Revista Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (E-Journal)
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Síndrome de Cotard na Adolescência: Um Relato de Caso
Cotard’s syndrome is a rare neuropsychiatric condition characterized by nihilistic and hypochondriacal delusions that generally occur in individuals with some predisposition or in association with a psychiatric or organic disease. Its development is even more unusual in pediatric population.The purpose of this paper is to briefly review the available scientific evidence, based on the description of a clinical case. Data were obtained from clinical records and a careful search and analysis on the electronic databases PubMed and Embase.
We illustrate the case of a 15-year-old female adolescent with Cotard’s syndrome in the context of an adjustment disorder. Cotard’s syndrome can be associated with chronicity, self-neglect and suicide, but a prompt diagnosis and treatment can promote a good outcome. This case shows how the use of antipsychotics complemented by psychotherapeutic and psychoeducational interventions can promote a complete remission of the condition.A síndrome de Cotard é uma doença neuropsiquiátrica rara caracterizada por delírios niilistas e hipocondríacosque ocorre geralmente em indivíduos com alguma predisposição ou outra doença psiquiátrica ou orgânica. O seu desenvolvimento é ainda mais raro na população pediátrica.Este artigo tem como objetivo rever brevemente a evidência científica disponível, a partir da descrição de um caso clínico. Os dados foram obtidos a partir de registos clínicos e da pesquisa criteriosa nas bases de dados electrónicas PubMed e Embase.
Ilustramos o caso de uma adolescente de 15 anos com síndrome de Cotard no contexto de uma perturbação de ajustamento. A síndrome de Cotard pode associar-se a cronicidade, auto-negligência e suicídio, mas o diagnósticoe tratamento precoces podem promover um bom prognóstico. Este caso mostra como o uso de antipsicóticos complementado por intervenções psicoterapêuticas e psicoeducativas pode promover a remissão completa do quadro clínico
Mindfulness como Tratamento Adjuvante para o Transtorno Obsessivo Compulsivo: Uma Revisão Integrativa
Obsessive‐compulsive disorder is characterized by the presence of obsessions and/or compulsions. Standard treatment, although effective in improving symptoms, in more severe cases may not be sufficient. The objective of this studywas to identify in the literature data on the effectiveness of Mindfulness as a complementary treatment in reducing symptoms in patients with obsessive‐compulsive disorder. This integrative review was performed in Medline, Lilacs, Embase, Cochrane, CINAHL, and Web of Science databases. A total of 135 results were found, of which only 11 articles were used after applying the duplicate exclusion and eligibility criteria. Thus, we identified that mindfulness ‐based cognitive therapy (MBCT) when compared to more traditional treatments, such as cognitive‐behavioral therapy, showed promise, especially in improving self‐awareness regarding the symptoms of the disorder. However, studies with longer exposure time and with more specific variables need to be designed to verify the longterm efficacy of MBCT, especially in more severe and older patients.O transtorno obsessivo compulsivo é caracterizado pela presença de obsessões e/ou de compulsões. O tratamento padrão, apesar de efetivo na melhora de sintomas, em casos mais graves podem não ser suficiente. O objetivodesse estudo foi identificar na literatura dados sobre a eficácia da atenção plena (mindfulness) como tratamento complementar na redução dos sintomas em pacientes com transtorno obsessivo compulsivo. Essa revisão integrativa foi realizada nas bases de dados Medline, Lilacs, Embase, Cochrane, CINAHL e Web of Science. Foram encontrados 135 resultados, dos quais apenas 11 artigos foram utilizados após a aplicação da exclusão de duplicatas e dos critérios de elegibilidade. Desse modo, identificamos que a terapia cognitiva baseada na atenção plena quando comparada atratamentos mais tradicionais, como a terapia cognitivo‐comportamental, mostrou‐se promissora, sobretudo na melhora da autoconsciência frente aos sintomas do transtorno. Todavia, estudos com maior tempo de exposição e com variáveis mais específicas precisam ser elaborados para verificar a eficácia da terapia cognitiva baseada na atenção plena a longo prazo, principalmente, em pacientes mais graves e mais velhos
Formação em Estimulação Magnética Transcraniana: Experiência de um Centro Clínico e de Investigação
Sentimentos de Solidão devidos à Quarentena por COVID‑19 e a sua Relação com Traços Ansiosos e Empatia
Introduction: We aimed to understand how loneliness and empathy relate to home confinement/quarantine and to explore the relation between loneliness, anxiety traits and empathy.
Methods: This is an observational cross‑sectional cohort study including 364 participants. We delivered an online questionnaire composed by UCLA Loneliness scale (assessing loneliness), STAI‑Y (assessing trait anxiety), and IRI (assessing empathy). For the statistical analysis we performed descriptive and inferential statistics. When not‑otherwise specified, two‑tailed p<0.05 was considered significant.
Results: The mean for IRI was 60.46 (SD: 10.88), for UCLA Loneliness scale was 32.70 (SD: 8.11) and for STAI‑Y was 42.01 (SD: 12.29). We found no statistically significant correlation between empathy and loneliness (p>0.05). Nonetheless, loneliness and anxiety traits were positively correlated (p<0.05), and psychiatric comorbidity was associated with higher levels of loneliness and anxiety traits (p<0.05).
Conclusion: Our results suggest social cohesion, solidarity and continuous online contact may have played a significant role on preservation of empathy and feelings of loneliness. The fact that loneliness may be felt in a positive way (such tightening household relationships) can explain the non‑correlationbetween the last and empathy. Ultimately, the positive correlation between anxiety traits and loneliness underlines the vulnerability of previously anxious subjects, enhancing the importance of promoting mental health during the pandemic.Introdução: Pretendemos compreender como a solidão e a empatia se relacionam com o período de quarentena/confinamento e explorar a relação entre solidão, empatia e traços ansiosos.
Métodos: Trata‑se de um estudo observacional e transversal, incluindo 364 participantes. Foram distribuídos questionários de auto‑preenchimento em formato online, compostos pelas escalas UCLA Loneliness scale (avaliar a solidão), STAI‑Y (avaliar traços ansiosos) e IRI (avaliar empatia). Recorremos a métodos estatísticos descritivos e inferenciais para a análise estatística dos dados obtidos. Foi considerado estatisticamente significativo um p<0,05.
Resultados: A média na escala IRI foi de 60,46 (±10,88), na UCLA Loneliness scale obtivemos uma media de 32,70 (± 8,11) e na STAI‑Y uma média de 42,01 (± 12,29). Não foi encontrada uma correlação estatisticamente significativa entre empatia e solidão (p>0,05). É de notar que a solidão correlaciona‑se positivamente com os traços ansiosos (p<0,05) e que comorbilidades psiquiátricas estavam associadas a maiores níveis de solidão e de traços ansiosos (p<0,05).
Conclusão: Cremos que a coesão social, a solidariedade e o contacto online tenham tido um papel fundamental na preservação da empatia e na sensação de solidão. O facto de que a solidão possa ser experienciada de forma positiva (como por exemplo, no fortalecimento das relação dentro do agregado familiar) pode ser a razão pela qual esta não esteja estatisticamente correlacionada com a empatia. Por último, a correlação positiva entre traços ansiosos e solidão realça a vulnerabilidade de sujeitos tendencialmente ansiosos, tornando premente a promoção de saúde e bem‑estar mental durante a quarentena/confinamento
Violência Doméstica e Perturbação do Uso de Substâncias com Início Tardio: Um Caso-Clínico de Liberdade e Cativeiro
Intimate partner violence (IPV) perpetrated by men is a highly prevalent public health problem. IPV has long been asso- ciated to substance use disorder (SUD) in young women, namely alcohol-related problems. However, evidence on this link regarding late-adulthood onset is scarce. In this paper, we report the case of a 52-year-old female patient voluntarily seeking medical help for first‐time heroin use. She had previously been married into a thirty‐year‐long abusive relation- ship, following unintended teenage pregnancy. At 49 years-old, as the patient signs for divorce and puts an end to the abusive relationship, high-risk behaviors and SUD follow. Although a bidirectional association between IVP and SUD is described in young women, further investigation is needed to elucidate on how IPV-related trauma may impact on older women. It is paramount to promote specialized mental health care among this vulnerable population.A violência por parceiro íntimo (VPI) perpetrada por homens é um problema de saúde pública significativamente pre- valente, com associação a maior incidência de abuso de substâncias em mulheres jovens. No entanto, a evidência sobre esta associação em mulheres em idade adulta avançada é escassa. Neste artigo, apresentamos o caso de uma paciente do sexo feminino de 52 anos de idade, observada por início recente de consumo de heroína. A paciente relatava história de abuso físico e emocional em contexto matrimonial durante trinta anos. Aos 49 anos, quando assina o divórcio e termina o relacionamento abusivo, seguem‐se comportamentos de risco e abuso de substâncias ilícitas. São necessários estudos adicionais em prol do esclarecimento do impacto do trauma associado à VPI em mulheres mais velhas, bem como da promoção de medidas preventivas e terapêuticas na salvaguarda da saúde mental desta população vulnerável
Psicoterapia Assistida por MDMA: um Novo Paradigma no Tratamento da Perturbação de Stress Pós‐Traumático Resistente?
Post‐traumatic stress disorder (PTSD) is a common psychiatric illness, usually chronic, with severe implications for the quality of life of the affected person and their family, and which has been increasingly recognized as a Public Health problem. In the last two decades, clinical studies with 3,4‐methylenedioxymethamphetamine (MDMA) have been demonstrating its promising role as a psychotherapeutic catalyst in patients with PTSD, and in 2017 MDMA‐assisted psychotherapy was named breakthrough therapy by the Food and Drug Administration (FDA).
These studies have been replicated in several locations around the world, according to strict protocols, and its approval for clinical use is currently scheduled for 2023. In May 2021, the first results of phase III studies were published, in which participants who received MDMA‐Assisted Psychotherapy experienced a significant and lasting reduction in PTSD symptoms. The acute prosocial and interpersonal effects of MDMA have been shown to significantly improve
the quality of the therapeutic alliance, enhancing adherence to PTSD treatment and its outcome. Clinicians suggest that MDMA can catalyze therapeutic processing, allowing patients to remain emotionally engaged while revisiting traumatic experiences without becoming overwhelmed.Taking into account the prevalence of PTSD and the limitations found with currently available treatments, a literature review was carried out with the aim of examining the use of MDMA assisted psychotherapy in post‐traumatic stress disorder, presenting a historical contextualization of this molecule, its potential effects on different symptoms of this disorder and identifying priority areas for intervention and future investigations.A perturbação de stress pós‐traumático (PSPT) é uma doença psiquiátrica comum, geralmente crónica, com severas implicações na qualidade de vida da pessoa afetada e da sua família, e que tem vindo a apresentar um crescente reconhecimento enquanto problema de Saúde Pública. Nas últimas duas décadas, estudos clínicos com 3,4‐metilenodioximetanfetamina (MDMA) têm vindo a demonstrar o seu papel promissor enquanto potencializador psicoterapêutico em doentes com PSPT, tendo a psicoterapia assistida por MDMA inclusivamente recebido em 2017 a designação de breakthrough therapy.
Estes estudos têm vindo a ser replicados em vários locais do mundo, segundo estritos protocolos, estando atualmente asua aprovação para uso clínico prevista para 2023. Em maio de 2021, foram publicados os primeiros resultados de estudos de fase III, nos quais os participantes que receberam psicoterapia assistida por MDMA experienciaram uma redução significativa e duradoura nos sintomas de PSPT. Os efeitos pró‐sociais e interpessoais agudos do MDMA têm demonstrado melhorar significativamente a qualidade da aliança terapêutica, potenciando a adesão ao tratamento da PSPT e o seu outcome. Os clínicos sugerem que o MDMA pode catalisar o processamento terapêutico, permitindo que os pacientes permaneçam emocionalmente envolvidos enquanto revisitam experiências traumáticas sem se tornarem oprimidos.Tendo em conta a prevalência da PSPT e as limitações encontradas com os tratamentos atualmente disponíveis, foi realizada uma revisão narrativa da literatura com o objetivo de examinar a utilização da psicoterapia assistida por MDMA na perturbação de stress pós‐traumático, apresentando uma contextualização histórica desta molécula, os seus potenciais efeitos nos diferentes sintomas desta patologia e identificando áreas prioritárias para intervenção e investigações futuras
Este é o Momento: Uma Visão Geral da Psiquiatria Perinatal
Perinatal mental health (PMH) has been a growing field of practice for psychiatry in the last decades. It focuses on mental health during pregnancy, childbirth and the postpartum period including the distinctive presentations of mental illness and well‐being challenges associated with parenting experiences. Mental health problems in pregnancy and the postnatal period can have significant differences and challenges to its approach compared to other periods of life. Working in PMH requires specific and updated know ‐ledge regarding carers’ experiences and manifestations of mental illness in this particular life stage and psychotropic management during pregnancy and breastfeeding, as well as regarding the mother/parent and baby relationship and bond, and the baby’s safeguarding along several developmental issues. For all this, PMH specialist services and multidisciplinary teams with specific training have been developing to cater to this need in several countries around the world. To provide a broadened overlook on the matter, some key aspects of PMH will be discussed below in this perspective
Psicose Orgânica em Doente com Tumor Carcinoide Atípico do Pulmão
Psychiatric manifestations are present in at least one third of cancer patients. Notwithstanding, less than 50% are properly followed‐up. This article contributes to the scarce existing literature on psychotic symptoms in patients with neuroendocrine tumors ‐ a rare presentation of a rare disease. It emphasizes a possible association between carcinoid tumor of the lung and psychotic symptoms, discusses the differential diagnosis and presents an effective psychopharmacological therapeutic option, never published before, to the best of our knowledge.
We report the case of a female 69‐year‐old patient with an atypical carcinoid tumor of the lung and no previous psychiatric history. The clinical picture was characterized by paranoid and reference delusional ideas, with acoustic‐verbal hallucinatory activity, with secondary depressive mood and extreme anxiety. An organic psychosis was admitted with probable relationship with her neoplastic disease and was treated with aripiprazole, with good response and tolerance.Manifestações psiquiátricas estão presentes em pelo menos um terço dos doentes com cancro. Apesar disso, menos de 50% são devidamente acompanhados. Este artigo contribui para a escassa literatura existente sobre sintomas psicóticos em doentes com tumores neuroendócrinos ‐ uma apresentação rara de uma doença rara. Enfatiza uma possível associação entre tumor carcinoide do pulmão e sintomas psicóticos, discute o diagnóstico diferencial e apresenta uma opção terapêutica psicofarmacológica eficaz, nunca publicada, até onde sabemos.
Relatamos o caso de uma doente de 69 anos com um tumor carcinoide atípico do pulmão, sem história psiquiátrica prévia. O quadro clínico caracterizou‐se por ideias delirantes paranoides e autoreferenciais, atividade alucinatória acústico‐verbal, humor depressivo e ansiedade extrema secundários. Foi admitida uma psicose orgânica em provável relação com a sua doença neoplásica, que foi tratada com aripiprazol, com boa resposta e tolerância