Portal de Periódicos de Ciências Humanas e Filosofia, da Universidade Federal Fluminense
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Eu é sempre um outro
O artigo explora potências da criação literária à invenção de modos de existência, em diálogo com as noções esquizoanalíticas de subjetivação, literatura menor, máquina de guerra, agenciamento, experiência e desterritorialização. Amparados em perspectiva metodológica rizomática e na leitura transversal, situamos estas noções em constante jogo com o ato de escrever e com referências literárias, considerando o encontro com a alteridade literária como plano de fabulação de máquinas que agenciam modos outros de enunciação e possibilitam a composição de devires na medida em que ativam forças intensivas para produzir singularidades. Em uma contemporaneidade que aperfeiçoa meios de serialização das subjetividades e formas de cafetinagem da pulsão vital coletiva, a escrita pode atualizar, na experimentação criadora, forças desejantes que pedem passagem diante da asfixia imposta pelos códigos dominantes
Escalpelamento de mulheres na Amazônia: sobrevida e psicologização das vítimas
O escalpelamento de mulheres ribeirinhas na Amazônia é uma prática comum e relacionada ao aspecto regional do intenso transporte fluvial. Além da questão do uso rotineiro de barcos para a mobilidade, as mulheres que têm cabelos longos ficam à mercê dos motores desprotegidos dos barcos pequenos. Seus cabelos se enrolam nesses motores, causando o escalpelamento, que é uma situação da retirada do couro cabeludo de forma brusca, causando cicatrizes, submissão a muitas cirurgias, perda do cabelo e lesões graves. O atendimento a essas mulheres é feito por ONGs, fundações, hospitais confessionais, pela caridade, voluntariado, com uma política do favor e pela psicologização, criminalização e despolitização do acontecimento experimentado. A Psicologia poderá ofertar outras práticas, propiciando uma atenção psicossocial mais crítica, colocando em xeque as intervenções instrumentais tuteladoras das mulheres
Apontamentos genealógicos sobre a criminalização da maconha no Brasil: das bases históricas aos desdobramentos atuais
A maconha, atualmente, é uma planta listada como uma substância ilícita no Brasil devido à atual política sobre drogas, pautada pelas práticas e pelos discursos proibicionistas. A hegemonia do paradigma proibicionista no Brasil atual remonta a um processo que se constitui no início do século XX, em muito perpassado pelos discursos científicos e higienista da psiquiatria brasileira, com importantes pesquisadores e expoentes nos estudos sobre a proibição da maconha. Nas décadas de 1960 e 1970, com a hegemonia mundial do paradigma de “Guerra às drogas”, a perseguição e aprisionamento de usuários, comerciantes e produtores da maconha tornam-se mais evidente. Dessa forma, através de uma pesquisa histórica de inspiração genealógica esse estudo buscará reconstituir os discursos e principais acontecimentos que legitimaram o paradigma proibicionista no Brasil, a fim de identificar seus principais desdobramentos e suas contradições. Pretende-se através disso, fornecer material que possa pautar novas abordagens ético-políticas com relação à maconha
Representações Sociais sobre Migrantes
O presente estudo buscou analisar as Representações Sociais de internautas sobre a caravana que percorreu El Salvador, Honduras e Guatemala até a fronteira dos Estados Unidos com o México em 2018, a partir de comentários no Facebook. Foram analisados 800 comentários sobre uma notícia da caravana publicada no jornal USA Today. Os comentários foram feitos na página do Facebook do referido jornal e foram analisados com o auxílio do software IRaMuTeQ. A Classificação Hierárquica Descendente mostrou que as RS sobre a caravana construídas pelos internautas estavam intimamente relacionadas com estereótipos históricos sobre povos latinos e suas nações, e com o posicionamento político dos internautas. Foram travados debates polarizados nos comentários do Facebook, entre favoráveis e contrários à entrada dos migrantes nos Estados Unidos, sendo eles, respectivamente, grupos Democratas e Republicanos. Elementos discursivos e crenças da extrema direita mundial foram amplamente veiculados nos comentários, sobretudo aqueles de conteúdo supremacista e negacionista
A teoria do amadurecimento na saúde pública: uma proposta das práticas winnicottianas no CAPS
Este estudo tem por objetivo promover uma reflexão sobre a possibilidade de utilização do referencial teórico proposto por Donald Woods Winnicott para o acompanhamento da população que sofre com transtornos mentais graves e persistentes que chegam ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), sendo esta a instituição pública designada para atender tal demanda. A pesquisa levantou os aspectos fundamentais do pensamento de Winnicott para o acompanhamento de casos de psicose. Primeiramente, apontou-se a interrupção do processo de amadurecimento como causa raiz desses transtornos. Em seguida, apresentou-se as práticas de Winnicott para o desempenho do cuidado com indivíduos que vivenciam a psicose, que se concentram na reconstrução de um ambiente de confiança para que ele seja capaz de retomar o processo de amadurecimento. Ao final do estudo, foram pontuados os principais temas desenvolvidos e os desafios enfrentados para a aplicação prática desses conhecimentos nas instituições públicas
O conceito de falo na psicanálise... ainda?
O falo possui diferentes formas de ser abordado dentro da psicanálise e se mostra um conceito de difícil compreensão, sendo também um dos mais controversos deste campo. Por meio dele, um tenso debate entre feminismo e psicanálise se estabelece, que passa a ser renovado a cada onda do movimento feminista. Movida por este debate, tomei como direção pensar se o conceito de falo ainda é útil para pensar a sexualidade no século XXI. Conclui-se que pelo fato de ainda não termos superando o regime e a política patriarcal e fálica – ainda que ela venha sofrendo abalos e opere de forma “não-toda” –, o conceito de falo ainda nos ajuda a pensar a sexualidade na atualidade quando trabalhamos com ele a partir da noção de lógica e gozo presente nas fórmulas quânticas do último Lacan, ultrapassando uma discussão em termos de identificação homem e mulher
Entre vazios e cheios: cartografias da anorexia
Este texto consiste em pensamentos, dobras e reflexões acerca da anorexia e de outros processos associados ao corpo e à comida. Utilizo a cartografia para realizar esta escrita, em diálogo com autores como Gilles Deleuze, Félix Guattari, Suely Rolnik, Judith Butler, Michel Foucault e Sílvio Gallo. Seguem-se linhas produzidas pelas marcas, atravessando territórios da anorexia por entre vazios e cheios, conectando experiências pessoais, arte, filosofia, e… em devires permeados por afetos. Inicialmente, reflito sobre um fazer cartográfico que acontece pelo corpo e pelas marcas; em seguida, traço um relato autobiográfico relacionado à anorexia; depois, penso na anorexia em diálogos com Deleuze e Parnet; na continuidade, trago alguns devires vividos pelo encontro com obras do artista Susano Correia; por fim, penso em escapes possíveis para o cuidado de si, da vida e do outro, em fuga dos processos de despotencialização do corpo, refletindo, em ziguezagues, em possibilidades de viver e de re-existir
O que pode um corpo? Narcisismo, virtualidades e construção de si
Pretende-se nessa análise, por meio de revisão bibliográfica, investigar possíveis caminhos percorridos para a construção subjetiva de corpo pelos sujeitos quando em interações sociais mediadas pela virtualidade, vislumbrando em que sentido essa subjetividade se desvenda como expressão de uma sociedade com valores narcisistas. Adota-se como ponto de partida para compreensão o ponto de vista dialético proposto por W. Reich (1977) das interações entre homem e sociedade. Nesse sentido, há a tentativa de reconstituição de um cenário social eminentemente narcisista (LARSCH, 1983) e atravessado fortemente por técnicas, tais como a virtualidade (RANGEL e CALIMAN, 2014), cujas reminiscências acabam por influenciar a maneira como as pessoas sentem e constroem os próprios corpos (FAVRE, 2007). Acredita-se que a construção de si mediante tal tendência narcísica pode ser superada por meio do agenciamento de encontros e afetividades com o auxílio de instrumentos da virtualidade
Mulher e Violência numa Perspectiva Fenomenológica-existencial
Ao examinar os trabalhos que tratam da violência contra a mulher, percebe-se que há certa limitação ao se olhar para tal fenômeno, uma vez que, em muitos dos casos, acaba ocorrendo um silenciamento da mulher, no sentido de não ser ela quem fala, mas sim, um discurso pronto e delimitado que categoriza o fenômeno da violência de forma sumária sob os moldes repisados do universo técnico e jurídico. Esse trabalho nasceu visando buscar, a partir das entrevistas, as narrativas de mulheres que experimentaram a violência doméstica, os sentidos próprios que estão em jogo em cada caso, buscando assim, dar traços mais humanos ao fenômeno. Para isso, o trabalho partiu de uma pesquisa descritiva e fenomenológica, levando em conta como a violência dirigida à mulher já foi vista e se mostrou no horizonte histórico, desde sua naturalização até os movimentos sociais crescentes que lutam para desnaturalização dessa realidade de sofrimento
O político lacaniano em Stavrakakis
Este artigo tem o objetivo de explanar a visada de Yannis Stavrakakis sobre o político de Chantal Mouffe em sua articulação com o conceito de real em Jacques Lacan. A proposta se alia ao projeto mouffeano de um novo modelo democrático contemplando e acolhendo suas impossibilidades constitutivas, articuladas ao real lacaniano - impossível de ser representado. Para tal, a definição de político em Mouffe, encarna a emergência do real que não cessa de não se escrever, desestabilizando as práticas da política convencional. Como resposta dos autores, ao invés de negar as inconsistências da política e tamponá-las com ideais utópicos, deve-se incluir tal dimensão de tensão e fissura na realidade democrática