Afro-Ásia
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“Africana venceu a guerra como venceste esta coroa.” Ressignificações e circularidade cultural entre as rainhas Nzinga (Angola, século XVII) e Jinga (Rio Grande do Sul, século XX)
O presente artigo discute a relação entre a memória da rainha angolana Nzinga Mbandi e a das rainhas Jingas do maçambique de Osório, litoral norte do Rio Grande do Sul. Essa congada, liderada por rainhas negras, celebra anualmente a devoção da população negra da região a Nossa Senhora do Rosário. Trabalha-se com a ideia de que, inobstante os vínculos léxicos entre as rainhas africanas e brasileiras não existem, ao menos na congada estudada, recordações das primeiras por parte dos participantes do ritual. Muito pelo contrário, esses vínculos foram permanentemente traçados e sugeridos por interlocutores, como a Igreja Católica, folcloristas e jornalistas. Por outro lado, os laços entre a África e o Brasil podem ser encontrados em algumas características estruturais e não propriamente nos conteúdos da memória
Cabras, caboclos, negros e mulatos: escravidão e núcleos familiares no Cariri Cearense (1850-1884)
Uma das principais práticas de sociabilidade engendradas pelos escravos do Cariri foi a formação de núcleos familiares. Por meio de sua experiência, os cativos constituíram diversos arranjos que excediam a noção tradicionalmente ideal de matrimônio e núcleo familiar. Em meio a essa multiplicidade, constituiu-se uma família mista, na qual os laços de parentesco dos escravos ultrapassaram os limites de sua condição social e alcançaram tanto os livres quanto os libertos que trabalhavam e conviviam a seu lado, em regiões que não se configuravam como áreas de economia agroexportadora. O processo de combinação entre condições sociais diferentes desencadeou a mistura de distintos tons de pele percebidos na população livre e cativa, tanto que, a partir da segunda metade do século XIX, a família escrava pode ser caracterizada essencialmente pela mestiçagem.Palavras-chave: história - família escrava - mestiçagem
Trabalho, cotidiano, administração e negociação numa feitoria do tráfico no rio Benim em 1837
Em 1837, dois navios negreiros foram capturados no rio Benim (Nigéria) com documentos de uma feitoria do tráfico constituída para enviar cativos para Pernambuco. Os papéis encontrados descrevem as negociações da feitoria na bacia do rio Benim. Várias cartas dos empregados também foram encontradas, entre elas a correspondência do funcionário que tomava conta, alimentava e vigiava os cativos que seriam mandados para Pernambuco nos navios negreiros da empresa. Esses documentos revelam as rotinas cotidianas, as dificuldades, as práticas locais de negociação e outros detalhes das operações da feitoria no rio Benim, em que os empregados estavam em contato com a nobreza africana e com o Obá do poderoso reino do Benim.Palavras-chave: feitoria do tráfico - Osemwede - rio Benim - Azevedinho - Pernambuco
Nascer livre na Bahia de Todos-Os-Santos: um pretexto para reclamar a liberdade em Cuba, 1817-1819
Cruz e Sousa: a verve satírica contra o preconceito e a discriminação
O presente artigo discute dois aspectos importantes da trajetória do poeta simbolista João da Cruz e Sousa. O primeiro deles refere-se às relações familiares e de solidariedade construídas pelo poeta com seus pais. O segundo diz respeito à sua participação na imprensa de Desterro como literato engajado na causa abolicionista, na segunda metade do século XIX, e à sua luta contra os limites raciais e sociais. Por meio de seus escritos, Cruz e Souza satirizava e protestava contra uma sociedade canhestra, racista e excludente.Palavras-chave: imprensa - literatura - memória
Redes de comércio interno de cativos: organização dos negociantes na segunda metade do século XIX
Este artigo tem como objetivo discutir a construção e a organização das redes nacionais de comércio de escravos na segunda metade do século XIX. Buscou-se a compreensão desse comércio na prática, por meio da análise da atuação dos negociantes e das estruturas que usavam para realizar cotidianamente seu comércio. Dessa forma, podem-se perceber as variadas estratégias dos indivíduos que construíram essas transferências e a participação de pequenos e grandes negociantes em diferentes regiões do país
A Universidade Eduardo Mondlane no projeto pós-colonial de educação em Moçambique, 1976-1993
Neste artigo, são analisadas políticas educacionais desenvolvidas em Moçambique após a independência frente a Portugal. O recorte estabelecido diz respeito à transformação da Universidade de Lourenço Marques em Universidade Eduardo Mondlane (1976) como parte importante da revolução moçambicana; e a saída do ensino superior da órbita do Estado mediante a autorização para criação de universidades privadas (1993), consolidando o fim do regime socialista naquele país. Objetiva-se compreender o projeto educacional pós-colonial como recurso aplicado pela FRELIMO para consolidar um Estado Nacional, cuja inspiração socialista e apoio internacional foram marcados por posturas nacionalistas orientadas às necessidades do Estado mais que dos cidadãos. Apontam-se críticas a esse sistema surgidas dentro da Universidade bem como sua derrocada a partir da instalação do Programa de Recuperação Econômica, com aval do FMI, em 1987