racismo, a xenofobia e o preconceito ainda dominam muitos estudos sobre a história e as teorias filosóficas. Em nosso breve artigo, queremos oferecer as visões de alguns autores chineses sobre a questão.
Palavras-chave: Filosofias Chinesas; Epistemologia; Filosofia Intercultural; Sinologia
Comovimento Moral e a Ética da Virtude Exemplar no Confucionismo: Being Morally Moved and Confucian Exemplary Ethics of Virtue
A “Teoria do Comovimento”, em seu sentido ontológico, pode servir como núcleo e fundamento da ética confucionista. O comovimento, enquanto eixo e conexão, não apenas desencadeia a ação moral humana, mas também conecta, por um lado, a ressonância ontológica com a sensação e percepção moral no nível cognitivo, e por outro, com as emoções, estados afetivos e a compaixão no plano psicológico. Esta interação gera e forma a interação moral, a iluminação ética e o conhecimento moral, influenciando e guiando assim nossa vida ética. Com base nesta análise conceitual, pode-se afirmar que a essência da ética confucionista reside em ser uma ética da virtude exemplar, fundamentada na primazia dos afetos. Ao distinguir o nível axiológico do nível prático da ética, é possível resolver efetivamente dilemas morais. A personalidade moral exemplar confucionista encarna a excelência de uma ou várias virtudes morais. A importância destes modelos morais reside precisamente em sua capacidade de manifestar a virtude na vida cotidiana, comovendo, inspirando e guiando as pessoas a serem boas e praticarem o bem.
Palavras-chave: Comovimento; Ressonância; Ética Confucionista; Ética Exemplar; AfetivismoThis essay argues that a theory of gandong (“感动”, being morally moved)should serve as the very ground of Confucian morality. As a pivot or a starting point of human moral conducts, gandong triggers our moral consciousness and connects ganying (“感应”, ontological attunement) not Only with our moral knowing epistemologically, but also with ganqing (“感情”,affection) psychologically. In light of the understanding of gandong, I would like first to explore Confucian morality as an exemplary virtue ethics grounded ontologically in attunement and moral affections. I then try to answer two possible criticisms of Confucian Ethics as “emotivism” and of Confucian moral person as “being too good to be attractive”.
Keywords: gandong; ganying; Confucian Ethics; exemplary ethics; emotivis
A busca de um novo Junzi para a China contemporânea: The search for a new Junzi for contemporary China
The movement to revive traditional discourses in contemporary China has given rise to proposals on how to reconcile the dilemmas of today’s globalized world with the values of ancient Chinese culture. In this sense, the search for a new Junzi model seems to fulfill the difficult task of replacing the ideal citizen profile inherited from 20th-century Chinese Marxist theories. However, how can this transformation be accomplished? And is it feasible to revive an ancient Confucian concept to solve today’s problems? This is what we will discuss in this text.
Keywords: Confucianism; Junzi; Contemporary China; Sinology; Traditions.O movimento de retomada dos discursos tradicionais na China contemporânea tem feito surgir propostas sobre como conciliar os dilemas do atual mundo globalizado com valores da antiga cultura chinesa. Nesse sentido, a busca de um novo modelo de Junzi parece cumprir a difícil tarefa de substituir o perfil de cidadão ideal herdado das teorias marxistas chinesas do século 20. Contudo, como realizar essa transformação? E será viável retomar um antigo conceito confucionista para resolver problemas hodiernos? É o que discutiremos em nosso presente texto.
Palavras-Chave: Confucionismo; Junzi; China Contemporânea; Sinologia; Tradições
Human Rights and the Question of Universality: Between Dominant Paradigms and Indian Ontological Ethics: Direitos Humanos e a Questão da Universalidade: Entre os Paradigmas Dominantes e a Ética Ontológica Indiana
This article critically interrogates the dominant conceptualisation of human rights and its universalist claims by tracing its epistemological and historical foundations in modern European liberal thought. It argues that the dominant view roots the notion of rights in a particular understanding of personhood—defined through autonomy, reason, and self-awareness—and emerged in response to the experience of oppressive institutions. While liberatory within its original context, the global imposition of this framework introduces significant philosophical and cultural problems, particularly when applied to societies with alternative ontologies and moral orders. In contrast, the article explores the classical Indian worldview, which does not distinguish between human and person, nor does it perceive all institutions as inherently oppressive. Rooted in the interconnected principles of Ṛta (cosmic order), Dharma (duty), Ṛṇa (debt), and Dāna (generosity), this tradition presents an organic, holistic, and relational understanding of life. The Indian perspective emphasises self-reliance over independence, and sees human flourishing as emerging from harmony with social, natural, and cosmic structures, rather than resistance to them. Through this comparative philosophical analysis, the article makes a broader case for epistemic pluralism in human rights discourse. It contends that the future relevance of human rights depends on pluralising its originary narratives and recognising alternative frameworks that offer equally valid conceptualisations of dignity, autonomy, and justice. The work concludes that genuine universality in human rights can only emerge through intercultural dialogue, not through the dominance of a single civilizational paradigm.
Keywords: Human Rights, Universality, Dominant Paradigms, Ethic.Este artigo questiona criticamente a conceituação dominante dos direitos humanos e suas reivindicações universalistas, traçando seus fundamentos epistemológicos e históricos no pensamento liberal europeu moderno. Argumenta que a visão dominante enraíza a noção de direitos em uma compreensão particular da personalidade — definida por meio da autonomia, da razão e da autoconsciência — e surgiu em resposta à experiência de instituições opressoras. Embora libertadora em seu contexto original, a imposição global dessa estrutura introduz problemas filosóficos e culturais significativos, particularmente quando aplicada a sociedades com ontologias e ordens morais alternativas. Em contraste, o artigo explora a cosmovisão indiana clássica, que não distingue entre humano e pessoa, nem percebe todas as instituições como inerentemente opressoras. Enraizada nos princípios interconectados de Ṛta (ordem cósmica), Dharma (dever), Ṛṇa (dívida) e Dāna (generosidade), essa tradição apresenta uma compreensão orgânica, holística e relacional da vida. A perspectiva indiana enfatiza a autossuficiência em detrimento da independência e vê o florescimento humano como algo que emerge da harmonia com as estruturas sociais, naturais e cósmicas, em vez da resistência a elas. Por meio dessa análise filosófica comparativa, o artigo defende de forma mais ampla o pluralismo epistêmico no discurso dos direitos humanos. Argumenta que a relevância futura dos direitos humanos depende da pluralização de suas narrativas originais e do reconhecimento de estruturas alternativas que ofereçam conceituações igualmente válidas de dignidade, autonomia e justiça. O trabalho conclui que a genuína universalidade dos direitos humanos só pode emergir por meio do diálogo intercultural, não pela predominância de um único paradigma civilizacional.
Palavras-chave: Direitos Humanos, Universalidade, Paradigmas Dominantes, Ética
Tecnologias contemporâneas e impacto social: Uma entrevista com Qiu Zeqi: Contemporary technologies and social impact: An interview with Qiu Zeqi
Nesta entrevista concedida por Qiu Zeqi, professor da Universidade de Pequim e intelectual internacionalmente reconhecido, abordamos aspectos relacionados à sua trajetória acadêmica e indagamos sobre aspectos da complexa relação entre tecnologia e sociedade, de forma geral e especificamente na China. O foco das questões está no campo dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (ESCT) na China, abordando elementos históricos que moldaram as bases da sociedade chinesa até temas e desafios contemporâneos e seus possíveis desdobramentos. Ademais, o professor Qiu apresenta instigantes reflexões acerca das relações Brasil China em diversos setores. O objetivo geral é compreender esses elementos e sua dinâmica com a tecnologia através de uma entrevista qualitativa exploratória, tendo como base artigos e obras do autor. Desse modo, a entrevista contribui para melhor compreensão de temas constitutivos do campo dos ESCT, de recentes processos de transformação sociotécnica experimentados na China, de perspectivas de futuro associados à evolução de tecnologias de Inteligência Artificial (IA) e de reflexões para o Brasil e para a América Latina.
Palavras-chave: Ciência, Tecnologia e Sociedade; Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia; Inteligência Artificial; China; relações China-Brasil.In this interview with Qiu Zeqi, professor at Peking University and internationally recognized intellectual, we explore aspects related to his academic trajectory and inquire about the complex relationship between technology and society, both in general and specifically in China. The focus of the questions lies within the field of Science and Technology Studies (STS) in China, addressing historical elements that shaped the foundations of Chinese society, as well as contemporary themes, challenges and their possible developments. Additionally, Professor Qiu offers thought-provoking reflections on Brazil-China relations across various sectors. The overarching objective is to understand these elements and their interplay with technology through an exploratory qualitative interview, drawing on the author’s articles and works. Thus, the interview contributes to a deeper comprehension of key themes in the STS field, recent processes of sociotechnical transformation in China, future perspectives associated with the evolution of Artificial Intelligence (AI) technologies, and reflections for Brazil and Latin America.
Keywords: Science, Technology and Society; Social Studies of Science and Technology; Artificial Intelligence; China; China-Brazil relations
Sofrimento estudantil na universidade: interlocução entre psicanálise, neoliberalismo e colonialidade: Student suffering in the university: dialogue between psychoanalysis, neoliberalism and coloniality
This article examines university’s discontents at the intersection of psychoanalysis, neoliberalism, and the coloniality of knowledge, based on the account of a student from a public university. The research, conducted through listening groups, allows for an understanding of suffering not merely as an individual experience but as a social symptom. It discusses how the neoliberal logic of productivity and individual accountability, intertwined with Eurocentric epistemic hierarchies, generates anxiety, guilt, and helplessness. Psychoanalytic listening reveals the effects of these structural contradictions, showing that performance pressures and the medicalization of suffering reinforce individualization and conceal social and racial determinants, while simultaneously fostering the creation of collective spaces for resistance and emancipation.
Key-words: University; Psychoanalysis; Social Symptom; Neoliberalism; Coloniality.Este artigo analisa o mal-estar universitário a partir da interseção entre psicanálise, neoliberalismo e colonialidade do saber, com base no relato de um estudante de uma universidade pública. A pesquisa, realizada por meio de grupos de escuta, permite compreender o sofrimento não apenas como experiência individual, mas como sintoma social. Discute-se como a lógica neoliberal de produtividade e responsabilização individual, articulada a hierarquias epistêmicas eurocêntricas, produz angústia, culpa e desamparo. A escuta psicanalítica evidencia os efeitos dessas contradições estruturais, mostrando que as pressões por desempenho e a medicalização do sofrimento reforçam a individualização e ocultam determinantes sociais e raciais, ao mesmo tempo em que favorecem a criação de espaços coletivos de resistência e emancipação.
Palavras-chave: Universidade; Psicanálise; Sintoma Social; Neoliberalismo; Colonialidade