Comunicação e Sociedade (E-Journal)
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Contestation and Reflections on Cultural and Historical Heritage
O livro Patrimónios Contestados reúne 10 textos em torno do tema do património enquanto convenção construída, histórica e socialmente. Numa altura em que estão acesas as controvérsias acerca dos processos de descolonização cultural, este livro apresenta diversos contributos para pensar as transformações tanto nos modos de encarar os processos de descolonização cultural como nas práticas a adotar para a concretização desse processo. Trata-se de uma contribuição sustentada em pontos de vista variados, assente em visões nacionais e internacionais deste fenómeno sociológico...The book Patrimonios Contestados (Contested Heritage) compiles 10 texts on heritage as a historically and socially constructed convention. While controversies about the cultural decolonisation processes are still raging, this book provides various contributions for reflecting on the transformations affecting perceptions of those processes and the practices to make it happen. It is a contribution that draws on different viewpoints based on national and international perspectives of this sociological phenomenon..
Produção de Conhecimento, Reparação Histórica e Construção de Futuros Alternativos. Entrevista Com Miguel de Barros
The COVID-19 pandemic dramatically exacerbated pre-existing social inequalities and added urgency to the awareness of the need for social transformation. Social movements for the decolonisation of knowledge and governance systems have gained new momentum and the demands for historical reparation and climate, health and food justice. Historical reparation has sometimes been equated only to restitution of material goods or financial compensation. Still, it is a much more complex endeavour that necessarily involves making knowledge production a more engaging and participatory process, inside and outside the academy, linking different knowledge to build fairer and more inclusive futures...A pandemia da COVID-19 exacerbou de modo dramático desigualdades sociais pré-existentes e tornou mais urgente a consciencialização da necessidade de transformação social. Os movimentos sociais para a descolonização do conhecimento e dos sistemas de governança ganharam novo ímpeto assim como as demandas de reparação histórica e de justiça climática, sanitária e alimentar. A reparação histórica tem sido por vezes equacionada apenas em termos de restituição de bens materiais ou de compensação financeira, mas trata-se de uma tarefa bem mais complexa que passa necessariamente por tornar a produção de conhecimento um processo mais envolvente e participativo, dentro e fora da academia, colocando em diálogo diversos saberes com vista à construção de futuros mais justos e inclusivos..
Para Não Esquecer: Memória, Poder e Arquivo Malê em Narrativa Amadiana
Neste artigo, se problematiza as relações entre o poder, a memória e o arquivo que circundam a revolta dos malês, acontecimento histórico narrado em Bahia de Todos os Santos: Guia de Ruas e Mistérios, do escritor Jorge Amado (1977), buscando compartilhar reflexões, tensionamentos e intenções que o contato com os estudos pós-estruturalistas e decoloniais podem provocar ante a história, significando um movimento de insubmissão capaz de potencializar uma crítica ao pensamento oficial e às narrativas eleitas. A resistência e a busca malê para resguardar sua identidade é uma potência expressa no livro amadiano, que denuncia a violência física, linguística, religiosa, social e histórica vivenciada pela desumanização dos corpos negros e o apagamento da história nacional dessas figuras populares que tiveram uma participação em lutas em prol da liberdade e foram silenciadas nas narrativas oficias da nação. O trabalho desenvolvido tem por intuito ainda compreender como o romancista brasileiro aborda essas estruturas forjadas nas relações de poder e de controle da história e da memória utilizadas como mecanismos para apagar identidades das minorias étnicas em solos brasileiros. Para o desenvolvimento deste estudo, foram utilizadas as concepções teóricas de Derrida (1995/2001), Deleuze (1969/2009), Foucault (1969/2008), Mignolo (2003), Grosfoguel (1996), Quijano (2005) e Reis (1986).This article discusses the relations between power, memory, and the archive that surround the Malês revolt, a historical event narrated in Bahia de Todos os Santos: Guia de Ruas e Mistérios (Bahia de Todos os Santos: A Guide to the Streets and Mysteries) by the writer Jorge Amado (1977). It seeks to share reflections, tensions, and intentions that the contact with post-structuralist and decolonial studies can trigger before history, as a movement of insubmission able to potentiate a critique of official thought and the elected narratives. The Malê resistance and endeavor to protect their identity is a power expressed in Amado’s book, which denounces the physical, linguistic, religious, social, and historical violence experienced by the dehumanization of Black bodies and the erasure of the national history of these popular figures who had participation in struggles for freedom and were silenced in the nation’s official narratives. The work developed also aims to understand how the Brazilian novelist approaches these structures forged in the relations of power and control of history and memory used as mechanisms to erase the identities of ethnic minorities on Brazilian soil. The development of this study relied on the theoretical concepts of Derrida (1995/2001), Deleuze (1969/2009), Foucault (1969/2008), Mignolo (2003), Grosfoguel (1996), Quijano (2005), and Reis (1986)
Como a Ficção Pós-Colonial Pode Contribuir Para uma Discussão Sobre Reparação Histórica: Leitura de As Telefones (2020) de Djaimilia Pereira de Almeida
Post-colonial Portuguese literature published since 1974 has obscured the trauma of the colonised. In the context of Portuguese prose fiction published since the beginning of the second decade of the present millennium, authors of African descent follow on from the generation that brought about the African liberations. However, due to the years of political and economic instability that followed in the former colonies, these writers became part of the African-heritage diaspora that has grown up in Portugal. As such, they form the visible face of the post-colonial cultural entanglement that was produced by colonialism. Djaimilia Pereira de Almeida, the author of As Telefones (The Telephones, 2020), the novel that is the focus of this article, provides an example of African-heritage writing and lived experience that has points of reference in Portuguese and Angolan cultures alike. This article argues that Portuguese prose fiction by authors of African descent destabilises cartographical imaginaries to reflect on the cultural complexity of the lived experience of people of African descent, contributing to a polyphony that has been absent from collective memory in the public space, and consequently creating possibilities for historical reparation. This article maintains that, on the one hand, As Telefones decolonises the experience of loss that literature published after 1974 has associated not only with the memory and experience of the coloniser’s body, but also and significantly, with the feeling of saudade (nostalgia or longing) that is so central to Portuguese culture; on the other, it argues that the narrative focus on the telephone as the sole means of transmission of post-memory introduces a rupture in Portuguese literary convention — in which writing is a privileged witness — by endorsing the orality that feeds into the origins of African literatures.A literatura pós-colonial portuguesa publicada depois de 1974 deixou na obscuridade o trauma do colonizado. Os autores afrodescendentes das narrativas portuguesas publicadas desde o início da segunda década deste milénio são herdeiros da geração que fez as libertações africanas, mas que, devido aos anos subsequentes de instabilidades políticas e económicas, fazem parte da diáspora afrodescendente que cresceu em Portugal, constituindo a face visível do emaranhado cultural pós-colonial que o colonialismo produziu. Djaimilia Pereira de Almeida, autora de As Telefones (2020), que se analisa no presente artigo, é um exemplo de uma autoria e vivência afrodescendente que tanto deve às referências culturais portuguesas como à cultura angolana. Assim, argumenta-se que as narrativas de autoria portuguesa afrodescendente desestabilizam imaginários cartográficos para refletir sobre a complexidade cultural da vivência afrodescendente, contribuindo para uma polifonia ausente sobre a memória coletiva no espaço público e consequente possibilidade de reparação histórica. Sustenta-se, por um lado, que As Telefones descoloniza a experiência da perda que a literatura publicada depois de 1974 associou à memória e experiência do corpo do colonizador, mas também, e muito significativamente, ao sentimento de saudade, central na cultura portuguesa; por outro lado, defende que a centralidade narrativa do telefone como único meio de transmissão de pós-memória introduz um corte na convenção literária portuguesa que privilegia a escrita como testemunho, validando a oralidade, muito tributária para a génese das literaturas africanas
A Iconoclastia Contemporânea: O Antirracismo Entre a Descolonização da Arte e a (Re)Sacralização do Espaço Público
Este artigo tem por objetivo contribuir para a reflexão sobre as fenomenologias da não identificação com o património cultural e artístico, nomeadamente, o arquitetónico e o escultórico, instalado no espaço público urbano. As práticas iconoclastas contemporâneas trouxeram para o debate político e mediático o questionamento da qualidade e pertinência das transformações estéticas e artísticas que aconteceram nas cidades. Pretende-se estabelecer possíveis relações entre os fenómenos iconoclastas, as mitografias contemporâneas e as práticas discursivas pós-coloniais e neocoloniais, abordando as problemáticas sociais e políticas subjacentes ao racismo, que poderão estar na origem das práticas de iconoclastia contra o património. A partir de uma revisão selecionada à literatura científica, publicada no último vinténio, nomeadamente, da autoria de Araújo e Rodrigues (2018), Kilomba (2019; “‘O Racismo É uma Problemática Branca’ diz Grada Kilomba”, 2016), Maeso (2016), Roldão et al. (2016), Ribeiro (2021), Santos (2003), V. Sousa (2020), Vale de Almeida (2000, 2012), Varela e Pereira (2020), entre outros, procurou-se demonstrar o contributo da arte contemporânea e do artivismo curatorial, no seio das instituições museológicas, para o questionamento das narrativas históricas institucionais e para a progressiva desconstrução das práticas discursivas lusotropicalistas, que instituem o colonialismo e a escravatura como inevitabilidades históricas aceites. Verificou-se que o pensamento hegemónico ocidental está assente numa falsa construção ideológica identitária, suportada numa alegada superioridade moral e racial, tendo em vista justificar a prossecução de um modelo de exploração económica estruturado na dominação cultural. Concluiu-se que o multiculturalismo no seio das instituições culturais, a par da salvaguarda da diversidade cultural e da interpretação patrimonial no espaço público, poderá assegurar a inclusão e coesão social, desenvolvendo sentimentos de pertença, e, por conseguinte, permitindo a mitigação das desigualdades e da violência.This article aims to contribute to the reflection on the phenomenologies of non-identification with the cultural and artistic heritage, namely the architectural and sculptural, installed in the urban public space. Contemporary iconoclastic practices have made the political and media debate aware of the quality and pertinence of cities’ aesthetic and artistic transformations. I aim to establish possible relationships between iconoclastic phenomena, contemporary mythography and postcolonial and neo-colonial discursive ways, addressing the social and political issues underlying racism, which may be at the origin of iconoclastic practices against heritage. I conducted a selected review of the scientific literature published in the last 20 years, namely authored by Araújo and Rodrigues (2018), Kilomba (2019; “ ‘O Racismo É uma Problemática Branca’ diz Grada Kilomba”, 2016), Maeso (2016), Roldão et al. (2016), Ribeiro (2021), Santos (2003), V. Sousa (2020), Vale de Almeida (2000, 2012), Varela and Pereira (2020), and others. On that basis, I tried to demonstrate how the contemporary art and curatorial artivism within museological institutions contributed to challenging institutional historical narratives and the progressive deconstruction of Lusotropicalist discursive practices, which institute colonialism and slavery as acceptable historical inevitabilities. I found that western hegemonic thinking is based on a false ideological construction of identity, supported by an alleged moral and racial superiority, to justify pursuing a model of economic exploitation structured in cultural domination. I concluded that multiculturalism within cultural institutions, safeguarding cultural diversity and heritage interpretation in the public space, could ensure inclusion and social cohesion, develop feelings of belonging, and mitigate inequalities and violenc
Para uma História do Jornalismo Literário Português: Repórteres e Escritores ao Longo do Tempo
O jornalismo e a literatura mantêm desde sempre uma relação de certa proximidade. Se algumas obras literárias se aproximam do registo jornalístico de relato sobre o presente, também certas reportagens escritas parecem autênticas obras literárias graças a uma narrativa que excede as técnicas do jornalismo convencional. É neste enquadramento que se pode falar de jornalismo literário, um jornalismo escrito por jornalistas (e não jornalismo escrito por escritores ou sobre jornalistas), que, seguindo as regras e exigências que definem a profissão, abre espaço para o uso de técnicas tipicamente associadas à literatura.Portugal possui uma longa história de jornalismo literário e de jornalistas que se distinguem por este estilo. Neste sentido, este estudo procura oferecer uma visão diacrónica do jornalismo literário português através de uma análise do seu desenvolvimento, desde o fim do século XIX e atravessando a Primeira República, o Estado Novo, o pós-25 de Abril, até à atualidade. Ao mesmo tempo, considera-se diferentes exemplos de jornalismo literário internacional de forma a estabelecer uma definição possível para o tema.Journalism and literature have always maintained a close relationship. While some literary works resemble the journalistic style of reporting on the present, some written reports are true literary works thanks to a narrative that exceeds the techniques of conventional journalism. It is within this framework that one can talk about literary journalism, journalism written by journalists (and not journalism written by writers or about journalists), which, following the rules and requirements that define the profession, makes room for the use of techniques typically associated with literature.Portugal has a long literary journalism history, and journalists who are distinguished by this style. This study seeks to offer a diachronic view of Portuguese literary journalism through an analysis of its development, from the end of the 19th century and across the First Republic, the Estado Novo, after April 25, to the present day. At the same time, we will consider different examples of international literary journalism to establish a possible definition for the topic
A Narrativa Jornalística no Twitter de um (Não) Atentado em Portugal
Quinta-feira, dia 10 de fevereiro de 2022, “um estudante de 18 anos foi detido esta quinta-feira pela Polícia Judiciária suspeito do crime de terrorismo, já que estaria há meses a planear atacar os colegas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa” (Henriques et al., 2022, para. 1). Um caso sem grande paralelo em Portugal, num contexto mediático caracterizado pelo que é imediato e pela crescente importância das redes sociais e média sociais, como o Twitter, inclusive para a circulação de informação. Parte-se de um entendimento do Twitter como uma plataforma relevante para o jornalismo contemporâneo que conecta fluxos de informação entre partes (Bennett & Segerberg, 2012; Sadler, 2018). Foram extraídos 3.577 tweets no espaço de 1 semana desde o caso, das cinco contas oficiais no Twitter com mais seguidores, de cariz jornalístico/informativo em Portugal. Desses, apenas 104 tweets se focam neste particular caso, destacando-se o facto de o Correio da Manhã apresentar o triplo de tweets do Expresso. Este trabalho utiliza uma abordagem qualitativa para realizar uma análise discursiva, com recurso a nuvens de palavras, que representam visualmente a frequência de termos. A identificação de narrativas, inclusive macro e micronarrativas (Lits, 2015; Motta, 2013), orienta este trabalho, que resulta na identificação da macronarrativa da existência de um ataque numa faculdade da Universidade de Lisboa. A narrativa do terrorismo, apesar de comum no corpus geral não é central, já que se encontra de forma não uniforme entre as cinco nuvens de palavras, sendo identificada nas nuvens de palavras da SIC Notícias, do Jornal de Notícias e do Correio da Manhã. A análise desenvolvida procura auxiliar o desenvolvimento de entendimentos sobre as narrativas utilizadas para dar e construir sentido à cobertura mediática deste caso específico sem grande comparação em Portugal.Thursday, February 10, 2022, “an 18-year-old student was arrested this Thursday by the Judiciary Police suspect of the crime of terrorism, as he had been planning to attack his colleagues at the Faculty of Science of the University of Lisbon for months” (Henriques et al., 2022, para. 1). A case without parallel in Portugal, in a media context characterised by immediate consumption and the growing importance of social networks and social media, such as Twitter, even in information dissemination. We start from the perception of Twitter as a relevant platform for contemporary journalism that connects information flows between parties (Bennett & Segerberg, 2012; Sadler, 2018). Some 3,577 tweets were extracted within 1 week since the occurrence from the five official Twitter accounts with the most followers of journalistic/information nature in Portugal. Of those, only 104 tweets focus on this particular case, with Correio da Manhã showing three times as many tweets as Expresso. This work uses a qualitative approach to perform a discourse analysis using word clouds, visually representing the frequency of terms. Determining the narratives, including macro and micro-narratives (Lits, 2015; Motta, 2013), serves as guidelines for identifying the macro-narrative of an attack on a faculty of the University of Lisbon. Although common in the general corpus, the terrorism narrative is not central since it is found in a non-uniform way among the five-word clouds, only identified in the word clouds of SIC Notícias, Jornal de Notícias and Correio da Manhã. The analysis seeks to help develop insights about the narratives employed to provide and construct meaning to the media coverage of this unmatched case in Portugal
A Guerra Colonial nas Narrativas Mediáticas: Como os Jornais de Portugal e Angola Recontaram uma Efeméride 60 Anos Depois
A 15 de março de 2021 completaram-se 60 anos da insurgência angolana que deu início à Guerra Colonial. A data reavivou a memória de um marco interseccional entre as histórias de Portugal e Angola e, por ter ganhado espaço nos média informativos mainstream, fez-se oportuna para que se analisassem as narrativas mediáticas que recontaram o conflito. O episódio, que se deu em 1961, foi motivado por uma série de fatores, dos quais se destaca a insatisfação dos povos nativos com o regime de exploração. Nesta investigação, inscrita no campo da narratologia pós-colonial, pretendeu-se compreender de que forma os jornais portugueses e angolanos reportaram esta efeméride. Para tal, recorreu-se a uma metodologia de natureza qualitativa — a análise crítica do discurso — e analisaram-se, de modo exploratório, textos jornalísticos sobre a efeméride em questão publicados nos diários Público e Jornal de Angola. O objetivo era compreender as diferenças ideológicas entre a abordagem de cada uma das produções mediáticas, assinalando encontros e desencontros, e identificar as estratégias discursivas que moldaram tais narrativas mediáticas contemporâneas acerca de conflitos coloniais. Entre as conclusões está a perceção de que o jornal angolano costurou a sua narrativa a partir de uma perspetiva interna do colonialismo, com uma abordagem dos acontecimentos a partir dos relatos de quem os viveu. Por seu turno, o órgão português pautou-se pelas relações já pós-coloniais que se desenhavam à medida em que avançava a globalização.March 15, 2021, marked the 60th anniversary of the Angolan insurgency that started the Colonial War. The date rekindled the memory of an intersectional milestone between the histories of Portugal and Angola, and, for having gained space in the mainstream news media, it was opportune to analyse the media narratives that recounted the conflict. The episode, in 1961, was motivated by a series of factors, with the native peoples’ dissatisfaction with the exploitation regime standing out. For this research, inscribed in the field of postcolonial narratology, it is important to understand how Portuguese and Angolan newspapers reported this event. To this end, a qualitative methodology — critical discourse analysis — was used, and journalistic texts about the event in question published in the newspapers Público and Jornal de Angola were analysed in an exploratory way. This paper aims to understand the ideological differences between the approach of each of the media productions, pointing out matches and mismatches, and identify the discursive strategies that shaped such contemporary media narratives about colonial conflicts. One of the conclusions is the perception that the Angolan newspaper sewed its narrative from an internal perspective of colonialism, addressing the events from the accounts of people who experienced them. Meanwhile, the Portuguese newspaper was guided by the already postcolonial relations emerging with the increasing globalisation
A Igreja Universal do Reino de Deus em Notícia: Melodrama e Registo Factual
O polémico estabelecimento da Igreja Universal do Reino de Deus em Portugal deu ensejo a uma cobertura jornalística durante a década de 1990, em que acusações de crimes graves — de charlatanismo a ligações com o narcotráfico e o rapto de crianças — preencheram as páginas dos jornais (G. M. Dias, 2006; R. A. S. Dias, 2016; Farias, 1999; Farias & Santos, 1999; Júnior, 2013; Machado, 2003). Também se observou no discurso jornalístico do período a associação da Igreja a estereótipos sobre o Brasil e os brasileiros e a referência às telenovelas brasileiras, então bastante populares no país. Com o objetivo de observar se estas características se mantiveram ao longo dos anos, analisámos peças publicadas pelos jornais de referência Público e Expresso no início do século XXI (2001 e 2002), em 2010 e em 2017. Inspirada pela análise crítica do discurso e a análise de enquadramentos, e com o suporte teórico da teoria das representações sociais, tal análise permitiu-nos concluir que se mantém as características identificadas nos anos 1990 na cobertura da Igreja, embora a sua presença mediática se tenha atenuado. Por sua vez, a referência às telenovelas revela-se na tessitura do discurso jornalístico, com uma hibridez entre os géneros melodrama e informativo.The controversial establishment of the Universal Church of the Kingdom of God in Portugal was the subject of many news reports during the 1990s, in which accusations of serious crimes — from charlatanism to connections to drug trafficking and child abduction — filled the pages of newspapers (G. M. Dias, 2006; R. A. S. Dias, 2016; Farias, 1999; Farias & Santos, 1999; Júnior, 2013; Machado, 2003). Many of these news reports linked the Church with stereotypes about Brazil and Brazilians and referenced Brazilian soap operas, which were quite popular in the country at the time. To observe whether these characteristics have been maintained over the years, the author analysed reports published by the influential newspapers Público and Expresso from the early 21st century (2001 and 2002), in 2010 and 2017, respectively. Inspired by critical discourse analysis and framing analysis, and with the theoretical support of the theory of social representations, such analyses allowed the author to conclude that the characteristics identified in the 1990s remained, although the Church’s media presence has since reduced. In turn, the reference to soap operas manifests in the fabric of journalistic discourse, with a hybridisation formed between the melodramatic and informational genres
Estão Representados Mediaticamente, Logo Existem: Protestos de Hong Kong em 2019 no Correio da Manhã e no Jornal de Notícias
Este artigo pretende entender como o Correio da Manhã (CM) e o Jornal de Notícias (JN) representam os protestos de Hong Kong entre 31 de março e 29 de novembro de 2019, conhecendo a agenda que envolve a sua representação e identificando os enquadramentos. Recorrendo à análise de conteúdo, os resultados sugerem uma perspetiva sobretudo neutra de ambos os jornais, denotando-se ligeira inclinação pró-governo do JN e pró-democracia do CM. Também há diferença na seleção de fontes: o JN incluiu fontes em quase 75% das suas notícias, preferindo fontes anti- protesto, ao passo que o CM convocou fontes em quase 60% das suas peças, com tendência para selecionar fontes pró-protesto. Contudo, nota-se, nos dois jornais, a descrição de um cenário violento quer dos manifestantes quer do governo. As causas dos protestos são quase inteiramente atribuídas ao governo ou a indivíduos de Hong Kong, sendo raras as atribuições a elementos externos. É também atribuída a Hong Kong e aos seus cidadãos a responsabilidade pela solução dos protestos. Encontra-se uma descrição tendencialmente negativa tanto do governo como, de forma menos acentuada, dos manifestantes. Apuram-se relações estatisticamente significativas entre jornal e fonte; jornal e menção das causas do protesto; fontes e descrição do comportamento dos manifestantes; descrição do comportamento dos manifestantes e menção das causas do protesto.This article seeks to understand how Correio da Manhã (CM) and Jornal de Notícias (JN) represent the Hong Kong protests between March 31 and November 29, 2019, by understanding the agenda surrounding their representation and identifying framings. Through content analysis, the results suggest a mainly neutral perspective of both newspapers, denoting a slight pro-government bias in JN and pro-democracy bias in CM. There is also a difference in the selection of sources: JN included sources in almost 75% of its news pieces, preferring anti-protest sources, whereas CM named sources in almost 60% of its pieces, with a tendency to select pro-protest sources. However, in both newspapers, there is a description of a violent scenario from both protesters and the government. The causes of the protests are almost entirely attributed to the government or individuals in Hong Kong, with rare attributions to external elements. Hong Kong and its citizens are also blamed for resolving the protests. There is a tendency towards a negative description of the government and, to a lesser extent, the protesters. Statistically significant associations are identified between newspaper and source; newspaper and mention of the protest causes; sources and description of protesters’ behaviour; description of protesters’ behaviour and mention of the protest causes