Portal de Periódicos Unimontes (Universidade Estadual de Montes Claros)
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Teologia e corporeidades queer em debate: um flâneur possível?
Entendendo o verbo francês flâneur a partir da perspectiva de Baudelaire,isto é, como uma pessoa que transita pelos meandros citadinosa fim de experienciá-los, este breve ensaio apropria-se do verbetemencionado para propor uma reflexão sobre as possibilidades depasseio e de comunicação entre teoria queer e discurso teológico,enquanto diálogo epistemológico que procura problematizar tanto anão normatização de corpos em identidades hetero-cis-sexualizadas,quanto o entendimento de se pensar sempre em teologia no plural.Aqui, após um percurso itinerário de influências, busco apontar brevementepara uma vertente na qual o passeio das subalternidades é, aomesmo tempo, subversão para o pensamento teológico hegemônicoe liberdade religiosa para corpos abjetos
Amor (in)condicional: notas sobre o Coming Out dentro de famílias evangélicas
Este artigo tem como objetivo apresentar algumas consideraçõesacerca do relacionamento entre mães e pais e seus filhos e filhastensionado pela descoberta da homossexualidade. Este texto fundamenta-se em entrevistas1 realizadas com gays e lésbicas, filhos e filhasde pessoas evangélicas. Considerando as representações correntesno meio evangélico sobre a homossexualidade e o sujeito homossexual,pretendemos apresentar o nexo entre essas representações eo comportamento performado pelas famílias dos entrevistados, eao mesmo tempo enfatizar a presença de uma expectativa afetivadirecionada à família
A construção do Ethos feminino no programa televisivo The Love School
O propósito deste artigo é levantar reflexões e apontamentos, combase na análise de discurso, sobre a constituição do ethos discursivoconstruído pela apresentadora Cristiane Cardoso, do programa televisivoThe Love School, da Igreja Universal do Reino de Deus. Busca-seanalisar como a apresentadora constrói o ethos nesse contexto dediscurso televisivo em que ela se apresenta, seu modo de dizer, apartir dos valores religiosos não-ditos, e a técnica utilizada para aconstrução dessa imagem feminina criada para ser referência no imagináriocoletivo de “mulher ideal”. Como base teórica, o referencialé a análise do discurso, por meio dos estudos de Ruth Amossy eDominique Maingueneau, e as abordagens sobre a construção doimaginário feminino
A defesa da família tradicional e a perpetuação dos papéis de gênero naturalizados
O presente trabalho analisa a forma como se tece um discurso deverdade sobre a família por parte dos membros que compõem aFrente Parlamentar Evangélica (FPE) no Congresso Nacional brasileiro.Consideramos que a definição de família defendida por estes parlamentarespor meio do Estatuto da Família se constrói em oposiçãoàs novas famílias, mais especificamente, as famílias formadas porpessoas homoafetivas e transafetivas, deslegitimando-as e negandoa estas direitos e proteções que, segundo a visão da FPE, devem serdadas somente às famílias heterossexuais. Percebemos, também,haver íntima relação entre a tentativa de perpetuação dos papéistradicionais de gênero que promovem a submissão das mulheres edeterminam a maternidade como natural e a estrutura homofóbicaque deslegitima pessoas homossexuais e transexuais por não seconformarem aos padrões hegemônicos estabelecidos de gênero esexualidade. Na medida em que tais ações ocorrem dentro do Estadobrasileiro, por parte de nossos legisladores, conformam-se, ainda,como ameaças ao aprofundamento da laicidade e da democracia
Religiões Judaico-Cristãs e o enfrentamento à violência de gênero: a realidade brasileira
Este artigo objetiva compreender como se dá o enfrentamento àviolência de gênero por religiões judaico-cristãs a partir do levantamentodo estado da arte. Para tanto abordaremos a importância dodiscurso religioso para a constituição do sujeito e para a construçãoda imagem feminina nessas religiões. Num segundo momento trabalharemoscom a teologia feminista e seu enfrentamento à violênciade gênero e finalizaremos com o levantamento do Estado da Arte
Aids e religião na Pós-Modernidade
Trinta anos atrás, quando o HIV/AIDS golpeou com vingança,alguns grupos religiosos diferenciaram-se ao oferecerem uma facepastoral e profética do divino, reconfortando e apoiando as pessoasque tinham sido infectadas e lutando por justiça da parte da comunidademédica. Já outros grupos religiosos, que não nomearemos aqui,arguiram que a AIDS era a ira de Deus sobre os homossexuais, queera um castigo divino, e coisas piores. Hoje, apesar de tal retóricaainda existir em algumas poucas tradições religiosas, as respostasnormativas ao HIV/AIDS são construtivas e criativas, como deveriaser a religião em um mundo cada vez mais pós-moderno. Afinal, sea religião quiser assumir algum papel, esse deveria ser o de trazerafirmação e encorajar as crenças para a criação de uma sociedadeinclusiva e global. Caso contrário, será descartada como algo cadavez mais irrelevante, ou, pior ainda, como um obstáculo à justiçaglobal. Em muitas das sociedades opulentas, especialmente nosEstados Unidos, a doença tem caído no esquecimento quase total.Mas existem entre os líderes algumas pessoas religiosas prestandoatenção aos sobreviventes e pressionando a indústria médica pormedicamentos, estratégias preventivas e cura. Estes líderes provêmde uma variedade de grupos religiosos e podem ser encontradosfrequentemente trabalhando lado a lado com pessoas que não professamnenhuma crença religiosa. Minha breve reflexão sobre a AIDSe a religião pós-moderna revela o contínuo benefício da religião comoum empreendimento voltado para o melhoramento das condiçõeshumanas e pessoas religiosas que, motivadas por sua fé, agem pelobem comum
O longo caminho contra a discriminação por orientação sexual no Brasil no Constitucionalismo Pós-88: igualdade e liberdade religiosa
O artigo busca refazer o histórico de tentativas de inclusãoda proteção aos homossexuais desde os profundos debates havidosna constituinte de 1987-1988, passando por propostas de emenda àConstituição e de leis ordinárias, até chegar ao Projeto de Lei n. 122que criminaliza a homofobia. Mostra que a reação contrária a essetipo de proteção por parte de grupos conservadores e religiosostambém se insere desde a Constituinte. Conclui que, ao contrário doapontado por estes, seu fundamento para a oposição não está naliberdade de expressão ou na liberdade religiosa, mas na negação aoreconhecimento público dos homossexuais, o que configuraria usoabusivo dos direitos fundamentais
Editorial
Depois de muito trabalho, Mandrágora 18 coloca em nossas mãosnovas e intrigantes discussões ao redor de dois eixos transversais darevista: “Religião e sexualidade”. Esta edição reúne artigos inéditosque, temos certeza, contribuirão no propósito de ampliar o debate nocampo dos estudos sobre feminismos, gênero e religião. A amplitude dotema possibilitou diferentes enfoques e perspectivas teóricas, principalmentena área das ciências humanas. Foram abordadas questões como:a corporeidade e os discursos religiosos, a(s) sexualidade(s) dentro deinstituições religiosas, homossexualidade e religião, bíblia e sexualidade,teologia e formas de viver a sexualidade no cotidiano, entre outras
A violência de gênero nas religiões afro-brasileiras
MENEZES, Nilza. A violência de gênero nas religiões afro-brasileiras.João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2012. 208 p
MATERNIDADE SOBRENATURAL: : imagens de controle de mulheres negras brasileiras no filme “AS BOAS MANEIRAS”.
In this paper we analyze the Brazilian horror film with black people “Good Manners” based on film theory, social sciences and the contributions of black and intersectional feminists such as bell hooks and Carla Akotirene, with the aim of unraveling the construction of the image of Clara, a black and sapphic female character. From a bridge between communication studies and social theory, we analyzed the film in dialogue with the contributions of horror cinema and monstrosity studies and with studies of the history of representation of black women in the media in the USA and Brazil. We use the concept of “controlling images” by Patricia Hill Collins and the stereotypes of black Brazilian women highlighted by Lélia González as analytical tools to understand and interpret the relationships, representations and plot points constructed in the film, which we describe in detail. Thus, we conclude that, even if the narratives try to avoid racist representations of their characters, racism as a Brazilian cultural neurosis persists, materialized, in the analyzed film, in the images of “mãe preta”, “doméstica” and “mulata”. Furthermore, even in supernatural narratives without commitment to social verisimilitude, these controlling images persist, an insistence that we understand as a facet of racism and call “supernatural motherhood”.Neste trabalho analisamos o filme de terror brasileiro com negros “As boas maneiras” a partir da teoria do cinema, das ciências sociais e das contribuições de feministas negras e interseccionais como Bell Hooks e Carla Akotirene, com o objetivo de destrinchar a construção da imagem de Clara, uma personagem mulher negra e sáfica. A partir de uma ponte entre estudos de comunicação e teoria social realizamos nossa análise do filme em diálogo com as contribuições dos estudos de cinema de terror e da monstruosidade e com os estudos da história da representação de mulheres negras nas mídias nos EUA e Brasil. Utilizamos do conceito de “imagens de controle” de Patricia Hill Collins e dos estereótipos de mulheres negras brasileiras destacados por Lélia González como ferramentas analíticas para compreendermos e interpretarmos as relações, representações e pontos da trama construídos no filme, o qual descrevemos em detalhe. Assim, concluímos que, mesmo que tais narrativas tentem fugir das representações racistas de suas personagens, o racismo enquanto neurose cultural brasileira persiste, materializado no filme por meio das imagens de “mãe preta”, “doméstica” e “mulata.”. Além disso, mesmo em narrativas sobrenaturais sem compromisso com verossimilhanças sociais, tais imagens de controle persistem, que entendemos como uma insistente faceta do racismo e chamamos de “maternidade sobrenatural”