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Recensão - DOMÍNGUEZ SÁNCHEZ, Santiago (ed.) - Documentos pontificios medievales del monasterio de Santa María de Poblet (1132-1499). León: Universidad de León, Área de Publicaciones, 2017 (600 pp.)
En el año 2017 un nuevo número, el 11, se incorpora a la colección Monumenta Hispaniae Pontificia de manos de su director, el Dr. Santiago Domínguez Sánchez. Tras las ediciones de documentos referentes a España de los papas Gregorio IX (1), Bonifacio VIII (2), Nicolás IV (5), Martín IV (6), Clemente V (7) y Honorio IV (8), y siguiendo la estela del centrado en la documentación pontificia del Real Monasterio de San Isidoro de León (3), ve la luz el volumen dedicado a una institución religiosa central de la Baja Edad Media tanto peninsular como europea, el monasterio de Santa María de Poblet
“O Fantasma é o futuro do homem” — da espectralidade das imagens no cinema de Kiyoshi Kurosawa: KAIRO (2001)
Kiyoshi Kurosawa’s work poses the question of “the end of humanity”. This question leads us to another, related to the end of cinema in an age where film is being replaced by digital. This framework introduces us to a second degree of the problematization of the concept of the “spectre”, which is closely linked to a conceptualization of cinema as a spectral art. Establishing relations between different media, Kairo (2001) explores the “mutation effect” of (analog) reality into virtuality (the pixelized “flou” of the bodies on screen). This can be viewed as a comment on the state of cinema in the XX th century, also boldly suggesting that the ghost is the future of mankind.O cinema de Kiyoshi Kurosawa, desde sempre, e sobretudo nos seus últimos filmes, coloca a questão do “fim da humanidade”, questão que se desdobra noutra, a do fim do próprio cinema na era da passagem do analógico ao digital, o que introduz um 2º grau da problematização da noção do “fantasma” e se traduz numa concepção espectral do cinema. Kairo (2001), nomeadamente devido às relações que aí se estabelecem entre os diferentes media e ao constante efeito de “fagocitação” e “mutação” do real (do analógico) pelo virtual (a pixelização flou dos corpos nas imagens), faz não só o ponto da guerra das imagens em que hoje é dado o cinema, como levanta a hipótese, mais ousada, do “fantasma” como devir do “homem”
Bostofrio: a recusa fotográfica como evocação
In 2018, the film Bostofrio, Paulo Carneiro’s first feature film, premiered. This documentary, about a director in search of the memory of his grandfather, in the eponynous village in which he lived, is part of a line of “rural-fantasistic” films about the landscape and the experiences of Trás-os-Montes. In it, the photographic dimension emerges from a narrative necessity but alsofrom a formal point of view, emphasizing its importance by the absence of a key image: the portrait of the “incognito grandfather”. In this essay I try to explain how this absence, together with a series of “primitive” filmic strategies with a strong Gothic correlation, convert the absent figure into a spectral presence.Em 2018 estreou o filme Bostofrio de Paulo Carneiro, a sua primeira longa-metragem. Este documentário, sobre um realizador em busca da história do seu avô, na homónima aldeia em que este viveu, insere-se numa linhagem de filmes “ruralo-fantasistas” sobre a paisagem e as vivências transmontanas. Nele a dimensão fotográfica surge de um ponto de vista narrativo mas também formal, acentuando-se a sua importância pela ausência de uma imagem chave: o retrato do “avô incógnito”. Neste ensaio procuro analisar de que forma essa ausência, juntamente com uma série de estratégias fílmicas “primitivistas” e de forte correlação gótica, converte a figura ausente numa presença espectral
Por uma estética do atrito — a função utópica de um memorial
This text evokes an idea proposed by the Portuguese researcher Silvina Rodrigues Lopes in her book “Literature — defense of friction” where she proposes to think literature
in a certain counter-image function, opening new spaces of thought. I develop a reflection on the function of memorials and their relationship to utopias. I propose the idea of what I named as minimalist memorials. Brazil lacks memorials. For this reason, it is essential to evoke the resistance of some who do not close their eyes and mouths in the face of horror. If we still have any hope of a future, it is certainly due to those who do not abandon their dead and take care of the narratives that have been interrupted. This text gives some examples in this direction. Este texto parte de uma ideia proposta pela pesquisadora portuguesa Silvina Rodrigues Lopes em seu livro “Literatura — defesa do atrito” de pensar a literatura numa certa função de counter-image, abrindo espaços inéditos de pensamento. Desenvolvo uma reflexão sobre a função dos memoriais e sua relação com as utopias. Proponho a ideia do que nomeei como memoriais minimalistas. O Brasil carece de memoriais. Por esta razão, é fundamental evocar a força de resistência de alguns que não fecham os olhos e bocas diante do horror. Se temos ainda alguma esperança de um futuro certamente ela se deve aqueles que não abandonam seus mortos e cuidam das narrativas que ficaram interrompidas. Este texto traz alguns exemplos nesta direção
Caindo no real — notas sobre Welfare, de Frederick Wiseman
We don’t just look at images; sometimes they are alive and we are like ghosts summoned to the theater in which they are created. In this case, it is not an affective connection between the look and the image that it is at stake. It is a new relational condition: the look and the image are in a reciprocal relationship. Such a condition occurs (very rarely) due to the possibility that art has to accommodate movements similar to those of the everyday world, thus achieving the embodiment of the ecstatic stability that isexperienced in life itself. In this paper, we will try to understand cinema precisely as a unit of opposites, in which the images and the observer stand between worlds. This unity sprouts in a theater of images, in which the boundaries between the material and the immaterial, the world and its representation, the corporeal and the fantastical are obscured. As far as the relation between gaze and reality is concerned, drawing, photography and cinema have always been drawn by the same desire to spatialize movement, by rescuing it from time. The immemorial correlativity between these spellings of the visible, or what resembles them as gestures of approximation to the real, is freed from the technical disposition of the photographic image. However, it would be poor not to take into account the institutional relationship that photography, as a body or support, allows to establish with the images of life thatkeeps ‘imprisoned’ inside. Frederick Wiseman’s ‘filmed theater’ serves as a motto to think about this rare relational tension that cinema manages to establish with the total institution that is life. It is the space of representation conceived in Welfare (1975) — or, more precisely, in the first two minutes of the film — that we propose to analyse here. Indeed, it was in this film that Wiseman’scinema first covered itself with a second ‘skin’. There is a switch into the invisible body, the unsaid, the non-being in any image. The spectator ceases to be a mere observer distanced from the lives of others (fly on the wall) and becomes an invisible presence (ghost in the shell). What kind of observation do we speak of when we speak of a certain type of body, which falls within a film so real as reality itself? It is the production of this observant and phantasmatic body that we will address here.Não animamos simplesmente as imagens com o olhar; por vezes, são elas que estão vivas e somos nós os fantasmas convocados para o teatro em que elas se engendram. Nesse caso, não é tanto de uma ligação afectiva entre o olhar e a imagem que se trata, mas sim de uma nova condição relacional: o olhar e a imagem estão numa relação recíproca. Tal condição produz-se, muito raramente, devido à possibilidade que a arte tem de albergar movimentos semelhantes aos do mundo de todos os dias, conseguindo dessa forma corporalizar (dar corpo) à estabilidade extática que se experimenta na vida em si mesma. Neste artigo, procuraremos entender o cinema justamente como uma unidade de opostos, na qual a imagem e o observador se situam entre mundos. Dessa particular tensão brota uma condição relacional, na qual se esbatem as fronteiras entre o material e o imaterial, entre o mundo e a sua representação, entre o corpóreo e o fantasmático. No que à relação entre o olhar e o real diz respeito, o de- senho, a fotografia e o cinema sempre se pautaram pelo mesmo desejo de espacializar o movimento, resgatando-o do tempo. A imemorial correlatividade entre estas grafias do visível, ou aquilo que as assemelha enquanto gestos de aproximação do real, subtrai-se à disposição essencialmente técnica da imagem fotográfica. No entanto, seria pobre não ter em conta a relação institucional que a fotografia, enquanto corpo ou suporte, permite estabelecer com as imagens da vida que ‘aprisiona’ no seu interior. O ‘teatro filmado’ de Frederick Wiseman serve-nos de mote para pensar essa rara tensão relacional que o cinema consegue estabelecer com a instituição total que é a vida. É do espaço de representação inaugurado em Welfare (1975) — ou, mais exactamente, dos primeiros dois minutos do filme — que nos propomos aqui a tratar. Com efeito, foi nesse filme que o cinema de Wiseman se revestiu pela primeira vez com uma segunda ‘pele’. Surge um interesse pelo corpo invisível, pelo não-dito, pelo não-ser em qualquer imagem. O observador deixa de ser um mero contemplador distanciado da vida dos outros (fly on the wall) e passa a ser um fantasma presente no espaço (ghost in the shell). De que tipo de observação falamos, quando falamos de um certo tipo de corpo, que cai no interior de um filme tão real como a própria realidade? É a produção desse corpo observante e fantasmático que aqui abordaremos
Toda a Memória Num Catálogo. O catálogo e a materialização do valor simbólico da obra de arte
This text examines the role the catalogue plays in the production of meanings for the work or art. It stems from a case study, started in November of 2018, in the context of a contemporary art foundation in Lisbon, which regularly produces catalogues for its exhibitions. The argument is that the role of the catalogue must be analyzed in articulation with the role of the work of art. Being that both objects have a social role, the art objects and the catalogues contribute to the encounter between specialized agents, which share the ephemeral nature of the temporary exhibition. In this text, the encounters between catalogues and art objects are considered as producers of the cultural biographies of the work of art (Kopytoff 1986) which, once terminated the exhibition, do not always follow the same path. Additionally, the relationship between the artist’s symbolic value and the catalogue’s materiality is also assessed in an attempt to read the role the catalogue plays in different exhibition contexts, using as an example three catalogues of exhibitions which took place in 2018 and 2019. Finally, the various roles are outlined: that of the artist, the art object and of the other agents, circumscribed to their local art scene, attempting to find answers to the role played by each and the objects produced by them. Este texto examina o papel do catálogo na produção de sentidos para a obra de arte. Parte de um estudo de caso feito no âmbito de uma fundação de arte contemporânea em Lisboa, que regularmente produz catálogos para as suas exposições, estudo esse iniciado em Novembro de 2018. O argumento exposto é de que o papel do catálogo deve ser analisado à luz da sua articulação com o papel da obra de arte. Sendo ambos objetos com um papel social, tanto as obras de arte, como os catálogos, contribuem para o encontro entre agentes especializados, que partilham a temporalidade efémera da exposição temporária. Neste texto, examina-se os encontros entre catálogos e objetos artísticos, produtores de biografias culturais das obras de arte (Kopytoff 1986) que, finda a exposição, nem sempre continuam o seu caminho em conjunto. Adicionalmente, a relação entre o valor simbólico do artista e a materialidade do catálogo é avaliada tentando auscultar o papel do catálogo em contextos de exposição diferentes, tomando como exemplo três catálogos de exposições que tiveram lugar em 2018 e 2019. Por fim, sistematiza-se os vários papéis, do artista, do objeto artístico e dos outros agentes, enquadrando-os no meio artístico local, procurando respostas para a compreensão do papel de cada um e dos objetos por si produzidos. 
Dossier Monográfico O Bestiário Medieval: Apresentação
Pela primeira vez, a Medievalista apresenta um caderno temático resultante de um desafio lançado aos leitores. O tema proposto foi “O Bestiário Medieval”. O momento e o tema são significativos para a nossa revista, uma vez que se assinala a passagem de vinte anos sobre uma iniciativa levada a cabo por Luís Krus, Adelaide Miranda e Miguel Alarcão: o colóquio Animalia, o primeiro encontro realizado em Portugal sobre a simbologia animal na Idade Média (que decorreu no ano 2000). Relembramos e homenageamos, assim, o nosso primeiro director, Luís Krus, que foi precursor, em Portugal, dos estudos sobre a presença e a representação dos animais, a partir dos vestígios que nos chegaram do período medieval, bem como da respectiva abordagem interdisciplinar. A complementaridade de pontos de vista diversificados ficou bem patente no livro que recolheu as participações do colóquio acima referido (Luís Krus, Adelaide Miranda e Miguel Alarcão (coord.), Animalia: presença e representações, Lisboa: Colibri, 2002) e em duas teses que foram realizadas por esses mesmos anos (“A simbologia dos animais n’A Demanda do Santo Graal”, de 1997, editada em 2000 pela Patrimonia Histórica, e “Os animais na literatura portuguesa dos séculos XIII e XIV – Presença e funções” de 2003, ambas da autoria de Pedro Chambel)
Recensão / Book review: QUIRÓS CASTILLO, Juan Antonio (ed.) – Social inequality in Early Medieval Europe. Local societies and beyond. Turnhout: Brepols, 2020 (360 pp.).
O editor desta obra conjunta, Juan Antonio Quirós Castillo, é professor de Arqueologia Medieval na Universidade do País Basco, Honorary Research Associate no Institute of Archaeology do University College of London e editor da série Documentos de Arqueología Medieval
Espetáculo para o céu: a construção do jogral.: Tese de Dutoramento em Estudos Medievais, apresentada à Universidade de Santiago de Compostela, 2019. Orientação das Professoras Doutoras Yara Frateschi Vieira e Maria Isabel Morán Cabanas
Nos séculos XII e XIII, os jograis encontravam-se no ápice da sua influência. Graças à sua atuação itinerante pelas diversas regiões da Europa Ocidental e à pluralidade dos seus meios de expressão, conseguiam nessa época atingir um público vasto e variado. O amplo leque das habilidades jogralescas por um lado enriquece a atuação e permite cativar os espectadores; por outro, porém, essa mesma multiplicidade acaba por criar imprecisão no vocabulário utilizado para designar a arte e o artista: a categoria abrangia do compositor ao malabarista, passando pelo cantor, o acrobata, o instrumentista e o domador de animais, sem distinguir os bons dos maus, os talentosos dos oportunistas. Desencadeia-se, por isso, uma insatisfação e a condenação por parte de clérigos, de trovadores e dos próprios jograis. Apesar disso, esses artistas conquistaram o reconhecimento social, transformando-se em um canal de comunicação inigualável, com uma estética interativa e eficiente, fundamental para a própria estrutura e sobrevivência da sociedade cortesã medieval
Virtual International Medieval Congress (vIMC), University of Leeds – 6 a 10 de Julho de 2020
O International Medieval Congress (IMC) de Leeds, que completou em 2019 vinte e cinco anos desde a sua primeira edição, é o maior Congresso Internacional do espaço europeu dedicado aos estudos medievais, reunindo anualmente medievalistas de todas as áreas científicas, que aí encontram um fórum de deb ate privilegiado. Importante, quer para os especialistas, quer para o público em geral interessado na Idade Média, este congresso costuma contar com cerca de 2700 participantes vindos de todo o mundo. Trata se de um espaço privilegiado de trabalho, interacção, convívio, troca e amadurecimento de ideias, com sessões académicas, mesas redondas, encontros anuais de associações académicas e recepções oferecidas por editoras ou centros de investigação. O programa académico é complementado por um programa social muito variado e por uma importante feira do livro medieval, com todas as grandes casas editoras e muitos alfarrabistas bem representados