Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) Unicamp (Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP),: Sistema Eletrônico de Editoração): Revistas
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A INSISTÊNCIA DO VOCÁBULO ERRO EM CORPO DE BAILE, DE GUIMARÃES ROSA: UNIDADE E REVERSÃO
O presente trabalho visa destacar as passagens nas quais o léxico erro aparece em Corpo de Baile, de Guimarães Rosa, compreendendo o vocábulo enquanto escolha intuitiva do autor para construção e tratamento epistemológico dado às trajetórias seus herois. O trabalho apresenta uma leitura a contrapelo do erro trágico, defendendo que nesse ciclo a percepção de um engano e as questões éticas que dele decorrem, constituem o argumento rosiano de Corpo de Baile. A pesquisa procurou compreender de que forma essa escolha lexical responde à necessidade dos herois rosianos refutarem a si próprios, amparados pela emoção, e não exclusivamente pela razão. Se, por um lado, o método cartesiano de eliminação da dúvida e sua indelével conclusão - “Penso, logo existo” - coroa as faculdades cognitivas; por outro, pensadores contemporâneos alegam o desempenho das emoções em situações de impasse. Na medida em que desfaz o erro de Miguel através da presentificação de Diotima nas reflexões de Leandra, Guimarães Rosa, em “Buriti”, atualiza o diálogo platônico, O Banquete. Da hýbris trágica à noção filosófica de eudaimonia, Rosa aproveita as palavras de sacerdotisa Diotima para as reflexões de Leandra. Porém, mais do que desfazer na contemporaneidade um conflito outrora trágico, o autor ilustra no conjunto Corpo de Baile uma teoria da vontade humana mais harmônica com o imponderável
O dia em que o morro descer...: a literatura marginal como rampa de acesso - das periferias às universidades
Este trabalho tem origem em leituras sobre algumas concepções de interpretação que buscam entender as articulações entre autor, leitor e texto e as formas como nesses encontros se constroem realidades e ficções. Entre múltiplas possibilidades de interpretação de diferentes linguagens (contos, animações, pinturas, poemas, canções...), proponho-me a refletir sobre o lugar da Literatura Marginal, pensando-a como forma de resistência e de combate à exclusão social. Assim, escuto o samba O dia em que o morro descer… com a escrita de um conto que faz eco à canção, trazendo, além das vozes de autores que circulam nesse espaço, as personagens que vivem o cotidiano de uma comunidade periférica
DISCURSOS SOBRE CLIMA DO NORDESTE BRASILEIRO EM QUESTÃO DO VESTIBULAR DA UNICAMP: CONSENSOS E PRODUÇÃO DE SENTIDOS
A região Nordeste do Brasil ainda se constitui como região problema, seja pela falta ou escassez das chuvas ou pela veiculada dependência política, tecnológica, cultural, educacional e financeira dos grandes centros da região Sudeste. Esses são discursos postos e que circulam por ambientes escolares, científicos, institucionais governamentais, midiáticos, seja pela via digital ou impressa. Nesse sentido, o presente artigo tem por objetivo analisar a região Nordeste, sobretudo o seu clima, sob o ponto de vista da Análise do Discurso (AD) e tem como principais interlocutores Michel Pêcheux, Eni Orlandi, Sírio Possenti, Jean-Jacques Courtine, Freda Indursky, dentre outros. Propomos a seguinte pergunta para conduzir a análise: qual o funcionamento discursivo do tema clima do Nordeste em duas questões de geografia do vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)? Ou dito de outra forma: quais os efeitos de sentido produzidos por essa questão quando posta em relação a outras textualidades? Assim, foi possível identificar através da análise que há uma memória discursiva hegemônica sobre o clima do Nordeste brasileiro, bem como há sentidos estabilizados que se atualizam ao longo do tempo, tais como, seca, miséria, caatinga, terra rachada e cinza
TRADUTOR(A) IN MEMORIAM: USO DE MEMÓRIAS DE TRADUÇÃO
Este artigo visa fomentar a discussão sobre a Tradução Técnica e o uso das Memórias de Tradução nesse nicho de mercado, prática bastante difundida devido à facilidade da criação instantânea desses arquivos nas CAT Tools ainda durante o processo de tradução, podendo ser uma criação inclusive colaborativa, online, de aplicabilidade imediata. Uma Memória é uma espécie de banco de dados que armazena "segmentos" de texto, sendo hoje a base dos trabalhos técnicos feitos em grande escala e um dos principais controles sobre a produtividade do tradutor. Os aproveitamentos desses segmentos alteram o processo de criação durante a tradução e o controle da consistência, além de aumentar a padronização dos textos. Muitas vezes, a fragmentação verificada em textos técnicos traduzidos resulta de aproveitamentos de memórias de trabalhos anteriores, nos quais não há menção de autoria, explicitando uma invisibilidade do tradutor, que ainda é pouco discutida na área técnica, em especial quando os textos são traduzidos por intermédio de uma agência de traduções. Mediante as reflexões apresentadas, questionamos, por exemplo: quanto o controle dos aproveitamentos por porcentagem e das correspondências parciais de memória influencia no estilo próprio dos tradutores e nos ganhos referentes a cada trabalho? Ou ainda: colocar segmentos em porcentagem de equivalência é mais um fator de apagamento profissional? Enquanto vemos a tecnologia e a automatização do trabalho de tradução ganhando cada vez mais força, vemos também a necessidade de refletir o modus operandi do universo da tradução técnica no Brasil
IRMANDADE HISTÓRICA: O MITO EM "JOSÉ E SEUS IRMÃOS"
Analisa-se a tetralogia "José e seus irmãos" (2000) de Thomas Mann, baseada em Gn:27-50, investigando a presença do mito. O romance representa uma história de poder e reflete a condição da Alemanha de sua época: a transição da República de Weimar (1918-1933) para o nazismo. O objetivo principal será considerar a sua base mítica. Primeiramente, utiliza-se "Thomas Mann" (1994) de Anatol Rosenfeld e Otto Maria Carpeaux como fortuna crítica sobre o autor. LaCocque (2001) também é uma referência importante. Dos principais mitos que se pretende estudar, há José como Tammuz, deus egípcio despedaçado e depois ressuscitado; os irmãos como Lamech, personagem do Gênesis, descendente direto de Caim, o qual incorpora todo o mal; e outros mitos como Tikun Olan (conceito judaico); Thot (deus egípcio das letras), e Etura (termo egípcio para inferno). Além disso, será essencial o emprego do texto “Freud e o futuro”, do próprio Thomas Mann, no qual o autor conceitua o mito. Como bibliografia secundária, pesquisam-se: "A arte da narrativa bíblica" (2007), de Robert Alter; "Linguagem e mito" (2013), de Ernst Cassirer; "Thomas Mann e a tragédia da arte moderna" (1965), de György Lukács, entre outros. A tese consiste em verificar o mito em José e seus irmãos e como ele se insere no tempo em que foi concebido, isto é, durante um período entre guerras, o início do nazismo, a República de Weimar e a Grande Depressão americana