Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) Unicamp (Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP),: Sistema Eletrônico de Editoração): Revistas
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“Lua crescente em Amsterdã”: uma interpretação do amor decadente no conto de Lygia Fagundes Telles
O presente trabalho se propõe a apresentar uma análise do conto “Lua crescente em Amsterdã”, de Lygia Fagundes Telles, tendo como fundamentação teórica alguns conceitos de Hans-Georg Gadamer (1999) e Umberto Eco (2005). Do primeiro, os conceitos principais são os de pré-juízo e de jogo, que auxiliam no entendimento do processo de interpretação que se dá na leitura do conto e dos efeitos que ele causa no leitor. Já no caso de Umberto Eco, recorre-se às ideias de intenções (do autor, da obra e do leitor) e de superinterpretação, que foram relacionadas, neste artigo, à teoria de Gadamer na construção de uma interpretação do conto justificada com base no jogo entre obra-leitor. Assim, é possível, considerando os conceitos apresentados, fazer uma leitura de “Lua crescente em Amsterdã” fundamentada pela teoria da hermenêutica e que resulta na interpretação de um amor decadente
A representação do suicídio a partir do sofrimento feminino em “Lésbia”, de Maria Benedita Bormann e em “O caso de Ruth”, de Júlia Lopes de Almeida
Este artigo tem como objetivo aprofundar-se na temática do suicídio feminino em duas obras do século XIX escritas por mulheres: o romance Lésbia, de Maria Benedita Bormann, e o conto “O caso de Ruth”, de Júlia Lopes de Almeida. Argumenta-se que as autoras retratam o suicídio em suas obras para exprimir o sofrimento inescapável das mulheres no sistema patriarcal. Dessa forma, elas tensionam e evidenciam as hipocrisias da representação da mulher, dos discursos machistas e da ideologia patriarcal. Como estratégia, Almeida e Bormann se aproveitam de suas posições financeiras e contatos para adquirir possibilidades de publicação e, em seus textos, utilizam ironias, ambiguidades para evidenciar o corpo feminino através de um ritmo e um tom característicos da escrita feminina
Duas possibilidades de tradução para o conto "Everything is Green", de David Foster Wallace
O presente trabalho tem como objetivos propor, analisar e comparar duas diferentes possibilidades de tradução para o conto Everything is Green, de David Foster Wallace, a partir da perspectiva de que é possível estabelecer diferentes traduções para diferentes épocas e leitores. Optamos por duas abordagens distintas de tradução, uma literal e outra domesticada, utilizando como embasamento teórico os pressupostos contidos em Arrojo (1986), Amorim (2005), Carvalhal (1983) e Berman (2002). Apresentamos os impasses iniciais das duas traduções e, em seguida, analisamos os aspectos que geraram interpretações distintas em cada uma, bem como a influência das abordagens adotadas nessas diferenças. Por fim, concluímos que nenhuma abordagem completamente literal se fez possível e que a abordagem domesticada envolveu adaptações culturais e linguísticas
Análise linguística da fala de uma criança de 28 meses
O presente artigo tem como objetivo analisar os dados coletados em uma transcrição ortográfica no formato CHAT de um áudio com a interação entre uma pesquisadora e uma criança de 2 anos, 4 meses e 13 dias, da cidade de Campinas, no interior de São Paulo. A partir dos dados, de natureza espontânea, foram observados os aspectos fonológicos, lexicais e morfossintáticos da fala da criança, além de identificados alguns desvios e inovações. Assim, os resultados demonstram que há alguns fonemas produzidos em menos de 80% dos contextos esperados, e que os processos fonológicos ou estão conforme o realizado pela maioria das crianças de mesma idade ou dentro da faixa em que ainda ocorrem; que a criança possui um vocabulário de 121 palavras, na amostra, com diversidade de classes gramaticais, sendo verbos e substantivos mais frequentes; que o tamanho médio dos enunciados em palavras (MLUw) foi de 2,48, conforme esperado para sua idade; e que a criança pode apresentar alguma confusão em relação a preposições, conjunções e artigos
Prosódia sintética: avaliando a efetividade da clonagem de voz na recontagem de histórias
Este estudo investigou a capacidade de um modelo de síntese de fala em reproduzir o estilo prosódico da recontagem espontânea de histórias. Usaram-se áudios de leitura e recontagem de dois falantes (sexo masculino e feminino) para treinar modelos de clonagem de voz na plataforma ElevenLabs. Participantes ouviram trechos de 10 segundos naturais e sintéticos, e classificaram-nos como leitura ou recontagem. As vozes sintéticas foram mais atribuídas à leitura. Trechos de recontagem do modelo treinado com a voz masculina foram corretamente identificados 75% das vezes, enquanto a da voz feminina, 40%. A voz clonada masculina mostrou-se mais fiel ao idioleto e estilo do falante original, enquanto a feminina apresentou falhas. A análise acústica sugere que a composição do corpus de treinamento é crucial para a qualidade do modelo. Este estudo fornece uma análise preliminar sobre percepção e produção prosódica sintética e levanta questões para investigações futuras
A morte ou a desonra: o destino de Clarissa Rodde em Doutor Fausto e a intersecção entre mulheres, arte e loucura
Este artigo tem por objetivo analisar a personagem Clarissa Rodde, do romance Doutor Fausto, de Thomas Mann, e seu fim suicida. Para isso, será feito um breve resgate da trajetória das mulheres nas artes, de modo a interseccioná-la à loucura feminina e à condição patologizante ao qual o sexo feminino foi historicamente condenado
“Happiness”: a sociedade capitalista e o paradigma da felicidade expresso no consumismo
O presente artigo tem por fim uma análise hermenêutica do curta-metragem “Happiness” (2017) do animador inglês Steve Cutts. A partir de elementos das teorias de Hans-Georg Gadamer, Friedrich Nietzsche e Jacques Derrida discute-se possíveis sentidos para a narrativa apresentada por Cutts, entrelaçando-os com discussões pertinentes ao campo dos estudos culturais e com reflexões particulares desencadeadas pelo contato com a obra
“Presente de Aniversário”, de Sylvia Plath e “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector: uma interpretação à luz da hermenêutica
Este trabalho analisa o poema "Presente de Aniversário", de Sylvia Plath (1965), e o conto "Feliz Aniversário", de Clarice Lispector (1960), explorando a representação da morte e da existência à luz de alguns conceitos de Friedrich Schleiermacher (1999) e Martin Heidegger (2005). Ambas as autoras abordam temas existenciais e cotidianos, com protagonistas femininas em crise, e utilizam uma escrita subjetiva que reflete suas experiências pessoais. Plath relaciona a morte a um desejo profundo, enquanto Lispector retrata a iminência da morte em um aniversário, expondo a hipocrisia das relações familiares. A análise hermenêutica de Schleiermacher e a noção de Dasein (ser-aí) de Heidegger permitem interpretar as obras considerando seus contextos, escolhas linguísticas e a consciência da finitude. Os textos subvertem significados tradicionais, e destacam a complexidade da existência humana e a busca por sentido diante da morte
Narrativas em conflito: hermenêutica, questionamento da verdade e barreiras linguísticas em “Anatomia de Uma Queda”
Este artigo propõe-se a analisar o filme “Anatomia de Uma Queda” (2023) à luz das teorias hermenêuticas de Paul Ricoeur (1975; 2011) e Friedrich Nietzsche (1983; 2008). O estudo busca explorar como o filme discute duas questões centrais: a concepção de verdade e as variações de interpretações existentes de um mesmo fato; e a língua e a tradução como determinantes para a construção subjetiva e identitária do indivíduo. Nietzsche oferece uma teoria particularmente produtiva para analisar a questão da verdade no filme ao afirmar a inexistência de verdades absolutas, uma vez que são construídas e atravessadas por convenções sociais e pela subjetividade. Já a contribuição ricoeuriana neste trabalho centra-se nos aspectos da hermenêutica da suspeita e do paradigma da tradução, considerando-se as noções de texto e como as dinâmicas linguísticas estabelecidas entre diferentes idiomas são cruciais no julgamento da protagonista
Paula Brito e o “não lugar” negro na literatura
A partir da análise dos três contos de Francisco de Paula Brito (1809-1861) publicados no Jornal do Commercio em 1839, a saber, “A revelação póstuma”, “O enjeitado” e “A mãe-irmã - história contemporânea”, este artigo busca compreender as relações raciais, transpostas para a ficção, presentes na sociedade brasileira do século XIX. Além disso, busca-se também analisar o papel que as ideologias da época, os mecanismos de controle social e os personagens negros desempenham nessas narrativas. Para o desenvolvimento da pesquisa, além de nos determos sobre questões acerca da literatura e sociedade brasileiras da época, voltaremos nosso olhar para a trajetória do autor, vindo de um “não-lugar” negro, e para estudos que o caracterizam como precursor da narrativa no Brasil