Revista Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (E-Journal)
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O Uso da Telepsiquiatria Durante a Pandemia COVID‑19: Que Lições Podemos Retirar para o Futuro?
Avaliação de Sintomas Psiquiátricos Durante o Confinamento no Contexto da Pandemia COVID‑19 numa População Clínica Pedopsiquiátrica
The COVID‑19 pandemic implied the lockdown of the paediatric population at home, conditioning changes in academic and leisure activities and relations with peers and family. Children and young people with mental illness have specific vulnerabilities, which can be affected in a particular way. This study aims to evaluate the evolution of psychiatric symptoms ‑ in the domains of mood, anxiety and behavioral changes ‑ in a child and adolescent psychiatry (CAP) population during the lockdown due to COVID‑19. Data were collected through a telephone interview with the main caregiver of children/young people (for psychiatric symptoms and qualitative variables) and online filling of the Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ). Data were subsequently analyzed statistically in SPSS. The final sample consists of a total of 502 patients. There was a global increase in screen hours, along with changes in hours of physical activity and sleep. Additionally, there was an increase in symptoms of sadness, irritability, anxiety and behavior. It was demonstrated that these symptomatic variations were statistically correlated with the caregiver’s perception of the variation in the quality of the relationship during lockdown. With specific vulnerabilities, this population can be affected differently depending on the diagnosis and on the social and family context. Longitudinal studies are justified, as well as analyzes that identify risk and protective factors.A pandemia devida à COVID‑19 implicou o confinamento da população pediátrica no domicílio, condicionando alterações das rotinas académicas, das atividades de lazer e das relações com pares e familiares. As crianças e jovens com doença mental apresentam vulnerabilidades específicas, podendo ser afetadas de forma particular. O presente estudo pretende avaliar a evolução da sintomatologia psiquiátrica ‑ nos domínios do humor, ansiedade e alterações de comportamento ‑ numa população pedopsiquiátrica durante o confinamento devido à COVID‑19. Procedeu‑se à colheita de dados através de uma entrevista telefónica ao principal cuidador das crianças/jovens (para sintomas psiquiátricos e variáveis qualitativas) e do preenchimento online do questionário Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ). Os dados foram posteriormente trabalhados estatisticamente em SPSS. A amostra final é constituída por um total de 502 pacientes. Constatou‑se um aumento global das horas de ecrã, paralelamente a alterações nas horas de atividade física e no sono. Adicionalmente, apurou‑se um agravamento dos sintomas de tristeza, irritabilidade, ansiedade e em menor escala, do comportamento. Verificou‑se que estas variações sintomáticas estavam estatisticamente correlacionadas com a perceção do cuidador relativamente à variação da qualidade da relação durante o confinamento. Apresentando vulnerabilidades específicas, esta população pode ser afetada diferencialmente consoante o diagnóstico e o contexto sociofamiliar. Estudos longitudinais são justificáveis, bem como análises que permitam identificar fatores de risco e fatores protetores
Polifarmácia e Sobredosagem Antipsicótica num Serviço Comunitário do Interior de Portugal
Introduction: Antipsychotic polypharmacy (APP) and high dose (APHD) remain a common practice in the treatment of severe mental illness, even though they are not supported by current international guidelines.
Methods: We aimed to establish the prescribing patterns of antipsychotics in a community mental health service in a rural setting, to determine the prevalence of APP and APHD treatment and to identify associated factors.
Results: We identified 284 patients. APP was present in 46.5% patients and was associated to younger age, single status, more previous psychiatric admissions, and anticholinergic prescription. Prescription of APHD was observed in 14.4% patients and was associated with previous inpatient admissions, being prescribed with a first generation long‑acting injectable antipsychotic and anticholinergics. We also found that APP and APHD were mutually associated.
Conclusion: Despite current guidelines, we found prevalences of APP and APHD of 46.5% and 14.4%, respectively. Further studies are necessary to better evaluate the antipsychotic prescription patterns in Portugal.Introdução: A polifarmácia e a sobredosagem antipsicóticas permanecem uma prática comum no tratamento de doenças mentais graves, embora as normas mais atuais não o recomendem.
Métodos: Procurou‑se identificar os padrões de prescrição antipsicótica num serviço comunitário com enquadramento rural, de forma a determinar a prevalência de polifarmácia e sobredosagem antipsicótica e fatores associados.
Resultados: Foram identificados 284 doentes. A polifármacia antipsicótica foi observada em 46,5% dos doentes e associava‑se a idades mais jovens, ser solteiro, internamentos psiquiátricos prévios e prescrição de anticolinérgicos. Por outro lado, a sobredosagem antipsicótica foi encontrada em 14,4% dos doentes e associava‑se a internamentos psiquiátricos prévios, estar medicado com um antipsicótico injetável de primeira geração de longa duração de ação e com um anticolinérgico. Observou‑se também que a sobredosagem e a polifármacia estavam associadas.
Conclusão: Apesar das recomendações internacionais, identificaram‑se prevalências de polifarmácia e sobredosagem antipsicótica de 46,5% e 14,4%, respetivamente. São necessários mais estudos para melhor caracterizar os padrões de prescrição antipsicótica em Portugal
A Perturbação Obsessiva‑compulsiva em Comorbilidade com a Perturbação do Espectro do Autismo e a Perturbação do Desenvolvimento Intelectual: Caso Clínico
Autism spectrum disorders encompass a wide range of clinical presentations, including obsessive‑compulsive symptoms. The comorbidity between these disorders is significant, and it has therapeutic and prognostic implications. While there are a few references on the approach of such comorbid presentations, the literature is even scarcer when this co‑occurrence is superimposed on individuals with intellectual disability. We present the case of a 43‑years‑old male patient with comorbid treatment refractory obsessive‑compulsive disorder, autism spectrum disorder and intellectual disability, exhibiting subacute symptomatic recurrence including hetero‑aggressive outbursts and contamination obsessions. The phenomenological features and therapeutic strategies are discussed, highlighting the centrality of a patient‑centered and methodologically pluralistic approach. Symptomatic remission was achieved employing high end doses of fluvoxamine and haloperidol, alongside daily psychotherapy involving both symptom‑directed behavioral therapy and supportive psychodynamic techniques. An integrative approach may be the best option in the stabilization of complex cases as the one presented.A perturbação do espectro do autismo abrange uma ampla gama de apresentações clínicas, incluindo sintomas obsessivo‑compulsivos. A comorbilidade entre estas patologias é significativa e tem implicações ao nível do prognóstico e terapêutica. Existem poucas referências bibliográficas sobre a abordagem a este tipo de comorbilidade, sendo a literatura ainda mais escassa quando a esta comorbilidade se sobrepõe uma perturbação do desenvolvimento intelectual. Apresentamos o caso de um doente do sexo masculino de 43 anos com perturbação obsessiva‑compulsiva refratária ao tratamento, comórbida com perturbação do espectro do autismo e compromisso intelectual concomitante, exibindo recorrência sintomática com heteroagressividade e obsessões de contaminação. As características fenomenológicas e estratégias terapêuticas são discutidas, destacando uma abordagem metodologicamente multidimensional e centrada no doente. A remissão sintomática foi alcançada recorrendo a altas doses de fluvoxamina e haloperidol, juntamente com psicoterapia diária envolvendo terapia comportamental e técnicas psicodinâmicas. Uma abordagem integrativa pode ser a melhor opção na estabilização de casos complexos como o apresentado
O Inimigo Invisível que Parou o Mundo: Impacto da Pandemia COVID‑19 nos Internamentos Psiquiátricos de um Hospital Português
Introduction: The World The World Health Organization declared the coronavirus outbreak a pandemic on March 11th 2020. Since then, the containment measures are leading to increasing mental health problems in the general population and worsening of some pre‑existing psychiatric conditions. To our knowledge, there are no studies characterizing the impact of the COVID‑19 pandemic on psychiatric hospitalizations across the world. We aim to compare the number and characteristics of the hospitalizations in the mental health department of a Portuguese psychiatric hospital from March 2nd 2019 to October 31st 2019 with those that occurred in the same period in 2020.
Methods: We conducted a retrospective observational study including all patients admitted to hospital during these periods (n=805). Sociodemographic data, clinical characteristics and information about the context of hospitalization were collected. Statistical analysis was performed using t Student Test, Mann‑Whitney and Chi‑square.
Results: In the pandemic period there was a marked reduction in the number of psychiatric hospitalizations. There was a statistically significant difference in the median length of stay and in the percentage of involuntary hospitalizations between the two periods. In 2019, the most frequent International Classification of Diseases (10th Revision) diagnostic categories were F30‑F39 (mood disorders) and in 2020 were F20‑F29 (schizophrenia, schizotypal and delusional disorders).
Conclusion: The reorganization of services and the decrease in admissions through the emergency department may explain these results.Introdução: A Organização Mundial de Saúde declarou o surto de infeção por SARS‑CoV‑2 como pandemia a 11 de março de 2020. Desde então, as medidas de contenção estão a provocar não só um aumento da incidência de problemas de saúde mental na população geral, mas também o agravamento de doenças psiquiátricas pré‑existentes. Segundo o nosso conhecimento, não existem ainda estudos que caracterizem os internamentos psiquiátricos durante o período pandémico. Os autores pretendem comparar o número e as características dos internamentos psiquiátricos no período entre 2 de março de 2019 e 31 de outubro de 2019 com os do período homólogo de 2020, num departamento de um hospital psiquiátrico português.
Métodos: Foi feito um estudo observacional retrospetivo que incluiu todos os indivíduos admitidos no internamento durante esses períodos (n=805). Foram colhidos dados sociodemográficos, clínicos e acerca do contexto do internamento e para a análise estatística utilizaram‑se os testes de Mann‑Whitney, Qui‑quadrado e t Student.
Resultados: Verificou‑se que durante o período pandémico houve uma marcada redução do número de internamentos. Houve uma diferença estatisticamente significativa na mediana do número de dias de internamento e na percentagem de internamentos compulsivos dos dois períodos. Em 2019 as categorias de diagnóstico mais frequentes, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (10ª edição), foram as F30‑F39 (perturbações do humor) e em 2020 foram as F20‑F29 (esquizofrenia, perturbação esquizotípica e perturbações delirantes).
Conclusão: A reorganização dos serviços hospitalares e a diminuição das admissões no serviço de urgência podem justificar estes resultados
A Eficácia da Eletroconvulsivoterapia de Manutenção
Introduction: Electroconvulsive therapy (ECT) is a safe and effective treatment for treatment resistant severe mental disorders. However, it has a high relapse rate, following the acute course (A‑ECT). Maintenance treatment is recommended to increase remission rate and duration. Maintenance ECT (M‑ECT) is an option, although under‑prescribed. The aim of this study was to assess M‑ECT effectiveness in reducing number and duration of hospital admissions, as well as associated costs, in patients with severe mental disorders. Mirror study comparing number and duration of hospital admissions before and after first M‑ECT.
Methods: Information was gathered for demographic and technical data, and drug dosing. Mean cost before and after the initiation of M‑ECT was compared. All treatments were performed with a MECTA spECTrum 5000QÒ. Statistical analysis was performed using SPSS 22.
Results: A total of 16 patients were enrolled. The mean number of M‑ECT treatments was 41.25 with a mean duration of 23 months. Treatment frequency was mainly once a month. A statistically significant decrease was found for number of admissions (Mdn=2.0 before and Mdn=0.0 after) and for total days in admission (Mdn=86.0 before and Mdn=14.5 after). Marginally significant results were found for antidepressive dosage, with higher dosages in the after initiation period. No significant results were found for antipsychotic dosage variation. The mean cost per patient, before and after initiation of M‑ECT, was respectively 10 621€ and 5 653€.
Conclusão: In our sample, we found that M‑ECT significantly reduces number of admissions and days in admission. Initiating M‑ECT treatment decreased cost per patient by 47%.Introdução: A eletroconvulsivoterapia (ECT) é um tratamento seguro e eficaz, indicado para o tratamento de doenças mentais graves resistentes ao tratamento. No entanto, está associado a uma alta taxa de recaída após o término do curso de ECT agudos (ECT‑A). É recomendado realizar tratamento de manutenção de forma a aumentar a taxa e duração da remissão. A ECT de manutenção (ECT‑M) é uma opção, embora ainda pouco utilizada. O objetivo deste estudo foi avaliar a eficácia da ECT‑M em reduzir o número e duração de hospitalizações, assim como custos associados, em doentes com doença mental grave.
Métodos: Foi realizado um estudo em espelho comparando o número e duração de hospitalizações antes e após iniciação de ECT‑M. Foram colhidas informações relativamente a dados demográficos e técnicos, assim como dose de medicação. Foi comparado o custo médio antes e após a iniciação de ECT‑M. Todos os tratamentos foram realizados com uma MECTA spECTrum 5000QÒ. A análise estatística foi realizada com o SPSS 22.
Resultados: Foram incluídos 16 doentes no estudo. O número médio de tratamentos de ECT‑M eletroconvulsivoterapia foi 41, com uma duração média de 23 meses. A frequência mais comum foi mensal. Foi obtida uma diferença estatisticamente significativa quanto ao número de hospitalizações (Mdn= 2,0 antes e Mdn=0,0 após) e ao número total de dias em internamento (Mdn=86,0 antes e Mdn=14,5 após). Foram encontradas diferenças marginais na dosagem de antidepressivos, com valores superiores no período após iniciação e ECT‑M. Não foram encontradas diferenças significativas na dosagem de antipsicóticos. O custo médio por doente, antes e após iniciação de ECT‑M foi, respetivamente, 10 621€ e 5 653€.
Conclusão: Na amostra estudada, a ECT‑M reduziu significativamente o número de internamentos e dias de hospitalização. A iniciação de ECT‑M reduziu o custo por doente em 47%
COVID‑19, Saúde Mental, e Nutrição: Uma Revisão Narrativa
Since the pandemic was declared in March 2020 by World Health Organization, COVID‑19 has been responsible for a disruptive impact on health, economy, and interpersonal relationships, with significant repercussions on mental health and the eating habits. A bibliographic review was carried out through the PubMed database, which aimed to study the implications of COVID‑19 on the mental health and eating habits of individuals. The association between increased psychopathological symptoms and pandemics has been established throughout human history. During the COVID‑19 pandemic, studies that sought to assess the mental health of individuals who had been infected with SARS‑CoV‑2 and/or were in quarantine found an increased prevalence of psychopathological symptoms such as anxiety, sadness or fear. The duration of the quarantine, socioeconomic problems, false and/or inappropriate information and the neurotropism of the virus, were some of the risk factors pointed to the appearance of these symptoms. Likewise, the scientific community has also found a relationship between the quarantine period and depressive symptoms with increased consumption of comfort foods, with high energy density and low in nutrients. This not only increases the risk of developing chronic non‑communicable diseases, such as obesity and type 2 diabetes mellitus, but it also seems to influence the hypothalamic‑pituitary‑adrenal axis, with impairment of the immune system and an increase in mental illnesses such as depression. The immune response is, ultimately, the only way we have to overcome this pandemic. SARS‑CoV‑2 has had an important negative impact both on the mental health of the population and on their food choices, which conditions out immune response. Thus, more than only measures to prevent contamination, also to promote a healthy lifestyle seem to be the best strategies against COVID‑19, with a view to increase our “psychoneuroimmunity” to better overcome this pandemic.Desde que foi declarada pandemia em março de 2020 pela Organização Mundial de Saúde, a COVID‑19 tem sido responsável por um impacto disruptivo na saúde, economia e relacionamentos interpessoais, com impacto negativo ao nível da saúde mental, com repercussão nos hábitos alimentares na população. Foi realizada pesquisa bibliográfica, através da base de dados PubMed, que pretendeu estudar implicações da COVID‑19 na saúde mental e hábitos alimentares dos indivíduos. A associação entre o aumento dos sintomas psicopatológicos e as pandemias tem sido estabelecida ao longo da história da humanidade. Estudos realizados durante a pandemia COVID‑19, em indivíduos que tinham sido infetados por SARS‑CoV‑2 e/ou em quarentena, encontraram um aumento significativo, da prevalência de sintomas psicopatológicos como a ansiedade, tristeza ou medo. A duração da quarentena, problemas socioeconómicos, informações falsas e/ou inadequadas e o neurotropismo do vírus, são alguns dos fatores de risco apontados como responsáveis pelo surgimento destes sintomas. Da mesma maneira, a comunidade científica têm também encontrado uma relação entre o período de quarentena e dos sintomas angodepressivos com o aumento do consumo de alimentos conforto, de elevada densidade energética e pobre em nutrientes. Este facto, não só aumenta o risco de desenvolvimento de doenças crónicas não transmissíveis, como a obesidade e a diabetes mellitus tipo 2, como também parece influenciar o eixo hipotálamo‑hipófise‑suprarrenal, com comprometimento do sistema imunitário e aumento das doenças mentais como a depressão. A resposta imunitária é, em última instância, a única maneira que temos para ultrapassar esta pandemia. O SARS‑CoV‑2, tem tido um importante impacto negativo quer na saúde mental da população quer nas suas escolhas alimentares o que, condiciona a nossa resposta imunitária. Deste modo, para além das medidas de prevenção da contaminação, também a promoção de um estilo de vida saudável, parecem ser as melhores estratégias contra a COVID‑19, com vista a aumentar a nossa “psiconeuroimunidade” para melhor ultrapassarmos esta pandemia
Delirium em Doentes com Cancro em Contexto de Cuidados Paliativos
Delirium is a complex and multifactorial neuropsychiatric syndrome, highly prevalent in all palliative care settings, particularly among cancer patients. This article aims, based on the current literature, to revise the diagnostic criteria of delirium, its clinical manifestations; assessment tools; etiology and pathophysiology; and treatment strategies for this condition in this specific population. The review was conduct based on published articles in PubMed/Medline about delirium management in palliative care, between 1987 and 2020, using the keywords: delirium, cancer and palliative care. Although the global brain dysfunction associated with delirium is exhibited by neurocognitive or neuropsychiatric symptoms and signs, the fundamental characteristic of this syndrome is attention disorder. The etiology of delirium is considered multifactorial and its diagnosis is poorly recognized by health professionals. According to literature, diverse strategies are necessary to deal with delirium’s precipitant factors, pathophysiological mechanisms, subtypes and phenomenological differences. Although highly used in clinical practice, routinely use of antipsychotics in delirium management at palliative care is not an evidence‑based approach. In summary, the aim should always be to find and treat any reversible cause and enhance non‑pharmacological approaches, with antipsychotics reserved for severe, life‑threatening and refractory cases. Thus, the treatment approach to delirium in the context of palliative care, should consider the different subtypes of delirium, based on different etiologies, contexts and prognoses, with a need for more and better studies, both from the pharmacological point of view and in combined strategies, with clarification of results regarding efficacy in the resolution of the clinical syndrome and in the quality of life in this population.O delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica complexa e multifatorial, altamente prevalente em todos os contextos de cuidados paliativos, nomeadamente em doentes com cancro. Pretende‑se com este artigo, com base na literatura atual, rever critérios de diagnóstico de delirium e suas características clínicas; instrumentos utilizados para avaliação; etiologia e patofisiologia; prevenção e estratégias terapêuticas nesta população específica. Foi revista a literatura publicada na base de dados online PubMed/Medline, entre 1987 e 2020, que abordasse o tratamento do delirium em contexto paliativo, através das palavras‑chave: delirium, cancer e palliative care. Embora a disfunção cerebral global associada ao delirium se manifeste por sintomas e sinais neurocognitivos ou neuropsiquiátricos, a característica fundamental desta síndrome é a perturbação da atenção. A etiologia do delirium é considerada multifatorial e o seu diagnóstico é pouco reconhecido pelos profissionais de saúde. Segundo a literatura, são necessárias várias estratégias de tratamento, tendo em conta os diversos fatores precipitantes, mecanismos patofisiológicos, subtipos e diferenças fenomenológicas encontrados no delirium. Apesar de largamente utilizados na prática clínica, não existe evidência suficiente para o uso habitual de antipsicóticos no tratamento do delirium em contexto paliativo. Do ponto de vista global, o objetivo deverá ser o tratamento de uma possível causa reversível e a otimização das estratégias não farmacológicas, sendo o uso de antipsicóticos reservado para os casos graves, de risco eminente, e refratários. Assim, a abordagem de tratamento do delirium em contexto de cuidados paliativos, deverá ter em conta os diversos subtipos de delirium, baseados nas diferentes etiologias, contextos e prognósticos, havendo necessidade de mais e melhores estudos, tanto do ponto de vista farmacológico como em estratégias combinadas, com clarificação de resultados que permitam aferir eficácia na resolução do quadro clínico e na qualidade de vida nesta população