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Representações do pensamento abissal em Cinzas do Norte, de Milton Hatoum
The present paper aims to investigate the presence of a critique of a certain rationality paradigm determined by the dynamics of appropriation/violence and the logic of production of non-existence underlying the novel Cinzas do Norte, by Milton Hatoum. We articulate, in this endeavor, a brief characterization of the author’s work with the studies of portuguese intellectual Boaventura de Sousa Santos (2002a, 2002b, 2007), specifically those that concern the concepts of metonymic reason and abyssal thought as determinants in the way that type of rationality produces a dominant field of existence. The interpretative aspect of the text realizes itself in a discussion regarding the representation of two characters in the novel, Trajano Mattoso and Colonel Zanda, and that of late modernity in the city of Manaus, unveiled through the trajectory of the novel’s protagonist Raimundo Mattoso. That representation and unveiling constitute, in our view, the underlying critique of modernity and its transformations in the city of Manaus and the Amazon depicted in the novel.O presente trabalho busca investigar a presença de uma crítica a certo paradigma de racionalidade determinado pela dinâmica de apropriação/violência e pelas lógicas de produção de não existência subjacente ao romance Cinzas do Norte, de Milton Hatoum. Para esse fim articulamos uma caracterização da obra do autor fundamentada em uma seleção de trabalhos de sua fortuna crítica com os estudos de Boaventura de Sousa Santos (2002a, 2002b, 2007), especificamente aqueles que tratam dos conceitos de razão metonímica e pensamento abissal como determinantes na maneira como aquela racionalidade produz um campo dominante de existência. O esforço interpretativo do texto se realiza na reflexão sobre a representação de duas personagens do romance, Trajano Mattoso e Coronel Zanda, e da tardo modernidade na cidade de Manaus, desvelada através da trajetória do protagonista Raimundo Mattoso. A representação e desvelamento constituem, a nosso ver, uma perspectiva crítica do autor em relação à modernidade e suas transformações na cidade de Manaus e na Amazônia retratadas no romance
As perífrases de tempo em aulas e em entrevistas orais
In the grammatical tradition, verbal periphrases have been described mainly in relation to their morphology. Only a few verbal periphrases are included in the paradigms of verb tense conjugation of Traditional Grammars due to the fact that, in the period in which the first grammars of the Romance languages were produced, inflectional morphology was privileged as a way of “valuing” characteristics of these languages that resembled features of Latin. The objective of this paper is to describe the use of time periphrases in a corpus of spoken language formed by interviews with researchers and by university and pre-university course classes. Through the tabulation of occurrences, a very high frequency of periphrastic forms was verified to the detriment of simple forms. In other words, it was verified that, even when the periphrasis does not have a supplementary function, that is, when it does not fill a gap in a paradigm, speakers more frequently opt for the compound form.En la tradición gramatical, las perífrasis verbales han sido descritas principalmente en relación a su morfología. Solo unas pocas perífrasis verbales se incluyen en los paradigmas de conjugación de tiempos verbales de las Gramáticas Tradicionales debido a que, en el período en que se produjeron las primeras gramáticas de las lenguas romances, se privilegió la morfología flexiva como una forma de “valorar “características de estas lenguas que se asemejan a rasgos del latín. El objetivo de este trabajo es describir el funcionamiento de las perífrasis temporales en un corpus de lenguaje hablado formado por entrevistas a investigadores y por clases de cursos universitarios y preuniversitarios. A través de la tabulación de ocurrencias se constató una frecuencia muy alta de formas perifrásticas en detrimento de las formas simples. En otras palabras, se comprobó que, aun cuando la perífrasis no tiene una función suplementaria, es decir, cuando no llena un vacío en un paradigma, los hablantes optan con mayor frecuencia por la forma compuesta.Na tradição gramatical, as perífrases verbais têm sido descritas principalmente em relação à sua morfologia. Apenas algumas perífrases verbais são incluídas nos paradigmas de conjugação verbal de tempo das Gramáticas Tradicionais pelo fato de que, no período em que se produziram as primeiras gramáticas das línguas românicas, privilegiou-se a morfologia flexional como forma de “valorizar” características dessas línguas que se assemelhassem a características do latim. O objetivo deste trabalho é realizar uma descrição do funcionamento das perífrases de tempo em um córpus de língua falada formado por entrevistas com pesquisadores e por aulas de curso superior e de curso pré-vestibular. Por meio da tabulação das ocorrências, verificou-se uma altíssima frequência das formas perifrásticas em detrimento das formas simples. Em outras palavras, verificou-se que, mesmo quando a perífrase não tem função supletiva, ou seja, quando não preenche uma lacuna em um paradigma, os falantes optam com maior frequência pela forma composta
#Cancelada: uma cultura do boicote veiculada por estratégias de impolidez
This research aims to analyze how internet users, in online-mediated interactions on the social network X (formerly Twitter), employed linguistic-discursive resources that would suggest the cancellation of the artist Thaila Ayala, by reducing interlocutive distance and constructing metapragmatics of impoliteness. In the theoretical scope, we assume that cancel culture involves impolite language actions at the micro (impoliteness strategies), macro (establishment of violent metapragmatics), and meso levels (regulation of interlocutive instances for violence), guided by the intersection of Interactional Sociolinguistics and Pragmatics. In the methodological scope, we selected one post from G1 and seven comments related to the cancellation of the artist Thaila Ayala, under the guidance of (N)etnography and Critical Discourse Analysis. In the analytical scope, we observed that irony, derogatory rhetorical questions, pejorative adjectives, distinct insinuations, and various grammatical-textual uses, as violent linguistic-discursive strategies, emerged from a (meta)discursive struggle between the artist (cancelled) and the internet users (cancellers), forming a unit of meaning that framed the cancellation as a kind of pursuit of social justice.Esta investigación tiene como objetivo analizar cómo los internautas, en interacciones mediadas en línea en la red social X (anteriormente Twitter), emplearon recursos lingüístico-discursivos que, al reducir la distancia interlocutiva y construir metapragmáticas de impolidez, sugerirían el cancelamiento de la artista Thaila Ayala. En el ámbito teórico, asumimos, a la luz de la intersección de la Sociolingüística Interaccional y la Pragmática, que la cultura de cancelamiento implica acciones lingüísticas descorteses en los niveles micro (estrategias de impolidez), macro (establecimiento de metapragmáticas violentas) y meso (regulación de instancias interlocutivas para la violencia). En el ámbito metodológico, seleccionamos, bajo la orientación de la (N)etnografía y el Análisis Crítico del Discurso, una publicación de G1 y siete comentarios relacionados con el cancelamiento de la artista Thaila Ayala. En el ámbito analítico, observamos que la ironía, las preguntas retóricas desvalorizadoras, los adjetivos peyorativos, las insinuaciones distintas y los usos gramático-textuales diversos, como estrategias lingüístico-discursivas violentas, surgieron de una lucha (meta)discursiva entre la artista (cancelada) y los internautas (canceladores), formando una unidad de sentido que enmarcó la cancelación como una especie de búsqueda de justicia social.Neste artigo, propomo-nos a analisar de que modo internautas, em interações mediadas on-line na rede social Twitter, mobilizaram recursos linguístico-discursivos que, ao reduzirem a distância interlocutiva e ao construírem metapragmáticas de impolidez, sugeririam o cancelamento da artista Thaila Ayala. Na interface teórica da Sociolinguística Interacional e da Pragmática, articulamos os conceitos de interação mediada on-line, de hipervisibilidade e de cultura de cancelamento às teorias de (im)polidez, de proxêmica linguístico-discursiva e de metapragmáticas. Na confluência metodológica entre a (N)etnografia e a Análise de Discurso Crítica, selecionamos uma postagem do G1 e sete comentários relacionados ao cancelamento da artista Thaila Ayala. Constatamos que o uso de ironias, perguntas retóricas desvalorizadoras, adjetivações pejorativas, insinuações distintas e usos gramático-textuais diversos, como estratégias linguístico-discursivas violentas, emergem de determinado enquadre sociocultural (com projeções subjetivas identitária e ideologicamente guiadas) e formam uma unidade de sentido que situa a violência como a busca por justiça social, em guinada contra-hegemônica, dos/as internautas em relação à violência propiciada pela artista cancelada
Entrevista com Martine Lani-Bayle: PHOTOGRAPHIES D’IDENTITÉS NARRATIVES
Interview with Martine Lani-BalyleEntrevista com Martine Lani-BalyleLe thème des "déclinaisons identitaires dans les récits de vie explore la manière dont les individus construisent et expriment leur identité à travers les récits personnels. Ces récits de vie reflètent souvent les multiples facettes de l'identité d'une personne, y compris ses origines familiales, ses expériences vécues et ses relations sociales. Les déclinaisons identitaires dans ces récits peuvent être influencées par des facteurs tels que la culture, le genre, l'âge et l'appartenance sociale. L'analyse des récits de vie permet de comprendre comment les individus se perçoivent et se positionnent dans le monde, ainsi que les changements et les développements qui se produisent au fil du temps. Ces récits peuvent également révéler les tensions et les conflits internes liés à l'identité, ainsi que les stratégies utilisées par les individus pour naviguer à travers eux. Du document qui enregistre notre venue au monde à celui qui nos permet d'y rester, ces déclinaisons identitaires dans les récits de vie peuvent contribuer à une meilleure compréhension de la construction de l'identité individuelle et de ses implications dans différents contextes sociaux et culturels. Entrevista com Martine Lani-Bayl
Histórias e culturas indígenas nas aulas de Educação Física: organização de um processo de ensino
This study aims to: (i) present (and share) part of a teaching process that engages in dialogue with Indigenous histories and cultures during Physical Education classes for early years of Elementary School at a public school in Porto Alegre, Rio Grande do Sul, and (ii) analyze and discuss the limits and possibilities of this teaching process. To this end, the theoretical-methodological approach is rooted in the context of qualitative research, with an emphasis on descriptive-exploratory analysis. Through the theoretical lenses of decoloniality and interculturality, two teaching proposals were developed: one for 1st and 2nd grade classes, and another for 3rd, 4th, and 5th grade classes. We highlight that, within the gaps left by the various forms of coloniality present in the school institution—exemplified, to some extent, by certain guidelines of the National Common Curricular Base—the Physical Education teacher sought to organize a teaching process that engages in dialogue with Indigenous histories and cultures, committed to Afro-Brazilian Civilizational Values. We consider this an opportunity to work with the lenses of decoloniality and interculturality in school-based Physical Education.Este estudio tiene como objetivos: (i) presentar (y compartir) parte de un proceso de enseñanza dialogado con las historias y culturas indígenas, en las clases de Educación Física, con grupos de los primeros años de la Educación Básica en una escuela pública, en Porto Alegre, Rio Grande do Sul, y (ii) analizar y discutir los límites y las posibilidades de dicho proceso de enseñanza. Por ello, el enfoque teórico-metodológico se inserta en el contexto de la investigación cualitativa, con énfasis en un carácter descriptivo-exploratorio de su análisis. A partir de la lente teórica de la decolonialidad y la interculturalidad, se diseñaron dos propuestas de enseñanza para los grupos de los primeros años de la educación básica: una para los grupos de 1º y 2º año, y otra para los grupos de 3º, 4º y 5º año. Destacamos que, en las brechas de las diversas formas de colonialidad presentes en la institución educativa, por ejemplo, en cierta medida, en algunas orientaciones de la Base Nacional Común Curricular, la profesora de Educación Física buscó organizar un proceso de enseñanza dialogado con las historias y las culturas indígenas comprometido con los Valores Civilizatorios Afro-brasileños, lo que consideramos una posibilidad de trabajo desde la lente de la decolonialidad y la interculturalidad en la Educación Física escolar.Este estudo tem como objetivos: (i) apresentar (e partilhar) parte de um processo de ensino dialogado com as histórias e culturas indígenas, nas aulas de Educação Física, com turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental em uma escola pública, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e (ii) analisar e discutir os limites e as possibilidades desse processo de ensino. Para tanto, o caminho teórico-metodológico está inserido no contexto da pesquisa qualitativa, com ênfase num caráter descritivo-exploratório de sua análise. A partir das lentes teóricas da decolonialidade e da interculturalidade, foram construídas duas propostas de ensino para as turmas dos anos iniciais do ensino fundamental: uma para as turmas de 1º e 2º anos e a outra para as turmas de 3º, 4º e 5º anos. Destacamos que, nas brechas das diversas formas de colonialidade presentes na instituição de ensino escola, a exemplo, em certa medida, de algumas orientações da Base Nacional Comum Curricular, a professora de Educação Física procurou organizar um processo de ensino dialogado com as histórias e as culturas indígenas comprometido com os Valores Civilizatórios Afro-brasileiros, o que consideramos uma possibilidade de trabalho com as lentes da decolonialidade e da interculturalidade na Educação Física escolar
Marx e Rousseau e a formação humana
This essay presents and discusses some reflections developed by the philosophers Jean-Jacques Rousseau and Karl Marx, aiming at questioning human formation in the present day by addressing their conceptions regarding education in modernity and questioning to what extent they have vitality for contemporary debates. Each of these scholars brings provocations with a view to aiming for a society that overcomes social inequalities and breaks with the dichotomy between an education focused on the formation of the ruling elite and another directed towards the working class. Despite controversial views on the benefits/harms of social coexistence, they affirm that the formation of human sociability has been the guarantor of humanity's survival. Through different paths, Rousseau and Marx warn that social inequality is not natural; it cannot be seen as a misfortune of fate or of the human condition. On the contrary, it is a social product and, as such, susceptible to change. It is no coincidence that both thinkers articulate social transformations with educational projects that are also emancipatory in nature. Although their educational proposals have specificities, both oppose to a unilateral, fragmented education that separates reason and sensibility, manual labor and intellectual work, theory and practice. In this sense, the more distinct they may be, the reflections of Rousseau and Marx prove to be inspiring in the current struggle against educational duality.Este ensayo presenta y discute algunas de las reflexiones desarrolladas por los filósofos Jean-Jacques Rousseau y Karl Marx, con el objetivo de problematizar la formación humana actual, planteando sus concepciones acerca de la educación en la modernidad y cuestionando en qué medida son pertinentes para los debates de hoy. Cada uno de estos estudiosos esgrime argumentos provocadores en favor de una sociedad que supere las desigualdades sociales y rompa la dicotomía entre la educación destinada a formar a la élite dirigente y otra dirigida a la clase trabajadora. A pesar de visiones controversias sobre los logros/daños de la interacción social, ambos afirman que la formación de la sociabilidad humana fue la garante de la supervivencia de la humanidad. Por caminos diferentes, Rousseau y Marx advierten que la desigualdad social no es natural y no puede aceptarse como un infortunio del destino o de la condición humana. Al contrario, es un producto social y, como tal, susceptible de cambio. No es casual que ambos pensadores articulen las transformaciones sociales con proyectos educativos también de carácter emancipador. Aunque sus propuestas educativas tengan especificidades propias, ambas se oponen a una formación unilateral, fragmentada, que separe la razón de la sensibilidad, el trabajo manual del intelectual, la teoría de la práctica. En este sentido, por muy distintas que sean, las reflexiones de Rousseau y Marx son inspiradoras en la lucha actual contra la dualidad educativa.O presente ensaio apresenta e discute algumas reflexões desenvolvidas pelos filósofos Jean-Jacques Rousseau e Karl Marx, com o objetivo de problematizar a formação humana atual, abordando suas concepções sobre educação na modernidade e questionando em que medida possuem vigor para os debates hodiernos. Cada um desses estudiosos traz provocações almejando uma sociedade que supere as desigualdades sociais e rompa com a dicotomia entre uma educação voltada à formação da elite dirigente e outra direcionada à classe trabalhadora. Apesar de olhares controversos sobre os benefícios/malefícios do convívio social, afirmam que a formação da sociabilidade humana foi garantidora da sobrevivência da humanidade. Por caminhos distintos, Rousseau e Marx alertam que a desigualdade social não é natural, não pode ser aceita como um infortúnio do destino ou da condição humana. Pelo contrário, é um produto social e, como tal, suscetível de mudança. Não por acaso, ambos os pensadores articulam transformações sociais com projetos educativos também de caráter emancipatório. Por mais que suas propostas educacionais possuam especificidades, ambas se opõem a uma formação unilateral, fragmentada, que aparta razão e sensibilidade, trabalho manual e trabalho intelectual, teoria e prática. Nesse sentido, por mais distintas que sejam, as reflexões de Rousseau e Marx mostram-se inspiradoras na luta atual contra a dualidade educacional
Corpos dissidentes, plataformização e vigilância algorítmica
Atentas aos riscos e limites da cultura da conectividade (Van DIJCK, 2013), as contribuições desta Seção Temática inserem-se nesse debate ao problematizar como a plataformização da vida e os dispositivos algorítmicos atuam como ferramentas de controle, mas também como espaços de contestação. A Seção Temática é composta por seis (6) artigos de autoria de pessoas feministas de distintas áreas de conhecimento, como Antropologia, Comunicação Social, Artes Visuais, Educação e Serviço Social. Os artigos desta Seção Temática, inspirados em Michel Foucault (1979), investigam como os mecanismos de rastreamento de dados e os algoritmos presentes nas plataformas digitais moldam os dispositivos de sexualidade e gênero, especialmente no contexto do Sul Global, onde corpos racializados, generificados e dissidentes são submetidos a formas particulares de vigilância e controle
O populismo é uma forma democrática de antiliberalismo?
As much as the concept of populism eludes a precise definition, we can find in the thesis of the incompatibility between democracy and liberalism a useful starting point for understanding the phenomenon as it has manifested in recent decades. However, given the polysemic nature of the term liberalism, it is necessary to determine which sense of liberalism populism opposes in the name of popular sovereignty. In this work, we identify political liberalism as the target of populism, showing that its antagonism with popular sovereignty (as argued by authors such as Carl Schmitt) arises only from a distorted view of what democracy is, since democratic legitimacy depends on liberalism in its political sense. Economic liberalism, in turn, is perfectly compatible with populism, but in its pure form, it does not result in an arrangement that aligns with the normative requirements of political liberalism. Finally, the question arises as to whether, in certain circumstances of profound economic inequality, the traditional institutional arrangements of political liberalism can be modified in the name of its own normative demands.Por mais que o conceito de populismo escape a uma definição precisa, podemos encontrar na tese da incompatibilidade entre democracia e liberalismo um ponto de partida útil para compreender o fenômeno do modo como ele tem se apresentado nas últimas décadas. No entanto, dado o caráter polissêmico do termo liberalismo, é necessário compreender a qual sentido de liberalismo o populismo se opõe em nome da soberania popular. Neste trabalho, identificamos o liberalismo político como o alvo do populismo, mostrando que o seu antagonismo com a soberania popular (como sustentaram autores como Carl Schmitt) ocorre apenas por conta de uma visão distorcida do que é democracia, visto que a legitimidade democrática depende do liberalismo em sentido político. O liberalismo econômico, por sua vez, é perfeitamente compatível com o populismo, mas em sua forma pura não resulta em um arranjo congruente com as exigências normativas do liberalismo político. Por fim, cabe a pergunta sobre a possibilidade de modificar, em certas circunstâncias de profunda desigualdade econômica, os arranjos institucionais tradicionais do liberalismo político em nome de suas exigências normativas
Esfera pública digital: entre determinismo tecnológico e regressão democrática
Technological determinism can be defined as the perspective that advocates the unilateral direction of social reproduction by a logic of autonomous functioning of technological transformations, which is considered to escape the direct conditioning and influences of the socio-cultural and political environment. It can be regarded as an anti-democratic ideology, insofar as it legitimizes the impoverishment or eradication of collective decision-making processes directed towards the dynamics of technological diversification. This article aims to provide a critical evaluation of Jürgen Habermas' recent contribution on the so-called digital public sphere, focusing on the challenges posed by technological determinism. While acknowledging the centrality of the history of new digital technologies in Habermas' work, we identify three primary argumentative strategies he employs to challenge technological determinism in the assessment of the new structural changes in the public sphere. We argue that these lines of argument are important components for a critique of new digital media in terms of its ability to meet democratic legitimacy expectations, based on criteria of equal inclusion and discursive quality. However, we also highlight significant limitations in the author's approach to these lines of argument, relating to the links established between the structural transformations of the public sphere and recent patterns of capitalist reproduction, the complexity of novel forms of subjectivation and the constraints on the formation of the political agenda.O determinismo tecnológico pode ser entendido como a posição que defende o direcionamento unilateral da reprodução social por uma lógica de funcionamento autônomo das transformações tecnológicas, a qual se furta a condicionamentos e influências reflexivas do meio sociocultural e político. Desse modo, ele representa uma ideologia antidemocrática, na medida em que tem por efeito legitimar a erradicação ou empobrecimento dos processos de tomada de decisão coletiva vinculados às dinâmicas da diversificação tecnológica. Este artigo reconstrói e avalia a recente contribuição de Jürgen Habermas sobre a chamada esfera pública digital à luz de problemas vinculados ao determinismo tecnológico. Apesar da centralidade atribuída pelo autor à história das novas tecnologias digitais, identificamos três grandes estratégias argumentativas utilizadas por ele para combater o determinismo tecnológico na avaliação da nova mudança estrutural da esfera pública. Defendemos essas linhas argumentativas como componentes importantes para a crítica das novas mídias digitais em nome de expectativas de legitimidade democrática exigentes, pautadas em critérios de inclusão igualitária e qualidade discursiva. Ainda assim, apontamos limites significativos no modo como são conduzidas pelo autor, relacionados aos vínculos estabelecidos entre as transformações estruturais da esfera pública e tendências recentes de reprodução capitalista, à sua relação complexa com novos padrões de subjetivação e à superação de constrições à agenda política sobre o tema
O ocaso ideológico da contradição
The argument of this article is as follows: at the very moment we witness the return of “contradiction” to the lexicon of social critique, we also observe its loss of critical potential as a concept. In other words, we are witnessing a complete disconnection from the notion of determinate negation, which, at its most profound moments, characterized “contradiction” as a critical category. This decline, identified as “ideological,” is attributed, as I attempt to argue, to a “phraseological return” present in the uses of the term by Nancy Fraser and Rahel Jaeggi. Contradiction as structural dysfunctionality (FRASER) and contradiction as a practical obstacle to self-understanding (JAEGGI) constitute, in line with the original vocabulary of critical theory, an “ideological simulacrum” or a “return to traditional theory.” To develop this argument, the text is divided into five sections: (i) an introduction; (ii and iii) a reconstruction of Nancy Fraser’s and Rahel Jaeggi’s respective conceptions of contradiction; (iv) an attempt to demonstrate that these concepts do not, in fact, qualify as contradictions and, therefore, represent the decline of the critical meaning of the term; and (v) a concluding evaluation of this decline as ideological.O argumento deste artigo é o seguinte: no preciso momento em que assistimos o retorno da “contradição” ao léxico da crítica social, presenciamos também a sua perda de potencial crítico enquanto conceito. Se preferirmos, estamos diante da perda total de vínculo com a noção de negação determinada que, em seus momentos mais altos, caracterizou a “contradição” como categoria crítica. Que esse ocaso seja “ideológico”, isso se deve, como tento argumentar, a um “retorno fraseológico” operado nos usos que Nancy Fraser e Rahel Jaeggi têm dado ao termo. Contradição como disfuncionalidade estrutural (FRASER) e contradição como obstáculo prático de autocompreensão (JAEGGI) constituem, na esteira do vocabulário original da teoria crítica, um “simulacro ideológico” ou um “retorno à teoria tradicional”. Para argumentar nessa direção, o texto está dividido em 5 seções: (i) uma introdução; (ii e iii) uma reconstrução das concepções de contradição de Nancy Fraser e Rahel Jaeggi, respectivamente; (iv) uma tentativa de demonstração de que tais conceitos de contradição não caracterizam, de fato, contradições e, portanto, constituem um ocaso do significado crítico do termo; (v) a conclusão avaliativa desse ocaso como ideológico