Revista de Ciências da Educação (Centro Universitário Salesiano de São Paulo)
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Paulo Freire: etnoconhecimento, interculturalidade e emancipação na teoria e na prática educativas
O artigo visa mostrar que o pensamento freiriano é pioneiro na adoção da perspectiva decolonizante e intercultural na abordagem filosófica da educação, constituindo-se em uma prática de etnoconhecimento e de intercultualidade. Como tal, posiciona-se como precursor do movimento de decolonização do pensamento latino-americano, em uma nova perspectiva epistemológica, que busca dar voz aos povos colonizados oprimidos, convergindo particularmente para a filosofia da libertação, conceituada por Enrique Dussel. Paulo Freire pensa na educação como prática e diálogo interculturais, compromissando-se com a proposta de libertação, entendida como emancipação humana
O progresso tecnocientífico e o desafio de construir uma educação para o futuro: dialogando com Teilhard de Chardin, Van Rensselaer Potter e Edgar Morin
Vive-se em tempos difíceis, complexos e críticos. Mais do que uma época de mudanças profundas, presencia-se uma mudança de época em que os valores culturais, sociais, políticos, religiosos e técnicos trazidos pela tradição parecem se liquidificar. Tal constatação desafia todos a construir de um novo mundo, uma sociedade mais justa e solidária, educando hoje as gerações futuras. Partindo dessas considerações, o presente artigo, de cunho teórico e bibliográfico, consiste em um exercício de aproximação e diálogo entre as obras de três pensadores que reivindicam, a partir de diferentes referências conceituais, um compromisso ético para a ciência e a educação, com base em valores que respeitam o ser humano em sua dignidade, os seres vivos no seu habitat e a terra na sua beleza. O texto inicia com uma introdução ao pensamento de Teilhard de Chardin e a chamada “revolução da consciência”. A seguir, discutem-se Van Rensselaer Potter e a sua bioética como “ponte para o futuro” e a perspectiva da “bioética global”; então se avança com Edgar Morin, com o seu “pensamento complexo” e a busca de uma “ciência com consciência”. Finaliza-se apresentando suas contribuições para a educação do futuro em uma perspectiva esperançosa que busca reconciliar ciência, ética e vida
Políticas públicas para as juventudes no Brasil e vulnerabilidade juvenil à violência
O presente artigo visa refletir sobre o tema das políticas públicas e relacioná-las com as problemáticas presentes na realidade brasileira referentes ao tema das juventudes, de modo particular da vulnerabilidade juvenil. Elegeu-se o tema da vulnerabildiade juvenil como um dos problemas públicos ao qual é preciso dar respostas urgentes, principalmente em relação às formas de violências que levam à morte as juventudes, além da evasão escolar, qualificação profissional, questões raciais, dificuldades para inserir-se no mundo do trabalho, desemprego, garantia dos direitos juvenis, entre outros. A condição da vulnerabilidade juvenil tem sido um problema muito presente na sociedade brasileira, por isso requer muita atenção e políticas de intervenção e prevenção para salvaguardar a vida e promover as juventudes
As narrativas de professores e profissionais da educação: histórias únicas de sujeitos únicos contadas para sujeitos únicos
No presente texto, partindo do paradigma da teoria histórico-cultural de que os sujeitos se formam e se constituem na cultura, bem como dos estudos bakhtinianos, apresentamos uma discussão a respeito das narrativas pedagógicas, com apoio na importância da palavra enunciada pelos sujeitos profissionais da escola. Não uma palavra qualquer, mas uma palavra reconhecida por seu valor ideo lógico e social. Inicialmente, propomos que as narrativas verbais, escritas por profissionais que atuam na escola, em diferentes áreas e contextos, são potentes como uma maneira de pensar a respeito do cotidiano profissional. Defendemos que o processo narrativo escrito pode ajudar a produzir uma paradoxal aproximação e distanciamento do vivido, vislumbrando alternativas de resistência e de construção de conhecimentos a partir da prática profissional. Depois, discutimos sobre a importância de uma metodologia narrativa para a pesquisa em educação e a formação dos profissionais da escola. Por fim, trazemos a narrativa de um professor de história e uma breve interpretação para dar a ver a contribuição que um processo formativo apoiado nas narrativas pode oferecer à formação dos educadores. Finalizamos com algumas reflexões sobre a importância das narrativas pedagógicas nos processos formativos
Paulo Freire e a retomada orgânica da luta social e política para conquistar o direito à educação na perspectiva da legitimação jurídica e pedagógica da educação como direito
Este artigo tem como finalidade apresentar os pressupostos da educação como direito social e subjetivo a partir de uma das linhas de pensamento pedagógico que sustentam o pensamento do educador Paulo Freire. Procura demonstrar as articulações entre a pedagogia freireana e os movimentos sociais, sua base no movimento popular e o fato de se constituir em uma das fontes de inspiração para resistências e defesas da educação como direito social e subjetivo
A atuação da Comissão Brasileiro-Americana de Educação Industrial na formação de trabalhadores no Brasil (1946-1962)
Sob o ponto de vista do materialismo histórico e dialético, o presente artigo busca analisar o protagonismo da Comissão Brasileiro-Americana de Educação Industrial (CBAI) entre 1946 e 1962, em suas ações de promoção da hegemonia burguesa. Tomando como fonte histórica o Boletim da CBAI, observa-se a ampliação do Estado na interpenetração entre público e privado. A burguesia brasileira movimentou seus intelectuais orgânicos e os empenhou na solidificação do liberalismo, de modo que a inculcação do american way of life fosse guiada pelo americanismo e o fordismo, como na análise de Gramsci. O escolanovismo na educação técnica industrial foi a estratégia que os donos do poder usaram para operar a manutenção da ordem liberal burguesa. O princípio da unificação diferenciadora foi divulgado nessas escolas para entranhar tais pressupostos na mentalidade dos trabalhadores, a fim de manter a sociedade organizada em classes antagônicas
A influência dos Estados Unidos na educação paulista: ensino secundário e superior agrícola (ESALQ/USP) - Piracicaba (1881-1985)
O objetivo deste artigo é analisar as relações entre uma das principais escolas de agricultura da América Latina, a ESALQ/USP, e professores dos Estados Unidos, os quais, desde os primeiros momentos de fundação da escola, estão presentes direta ou indiretamente no interior da centenária instituição piracicabana. Por limitações estruturais brasileiras e sua dependência histórica diante dos países do norte, foi constatado que as intervenções estadunidenses na educação agrícola foram uma estratégia imperialista de ideologização cultural dos brasileiros, solicitada pela classe dirigente brasileira, acentuada na década de 1960, período de efervescência da Guerra Fria e da ditadura civil-militar, quando foram assinados diversos convênios com o governo norte-americano via USAID. O aporte teórico e a metodologia utilizada fundamentam-se no materialismo histórico dialético e na pesquisa com fontes primárias encontradas na ESALQ/USP, no IHGP, no Arquivo do Estado de São Paulo e também em pesquisa bibliográfica
Contribuições do Sistema Preventivo de Dom Bosco para a Educação Social
Considerando que a construção de um bom clima escolar é funcional para a educação e a aprendizagem, o artigo apresenta brevemente uma releitura do Sistema Preventivo de Dom Bosco à luz dos princípios metodológicos da Pedagogia Social. Parte-se de quatro dimensões muito utilizadas na Pedagogia de Dom Bosco para os jovens do século XIX e que se encontram particularmente presentes na prática da Educação Social dos tempos de hoje. A dimensão racional e científica é orientada à aquisição de conhecimentos, habilidades e competências para a vida; ao equilíbrio entre esses conhecimentos e a educação aos valores; e à socialização com as normas de boa convivência social. A dimensão existencial é voltada à ativação das relações humanas e à proposta de um projeto de vida. A dimensão afetiva e relacional é aquela na qual se ativa a acolhida e o cuidado com o outro, assim como a sociabilidade humana, o desenvolvimento da vida afetiva, dos vínculos familiares, o estímulo ao conhecimento. E, por último, a dimensão profissional e tecnológica é a que prioriza a ação educativa sobre a produtiva; a participação e responsabilidade social; o estímulo ao investimento na vida escolar, à perspectiva de desenvolvimento profissional com vistas à produção de renda e à mobilidade social
Ciência e política: reflexões críticas sobre a pesquisa como ato político
Este ensaio parte de questões metodológicas e de experiência pessoal para chegar às questões políticas. Considera os dados de qualquer pesquisa como construídos pelo pesquisador, além de lembrar suas intenções e sua responsabilidade enquanto cientista que deve ter em mente o que será feito com seus resultados (pelo poder), diante da transformação de ciência em tecnologia, já que essa é a principal característica do capitalismo desde a Revolução Industrial – o que leva à dominação ideológica via mercadoria. São discutidas as consequências desse processo e sugeridas propostas no sentido de desvendar a ideologia e chegar à contraideologia, praticando a pesquisa como ato político
Pela urgência de voltar a “andar espantado de existir”: a escola como lugar da cidadania ativa
Inspirada pela possibilidade de começar na escola a conscientização das novas gerações, foi planejada uma intervenção para um estudo-piloto, no ano letivo 2018/19, em uma escola secundária (com 3º ciclo) da cidade de Coimbra, envolvendo cerca de 900 estudantes (de 1.017 inscritos) a propósito da eleição para a Direção da Associação de Estudantes (DAE). Os estudantes foram divididos em dois grandes grupos para reunião de apresentação do projeto de mudança e de reflexão (primeiramente, o 3º ciclo, estudantes mais novos; em seguida, o secundário, estudantes mais velhos e mais ligados aos processos de candidatura e esquemas de campanha). Da estranheza e rejeição iniciais, os estudantes perceberam as implicações da tarefa de candidatura como procedimento de apresentação de um pensamento para o coletivo e assumiram a alteração de comportamentos. No novo ano letivo, espera-se que a apresentação de listas candidatas decorra dentro do padrão de respeito pelos princípios de cidadania e de efetiva apresentação de ideias e de estratégias de contato e comunicação com os colegas de escola, potenciais eleitores. A importância do diálogo, do debate de ideias, do pensamento de cidadania construído a partir dos quadros de referência dos sujeitos é a grande conclusão deste projeto