Publica-se Portal de Periódicos Científicos da Universidade Federal do Pampa
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Geografia Antirracista no Pnld 2024: Uma Análise Crítica dos Livros Didáticos
O Programa Nacional do Livro Didático e do Material Didático (PNLD) 2024, na etapa do Ensino Fundamental anos finais, beneficiou 9.797.076 estudantes e 46.385 escolas, com um investimento de R$ 921.322.110,85, conforme dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Este programa promove a democratização do acesso ao livro, distribuindo obras didáticas, pedagógicas e literárias às escolas públicas brasileiras. Os materiais adquiridos pelo Estado são submetidos a uma rigorosa avaliação de aspectos éticos, legais, gráficos e de conteúdo. Contudo, é imprescindível manter uma atenção e análise crítica. Isso se justifica pelo significativo potencial de alcance desses materiais, que historicamente tenderam a representar interesses e visões de mundo sob uma perspectiva etnocêntrica e colonialista, sendo a comercialização para o Estado um ponto de grande interesse para as editoras. Nessa perspectiva, o presente estudo analisou seis obras de Geografia do 7º ano do Ensino Fundamental do PNLD 2024. Os livros, identificados como Livro 1 a Livro 6 abrangem diferentes editoras e foram avaliados quanto à incorporação de diretrizes relacionadas à educação antirracista e à valorização da diversidade cultural e social. Para tanto, foi realizada uma análise qualitativa de conteúdo, linguagem, representatividade visual e propostas pedagógicas, considerando a relação com temas étnico-raciais, socioambientais e de justiça social. Os resultados demonstram que as coleções abordam, em diferentes graus, a temática étnico-racial, a valorização do multiculturalismo, a revisão crítica da colonização, o reconhecimento dos povos tradicionais como guardiões ambientais e a articulação da desigualdade urbana com recorte racial. Entre os materiais analisados, o livro 1 se destaca pela integração coerente e transversal de questões étnico-raciais, ambientais e de justiça social, como no capítulo dedicado às transformações urbanas, em que são incluídas análises sobre desigualdades territoriais vivenciadas por populações negras e indígenas nas grandes cidades, conectando os conteúdos à realidade social do estudante, o livro 2 apresenta uma forte abordagem multicultural e interdisciplinar, evidenciada, por exemplo, na articulação entre geografia física e cultural ao tratar da influência das migrações internacionais no Brasil, utilizando mapas, relatos de vida e fontes iconográficas que valorizam diferentes identidades e contribuições culturais. No entanto, foram identificadas abordagens menos consistentes como, por exemplo, o livro 3, que apresenta linguagem engessada e superficialidade nas questões raciais, restringindo-se a pequenas caixas de texto ilustrativas sobre a escravidão sem aprofundar a discussão sobre a resistência negra ou suas repercussões atuais; o livro 5 é deficitário em representatividade regional e diversidade visual, pois ilustra conteúdos majoritariamente com fotografias do Sudeste urbano-industrial, invisibilizando paisagens, sujeitos e práticas sociais de outras regiões do Brasil, como o semiárido nordestino ou as comunidades ribeirinhas amazônicas; e o Livro 4, que apesar do projeto gráfico sofisticado, reforça estereótipos regionais ao representar o Nordeste quase exclusivamente pela seca e pela pobreza, sem abordar o protagonismo cultural, político e econômico dessa região, além de carecer de aprofundamento crítico ao abordar a temática indígena, que aparece apenas em caráter histórico, sem considerar a presença e as lutas contemporâneas desses povos. Conclui-se que, embora observe-se avanços no tratamento de temas sociais e identitários, ainda existem lacunas na produção de materiais efetivamente plurais, antirracistas e sensíveis às desigualdades étnico-raciais e regionais, assim como perspectivas com enfoque no protagonismo negro e dos povos originários, o que é imprescindível para a construção de representações fortemente positivas desses atores sociais. O estudo reforça a importância de unir criticamente conteúdo, forma e representatividade na produção didática, potencializando o papel emancipador do ensino de Geografia nos anos finais do Ensino Fundamental
Memória Unipampa: um estudo da implantação e da identidade institucional do Campus Jaguarão
A criação da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) insere-se no contexto das políticas públicas de expansão e interiorização do ensino superior implementadas no Brasil a partir da década de 2000, especialmente por meio do Programa Expandir e do Reuni. Essas iniciativas tiveram como objetivo ampliar o acesso à educação superior, reduzir desigualdades regionais historicamente constituídas e promover a formação de profissionais qualificados para atender às demandas locais e regionais. Ao buscar democratizar o ensino superior, tais políticas estabeleceram novas diretrizes para a distribuição de recursos educacionais e consolidaram a ideia de que a universidade pública deve atuar como agente transformador do território em que se insere. Nesse cenário, a instalação do Campus Jaguarão destacou-se como uma experiência singular, uma vez que a cidade não contava anteriormente com unidades da Universidade da Região da Campanha (Urcamp), cuja federalização havia desencadeado as primeiras mobilizações sociais e políticas em prol da educação superior na região. A escolha de Jaguarão como local de implantação do campus articulou-se simultaneamente ao papel estratégico de sua localização fronteiriça com o Uruguai e ao significado cultural do município. A cidade, historicamente marcada por uma economia baseada no comércio e na agricultura, apresentava potencial para consolidar-se como espaço para a oferta de cursos voltados à formação docente e à valorização do patrimônio histórico. A instalação do campus, portanto, ampliava o acesso ao ensino superior e configurava-se como um projeto de desenvolvimento regional, capaz de promover interações culturais e acadêmicas que reforçassem a identidade local e estimulassem o intercâmbio transfronteiriço. A mobilização de lideranças políticas e comunitárias locais, combinada à articulação com o governo federal e com as universidades tutoras, Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), possibilitou a implantação do campus em um período relativamente curto, apesar dos desafios estruturais e administrativos enfrentados. O processo envolveu negociações complexas sobre recursos financeiros, infraestrutura física e contratação de docentes e técnicos, evidenciando o caráter colaborativo e estratégico da iniciativa. Além disso, a articulação com diferentes agentes institucionais reforçou a importância de um planejamento integrado, capaz de conciliar as demandas locais com as diretrizes nacionais de expansão do ensino superior. Nesse contexto, a pesquisa adotou uma abordagem qualitativa e documental, com análise de jornais da época, acervos institucionais e registros oficiais. Esse conjunto metodológico permitiu reconstruir o processo de implantação do campus, bem como compreender os efeitos iniciais da presença da universidade na dinâmica econômica, social e cultural do município. Como resultados parciais, sistematizaram-se informações sobre as primeiras turmas de Letras e Pedagogia, sobre o impacto da presença de professores e técnicos na dinâmica da cidade e sobre a construção da identidade institucional do campus, marcada pela conjugação de expectativas de desenvolvimento regional com a busca por reconhecimento acadêmico. Observou-se que a atuação do campus ampliou significativamente as oportunidades de acesso ao ensino superior na região da Fronteira Sul, contribuiu para reduzir o êxodo estudantil e fortaleceu a formação de professores em áreas historicamente carentes. A memória coletiva desse processo, ainda em construção, evidenciou a consolidação de um sentimento de pertencimento e de identidade universitária, ao mesmo tempo em que projetou o papel estratégico do campus no cenário da cooperação internacional, especialmente no diálogo acadêmico com instituições uruguaias. Conclui-se que o estudo da trajetória do Campus Jaguarão permite compreender a materialização das políticas de interiorização do ensino superior em contextos fronteiriços, evidenciando tanto as potencialidades quanto as tensões de uma universidade multicampi, nascida em meio a reivindicações populares, disputas políticas e desafios de consolidação institucional. Ao registrar e analisar essa experiência, reafirma-se a relevância da memória universitária como instrumento para interpretar os impactos sociais decorrentes da expansão do ensino superior público no Brasil e, particularmente, para reconhecer a importância do Campus Jaguarão como instrumento de desenvolvimento educacional, cultural e social na região
Narrativas e Atores da Desinformação Climática nas Enchentes do Rs: Análise Baseada em Dados secundários
O estudo, em fase inicial, integra uma pesquisa mais ampla intitulada: Tecnocultura comunicacional e desinformação: Transformações sociais, políticas, culturais e crise de confiança na era digital. Parte-se do contexto das enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul, em maio de 2024, um dos maiores desastres climáticos da história recente do Brasil, que recebeu ampla atenção midiática e se tornou alvo de narrativas de desinformação em múltiplas plataformas digitais. A emergência de boatos, teorias conspiratórias e discursos negacionistas evidenciou como situações trágicas podem ser exploradas por atores sociais que disseminam conteúdos enganosos, prejudicando a confiança pública e dificultando a resposta coordenada das instituições públicas em contextos de crise. Nesse sentido, a análise da desinformação climática no contexto das enchentes justifica-se pela urgência em identificar as fontes de desinformação, além de refletir sobre mecanismos de enfrentamento a conteúdos falsos. A desinformação em contextos de emergência, seja sanitária ou climática, opera em uma dupla dimensão: primeiro, causa um dano direto e imediato, como o desvio de recursos, a obstrução de rotas de fuga seguras e a promoção de tratamentos médicos ineficazes, colocando vidas em risco. Segundo, produz um dano de longo prazo, ao corroer o consenso científico e a confiança nas instituições e na mídia, fundamentais para a implementação de políticas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas. O objetivo deste trabalho é mapear, a partir de dados secundários (NetLab/UFRJ e Instituto Democracia em Xeque), as principais narrativas e os atores disseminadores de desinformação climática durante as enchentes de 2024 no RS. O referencial teórico mobiliza conceitos como negacionismo climático, teorias conspiratórias (Cesarin, 2022) e infodemia (OPAS/OMS), entendida como a disseminação de um grande fluxo de informações, verdadeiras ou não, de determinado assunto que se espalham pelo ecossistema midiático durante um certo período de tempo, geralmente relacionado a algum evento de ordem relevante (emergências sanitárias, eleições e eventos climáticos). A metodologia é qualitativo-exploratória, baseada na análise de dados secundários de relatórios do NetLab/UFRJ e Instituto DX, que apresentam a sistematização de narrativas de desinformação e identificam atores, permitindo a construção de um panorama inicial do fenômeno. A opção pela análise de dados secundários de fontes consolidadas e reconhecidas no campo, como o NetLab/UFRJ e o Instituto DX, justifica-se pela confiabilidade e pelo rigor metodológico empregado por estas instituições em seus monitoramentos, a partir da metodologia de Digital Methods, que utiliza técnicas de captura e análise de dados digitais para mapear padrões de disseminação e identificar clusters de influência. Esta abordagem permite-nos partir de um corpus já validado e focar na camada analítica dos dados. Como resultados iniciais, a interpretação dos dados secundários revelou: a) As principais narrativas incluem a negação do aquecimento global; a minimização das chuvas como consequência das mudanças no clima; teorias conspiratórias envolvendo geoengenharia (HAARP e globalismo); ataques direcionados a universidades, cientistas e à imprensa; além de boatos sobre a logística de auxílio às vítimas e discursos tecnossolucionistas (como por exempo, a ideia de que só o Starlink salva), e, b) Quanto aos atores, de acordo com o relatório do NetLab (2024), os principais atores na desinformação durante as enchentes foram influenciadores digitais e políticos de direita. Entre eles destacam-se Pablo Marçal, que acusou falsamente órgãos públicos de bloquear doações; Eduardo Bolsonaro, que replicou essas alegações; e Victor Sorretino, médico que divulgou boatos sobre a Anvisa impedir a chegada de medicamentos no Estado. Além disso, grupos de mídia como Brasil Paralelo, com sede no RS e a Revista Oeste, sediada em SP. A predominância de influenciadores e políticos de direita como vetores da desinformação corrobora a tese de um ecossistema midiático articulado e ideologicamente alinhado, que opera de forma coordenada para amplificar narrativas específicas. A atuação de grupos midiáticos estruturados, como o Brasil Paralelo, indica uma profissionalização e uma motivação econômica por trás da desinformação, que funcionam como clickbait para audiência e monetização. Para a continuidade da pesquisa, a partir desse mapeamento, pretende-se realizar um estudo de caso sobre o grupo Brasil Paralelo e sua influência na disseminação de desinformação na Fronteira Oeste do RS
Mentira Tem Preço: Literacia Midiática e Fact-checking Durante as Enchentes de 2024
O presente trabalho, de caráter inicial e exploratório, é um recorte de uma pesquisa mais ampla - Tecnocultura comunicacional e desinformação: Transformações sociais, políticas, culturais e crise de confiança na era digital. O objetivo aqui é investigar o papel de iniciativas de checagem de fatos como agentes de literacia midiática e promotora de cidadania em contextos de crise. A problemática da desinformação, compreendida como a disseminação de conteúdos falsos ou enganosos, encontrou nas mídias sociais um ecossistema que potencializa seu alcance e impacto. Esse fenômeno não se restringe ao campo da informação, mas constitui um desafio complexo para as democracias contemporâneas, uma vez que corrói o debate público fundamentado, amplia divisões sociais e mina a confiança nas instituições democráticas. A crise informacional, portanto, é também uma crise política e de saúde pública, especialmente em situações de emergência, onde a precisão dos dados é fundamental para a salvaguarda de vidas e a eficácia das ações de socorro. No Rio Grande do Sul, esse cenário se agravou durante a tragédia climática das enchentes de maio de 2024, quando centenas de boatos se espalharam: desde informações incorretas sobre doações e abrigos até narrativas conspiratórias que negavam a crise climática e atacavam a credibilidade das instituições e da imprensa. Essa situação evidenciou a urgência de refletir sobre as estratégias de enfrentamento à desinformação em contextos de crise. Como objeto de estudo, seleciona-se o perfil do Instagram Mentira Tem Preço (@mentiratempreco), a escolha por essa iniciativa justifica-se por sua abordagem investigativa singular, que vai além da verificação pontual de fatos (fact-checking). O perfil adota uma perspectiva de accountability, responsabilizando atores poderosos e revelando as motivações econômicas e ideológicas por trás da desinformação ambiental. Essa postura proativa e pedagógica posiciona o @mentiratempreco não apenas como um verificador, mas como um agente de literacia midiática que busca equipar o público com ferramentas críticas para entender e questionar a origem e a intenção por trás dos conteúdos que consome. O trabalho fundamenta-se em conceitos-chave do âmbito da desinformação, como o ecossistema da desinformação (Wardle, 2017), que permite compreender a atuação de atores com interesses políticos e econômicos na produção de narrativas negacionistas, e o de filtros bolha (Pariser, 2012), que explicam a circulação dessas narrativas em ambientes informacionais isolados. O conceito de infodemia (OPAS/OMS) também é central para descrever o excesso de informações que, durante a crise, confundiu a população, ampliou a polarização e dificultou respostas coordenadas. Literacia midiática é entendida nesta investigação como a competência que resulta do desenvolvimento de habilidades que envolvem ações produtivas e criativas, permitindo uma leitura crítica e reflexiva da complexidade do ecossistema midiático e seu impacto na vida cotidiana. (Spinelli; Portas, 2025). A metodologia adotada é qualitativo-exploratório, com uso de análise de conteúdo (Bardin, 2011). O corpus da pesquisa consiste em nove publicações do perfil que abordaram diretamente as enchentes no no Rio Grande do Sul, veiculadas entre 03 e 27 de maio de 2024, período mais crítico da crise informacional. As postagens foram classificadas em quatro tipos de abordagem: Alerta (ação preventiva sobre novos boatos em circulação), Esclarecimento (conteúdo falso desmentido), Orientação Prática (conteúdo educativo sobre como checar informações) e Crítica Social/Política (análise do impacto da desinformação na gestão da crise e na cidadania). Como resultados iniciais, espera-se sistematizar as estratégias de comunicação do perfil @mentiratempreco, refletindo sobre o alcance e limite de perfis independentes de fact-checking. O estudo busca oferecer subsídios para a compreensão de táticas de combate à desinformação climática e discutir o papel da literacia midiática e do jornalismo como pilares para fortalecer a cidadania e construir uma sociedade mais resiliente diante de narrativas que não apenas distorcem a realidade, mas colocam vidas em risco
O Jornalismo de Soluções Como Ferramenta de Discussão Climática na Podosfera
Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou a maior tragédia climática da história do Estado, a qual afetou mais de dois milhões de residentes no RS, deixando mais de 500 mil pessoas desabrigadas, 185 mortas e 23 desaparecidas. Os diferentes meios de comunicação atualizavam, durante o período, as notícias sobre as enchentes. Entre os desdobramentos, estava o aumento das chuvas, associado às mudanças climáticas. Diante deste cenário, o presente estudo buscou responder se o Jornalismo de Soluções (JS) tem sido utilizado em podcasts desenvolvidos, como estratégia de desdobramento de uma notícia relacionada aos impactos das mudanças climáticas, considerando a importância da Comunicação e do Jornalismo atuarem alinhados com o conceito de sustentabilidade.
O Jornalismo de Soluções (JS) é uma modalidade jornalística que oferece visibilidade para ações que estão acontecendo numa localidade e podem servir de solução para um problema que acontece em outro local. Inclusive, ao tornar visível práticas possíveis, o JS incentiva o engajamento dos cidadãos, o que colaboraria para enfrentar o desinteresse dos brasileiros no consumo de notícias (uma pesquisa de 2024, realizada pelo Instituto Reuters, apontou que quase metade dos brasileiros evita consumir notícias e se sente impotente diante do excesso de notícias negativas). Para Simões e Freitas (2023), o Jornalismo de Soluções pode ser o cão de guarda da sociedade, contribuindo com um mundo com mais justiça social e preservação do meio ambiente.
Assim, este estudo aponta o JS como uma alternativa à saturação das notícias ocasionadas tanto pelo excesso de informação quanto pela frequência de notícias negativas. Laerte Cerqueira (2018) aproxima o jornalismo da educação, indicando que o jornalismo tem um potencial educativo. Sousa (2017) vê essa proximidade como promotora de uma ideologia emancipatória, que incide na subjetividade dos sujeitos sociais.
Em relação ao conceito de sustentabilidade, de acordo com Boff (2014), parte de dois sentidos: passivo e ativo. Sendo que o passivo é o que a Terra faz para que um ecossistema não se arruíne, conservando-se, mantendo-se. Já o sentido ativo depende de nós, que também temos a função de nutri-la, alimentá-la, fazê-la viver.
Para Bonadeo e Machado (2022), essa relação de cooperação também pode ser feita entre a comunicação e a disseminação dos princípios da sustentabilidade, por meio de um processo de sensibilização, conscientização e transformação da realidade. A comunicação, desse modo, tem papel importante na construção das transformações sociais, sobretudo, por meio da sensibilização dos públicos, do seu papel pedagógico de compartilhamento de sentidos, saberes e visões de mundo (Bonadeo; Machado, 2022, p. 05).
Considerando isso, buscamos identificar se o JS tem sido utilizado como ferramenta para contribuir com o compartilhamento de informações sobre questões climáticas. Para isso, fizemos uma análise de cinco episódios de dois podcasts diferentes a priori, que partem de posições discursivas distintas, considerando a oposição mídia alternativa versus mídia hegemônica veiculados durante os primeiros dias da maior tragédia climática do Rio Grande do Sul. Assim, primeiro foi realizada uma revisão bibliográfica sobre Jornalismo de Soluções e Podcasting, e na sequência uma análise a partir dos primeiros cinco episódios veiculados de 02 de maio a 08 de maio de 2024 no podcast Durma com essa, do Jornal Nexo, e os cinco primeiros episódios veiculados de 06 de maio a 10 de maio de 2024 no podcast Café da manhã, do jornal Folha de São Paulo.
A análise considerou o quadro desenvolvido por Gerevini (2021), que aponta as características de JS, sendo elas: 1) Resposta, o JS se concentra em abordar uma resposta a um problema social, como funcionou ou por que não funcionou; 2) Compreensão, trata-se do aprofundamento da resposta, da contextualização do problema; 3) Evidência, a qual fornece dados que indicam ou a eficácia ou a ausência da eficácia naquela resposta; 4) Limitações, pois nem toda resposta funciona ou deixa de funcionar em todas as ocasiões ou localidades, é necessário apontar as limitações da solução; 5) Por último, fornece insights, isto é, suscita na comunidade formas de aplicar a solução ou transformá-la para a sua realidade.
Com a análise, concluímos que o Jornalismo de Soluções é pouco explorado por programas integrantes da Podosfera, apesar de seu potencial de engajamento e esclarecimento de notícias. O Durma com essa não apresenta nenhuma das características, e o Café da Manhã entrega parcialmente as características, chegando a apresentar até quatro características, contudo, nenhum dos episódios se enquadra completamente em JS.
Assim, consideramos que este estudo aponta as potencialidades da relação do Jornalismo de Soluções e do Podcasting, para o surgimento de novas pesquisas, novos estudos e novas conclusões sobre a área, e recomendamos o uso desta modalidade na Podosfera
Novo Padrão de Financiamento Rural: Análise do Crédito de Custeio da Sojicultura em Dom Pedrito/rs
O credito rural se fortaleceu ao longo do último século, como uma das principais estratégias do Brasil para fomentar o setor agropecuário. Durante o processo de modernização da agricultura, o financiamento público em grande escala e subsidiado, possibilitou a expansão do capital financeiro no espaço rural (Delgado, 2012), configurando-se como um modelo que permanece na atualidade. Em Dom Pedrito/RS há um crescimento expressivo de área plantada de soja e redução no financiamento oficial de custeio dessa cultura, diante desse cenário, este estudo busca analisar indícios de um novo padrão de financiamento da sojicultura no município. A pesquisa caracteriza-se pela abordagem quantitativa, com base nos dados secundários do Banco Central do Brasil (Bacen) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de informações do Censo Agropecuário de 2017. Além disso foram contatados quatro informantes-chave com atuação local. A delimitação do campo de pesquisa, é o munícipio de Dom Pedrito/RS, localizado no Bioma Pampa, região da Campanha, fronteira com o Uruguai. A escolha pelo município se dá pela sua relevância na produção de soja, expansão recente da cultura e diminuição drástica da área financiada nos registros do crédito rural oficial no município. O crédito rural consolidou-se como um dos principiais instrumentos de modernização da agricultura brasileira a parir do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) criado em 1965. De acordo com as obras de Delgado (2012) o aporte de recursos volumosos subsidiados pelo Estado possibilitou a inserção de capital financeiro no meio rural. Estudos realizados por Búrgio et al. (2021) e Mattei (2014) demostram o crescimento expressivo dos recursos aplicados no setor. Com relação ao crédito de custeio para a cultura de soja, esta, tem absorvido a maior parte dos recursos agrícolas do SNCR nas últimas décadas (Fossá, Villwock, Matte, 2024), influenciada pela demanda internacional e o aumento das exportações brasileiras (Flexor, Kato e Leite, 2022). Entre os anos de 2013 e 2024, os recursos financeiros destinados a sojicultura quase dobraram, em ritmo superior ao do credito total de custeio (Brasil, 2025). Buainain et al. (2013) aponta o novo rural onde parte dos financiamentos rurais avança por outros meios, como financiamento rural privado, o que não substitui a atuação do estado, mas aponta a diversificação das fontes de financiamento. No município de Dom Pedrito/RS, a expansão do credito rural oficial acompanha o crescimento da sojicultura, mas não na mesma proporção, o que reforça o crescimento de outros meios de financiamento, como a atuação de empresas privadas, indicando novos padrões de custeio agrícola no munícipio. Os dados demonstram que o crédito rural em Dom Pedrito/RS, apresentou crescimento nos últimos anos no montante destinado a cultura de soja, entretanto houve uma expansão na área plantada em ritmo mais acelerado de forma não proporcional as áreas financiadas pelo crédito oficial. Essa diferença entre a disponibilidade de crédito e expansão produtiva sugere novas formas de financiamento, com destaque para empresas privadas, que passaram a ocupar papel relevante no custeio da produção. Com isso, confirma-se a tendência de diversificação de fontes de financiamentos apontada por Buainain et al. (2013), reforçando a ideia de que mesmo que o crédito rural oficial mantenha importância, já não responde sozinho as demandas da sojicultura.
Referências:
BRASIL. Banco Central do Brasil. Matriz de Crédito Rural. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/micrrural. BUAINAIN, A. M. et al. Sete teses sobre o mundo rural brasileiro. Revista de Política Agrícola, v. 22, n. 2, p. 105-121, 2012. BÚRIGO, F. et al. O Sistema Nacional de Crédito Rural no Brasil: principais continuidades e descontinuidades no período 2003-2014. Estudos Sociedade e Agricultura, 2022, v. 29 n. 3. BÚRIGO, F. L. et al. O Sistema Nacional de Crédito Rural no Brasil: principais continuidades e descontinuidades no período 2003-2014. Estudos Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, v. 29, n. 3, p. 635-668, out. 2021. DELGADO, G. C. Do capital financeiro na agricultura à economia do agronegócio: mudanças cíclicas em meio século. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2012. FLEXOR, G.; KATO, K.; LEITE, S. P. Transformações na agricultura brasileira e os desafios para a segurança alimentar e nutricional no século XXI. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2022. FOSSÁ, J. L., VILLWOCK, A. P. S.; MATTE, A. Análise da distribuição do crédito rural entre as unidades da federação no período de 2013 a 2022. Desenvolvimento em Questão. 2024, v. 22, n. 60. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Agropecuário de 2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. MATTEI, L. Considerações acerca de teses recentes sobre o mundo rural brasileiro. Rev. Econ. Sociol. Rural v. 52, 2014
Um AFE de Baixo Consumo para Sinais de Fotopletismografia com Aprimoramento de Faixa Dinâmica
Este resumo apresenta o projeto de um sistema integrado de front-end analógico (AFE) de ultra-baixo consumo de energia para a aquisição de sinais de fotopletismografia (PPG). A solução é otimizada para dispositivos vestíveis e incorpora uma técnica de aprimoramento de faixa dinâmica (DRE) para compensação de offset. O circuito é dividido em um transmissor (TX) e um receptor (RX), com o projeto do receptor sendo o foco principal do trabalho. O sistema receptor é composto por uma cadeia de blocos analógicos e um módulo de controle digital. O primeiro estágio é um Amplificador de Transimpedância (TIA), responsável por converter o sinal de corrente gerado por um fotodiodo em tensão. O TIA foi implementado utilizando um amplificador operacional (OTA) Miller de dois estágios, alcançando um ganho de 57,11 dB, uma largura de banda de 616,193 kHz e um CMRR de aproximadamente 60 dB. Um resistor de realimentação de 10 kΩ e um capacitor de 200 fF foram definidos para as especificações do projeto. Em seguida, o sinal é processado por um Filtro Passa-Baixa (LPF), crucial para a aplicação. Para evitar o uso de componentes passivos de grande dimensão em silício, o filtro foi projetado com uma topologia gm-C. Sua frequência de corte é de 724,43 Hz, obtida com um capacitor de 70 pF e um transcondutor sintonizável. O transcondutor foi dimensionado para operar em inversão fraca, permitindo a sintonização do filtro por meio de uma resistência externa. O sinal filtrado é enviado a um Amplificador de Ganho Programável (PGA), que ajusta a amplitude do sinal para o range de entrada do conversor analógico-digital (ADC). O PGA utiliza o mesmo OTA Miller do TIA e uma rede de resistores com chaves para oferecer ganhos programáveis entre 17,58 dB e 21,48 dB. A estabilidade do PGA é garantida com uma margem de fase entre 78,46° e 95,07°. O último bloco da cadeia analógica é um Buffer de Saída que emprega um OTA de dois estágios com fonte de corrente cascode, garantindo isolamento da carga e baixa impedância de saída. A principal inovação do projeto reside no sistema de controle digital DRE, implementado em cascata com duas máquinas de estados em SystemVerilog. A primeira máquina de estados controla um IDAC (Conversor Digital-Analógico de Corrente) de 5 bits, que compensa o offset de corrente DC causado pela luz ambiente. Este IDAC tem a capacidade de compensar até 7 µA de corrente de offset. Se a saturação do sinal persistir mesmo com o IDAC no ajuste máximo, a segunda máquina de estados é acionada para ajustar o ganho do PGA, garantindo que o sinal permaneça na faixa de operação do ADC e otimizando a resolução. O sistema digital também inclui um driver para o LED que minimiza a dissipação de potência ao acionar o componente somente durante a aquisição do sinal. O circuito foi desenvolvido em um processo CMOS de 65 nm com uma tensão de alimentação de 1,2 V. As simulações pós-layout e de variação de processo (corner analysis) confirmaram sua robustez. A dissipação de potência do AFE varia de 10,36 µW a 17,96 µW, com o IDAC contribuindo com aproximadamente 44,72% do consumo total. A potência máxima de dissipação é de 18,15 µW. A área de silício é de 363,65 × 352,25 µm². O projeto demonstra desempenho superior a outras soluções na literatura, especialmente em termos de eficiência energética. Em resumo, o artigo apresenta uma solução integrada de baixo consumo para PPG, com uma compensação de offset eficaz, tornando-o adequado para aplicações vestíveis que exigem alta eficiência energética
Influência do Tempo de Armazenamento na Estabilidade de Compostos Bioativos de Guanxuma (Sida rhombifolia L.)
A guanxuma (Sida rhombifolia L.) é um recurso natural disponível e considerada uma espécie invasora de grande importância em diversas áreas de exploração agropecuária. Essa planta influencia negativamente o desenvolvimento das culturas e provoca perdas significativas de produtividade nas lavouras. Apesar de ser considerada como planta daninha na agricultura, é largamente utilizada na medicina tradicional devido seu potencial bioativo. O uso de compostos químicos naturais como princípios ativos tem impulsionado, ao longo do último século, avanços significativos no desenvolvimento de produtos farmacêuticos. O armazenamento adequado de matérias-primas vegetais é fundamental para preservar sua composição durante o processamento. A liofilização é uma técnica de secagem que remove a água por meio da sublimação dos cristais de gelo formados em materiais previamente congelados. Quando aplicados de forma adequada, os parâmetros desse processo possibilitam a obtenção de produtos com qualidade superior em relação àqueles obtidos por métodos tradicionais de secagem como em temperatura ambiente ou em estufa. A preservação das propriedades físicas e químicas tornam a liofilização a alternativa mais eficaz para a secagem de materiais termosensíveis ou de alto valor agregado. Embora existam métodos de secagem mais econômicos, a liofilização tornou-se amplamente utilizada na indústria farmacêutica, onde os altos custos de desenvolvimento e fabricação são justificados pela exigência de qualidade e estabilidade dos produtos. Dessa forma, este estudo teve como objetivo investigar os efeitos do tempo de armazenamento sobre a estabilidade dos Compostos Fenólicos Totais (CFT) e Atividade Antioxidante (AA) presentes em amostras liofilizadas de guanxuma (Sida rhombifolia L.). As folhas de guanxuma foram coletadas na cidade de Bagé (31°16'08.8"S 54°06'58.9"W) Rio Grande do Sul no mês de julho de 2024. As folhas foram higienizadas, congeladas em freezer a -18ºC e submetidas ao processo de liofilização durante 48h em -50ºC. As folhas secas foram moídas e peneiradas utilizando peneira de 60 mesh para garantir um tamanho de partícula inferior a 0,272mm. A extração dos compostos bioativos foi realizada em banho de ultrassom com agitação a 70°C, durante 30min, seguido de centrifugação e a fase fluida foi caracterizada quanto ao teor de Compostos Fenólicos Totais (CFT) e Atividade Antioxidante (AA) através de métodos espectrofotométricos. A segunda extração foi realizada 10 meses após a primeira, utilizando amostras armazenadas. Ressalta-se que os experimentos foram realizados em duplicata e seus resultados submetidos a avaliação estatística, com nível de 95 % de confiança. Como resultado, observaram-se valores de Atividade Antioxidante (AA) de 90,16±0,18% em 2024 e 75,35±1,39% em 2025. Para os Compostos Fenólicos Totais (CFT), os teores foram de 34,59±2,33mgEAG/g e 22,41±1,51mgEAG/g, respectivamente. As análises estatísticas indicaram diferenças estatisticamente, evidenciando que o armazenamento proporcionou diminuição na presença de bioativos da planta. Esses dados sugerem que o armazenamento prolongado pode comprometer a estabilidade e a biodisponibilidade dos compostos bioativos presentes nas amostras. Para pesquisas futuras, propõe-se a avaliação de outras variáveis que possam impactar diretamente no comprometimento dos compostos bioativos presentes na planta, bem como a definição da metodologia mais adequada para sua extração. Além disso, sugere-se investigar a viabilidade da incorporação desse extrato em formulações em spray destinadas à aplicação veterinária
Sistema Automatizado para Análisis de color en ensayos de adsorción con biochar
Este trabajo describe el desarrollo de un sistema automatizado para el análisis del color en ensayos de adsorción utilizando visión por computadora, con dos cámaras USB. El objetivo principal del sistema es realizar una evaluación precisa y objetiva del color en ensayos de adsorción que emplean biochar como material adsorbente. El biochar es un material derivado de la pirólisis de biomasa, con propiedades de alta porosidad y elevada área superficial, características que lo convierten en un candidato eficiente para la retención de contaminantes. En este tipo de estudios, las variaciones de color en las soluciones analizadas constituyen un indicador directo del grado de adsorción de la molécula objetivo, ya que el cambio cromático refleja la reducción en la concentración del contaminante. El sistema propuesto captura imágenes de soluciones con contaminantes orgánicos, como colorantes sintéticos, empleando dos cámaras USB posicionadas estratégicamente con el fin de garantizar una cobertura desde diferentes ángulos y minimizar posibles errores de lectura. Estas imágenes son procesadas mediante algoritmos de visión por computadora que extraen y cuantifican los datos de color en sus componentes RGB (Rojo, Verde y Azul). Esta metodología permite obtener un análisis cuantitativo confiable del color, reduciendo la dependencia de observaciones visuales subjetivas y aumentando la reproducibilidad de los ensayos en mayor tiempo. Una de las funcionalidades destacadas del sistema es la posibilidad de personalizar la Región de Interés (ROI). El usuario puede definir con precisión el área exacta de la imagen que desea monitorear, lo que otorga flexibilidad para concentrar el análisis en diferentes sectores de la muestra o del sistema de adsorción. La interfaz gráfica desarrollada facilita la selección dinámica de la ROI, adaptándose a la necesidad específica de cada experimento. Asimismo, el sistema integra temporizadores programables que permiten la captura automática de imágenes en intervalos de tiempo predefinidos. Esta característica resulta especialmente útil en experimentos de adsorción prolongados, en los que se requiere un seguimiento periódico o continuo para evaluar la evolución del proceso a lo largo de varias horas o días, generando así un registro detallado de la dinámica del fenómeno. El control de la iluminación y la incorporación de sensores de luminosidad ambiental permite mantener una iluminación constante, evitando que fluctuaciones externas alteren los resultados. Esto asegura que las variaciones detectadas se deban al proceso de adsorción y no a cambios accidentales en las condiciones experimentales. La interfaz del sistema, diseñada con un enfoque práctico, posibilita la exportación directa de los datos obtenidos en formato RGB, lo que facilita la integración de la información con herramientas estadísticas y comparativas más avanzadas. En términos de aplicabilidad este desarrollo ofrece una herramienta versátil para la investigación científica, ya que permite evaluar la eficiencia de diferentes tipos de biochar obtenidos a partir de diversas biomasas y bajo distintas condiciones de pirólisis. Su diseño permite llevar a cabo un análisis cuantitativo, preciso y reproducible de las variaciones de color en ensayos de adsorción con biochar aportando un recurso innovador para la investigación experimental y su futura aplicación a escala industrial, garantizando además un enfoque más sostenible y eficiente en el manejo de contaminantes