Universidade Catolica de Pernambuco: Portal de Periódicos da UNICAP
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O cristianismo como estilo e igreja em saída: convergências entre a teologia de Christoph Theobald e a perspectiva eclesial do Papa Francisco
Os autores levantam a hipótese de uma convergência entre a teologia de Christoph Theobald e a igreja em saída do Papa Francisco. O artigo parte do itinerário do teólogo europeu para identificar os traços biográficos de uma nova maneira de fazer teologia caracterizada como uma teologia “em saída”. Na sequência, a reflexão abre três dossiês com base, fundamentalmente, em três obras para destacar as evoluções do pensamento theobaldeano. Primeiro mostra-se como o autor encara os desafios do crer e da transmissão da fé na pós-modernidade. Segundo: trata-se a questão doutrinal do autor, objeto da principal crítica feita à sua teologia. Enfim, apresenta-se uma reflexão na qual Theobald, apoiando-se em algumas expressões-chaves do Papa Francisco, postula a necessária e urgente transformação missionária da Igreja
Eclesiologia contemporânea: a Igreja em transformação
Sem dúvida estamos vivendo uma profunda mudança de época, embora sentida diversamente pelas várias gerações. A Igreja, enquanto instituição inserida na sociedade e voltada para a missão evangelizadora nesta sociedade, não pôde deixar de ser atingida e questionada por esta ampla transformação sociocultural. Vivemos um momento crítico de uma evolução que determinou o fim da época de cristandade na qual a fé cristã determinava fortemente a cosmovisão, os valores e as condutas de nossos antepassados. A atual sociedade pluralista recusa esta hegemonia cristã, seculariza setores da sociedade e enfraquece a pastoral tradicional da Igreja
Formação Humana e Espiritualidade em Dostoiévski: Uma Leitura Levinasiana
O artigo tem por objetivo problematizar e evidenciar que o amadurecimento espiritual é um aspecto constitutivo dos processos educativos da formação humana e a literatura é um recurso eficaz para pensar a dinâmica desses processos existenciais no âmbito da educação. Dessa forma, desenvolve-se uma análise do uni-verso romanesco de Dostoiévski, especificamente das personagens Sônia e Raskolnikov do romance Crime e castigo, em seus percur-sos existenciais a partir do con-ceito de Rosto de Emmanuel Lévinas. Conclui que as persona-gens do romance dostoieviskiano oferecem substantiva contribuição para pensar processos educativos que visem a Formação Humana que contemplem a dimensão espi-ritual dos indivíduos em sentido antropológico
Filosofia da Religião e Niilismo
Não poderia deixar de ser observado pela filosofia que o panorama atual da modernidade tardia acrescenta um componente disjuntivo, se considerado à luz do veredicto nietzschiano sobre a morte de Deus. A novidade que se faz presença é o revival religioso. Assim, caso se pretenda compreender tal componente, a Filosofia da Religião teria que sair de um certo ostracismo, decerta feita até cômodo, e ver que a religião vem ocupando o espaço pú-blico e os meios de comunicação, a ponto de se tornar causa eficiente que influencia a pauta corrente de ques-tões político-governamentais, o que tem sido comum no cenário recente no país. A impressão que se passa é que a religião recobrou sua relevância na vida da sociedade a ponto de su-plantar o niilismo, tema em voga até a segunda metade do século passado. Se isso é verdade, o que se pretende, num recorte histórico-hermenêutico, é lançar algu-mas indagações seminais para verificar até que ponto o niilismo foi desban-cado pela religião e, assim, teve que migrar, enquanto temática, do centro para a periferia do debate, porque perdeu relevância enquanto ameaça ao sentido da existência humana, uma vez que a religião venceu a batalha da crise de sentido
Quem vigia os vigilantes? Presos políticos e carcereiros num presídio da ditadura civil-militar
Este artigo trata das relações entre carcereiros e presos políticos mantidos pela ditadura civil-militar no presídio cearense Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), na década de 1970. Tem como pressuposto teórico a noção de Michel de Certeau sobre fronteira, entendendo-a como um terceiro espaço que permite a existência de contatos, pontes e influências entre grupos sociais distintos. Buscamos compreender como as relações com os agentes prisionais contribuíram para as reconstruções de identidades e projetos políticos dos militantes de esquerda armada. Os distanciamentos sociais e os estereótipos pelos quais se viam presos e militantes foram, aos poucos e em partes, sendo removidos ante a convivência intensa na fronteira. Os carcereiros acabaram percebendo as distinções dos militantes encarcerados em relação aos presos comuns. Os ativistas buscaram o contato e diálogo com os carcereiros como forma de tentar minimizar o isolamento que a ditadura almejava lhes impor e melhor as condições de existência dentro dos cárceres. Agentes prisionais prestavam pequenos favores aos militantes, chegando mesmo a serem influenciados politicamente por estes. As violações de fronteiras, não obstante, igualmente provocaram tensões e atritos
A trajetória histórica dos espaços de cultivo urbano na Alemanha: Interações e embates entre a urbanização e a natureza (do séc. XIX ao XX)
A trajetória dos espaços de cultivo urbano faz parte da história da Alemanha. No cenário europeu, o movimento de hortas urbanas teve seu ímpeto no século XIX, quando os trabalhadores rurais se aglomeraram nas cidades industriais, e sua existência foi, durante muito tempo, um repositório de ideias sobre reforma social, melhoria higiênica e mobilidade de classe. Os locais que passaram a ser ocupados por associações e por moradores urbanos que viviam em situação precária de moradias ficaram conhecidos como Kleingärten (pequenas hortas) e surgem como resposta à urbanização e ao afastamento do contato com a natureza e aparecem em escritos e discursos sanitaristas e de naturopatia presentes naquele contexto. Tais práticas de agricultura passam a fazer parte do cotidiano em diversas cidades alemãs, especialmente no século XX, adquirindo outras variações e nomenclaturas. Assim, os Kleingärten nos auxiliam na compreensão das transformações operadas no espaço urbano alemão, onde a continuidade de práticas de agricultura é fator socioambiental que adquire distintos significados ao longo do tempo. Logo, perceber como as interações entre a natureza e a urbanização se operam em contextos como a industrialização e os conflitos bélicos, chegando até os dias atuais – quando se acirram os debates sobre ecologia, preservação ambiental e sustentabilidade – permite-nos olhar as cidades sob o viés ambiental, assim como chamar a atenção para o lugar da natureza nas cidades, sendo esse um tema de intenso debate e pesquisa em história ambiental e urbana
Nomes Ficcionais e Nomes Vazios: Crítica à Teoria da Referência sem Referentes de Mark Sainsbury
Mark Sainsbury apresentou através da sua teoria da Referência sem Referentes (RSR) um caminho intermediário entre a teoria da referência direta de Stuart Mill e o descritivismo de Frege. A maior virtude da RSR é que ela permite que expressões que contêm nomes vazios (como ‘Vulcano é um planeta que orbita entre o sol e Mercúrio’) sejam ao mesmo tempo inteligíveis e passíveis de ser valoradas como verdadeiras ou falsas. Por outro lado, a partir da distinção que François Recanati (2018) estabelece entre declarações ficcio-nais, metaficcionais e paraficcionais, o objetivo neste artigo é o de argumen-tar que a RSR gera valores de verdade indesejados para as declarações que contêm nomes ficcionais. Como proposta para lidar com o problema, lançamos as linhas gerais da teoria artefactual de Amie Thomasson (1999) e da teoria dos dois modos de predicação de Peter van Inwagen (1977/1983) e Edward Zalta (1983) de modo que os nomes ficcionais são genuínos e referentes a artefatos abstratos
Ambiguidade Pragmática e o diálogo de Kripke contra Donnellan
In this paper I discuss Donnellan’s claim of the pragmatic ambiguity of the distinction between referential and attributive uses of definite des-criptions. The literature on the topic is huge and full of alternative analysis. I will restrict myself to a very classical topos: the challenge posed by Kripke to Donnellan’s distinction with the case of a dialogue on an attempt to update a misdescription. I claim that to treat the problem of the referential use of definite descriptions we need not only to take into account the context of utterance, but also the cognitive context with its epistemic restrictions and the possible different contexts of reception of the same utterance. I try to show different aspects of what can be called “pragmatic ambiguity”, which seem not correctly considered by Kripke, and connect them to the basic tenets of Grice Cooperative principle. Neste artigo, discutimos a alegação de Donnellan da ambiguidade pragmática da distinção entre usos referenciais e atributivos de descrições definidas. A literatura sobre o tema é enorme e cheia de análises alternativas. Restringir-nos-emos a um topos muito clássico: o desafio proposto por Kripke à distinção de Donnellan com o caso de um diálogo sobre uma tentativa de atualizar uma descrição errada. Afir-mamos que, para tratar o pro-blema do uso referencial das descrições definidas, precisamos não apenas levar em conta o contexto do enunciado, mas também o contexto cognitivo com suas restrições epistê-micas e os possíveis diferentes contextos de recepção do mesmo enunciado. Tentaremos mostrar dife-rentes aspectos do que pode ser cha-mado de “ambiguidade prag-mática”, que parecem não ser corre-tamente considerados por Kripke, e conectá-los aos princípios básicos do princípio Cooperativo de Grice
Uma base de dados para membros de carreiras técnicas: estudo sobre os promotores públicos do Rio Grande do Sul (1930-1964)
O presente artigo visa a apresentar o uso de recursos informatizados na produção de uma pesquisa histórica relacionada à formação do Ministério Público do Rio Grande do Sul e os perfis de seus agentes públicos entre os anos de 1930 e 1964. Nosso objetivo é discutir o processo de organização de uma base de dados aplicada para o problema de pesquisa, envolvendo o levantamento de fontes e definição de registros assim como os recursos aplicados na análise de dados. Por fim, serão apresentadas algumas análises a partir dos resultados extraídos da base de dados, de modo a demonstrar as contradições entre o modelo de promotor público defen- dido pela instituição e os indivíduos que nela atuavam